Memorias Posthumas de Braz Cubas
Part 6
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia, a manhã era limpida e azul, e apezar disso deixei-me ficar, não menos que no terceiro dia, e no quarto, até o fim da semana. Manhãs bonitas, frescas, convidativas; lá em baixo a familia a chamar-me, e a noiva, e o parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao pé da minha Venus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar o estylo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação physica e moral. Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa creatura tão singela, filha espuria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé della sentia-me bem, e ella creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples egloga. D. Eusebia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniencia; e a filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flôr.
--O senhor desce amanhã? disse-me ella no sabbado.
--Pretendo.
--Não desça.
Não desci; e accrescentei um versiculo ao Evangelho:--Bemaventurados os que não descem, porque delles é o primeiro beijo das damas. Com effeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugenia,--o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomára, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma divida. Pobre Eugenia! Se tu soubesses que idéas me vagavam pela mente fóra n'aquella occasião! Tu, tremula de commoção, com os braços nos meus hombros, a contemplar em mim o teu bemvindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Villaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, á tua origem...
D. Eusebia entrou inesperadamente, mas não tão subita, que nos apanhasse ao pé um do outro. Eu fui até á janella: Eugenia sentou-se a concertar uma das tranças. Que dissimulação graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural vivo, não estudado, natural como o appetite, natural como o somno. Tanto melhor! D. Eusebia não suspeitou nada.
CAPITULO XXXIV
A uma alma sensivel
Ha ahi, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, ha ahi uma alma sensivel, que está de certo um pouquito agastada com o capitulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugenia, e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cynico. Eu cynico, alma sensivel? Pela coxa de Diana! esta injuria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa nesse mundo. Não, alma sensivel, eu não sou cynico, eu fui homem; meu cerebro foi um tablado em que se deram peças de todo o genero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comedia louçã, a desgrenhada farça, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma sensível, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Smyrna até a arruda do teu quintal, desde o magnifico leito de Cleopatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu somno. Cruzavam-se nelle pensamentos de varia casta e feição. Não havia alli a atmosphera sómente da aguia e do beija-flor, havia tambem a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensivel, castiga os nervos, limpa os oculos,--que isso ás vezes é dos oculos,--e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
CAPITULO XXXV
O caminho de damasco
Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escriptura (_Act._, IX, 7): «Levanta-te, e entra na cidade.» Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar devéras, e desposal-a. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não ha duvidar que ella o achou e m'o disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao annunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo.--Adeus, suspirou ella estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem.--E como eu nada dissesse, continuou:--Faz bem em fugir ao ridículo de casar commigo. Ia dizer-lhe que não; ella retirou-se lentamente, engolindo as lagrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do ceu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hyperboles frias, que ella escutou sem dizer nada.
--Acredita-me? perguntei eu no fim.
--Não; e digo-lhe que faz bem.
Quiz retel-a, mas o olhar que me lançou não foi já de supplica, senão de imperio. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pae, que era conveniente abraçar a carreira politica... que a constituição... que a minha noiva... que o meu cavallo...
CAPITULO XXXVI
A proposito de botas
Meu pae, que me não esperava, abraçou-me cheio de ternura e agradecimento.--Agora é devéras? disse elle. Posso emfim....?
Deixei-o nessa reticencia, e fui descalçar as botas, que estavam apertadas. Uma vez alliviado, respirei á larga, e deitei-me a fio comprido, emquanto os pés, e todo eu atraz delles, entravamos n'uma relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e ahi tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Emquanto esta idéa me trabalhava no famoso trapezio, lançava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do preterito, e sentia que o meu coração não tardaria tambem a descalçar as suas botas. E descalçou-as o lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rapido, ineffavel e incoercivel momento de gozo, que succede a uma dôr pungente, a uma preoccupação, a um incommodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos phenomenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a occasião de comer, e não inventou os callos, senão porque elles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.
