Memorias Posthumas de Braz Cubas
Part 14
Talvez pareça excessivo o escrupulo do Cotrim, a quem não souber que elle possuia um caracter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com elle durante os annos que se seguiram ao inventario do meu pae. Reconheço que era um modelo. Arguiam-n'o de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o _deficit._ Como era muito secco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a accusal-o de barbaro. O unico facto allegado neste particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dôr que padeceu quando lhe morreu Sára, dalli a alguns mezes; prova irrefutavel, acho eu; e não unica. Era thesoureiro de uma confraria, e irmão de varias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o beneficio não caíra no chão: a irmandade (de que elle fôra juiz,) mandara-lhe tirar o retrato a oleo. Não era perfeito, de certo; tinha, por exemplo, o sestro de mandar para os jornaes a noticia de um ou outro beneficio que praticava,--sestro reprehensivel ou não louvavel, concordo; mas elle desculpava-se dizendo que as bôas acções eram contagiosas, quando publicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que elle não praticava, de quando em quando, esses beneficios senão com o fim de espertar a philantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição _sine qua non._ Em summa, poderia dever algumas attenções, mas não devia um real a ninguem.
CAPIULO CXXIV
Vá de intermedio
Que ha entre a vida e a morte? Uma curta ponte. Não obstante, se eu não compuzesse este capitulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz damnoso ao effeito do livro. Saltar de um retrato a um epitaphio, póde ser real e commum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar á vida. Não digo que este pensamento seja meu; digo que ha nelle uma dose de verdade, e que, ao menos, a fórma é pittoresca. E repito: não é meu.
Vá de intermedio, e contemos a este proposito uma anecdota. Foi no tempo da minha vida parlamentar; eramos cinco; falavamos de cousas e lousas, e aconteceu tocar nos negocios do Rio da Prata. Então, disse um:--O governo não deve esquecer que o dinheiro é o nervo da guerra. Ao que eu redargui que não, que o nervo da guerra eram os bons soldados. Um dos ouvintes coçou o nariz, outro consultou o relogio, o terceiro tamborilou sobre o joelho, o quarto deu algumas pernadas pela sala, o quinto era eu. Mas, continuando a falar, ponderei que essa idéa, inteiramente justa, não era minha, e sim de Machiavelli; circumstancia que levou o primeiro a não coçar o nariz, o segundo a não consultar o relogio, o terceiro a não tamborilar sobre o joelho, e o quarto a não dar pernadas; e todos me rodearam, e me pediram que repetisse o dito, e repeti, e elles extasiavam-se, e batiam com a cabeça approvando, saboreando, decorando. O que estimei, porque fui sempre amador de idéas justas. Mas vamos ao epitaphio.
CAPITULO CXXV
Epitaphio
AQUI JAZ
D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO
MORTA
AOS DEZENOVE ANNOS DE IDADE
ORAI POR ELLA!
CAPITULO CXXVI
Desconsolação
O epitaphio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molestia de Nhã-loló, a morte, o desespero da familia, o enterro. Ficam sabendo que morreu; accrescentarei que foi por occasião da primeira entrada da febre amarella. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lagrimas. Conclui que talvez não a amasse devéras.
Vejam agora a que excessos póde levar uma inadvertencia; doeu-me um pouco a cegueira da epidemia que, matando á direita e á esquerda, levou tambem uma jovem dama, que tinha de ser minha mulher; e não cheguei a entender a necessidade da epidemia, e menos ainda daquella morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. O Quincas Borba, porém, explicou-me que as epidemias eram uteis á especie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; e fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espectaculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivencia do maior numero. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado ás garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.
Se não contei a morte, não conto igualmente a missa do setimo dia. A tristeza do Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma ruina. Quinze dias depois estive com elle; continuava inconsolavel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigára fora ainda augmentada com a que lhe infligiram os homens. Não me disse mais nada. Tres semanas depois tornou ao assumpto, e então confessou-me que, no no meio do desastre irreparavel, quizera ter a consolação da presença dos amigos. Doze pessoas apenas, e tres quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam á cova o cadaver de sua querida filha. E elle fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão geraes que bem se podia desculpar essa desattenção apparente. O Damasceno abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste.
