Memorias Posthumas de Braz Cubas

Part 5

Chapter 53,980 wordsPublic domain

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz á consciência; e o melhor da obrigação é quando, á força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hypocrisia, que é um vicio hediondo. Mas, na morte, que differença! que desabafo! que liberdade! Como a gente póde sacudir fóra a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desaffeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em summa, já não ha visinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem extranhos; não ha platéa. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o territorio da morte; não digo que elle se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não ha nada tão incommensuravel como o desdem dos finados.

CAPITULO XXV

Na Tijuca

Ui! lá me ia a penna a escorregar para o emphatico. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.

No setimo dia, acabada a missa funebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque,--o Prudencio da capitulo XI,--e fui metter-me n'uma velha, casa de nossa propriedade. Meu pae forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ella algum tempo,--duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar á fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passára de estroina a circumspecto. Agora commerciava em generos de estiva, labutava de manhã até á noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado á janella, a encaracolar as suiças, não pensava em outra cousa. Amava a mulher e um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns annos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o espirito attonito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hypocondria, essa flor amarella, solitaria e morbida, de um cheiro inebriante e subtil.--«Que bom que é estar triste e não dizer cousa nenhuma!»--Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a attenção, confesso que senti em mim um echo, um echo delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espirito ainda mais cabisbaixo do que a figura,--ou jururú, como dizemos das gallinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação unica, uma cousa a que poderia chamar volupia do aborrecimento. Volupia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendel-a, podes concluir que ignoras uma das sensações mais subtis desse mundo e daquelle tempo.

Ás vezes caçava, outras dormia, outras lia,--lia muito,--outras emfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéa em idéa, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta; e as horas iam pingando uma a uma, o sol cahia, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguem me visitava; recommendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dous dias, tres dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fóra e restituir-me ao bulicio. Com effeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor applacára; o espirito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do ceu. Reagia a mocidade, era preciso viver. Metti no bahú o problema da vida e da morte, os hypocondriacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechal-o, quando o moleque Prudencio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudára na vespera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.

--Quem?

--Nhonhô talvez não se lembre mais de D. Eusebia...

--Lembra-me... É ella?

--Ella e a filha. Vieram hontem de manhã.

Occorreu-me logo o episodio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fôra impossivel evitar as relações intimas do Villaça com a irmã do sargento-mór; antes mesmo do meu embarque, já se boquejava mysteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Villaça, ao morrer, deixara um bom legado a D. Eusebia, cousa que deu muito que fallar em todo o bairro. O proprio tio João, guloso de escandalos, não tratou de outro assumpto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda porém que m'a não dessem, 1814 lá ia longe, e, com elle, a travessura, e o Villaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ella. Fiz commigo essa reflexão e acabei de fechar o bahú.

--Nhonhô não vae visitar sinhá D. Eusebia? perguntou-me o Prudencio. Foi ella quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por occasião da morte e do enterro; ignorava porém que ella houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obsequio. A ponderação do moleque era razoavel; eu devia-lhe uma visita; determinei fazel-a immediatamente, e descer.

CAPITULO XXVI

O autor hesita

Súbito ouço uma voz:--Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:

--Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

--Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.

Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a duas vezes.

--Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e acho que deves ir tambem...

--Eu?

--Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous projectos, um logar de deputado e um casamento.

Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.

--Aceitas?

--Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.

--Mas os ursos casam-se, replicou elle.

--Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior.

Riu-se meu pae, e depois de rir, tornou a fallar serio. Era-me necessaria a carreira politica, dizia elle, por vinte e tantas razões, que deduziu com singular volubilidade, illustrando-as com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto á noiva, bastava que eu a visse; se a visse, iria logo pedil-a ao pae, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a fascinação, depois a persuasão, depois a intimação; eu não dava resposta, afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão, a sorrir ou a reflectir; e, para tudo dizer, nem docil nem rebelde á proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que uma esposa formosa e uma posição politica eram bens dignos de apreço; outra dizia que não; e a morte de minha mãe me apparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das affeições, da familia...

--Não vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pae. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as syllabas com o dedo.