Tu, minha Eugenia, é que não as descalçaste nunca; foste ahi pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitaria, calada, laboriosa, até que vieste tambem para esta outra margem... O que eu não sei é se a tua existência era muito necessaria ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragedia humana.
CAPITULO XXXVII
Emfim
Emfim! eis aqui Virgilia. Antes de ir á casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pae se havia algum ajuste prévio de casamento.
--Nenhum ajuste. Ha tempos, conversando com elle a teu respeito, confessei-lhe o desejo que tinha de te ver deputado; e de tal modo fallei, que elle prometteu fazer alguma cousa, e creio que o fará. Quanto á noiva, é o nome que dou a uma creaturinha, que é uma joia, uma flôr, uma estrella, uma cousa rara... é a filha delle; imaginei que, se casasses com ella, mais depressa serias deputado.
--Só isto?
--Só isto.
Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á mulher,--uma estimavel senhora,--e á filha, que não desmentiu em nada o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez estavamos intimos.
CAPITULO XXXVIII
A quarta edição
--Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á mão; era um cubiculo,--pouco mais,--empoeirado e escuro.
Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era Marcella.
Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.
--Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.
Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja--talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.
--Casou? disse Marcella no fim de minha narração.
--Ainda não, respondi seccamente.
Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram olhos da primeira edição.
--Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo daquella especie de torpor.
--Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas joias por preços baratos. Não disse _preços baratos_, mas usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que me disseram depois.
CAPITULO XXXIX
O visinho
Emquanto eu fazia commigo mesmo aquella reflexão, entrou na loja um sujeito baixo, sem chapeu, trazendo pela mão uma menina de quatro annos.
--Como passou de hoje de manhã? disse elle a Marcella.
--Assim, assim. Vem cá, Maricota.
O sujeito levantou a criança pelos braços e passou-a para dentro do balcão.
--Anda, disse elle; pergunta a D. Marcella como passou a noite. Estava anciosa por vir cá, mas a mãe não tinha podido vestil-a... Então, Maricota? Toma a benção. .. Olha a vara de marmelo! Assim... Não imagina o que ella é lá em casa; falla na senhora a todos os instantes, e aqui parece uma pamonha. Ainda hontem... Digo, Maricota?
--Não, diga, não, papae.
--Então foi alguma cousa feia? perguntou Marcella batendo na cara da menina.
--Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, offerecidos a Nossa Senhora; mas a pequena hontem veiu pedir-me com voz muito humilde... imagine o que?... que queria offerecel-os a Santa Marcella.
--Coitadinha! disse Marcella beijando-a.
--É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina ... A mãe diz que é feitiço...
Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradaveis, até que saiu levando a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcella quem era elle.
--É um relojoeiro de visinhança, um bom homem; a mulher tambem; e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim... é boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcella; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura...
CAPITULO XL
Na sege
Nisto entrou o moleque trazendo o relogio com o vidro novo. Era tempo; já me custava estar alli; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcella que voltaria n'outra occasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma especie de dobre de finados. O espirito ia travado de impressões oppostas. Notem que aquelle dia amanhecera alegre para mim. Meu pae, ao almoço, repetiu-me, por anticipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na camara dos deputados; rimo-nos muito, e o sol tambem, que estava brilhante, como nos mais bellos dias do mundo; do mesmo modo que Virgilia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço. Vae se não quando, cáe-me o vidro do relogio; entro na primeira loja que me fica á mão; e eis me surge o passado, eil-o que me lacera e beija; eil-o que me interroga, com um rosto cortado de saudades e bexigas...
Lá o deixei; metti-me ás pressas na sege, que me esperava no largo do S. Francisco de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fóra. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. Não ha, ás vezes, um certo vento, morno que não bochorno, não forte nem aspero, mas abafadiço, que nos não leva o chapéo da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia é ou parece ser peior do que se fizesse uma e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espiritos? Pois eu tinha esse vento commigo; e, certo de que elle me soprava por achar-me naquella especie de garganta entre o passado e o presente, almejava por sair á planicie do futuro. O peior é que a sege não andava.