--Qual! gemia elle, desampararam-me.
O Cotrim, que estava presente:
--Vieram os que devéras se interessam por você é por nós. Os oitenta viriam por formalidade, falariam da inercia do governo, das panacéas dos boticarios, do preço das casas, ou uns dos outros...
O Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabeça, e suspirou:
--Mas viessem!
CAPITULO CXXVII
Formalidade
Grande cousa é haver recebido do ceu uma particula da sabedoria, o dom de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distincção psychica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulchro.
De facto, o homem vulgar que ouvisse a ultima palavra do Damasceno, não se lembraria della, quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla,--modernas,--em trajos de rua, com a cara tapada, não tapada á outra maneira, com um espesso panno que as cobrisse devéras, mas com um veu tenuissimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei graça a essa esperteza da faceirice musulmana, que assim esconde o rosto,--e cumpre o uso,--mas não o esconde,--e divulga a belleza. Apparentemente, nada ha entre as damas turcas e o Damasceno; mas se tu és um espirito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso), comprehenderás que, tanto n'um como n'outro caso, surge ahi a orelha de uma rigida e meiga companheira do homem social...
Amavel Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o balsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vinculo da terra e do ceu; tu enxugas as lagrimas de um pae, tu captas a indulgencia de um Propheta; e se a dôr adormece, e se a consciencia se accommoda, a quem, senão a ti, deverão esse immenso beneficio? A estima que passa de chapeu na cabeça não diz nada á alma; mas a indifferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrario de uma velha formula absurda, não é a lettra que mata; a lettra dá vida; o espirito é que é objecto de controversia, de duvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amavel Formalidade, para socego do Damasceno e gloria de Muhammed.
CAPITULO CXXVIII
Na camara
E notai bem que eu vi a gravura turca, dous annos depois das palavras de Damasceno, e vi-a na camara dos deputados, em meio de grande borborinho, emquanto um deputado discutia um parecer da commissão de orçamento, sendo eu tambem deputado. Para quem ha lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação, e para os outros é igualmente inutil. Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um collega, que contava uma anecdota, e outro, que tirava a lapis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil do orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos á mesma praia, como duas botelhas de naufragos, elle contendo o seu resentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprégo esta fórma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que effectivamente não continha nada, a não ser a ambição de ser ministro.
CAPITULO CXXIX
Sem remorsos
Não tinha remorsos. Se possuisse os apparelhos proprios, incluia neste livro uma pagina de chimica, porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e concludente, por que razão Achilles passea á roda de Troya o cadaver do adversario, e lady Macbeth passea á volta da sala a sua mancha de sangue. Mas eu não tenho apparelhos chimicos, como não tinha remorsos; tinha vontade de ser ministro de Estado. Comtudo, se hei de acabar este capitulo, direi que não quizera ser Achilles nem lady Macbeth; e que a ser alguma cousa, antes Achilles, antes passear ovante o cadaver do que a mancha; ouvem-se no fim as supplicas de Priamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e litteraria. Eu não ouvia as supplicas de Priamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.
CAPITULO CXXX
Para intercalar no cap. CXXIX
A primeira vez que pude falar a Virgilia, depois da presidencia, foi n'um baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e ostentava ás luzes o mesmo par de hombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira edade; ao contrario; mas ainda estava formosa, de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos muito; e lembra-me que não alludimos a cousa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais cousa nenhuma. Pouco depois retirou-se; eu fui vel-a descer as escadas, e não sei por que phenomeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os philologos essa phrase barbara), murmurei commigo esta palavra profundamente retrospectiva:
--Magnifica!
Convém intercalar este capitulo entre a primeira oração e a segunda do cap. CXXIX.
CAPITULO CXXXI
De uma calumnia
Como eu acabava de dizer aquillo, pelo processo ventriloco-cerebral,--o que era simples opinião e não remorso,--senti que alguem me punha a mão no hombro. Voltei-me; era um antigo companheiro, official de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Elle sorriu maliciosamente, e disse-me:
--Seu maganão! Recordações do passado, hein?