Bebeu o ultimo gole de café; repotreou-se, e entrou a fallar de tudo, do senado, da camara, da Regencia, da restauração, do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de Matta-cavallos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente n'um pedaço de papel, com uma ponta de lapis; traçava uma palavra, uma phrase, um verso, um nariz, um triangulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:

arma virumque cano A Arma virumque cano arma virumque cano arma virumque arma virumque cano virumque

Machinalmente tudo isto; e, não obstante, havia certa lógica, certa deducção; por exemplo, foi o _virumque_ que me fez chegar ao nome do proprio poeta, por causa da primeira syllaba; ia a escrever _virumque_--e sae-me _Virgilio_, então continuei:

Vir Virgilio Virgilio Virgilio Virgilio Virgilio

Meu pae, um pouco despeitado com aquella indifferença, ergueu-se, veiu a mim, lançou os olhos ao papel...

--Virgilio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgilia.

CAPITULO XXVII

Virgilia?

Virgilia? Mas então era a mesma senhora que alguns annos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus ultimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais intimas sensações. Naquelle tempo contava apenas uns quinze ou dezeseis annos, e era talvez a mais atrevida creatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da belleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos ás sardas e espinhas; mas tambem não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha; não. Era bonita, fresca, sahia das mãos da natureza, cheia daquelle feitiço, precario e eterno, que o individuo passa a outro individuo, para os fins secretos da creação. Era isto Virgilia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns impetos mysteriosos; muita preguiça e alguma devoção,--devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Ahi tem o leitor, em poucas linhas, o retrato physico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquillo com dezeseis annos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas paginas vierem á luz,--tu que me lês, Virgilia amada, não reparas na differença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabujento, nem injusto.

--Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memoria a imagem do que fui, como é que póde assim discernir a verdade daquelle tempo, e exprimil-a depois de tantos annos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos affectos. Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida tambem, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

CAPITULO XXVIII

Contanto que...

--Virgilia? interrompi eu.

--Sim, senhor; é o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem azas. Imagina uma moça assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...

--Que Dutra?

--O Conselheiro Dutra; não conheces; uma influencia politica. Vamos lá; aceitas?

Não respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o casamento, comtanto que...

--Comtanto que?

--Comtanto que não fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente homem casado ou homem publico...

--Todo o homem publico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pae. Mas seja como queres; estou por tudo; fico certo de que a vista fará fé. Demais, a noiva e o casamento são a mesma cousa... isto é, não... saberás depois... Vá; aceito a dilação, comtanto que...

--Comtanto que?.. interrompi eu imitando-lhe a voz.

--Ah! brejeiro! Comtanto que não te deixes ficar ahi inutil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos, para te não ver brilhar, como deves, e te convem, e a todos nós; é preciso continuar o nosso nome, continual-o e illustral-o ainda mais. Olha, estou com sessenta annos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava-a sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Braz; foge do que é infimo. Olha que os homens valem por differentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens. Não estragues as vantagens da tua posição, os teus meios...

E foi por deante o magico, a agitar deante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hypocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarella, e nada morbida,--o amor da nomeada, o emplasto Braz Cubas.

CAPITULO XXIX

A visita

Vencera meu pae; dispuz-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgilia e a camara dos deputados.--As duas Virgilias, disse elle n'um assomo de ternura politica. Aceitei-os; meu pae deu-me dous fortes abraços. Era o seu proprio sangue que elle, emfim, reconhecia. Rigorosamente, o filho delle acabava de desembarcar naquelle instante, de rodaque de linho e mãos nos bolsos. Havia então nos olhos de meu pae alguma cousa do velho Cid; era a alma que colligira n'uma só flamma todas as ultimas scentelhas.

--Desces commigo?

--Desço amanhã. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusebia...

Meu pae torceu o nariz, mas não disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo dia, fui visitar D. Eusebia. Achei-a a reprehender um preto jardineiro, mas deixou tudo para vir fallar-me, com um alvoroço, um prazer tão sincero, que me desacanhou logo. Creio que chegou a cingir-me com o seu par de braços robustos. Fez-me sentar ao pé de si, na varanda, entre muitas exclamações de contentamento.

--Ora, o Brázinho! Um homem! Quem diria, ha annos... Um homemzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra bem de mim...

Disse-lhe que sim, que não era possivel esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa. D. Eusebia começou a fallar de minha mãe, com muitas saudades, com tantas saudades, que me captivou logo, posto me entristecesse. Ella percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rédea á conversação; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos, os namoros... Sim, os namoros tambem; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episodio de 1814, ella, o Villaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordal-o, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:

--Mamãe... mamãe...

CAPITULO XXX

A flor da moita

A voz e as saias pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve á porta, alguns instantes, ao ver gente extranha. Silencio curto e constrangido. D. Eusebia quebrou-o, enfim, com resolução e franqueza:

--Vem cá, Eugenia, disse ella, comprimenta o Dr. Braz Cubas, filho do Sr. Cubas; veiu da Europa.

