Memorias Posthumas de Braz Cubas
Part 7
--Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?
--Não fale nisso! Uma casa velha.
--Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.
--Parece-lhe nova, aposto?
--Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...
--O boleeiro não, acudi eu; fico com a sege e não hei de ir comprar outro.
--Bem; fico com o Paulo e o Prudencio.
--O Prudencio está livre.
--Livre?
--Ha dois annos.
--Livre? Como seu pae arranjava estas cousas cá por casa, sem dar parte a ninguem! Está direito. Quanto á prata... creio que não libertou a prata?
Tinhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. José I, a porção mais grave da herança, já pelo lavor, já pela vetustez, já pela origem da propriedade; dizia meu pae que o conde da Cunha, quando vice-rei do Brazil, a dera de presente a meu bisavô Luiz Cubas.
--Quanto á prata, continuou o Cotrim, eu não faria questão nenhuma, se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ella; e acho-lhe razão. Sabina é casada, e precisa de uma copa digna, apresentavel. Você é solteiro, não recebe, não...
--Mas posso casar.
--Para que? interrompeu Sabina.
Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.
--Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.
--Nem cede?
Abanei a cabeça.
--Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.
--Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro officio!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,--e depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.
--Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.
Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda presenciou uma pequena altercação.
--Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.
Mas o Cotrim:
--Creio, creio. A questão, porem, não é de pão, é de manteiga. Pão secco é que eu não engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas nós estavamos brigados. E digo-lhes que, ainda assim, custou-me muito a brigar com Sabina. Eramos tão amigos! Jogos pueris, furias de criança, risos e tristezas da edade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miseria, irmãmente, como bons irmãos que eramos. Mas estavamos brigados. Tal qual a belleza de Marcella, que se esvaiu com as bexigas.
CAPITULO XLVII
O recluso
Marcella, Sabina, Virgilia... ahi estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha affeição interior. Penna de máus costumes, ata uma gravata ao teu estylo, veste-lhe um collete menos sordido; e depois sim, depois vem commigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte dos annos que decorreram desde o inventario de meu pae até 1842. Vem; se te cheirar a algum aroma de toucador, não cuides que o mandei derramar para meu regalo; é um vestígio da N. ou da Z. ou da U.--que todas essas lettras maiusculas embalaram ahi a sua elegante abjecção. Mas, se além do aroma, quizeres outra cousa, fica-te com o desejo, porque eu não guardei retratos, nem cartas, nem memorias; a mesma commoção esvaiu-se, e só me ficaram as lettras iniciaes.
Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou theatro, ou palestra, mas a mór parte do tempo passei-a commigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos successos e dos dias, ora boliçoso, ora apathico, entre a ambição e o desanimo. Escrevia politica e fazia litteratura. Mandava artigos e versos para as folhas publicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgilia, futura marqueza, perguntava a mim mesmo porque não seria melhor deputado e melhor marquez do que o Lobo Neves,--eu, que valia mais, muito mais do que elle,--e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPITULO XLVIII
Um primo de Virgilia
--Sabe quem chegou hontem de S. Paulo? perguntou-me uma noite o Luiz Dutra.
O Luiz Dutra era um primo de Virgilia, que tambem privava com as musas. Os versos delle agradavam e valiam mais do que os meus; mas elle tinha necessidade da sancção de alguns, que lhe confirmasse o applauso dos outros. Como fosse acanhado, não interrogava a ninguem; mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremettia juvenilmente ao trabalho.
Pobre Luiz Dutra! Apenas publicava alguma cousa corria á minha casa, e entrava a girar em volta de mim, á espreita de um juizo, de uma palavra, de um gesto, que lhe approvasse a recente producção, e eu falava-lhe de mil cousas differentes,--do ultimo baile do Cattete, da discussão das camaras, de berlindas e cavallos,--de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Elle respondia-me, a principio com animação, depois mais frouxo, torcia a redea da conversa para o seu assumpto delle, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a redea para o outro lado, e lá ia elle atraz de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazel-o duvidar de si mesmo, desanimal-o, eliminal-o. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPITULO XLIX
A ponta do nariz
Nariz, consciencia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do doutor Pangloss é que o nariz foi creado para uso dos oculos,--e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veiu um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de philosophia, atinei com a unica, verdadeira e definitiva explicação.
Com effeito, bastou-me attentar no costume do fakir. Sabe o leitor que o fakir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim unico de ver a luz celeste. Quando elle finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das cousas externas, embelleza-se no invisivel, apprehende o impalpavel, desvincula-se da terra, dissolve-se, etherisa-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o phenomeno mais excelso do espirito; e a faculdade de a obter não pertence ao fakir sómente; é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu proprio nariz, para o fim de ver a luz celeste; e tal contemplação, cujo effeito é a subordinação do universo a um nariz sómente, constitue o equilibrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o genero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouço daqui uma objecção do leitor:--Como pode ser assim, diz elle, se nunca jamais ninguem não viu estarem os homens a contemplar o seu proprio nariz?
Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cerebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapeus; é a loja de um rival, que a abriu ha dois annos; tinha então duas portas, hoje tem quatro; promette ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapeus do rival; pelas portas entram os freguezes do rival; e o chapeleiro compara aquella loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, e aquelles chapeus com os seus, menos buscados, ainda que de egual preço. Mortifica-se naturalmente; mas vae andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu proprio atrazo, quando elle chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.
A conclusão, portanto, é que ha duas forças capitaes: o amor, que multiplica a especie, e o nariz, que a subordina ao individuo. Procreação, equilibrio.
CAPITULO L
Virgilia casada
--Quem chegou de S. Paulo foi minha prima Virgilia, casada com o Lobo Neves, continuou o Luiz Dutra.
--Ah!
--E só hoje é que eu soube uma cousa, seu maganão...
--Que foi?
--Que você quiz casar com ella.
--Idéas de meu pae. Quem lhe disse isso?
--Ella mesma. Falei-lhe muito em você, e ella então contou-me tudo.
No dia seguinte, estando na rua do Ouvidor, á porta da typographia do Plancher, vi assomar, a distancia, uma mulher esplendida. Era ella; só a reconheci a poucos passos, tão outra estava, a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o ultimo apuro. Cortejámo-nos; ella seguiu; entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; eu fiquei attonito.
Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegámos a trocar duas ou tres palavras. Mas n'outro baile, dado dahi a um mez, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversámos e valsámos. A valsa é uma deliciosa cousa. Valsámos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquelle corpo flexivel e magnifico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.
--Está muito calor, disse ella, logo que acabámos. Vamos ao terraço?
--Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala.
Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos comprimentos, ácerca dos meus escriptos politicos, accrescentando que nada dizia dos litterarios, por não entender delles; mas os politicos eram excellentes, bem pensados e bem escriptos. Respondi-lhe com eguaes esmeros de cortezia, e separámos-nos contentes um do outro.
Cerca de tres semanas depois recebi um convite delle para uma reunião intima. Fui; Virgilia recebeu-me com esta graciosa palavra:--O senhor hoje ha de valsar commigo.--Na verdade, eu tinha fama e era valsista emerito; não admira que ella me preferisse. Valsámos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ella deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçal-a, e todos com os olhos em nós, e nos outros que tambem se abraçavam e giravam...Um delirio.
CAPITULO LI
É minha!
--É minha! disse eu commigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-se-me a idéa entranhando no espirito, não á força de martello, mas de verruma, que é mais insinuativa.
--É minha! dizia eu ao chegar á porta de casa.
Mas ahi, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessorios, luziu-me no chão uma cousa redonda e amarella. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia-dobra.
--É minha! repeti eu a rir-me; e metti-a no bolso.
Nessa noite não pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns repellões da consciencia, e uma voz que me perguntava porque diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas sómente achara na rua. Evidentemente não era minha; era de outro, daquelle que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operario que não teria com que dar de comer á mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o unico meio, era fazel-o por intermedio de um annuncio ou da policia. Enviei uma carta ao chefe de policia, remettendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolvel-o ás mãos do verdadeiro dono.
Mandei a carta e almocei tranquillo, posso até dizer que jubiloso. Minha consciencia valsára tanto na vespera, que chegou a ficar suffocada, sem respiração; mas a restituição da meia dobra foi uma janella que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e a pobre dama respirou á larga. Ventilae as consciências! não vos digo mais nada. Todavia, despido de quaesquer outras circumstancias, o meu acto era bonito, porque exprimia um justo escrupulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com um modo austero e meigo a um tempo; é o que ella me dizia, reclinada ao peitoril da janella aberta.
--Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar não é só puro, é balsamico, e uma transpiração dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-m'o deante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia dobra da vespera, redonda, brilhante, nitida, multiplicando-se por si mesma,--ser dez--depois trinta--depois quinhentas,--exprimindo assim o beneficio que me daria na vida e na morte o simples acto da restituição. E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquelle acto, revia-me nelle, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que é ter valsado um poucochinho mais.
Assim, eu, Braz Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalencia das janellas, e estabeleci que o modo de compensar uma janella fechada é abrir outra, afim de que a moral possa arejar continuamente a consciencia. Talvez não entendas o que ahi fica; talvez queiras uma cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho mysterioso. Pois toma lá o embrulho mysterioso.
