Memorias Posthumas de Braz Cubas

Part 16

Chapter 162,025 wordsPublic domain

--Ha de lembrar-se, disse-me o alienista, daquelle famoso maniaco atheniense, que suppunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não tivesse, para dormir, a cuba de Diogenes; mas a posse imaginaria dos navios valia por todas as drachmas da Hellade. Ora bem, ha em todos nós um maniaco de Athenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, mentalmente, dous ou tres patachos, pelo menos, póde crer que jura falso.

--Tambem o senhor? perguntei-lhe.

--Tambem eu.

--Tambem eu?

--Tambem o senhor; e o seu criado, não menos, se é seu criado esse homem que alli está sacudindo os tapetes á janella.

De facto, era um dos meus criados que batia os tapetes, emquanto nós falavamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que elle escancarára as janellas todas, desde longo tempo, que alçára as cortinas, que devassára o mais possivel a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fóra, e concluiu:--Este seu criado tem a mania do atheniense: crê que os navios são delle; uma hora de illusão que lhe dá a maior felicidade da terra.

CAPITULO CLV

Reflexão cordial

--Se o alienista tem razão, disse eu commigo, não haverá muito que lastimar o Quincas Borba; e uma questão de mais ou de menos. Comtudo, é justo cuidar delle, e evitar que lhe entrem no cerebro maniacos de outras paragens.

CAPITULO CLVI

Orgulho tem servilidade

O Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado.--Póde-se, por imagem, disse elle, attribuir ao teu criado a mania de atheniense; mas imagens não são idéas nem observações tomadas á natureza. O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção delle é mostrar que não é criado de _qualquer._--Depois chamou a minha attenção para os cocheiros de casa grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece ás variações sociaes da freguezia, etc. E concluiu que era tudo a expressão daquelle sentimento delicado e nobre,--prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime.

CAPITULO CLVII

Phase brilhante

--Sublime és tu, bradei eu, lançando-lhe os braços ao pescoço.

Com effeito, era impossível crer que um homem tão profundo pudesse chegar á demencia; e foi o que lhe disse após o meu abraço, denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a impressão que lhe fez a denuncia; lembra-me que elle estremeceu e ficou muito pallido.

Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem chegar a saber a causa do dissentimento. Reconciliação opportuna, porque a solidão pesava-me, como um remorso, e a vida era para mim a peor das fadigas, que é a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado por elle a filiar-me n'uma Ordem Terceira; o que eu não fiz sem consultar o Quincas Borba:

--Vae se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de annexar á minha philosophia uma parte dogmatica e liturgica. O Humanitismo ha de ser tambem uma religião, a do futuro, a unica verdadeira. O christianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraiso christão é um digno emulo do paraiso mussulmano; e quanto ao nirvana de Buddha não passa de uma concepção de paralyticos. Verás o que é a religião humanistica. A absorpção final, a phase _contractiva_, é a reconstituição da substancia, não o seu anniquilamento, etc. Vae aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o meu califa.

E vede agora a minha, modestia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci alli alguns cargos, foi essa a phase mais brilhante da minha vida. Não obstante, calo-me, não digo nada, não conto os meus serviços, o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que recebi, nada, não digo absolutamente nada.

Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, si eu mostrasse como todo e qualquer premio estranho vale pouco ao lado do premio subjectivo e immediato; mas seria romper o silencio que jurei guardar neste ponto. Demais, os phenomenos da consciencia são de difficil analyse; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que a elle se prendessem, e acabava fazendo um capitulo de psychologia. Affirmo sómente que foi a phase mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraça, que é tão aborrecida como a do gozo, e talvez peor. Mas a alegria que se dá á alma dos doentes e dos pobres, é recompensa de algum valor; e não me digam que é negativa, por só recebel-a o obsequiado. Não; eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, tão grande que me dava excellente idéa de mim mesmo.

CAPITULO CLVIII

Dous encontros

No fim de alguns annos, tres ou quatro, estava enfarado do officio, e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capitulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcella; e vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar... achei a flôr da moita, Eugenia, a filha de D. Eusebia e do Villaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste.

Esta, ao reconhecer-me, ficou pallida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Comprehendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria á esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubiculo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida della, nem se a mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miseria. Sei que continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital, onde Marcella entrara na vespera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrepita...

CAPITULO CLIX

A semi-demencia

Comprehendi que estava velho, e precisava de uma força; mas o Quincas Borba partira seis mezes antes para Minas Geraes, e levou comsigo a melhor das philosophias. Voltou quatro mezes depois, e entrou-me em casa, certa manhã, quasi no estado em que eu o vira no Passeio Publico. A differença é que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimára o manuscripto todo e ia recomeçal-o. A parte dogmatica ficava completa, embora não escripta; era a verdadeira religião do futuro.

--Juras por Humanitas? perguntou-me.

--Sabes que sim.

A voz mal podia sair-me do peito; e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade. O Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consciencia, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o, e não se irritava contra o mal; ao contrario, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava comsigo mesmo. Recitava-me longos capitulos do livro, e antiphonas, e litanias espirituaes; chegou até a reproduzir uma dansa sacra que inventara para as ceremonias do Humanitismo. A graça lugubre com que elle levantava e sacudia as pernas era singularmente fantastica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razão, triste como uma lagrima...

Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma illusão, e que Pangloss, o calumniado Pangloss, não era tão tolo como o suppoz Voltaire.

CAPITULO CLX

Das negativas

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os successos narrados na primeira parte do livro. O principal delles foi a invenção do _emplasto Braz Cubas_, que morreu commigo, por causa da molestia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro logar entre os homens, acima da sciencia e da riqueza, porque eras a genuina e directa inspiração do ceu. O acaso determinou o contrario; e ahi vos ficaes eternamente hypocondriacos.

Este ultimo capitulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a morte de D. Placida, nem a semi-demencia do Quincas Borba. Sommadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve mingua nem sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mysterio, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capitulo de negativas:--Não tive filhos, não transmitti a nenhuma creatura o legado da nossa miseria.

FIM

ÍNDICE

Ao leitor v

Dedicatória vii

Capitulo

I Obito do auto II O emplasto III Genealogia IV A idéa fixa V Em que apparece a orelha de uma senhora VI Chimène, qui l'eut dit? Rodrigue, qui l'eut cru? VII O delirio VIII Razão contra Sandice IX Transição X Naquelle dia XI O menino é pae do homem XII Um episodio de 1814 XIII Um salto XIV O primeiro beijo XV Marcella XVI Uma reflexão immoral XVII Do trapezio o outras cousas XVIII Visão do corredor XIX A bordo XX Bacharelo-me XXI O almocreve XXII Volta ao Rio XXIII Triste, mas curto XXIV Curto, era alegre XXV Na Tijuca XXVI O autor hesita XXVII Virgilia? XXVIII Contanto que XXIX A visita XXX A flor da moita XXXI A borboleta preta XXXII Côxa de nascença XXXIII Bem aventurados os que não descem XXXIV A uma alma sensivel XXXV O caminho de Damasco XXXVI A proposito de botas XXXVII Emfim! XXXVIII A quarta edição XXXIX O visinho XL Na sege XLI A allucinação XLII Que escapou a Aristoteles XLIII Marqueza, porque eu serei marquez XLIV Um Cubas! XLV Notas XLVI A herança XLVII O recluso XLVIII Um primo de Virgilia XLIX A ponta do nariz L Virgilia casada LI É minha! LII O embrulho mysterioso LIII . . . . . . LIV A pendula LV O velho dialogo de Adão e Eva LVI O momento opportuno LVII Destino LVIII Confidencia LIX Um encontro LX O abraço LXI Um projecto LXII O travesseiro LXIII Fujamos! LXIV A transacção LXV Olheiros e escutas LXVI As pernas LXVII A casinha LXVIII O vergalho LXIX Um grão de sandice LXX D. Placida LXXI O senão do livro LXXII O bibliomano LXXIII O _lunch_ LXXIV Historia de D. Placida LXXV Commigo LXXVI O estrume LXXVII Entrevista LXXVIII A presidencia LXXIX Compromisso de gato LXXX De secretario LXXXI A reconciliação LXXXII Questão de botanica LXXXIII 13 LXXXIV O conflicto LXXXV O cimo da montanha LXXXVI O mysterio LXXXVII Geologia LXXXVIII O enfermo LXXXIX _In extremis_ XC O velho colloquio do Adão e Caim XCI Uma carta extraordinaria XCII Um homem extraordinario XCIII O jantar XCIV A causa secreta XCV Flores de antanho XCVI A carta anonyma XCVII Entre a boca e a testa XCVIII Supprimido XCIX Na plateia C O caso provavel CI A revolução dalmata CII De repouso CIII Distracção CIV Era elle! CV Equivalencia das janellas CVI Jogo perigoso CVII Bilhete CVIII Que se não entende CIX O philosopho CX 31 CXI O muro CXII A opinião CXIII A solda CXIV Fim do um dialogo CXV O almoço CXVI Philosophia das folhas velhas CXVII O Humanitismo CXVIII A terceira força CXIX Parenthesis CXX _Compelle intrare_ CXXI Morro abaixo CXXII Uma intenção mui fina CXXIII O verdadeiro Cotrim CXXIV Vá de intermedio CXXV Epitaphio CXXVI Desconsolação CXXVII Formalidade CXXVIII Na camara CXXIX Sem remorsos CXXX Por intercallar no cap. CXXIX CXXXI De uma calumnia CXXXII Que não é serio CXXXIII O principio de Helvetius CXXXIV Cincoenta annos CXXXV _Oblivion_ CXXXVI Inutilidade CXXXVII A barretina CXXXVIII A um critico CXXXIX De como não fui ministro d'Estado CXL Que explica o anterior CXLI Os cães CXLII O pedido secreto CXLIII Não vou CXLIV Utilidade relativa CXLV Simples repetição CXLVI O programma CXLVII O desatino CXLVIII O problema insoluvel CXLIX Theoria do beneficio CL Rotação e translação CLI Philosophia dos epitaphios CLII A moeda de Vespasiano CLIII O alienista CLIV Os navios do Pireu CLV Reflexão cordial CLVI Orgulho da servilidade CLVII Phase brilhante CLVIII Dous encontros CLIX A semi-demencia CLX Das negativas