E voltando-se para mim:

--Minha filha Eugenia.

Eugenia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortezia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabello, cuja ponta se desmanchara.--Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me commoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e,--direi tudo,--tive umas cocegas de ser pae.

--Travêssa? disse eu. Pois já não está em edade propria, ao que parece.

--Quantos lhe dá?

--Dezesete.

--Menos um.

--Dezeseis. Pois então! é uma moça.

Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...

Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas:--T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...

--Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavallo afilha de D. Eusebia, seguida de um pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a cabeça para traz; mas não voltou.

CAPITULO XXXI

A borboleta preta

No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ella. Lembrou-me o caso da vespera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusebia, no susto que tivera, e na dignidade que, apezar delle, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ella foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saíu* dalli e veiu parar em cima de um velho retrato de meu pae. Era negra como a noite; e o gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as azas, tinha um certo ar escarninho, uma especie de ironia mephistophelica, que me aborreceu muito. Dei de hombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repellão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ella caíu.

Não caíu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depol-a no peitoril da janella. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incommodado.

--Tambem porque diabo não era ella azul? disse eu commigo.

E esta reflexão,--uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas,--me consolou do maleficio, e me reconciliou commigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadaver, com alguma sympathia, confesso. Imaginei que ella saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veiu por alli fóra, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices sob a vasta cupula de um céo azul, que é sempre azul, para todas as azas. Passa pela minha janella, entra e dá commigo. Supponho que nunca teria visto um homem; não-sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura collossal. Então disse comsigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas.» A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é tambem suggestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador era beijal-o na testa; e ella beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dalli o retrato de meu pae, e não é impossivel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava alli o pae do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericordia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a immensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho crú. Vejam como é bom ser superior ás borboletas! Porque, é* justo dizel-o, se ella fosse azul, ou côr de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossivel que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta ultima idéa restituiu-me a consolação, uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadaver caiu no jardim. Era tempo; ahi vinham já as providas formigas... Não, volto á primeira idéa; creio que para ella era melhor ter nascido azul.

CAPITULO XXXII

Coxa de nascença

Fui dalli acabar os preparativos da viagem. Já agora não me demoro mais. Desço immediatamente; desço ainda que algum leitor circumspecto me detenha para perguntar se o capitulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação... Ai de mim! Não contava com D. Eusebia. Estava prompto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a descida, e ir lá jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que não pude deixar de aceitar; demais, era-lhe devida aquella compensação; fui.

Eugenia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa,--se é que não andava muita vez assim. Nem as bichas de ouro, que trazia na vespera, lhe pendiam agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas n'uma cabeça de nympha. Um simples vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao collo, em vez de broche, um botão de madreperola, e outro botão nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.

Era isso no corpo; não era outra cousa no espirito. Idéas claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra cousa; sim, a boca, exactamente a boca da mãe, a qual me lembrava o episodio de 1814, e então dava-me impetos de glosar o mesmo mote á filha...

--Agora vou mostrar-lhe a chacara, disse a mãe, logo que exgotámos o ultimo gole de café.

Saímos á varanda, dalli á chacara; e foi então que notei uma circumstancia. Eugenia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:

--Não, senhor, sou coxa de nascença.

Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com effeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada. Então lembrou-me que da primeira vez que a vi na vespera--a moça chegára-se lentamente á cadeira da mãe, e que naquelle dia já a achei á mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por que razão o confessava agora? Olhei para ella e reparei que ia triste.

Tratei de apagar os vestigios de meu desaso;--não me foi difficil, por que a mãe era, segundo confessara, uma velha patusca, e promptamente travou de conversa commigo. Vimos toda a chacara, arvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ella me ia mostrando, e commentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugenia...

Palavra que o olhar de Eugenia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranquillos. Creio que duas ou tres vezes baixaram elles a terra, um pouco turvados; mas duas ou tres vezes sómente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem biocos.

CAPITULO XXXIII

Bemaventurados os que não descem

O peor é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é ás vezes um immenso escarneo. Porque bonita, se coxa? porque coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite; e não atinava com a solução do enigma. O melhor que ha, quando se não resolve um enigma, é sacudil-o pela janella fóra; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cerebro. Fiquei alliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espirito, deixou novamente entrar o bichinho, e ahi fiquei eu a noite toda a cavar o mysterio, sem explical-o.