CAPITULO LII
O embrulho mysterioso
Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo tropecei n'um embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e correctamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiencia, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam,--um pescador curava as redes ainda mais longe,--ninguem que pudesse ver a minha acção; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idéa de devolver o achado á praia, mas apalpei-o e rejeitei a idea. Um pouco adeante, desandei o caminho e guiei para casa.
--Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. É certo que não havia alli nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assoviar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma duzia de lenços velhos ou duas duzias de goiabas verdes. Mas era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi... achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de reis. Nada menos. Talvez um dez mil reis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo aceiadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e conclui que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternaes a respeito de cinco contos,--eu, que era abastado.
Para não pensar mais naquillo fui de noite á casa do Lobo Neves, que instára muito commigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de policia; fui-lhe apresentado; elle lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remettera alguns dias antes. Aventou o caso; Virgilia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anecdota analoga, que eu ouvi com impaciencias de mulher hysterica.
De noite, no dia seguinte, em toda aquella semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretaria. Gostava de falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; e todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providencia. Não podia ser outra cousa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miudo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, n'uma praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem deshonra, nem nada que embaciasse o caracter de um homem. Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavallo, como os ganhos de um jogo honesto; e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia máu, nem indigno dos beneficios da Providencia.
--Estes cinco contos, dizia eu com migo, tres semanas depois, hei de empregal-os em alguma acção bôa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim... hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brazil. Lá me receberam com muitas e delicadas allusões ao caso de meia dobra, cuja noticia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a cousa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modestia,--e porque eu me encolerisasse, replicaram-me que era simplesmente grande.
CAPITULO LIII
..........
Virgilia é que já se não lembrava da meia dobra; toda ella estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento;--era o que dizia, e era verdade.
Ha umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquellas; brotou com tal impeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante creatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quizerem chamar, um beijo que ella me deu, tremula,--coitadinha,--tremula de medo, porque era ao portão da chacara, á vista das estrellas,--das castas estrellas de Othello,--_you chaste stars!_ Uniu-nos esse beijo unico,--breve como a occasião, ardente como o amor, prologo de uma vida de delicias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de afflicções que desabrochavam em alegria,--uma hypocrisia paciente e systematica, unico freio de uma paixão sem freio,--vida de agitações, de coleras, de desesperos e de ciumes, que uma hora pagava á farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquella, como tudo mais, para deixar á tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquelle prologo.
CAPITULO LIV
A pendula
Saí dalli a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o somno, o bater da pendula fazia-me muito mal; esse _tic-tac_ soturno, vagaroso e secco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dous saccos, o da vida e da morte, a tirar as moedas da vida para dal-as á morte, e a contal-as assim:
--Outra de menos...
--Outra de menos...
--Outra de menos...
--Outra de menos...
O mais singular é que, se o relogio parava, eu dava-lhe corda, para que elle não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções ha, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relogio é definitivo e perpetuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, hade ter um relogio na algibeira, para saber a hora exacta em que morre.
Naquella noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As phantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, á semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janella fóra e bateu as azas na direcção da casa de Virgilia. Ahi achou ao peitoril de uma janella o pensamento de Virgilia, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dous vadios alli postos, a repetirem o velho dialogo de Adão e Eva.
CAPITULO LV
O velho dialogo de Adão e Eva
BRAZ CUBAS
. . . . ?
VIRGILIA
. .
BRAZ CUBAS
. . . . . . . . .
. . .
VIRGILIA
. . . !
BRAZ CUBAS
. .
VIRGILIA
. . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . .
BRAZ CUBAS
. . . . . .
VIRGILIA
. . . .
BRAZ CUBAS
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . ! . .
. . ! . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . !
VIRGILIA
. . . . . . . . . . . . .?
BRAZ CUBAS
. . . . .!
VIRGILIA
. . . . .!
CAPITULO LVI
O momento opportuno
Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta differença? Um dia vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemol-o e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm annos, torno a vel-a, damos tres ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delirio. A belleza de Virgilia chegára, é certo, a um alto gráu de apuro, mas nós eramos substancialmente os mesmos, e eu, á minha parte, não me tornára mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa differença?
A razão não podia ser outra senão o momento opportuno. Não era opportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estavamos para o _nosso_ amor: distincção fundamental. Não ha amor possivel sem a opportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dous annos depois do beijo, um dia em que Virgilia se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.
--Que importuno! dizia ella fazendo uma careta de raiva.
Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então occorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquella mesma careta, e comprehendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a opportuno.
CAPITULO LVII
Destino
Sim, senhor, amavamos. Agora, que todas as leis sociaes nol-o impediam, agora é que nos amavamos devéras. Achavamo-nos jungi-los um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatorio:
Di pari, come buoi, che vanno a giogo;