--Viva o passado!
--Você naturalmente foi reintegrado no emprego.
--Salta, pelintra! disse eu, ameaçando-o com o dedo.
Confesso que este dialogo era uma indiscrição,--principalmente a ultima replica. E com tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres é que tem fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem rectificar essa noção do espirito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monosyllabico, etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos, que era tudo uma calumnia. A razão desta differença é que a mulher (salva a hypothese do cap. CI e outras) entrega-se por amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente physico de algumas damas romanas, por exemplo, ou polynesias, laponias, cafres, e póde ser que outras raças civilisadas; mas o homem,--falo do homem de uma sociedade culta e elegante,--o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Alem disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o homem, sentindo-se causa da infracção e vencedor de outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos rispido e menos secreto,--essa meiga fatuidade, que é a transpiração luminosa do merito.
Mas seja ou não verdadeira a minha explicação, basta-me deixar escripto nesta pagina, para uso dos seculos, que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são um verdadeiro sepulchro. Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por isso que uma grande dama e fino espirito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metaphora para dizer, que toda a aventura amorosa vinha a descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: «não ha cachorrinho tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir.»
CAPITULO CXXXII
Que não é serio
Citando o dito da rainha de Navarra, occorre-me que entre o nosso povo, quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: «Gentes, quem matou seus cachorrinhos?» como se dissesse:--«quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc.» Mas este capitulo não é serio.
CAPITULO CXXXIII
O principio de Helvetius
Estavamos ao ponto era que o official de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgilia; e aqui emendo eu o principio de Helvetius,--ou, por outra, explico-o. O meu interesse era calar; confirmar a suspeita de uma cousa antiga fôra provocar algum odio supitado, dar origem a um escandalo, quando menos adquirir a reputação de indiscreto. Era esse o interesse; e entendendo-se o principio de Helvetius de um modo superficial, isso é o que devia ter feito. Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina: antes daquelle interesse de _segurança_, havia outro, o do _desvanecimento_, que é mais intimo, mais immediato: o primeiro era reflexivo, suppunha um syllogismo anterior; o segundo era espontaneo, instintivo, vinha das entranhas do sugeito; finalmente, o primeiro tinha o effeito remoto, o segundo proximo. Conclusão: o principio de Helvetius é verdadeiro no meu caso;--a diferença é que não era o interesse apparente, mas o recondito.
CAPITULO CXXXIV
Cincoenta annos
Não lhes disse ainda,--mas digo-o agora,--que quando Virgilia descia a escada, e o official de marinha me tocava no hombro, tinha eu cincoenta annos. Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo,--ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos,--capeada de dissimulação e duplicidade,--mas emfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Si, porém, empregarmos outra mais sublime, a melhor parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas paginas deste livro.
Cincoenta annos! Não era preciso confessal-o. Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquella occasião, cessado o dialogo com o official de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei á sala, lembrou-me dansar uma polka, embriagar-me das luzes, das flores, dos crystaes, dos olhos bonitos, e do borburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, ás quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? Os meus cincoenta annos. Lá estavam elles os teimosos, não tolhidos de frio, nem rheumaticos,--mas cochillando a sua fadiga, um pouco cobiçosos de cama e de repouso. Então,--e vejam até que ponto póde ir a imaginação de um homem, com somno,--então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho:--Sr. Braz Cubas, a rejuvenescencia estava na sala, nos crystaes, nas luzes, nas sedas,--emfim, nos outros.
CAPITULO CXXXV
Oblivion
E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas paginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ella extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cincoenta annos! Não é ainda a invalidez, mais já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglez dizia, entenderei que «cousa é não achar já quem se lembre de meus paes, e de que modo me ha de encarar o proprio ESQUECIMENTO.»
Vae em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo é que se dem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno, conviva da ultima hora, mas certo. Sabe-o a dama que luziu na aurora do actual reinado; e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministerio Paraná, porque esta acha-se mais perto do triumpho, e sente já que outras lhe tomaram o carro. Então, se é digna de si mesma, não teima em espertar a lembrança morta ou expirante; não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de hontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. _Tempora mutantur._ E ella comprehenderá que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem excepção nem piedade; e se tiver um pouco de philosophia, não invejará, mas lastimará as que lhe tomaram o carro, porque tambem ellas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION. Espectaculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.