--João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não anda?
--Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô Conselheiro.
CAPITULO XLI
A allucinação
E era verdade. Entrei apressado; achei Virgilia anciosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava na sala com ella. No fim dos comprimentos disse-me a moça com sequidão:
--Esperavamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; fallei do cavallo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me a voz nos labios, fico tolhido de assombro. Virgilia... seria Virgilia aquella moça? Fitei-a muito; e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista. Tornei a olhal-a. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pelle, ainda na vespera tão fina, rosada e pura, apparecia-me agora amarella, stigmada pelo mesmo flagello, que devastara o rosto da hespanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o labio triste e a attitude cançada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgilia afastou-se, e foi sentar-se no sophá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus proprios pés. Devia, sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgilia, que lá estava sentada e calada. Ceus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida Virgilia. Em vão procurei no rosto delia algum vestigio da doença; nenhum havia; era a pelle fina e branca do costume.
--Nunca me viu? perguntou Virgilia, vendo que a encarava com insistência.
--Tão bonita, nunca.
Sentei-me, emquanto Virgilia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa. Fallei-lhe de cousas extranhas ao incidente; ella porém não me respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estatua do Silencio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do labio, contrahindo as sobrancelhas, ao ponto de as unir; e todo esse conjuncto de cousas dava-lhe ao rosto uma expressão media, entre comica e tragica.
Havia alguma affectação naquelle desdem; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ella padecia, e não pouco,--ou fosse magua pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula dóe mais, é mui provável que Virgilia padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metaphysica.
CAPITULO XLII
Que escapou a Aristoteles
Outra cousa que tambem me parece metaphysica é isto:--Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; róla esta, encontra outra bola, transmitte-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Supponhamos que a primeira bola se chama... Marcella,--é uma simples supposição; a segunda, Braz Cubas;--a terceira, Virgilia. Temos que Marcella, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Braz Cubas,--o qual, cedendo á força impulsiva, entrou a rolar tambem até esbarrar em Virgilia, que não tinha nada com a primeira bola; e eis ahi como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociaes, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar--solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capitulo escapou a Aristoteles?
CAPITULO XLIII
Marqueza, porque eu serei marquez
Positivamente, era um diabrete Virgilia, um diabrete angelico, se querem, mas era-o, e então...
E então appareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto do que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais sympathico, e todavia foi quem me arrebatou Virgilia e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um impeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violencia de familia. O Dutra veiu dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi; e tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgilia perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria elle ministro.
--Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um anno.
Virgilia replicou:
--Promette que algum dia me fará baroneza?
--Marqueza, porque eu serei marquez.
Desde então fiquei perdido. Virgilia comparou a aguia e o pavão, e elegeu a aguia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e tres ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer cousa nenhuma. O labio do homem não é como a pata do cavallo de Attila que esterilisava o solo em que batia; é justamente o contrario.
CAPITULO XLIV
Um Cubas!
Meu pae ficou attonito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra cousa. Eram tantos os castellos que engenhára, tantos e tantissimos os sonhos, que não podia vel-os assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A principio não quiz crel-o. Um Cubas! um galho da arvore illustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a voluvel dama, para só contemplar aquelle phenomeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência.
--Um Cubas! repetia-me elle na seguinte manhã, ao almoço.
Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.
Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,--acabrunhado, triste, com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe,--lembra-me bem,--vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.
--Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer, morreu.
--Um Cubas!
CAPITULO XLV
Notas
Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario, eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta do sol; porquanto:--_a_) a natureza não inventou a morte, senão com o fim de dar vida a algumas industrias,--armadores, segeiros, emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente previu;--_b_) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não escrevo.
CAPITULO XLVI
A herança
Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,--minha irmã sentada n'um sophá,--pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,--eu a passeiar de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo silencio.
--Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...
--Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...