Memorias Posthumas de Braz Cubas
Part 13
Que lhe custasse creio; naquelles dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe muito. Mas o tempo (e é outro ponto em que eu espero a indulgencia dos homens pensadores!), o tempo calleja a sensibilidade, e oblitera a memoria das cousas; era de suppor que os annos lhe despontassem os espinhos, que a distancia dos factos apagasse os respectivos contornos, que uma sombra de duvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; emfim, que a opinião se occupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria satisfazer as ambições do pae; seria o herdeiro de todos os seus affectos. Isso, e a actividade externa, e o prestigio publico, e a velhice depois, a doença, o declinio, a morte, um responso, uma noticia biographica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pagina de sangue.
CAPITULO CXIII
A solda
A conclusão, se ha alguma no capitulo anterior, é que a opinião é uma bôa solda das instituições domesticas. Não é impossivel que eu desenvolva este pensamento, antes de acabar o livro; mas tambem não é impossivel que o deixe como está. De um ou de outro modo, é uma bôa solda a opinião, e tanto na ordem domestica, como na politica. Alguns metaphysicos biliosos tem chegado ao extremo de a darem como simples producto da gente chocha ou mediocre; mas é evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os effeitos salutares da opinião, para concluir que ella é a obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior numero.
CAPITULO CXIV
Fim de um dialogo
--Sim, é amanhã. Você vae a bordo?
--Está douda? É impossível.
--Então, adeus!
--Adeus!
--Não se esqueça de D. Placida. Vá vel-a algumas vezes. Coitada! Foi hontem despedir-se de nós; chorou muito, disse que eu não a veria mais... É uma boa creatura, não?
--Certamente.
--Se tivermos de escrever, ella receberá as cartas. Agora até daqui a...
--Talvez dous annos?
--Qual! elle diz que é só até fazer as eleições.
--Sim? então até breve. Olhe que estão olhando para nós.
--Quem?
--Alli do sophá. Separemo-nos.
--Custa-me muito.
--Mas é preciso; adeus, Virgilia!
--Até breve. Adeus!
CAPITULO CXV
O almoço
Não a vi partir; mas á hora marcada senti alguma cousa que não era dor nem prazer, uma cousa mixta, allivio e saudade, tudo misturado, em eguaes doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titillar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lagrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biographico. A realidade pura é que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e ao estomago com os acepipes de Mr. Pruddon...
...Velhos do meu tempo, lembrai-vos desse mestre cosinheiro do hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palacios do conde Molé e do duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de Janeiro com a polka... A polka, Mr. Pruddon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Casino, eis algumas das melhores recordações daquelle tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.
Eram, e naquella manhã parece que o diabo do homem adivinhára a nossa catastrophe. Jámais o engenho e a arte lhe foram tão propicios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes! que rebuscado de fórmas! Comia-se com a bocca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia; do contrario, é mui provavel que a deixasse nestas paginas. Sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Elles la iam, mar em fóra, no espaço e no tempo, e eu ficava-me alli n'uma ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos annos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, porque ella poderia tornar e tornou, mas o effluvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde?
CAPITULO CXVI
Philosophia das folhas velhas
Fiquei tão triste com o fim do ultimo capitulo que estava capaz de não escrever este, descançar um pouco, purgar o espirito da melancolia que o empacha, e continuar depois. Mas não, não quero perder tempo.
A partida de Virgilia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias metti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente o Suetonio, mas a fisgal-as de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tedio, e muito devaneio solto. Meu tio conego morreu nesse intervallo; item, dous primos; e eu não me dei por abalado; levei-os ao cemiterio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem leva cartas ao correio: sellei as cartas, metti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão propria. Foi tambem per esse tempo que nasceu minha sobrinha Venancia, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava ás moscas.
Outras vezes agitava-me. Ia ás gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos parentes, das namoradas, (até as de Marcella), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e recompunha o preterito... Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a philosophia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de tres bicos, botas de sete leguas e longas barbas assyrias, a bailar ao som de uma gaita anacreontica. Guarda as tuas cartas da juventude!