CAPITULO CXXXVI
Inutilidade
Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capitulo inútil.
CAPITULO CXXXVII
A barretina
E dahi, não; elle resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba, accrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras cousas tristes. Mas esse philosopho, com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia.
--Meu caro Braz Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho! é preciso ser homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cincoenta annos é a edade da sciencia e do governo. Animo, Braz Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa successão de ruina a ruina ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a peor philosophia é a do choramigas que se deita á margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das aguas. O officio dellas é não parar nunca; accommoda-te com a lei, e trata de aproveital-a.
Ve-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande philosopho. As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos lá; façamo-nos governo. Crel-o-eis, posteros? Eu não havia intervindo até então nos grandes debates. Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, commissões e votos; e a pasta não vinha. Urgia apoderar-me da tribuna.
Comecei de vagar. Tres dias depois, discutindo-se o orçamento da justiça, aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava util diminuir a barretina da guarda nacional. Não tinha vasto alcance o objecto da pergunta; mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado; e citei Philopemen, que ordenou a substituição dos broqueis de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem assim as lanças, que eram demasiado leves; facto que a historia não achou que desmentisse a gravidade de suas paginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um córte profundo, não só por serem deselegantes, mas tambem por serem anti-hygienicas. Nas paradas, ao sol, o excesso do calor produzido por ellas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hippocrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saude e a vida, e consequentemente o futuro da familia. A camara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independencia, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, frequente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuisse o onus, decretando um uniforme leve e maneiro. Accrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a patria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e conclui com esta idéa: O chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é arvore de cemiterio; a palmeira, erecta e firme, é arvore do deserto, das praças e dos jardins.
Vária foi a impressão deste discurso. Quanto á forma, ao rapto eloquente, á parte litteraria e philosophica, a opinião foi só uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma barretina ninguem ainda conseguira tirar tantas idéas. Mas a parte politica foi considerada por muitos deploravel; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; emfim, vieram dizer-me que outros me davam já em opposição, entrando nesse numero os opposicionistas da camara, que chegaram a insinuar a conveniencia de uma moção de desconfiança. Repelli energicamente tal interpretação, que não era só erronea, mas calumniosa, á vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; accrescentei que a necessidade de diminuir a barretina, não era tamanha que não pudesse esperar alguns annos; e que, em todo caso, eu transigiria na extensão do córte, contentando-me com tres quartos de polegada ou menos; emfim, dado mesmo que a minha idéa não fosse adoptada, bastava-me tel-a iniciado no parlamento.
O Quincas Borba, porém, não fez restricção alguma. Não sou homem politico, disse-me elle ao jantar; não sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excellente discurso. E então notou as partes mais salientes, as bellas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande philosopho; depois, tomou o assumpto á sua conta, e impugnou a barretina com tal força, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me effectivamente do seu perigo.
CAPITULO CXXXVIII
A um Critico
Meu caro critico,
Algumas paginas atraz, dizendo eu que tinha cincoenta annos, accrescentei: «Já se vae sentindo que o meu estylo não é tão lesto como nos primeiros dias.» Talvez aches esta phrase incomprehensivel, sabendo-se o meu actual estado; mas eu chamo a tua attenção para a subtileza daquelle pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada phase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo.
CAPITULO CXXXIX
De como não fui ministro de estado
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
CAPITULO CXL
Que explica o anterior
Ha cousas que melhor se dizem calando; tal é a materia do capitulo anterior. Podem entendel-o os ambiciosos mallogrados. Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dôr, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da camara dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira politica. E notem que o Quincas Borba, por inducções philosophicas que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião delle, este sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque orça pelo amor que as mulheres tem ás rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava elle, por isso mesmo que os queima a paixão do poder, lá chegam á fina força, ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; e dahi a maior afflicção, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo...
--Vae para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de philosophias que me não levam a cousa nenhuma.