Ou, se te não apraz o chapéu de tres bicos, empregarei a locução de um velho marujo, familiar da casa do Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, acharás occasião de «cantar uma saudade.» Parece que os nossos marujos dão este nome ás cantigas de terra, entoadas no alto mar. Como expressão poetica, é o que se póde exigir mais triste.
CAPITULO CXVII
O Humanitismo
Duas forças, porém, além de uma terceira, compelliam-me a tornar á vida agitada do costume: Sabina e o Quincas Borba. Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhã-loló de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moça quasi nos braços. Quanto ao Quincas Borba, expoz-me emfim o Humanitismo, systema de philosophia destinado a arruinar todos os demais systemas.
--Humanitas, dizia elle, o principio das cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens. Conta tres phases Humanitas; a _statica_, anterior a toda a creação; a _expansiva_, começo das cousas; a _dispersiva_, apparecimento do homem; e contará mais uma, a _contractiva_, absorpção do homem e das cousas. A _expansão_, iniciando o universo, suggeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e dahi a _dispersão_, que não é mais do que a multiplicação personificada da substancia original.
Como me não apparecesse assaz clara esta exposição, o Quincas Borba desenvolveu-a de um modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do systema. Explicou-me que, por um lado, o Humanitismo ligava-se ao Brahmanismo, a saber, na distribuição dos homens pelas differentes partes do corpo de Humanitas; mas aquillo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação theologica e politica, era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto é, ser _um forte_, não era o mesmo que descender dos cabellos ou da ponta do nariz. Dahi a necessidade de cultivar e temperar o musculo. Hercules ou Herakles não foi senão um symbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto o Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado á verdade, se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mythos. Nada disso acontecerá com o Humanitismo. Nesta egreja nova não ha aventuras faceis, nem quedas, nem tristezas, nem alegrias pueris. O amor, por exemplo, é um sacerdocio, a reproducção um ritual. Como a vida é o maior beneficio do universo, e não ha mendigo que não prefira a miseria á morte (o que é um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmissão da vida, longe de ser uma occasião de galanteio, é a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente ha só uma desgraça: é não nascer.
--Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar comtigo, comer esta batata, ir ao theatro, e para tudo dizer n'uma só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples vehiculo de Humanitas; não, elle é ao mesmo tempo vehiculo, cocheiro e passageiro; elle é o proprio Humanitas reduzido; dahi a necessidade de adorar-se a si proprio. Queres uma prova da superioridade do meu systema? Contempla a inveja. Não ha moralista grego ou turco, christão ou mussulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O accordo é universal, desde os campos da Iduméa até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as rhetoricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma reducção de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente opposto a outro homem, quaesquer que sejam as apparencias contrarias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condemnado póde excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infracção da lei de Humanitas. O mesmo direi do individuo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e ha exemplos) que elle seja egualmente estripado. Si entendeste bem, facilmente comprehenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande funcção do genero humano, todos os sentimentos bellicosos são os mais adequados á sua felicidade. Dahi vem que a inveja é uma virtude.
Para que negal-o? eu estava estupefacto. A clareza da exposição, a logica dos principios, o rigor das consequencias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, em quanto digeria a philosophia nova. O Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triumpho. Tinha uma aza de frango no prato, e trincava-a com philosophica serenidade. Eu fiz-lhe ainda alguma objecções, mas tão frouxas, que elle não gastou muito tempo em destruil-as.
--Para entender bem o meu systema, concluiu elle, importa não esquecer nunca o principio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se dissessemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e elle chupava philosophicamente a aza do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submette a propria viscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu systema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, supponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido um navio o trouxe, um navio construido de madeira cortada no matto por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do apparelho nautico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o unico fim de dar mate ao meu appetite.
Entre o queijo e o café, demonstrou-me o Quincas Borba que o seu systema era a destruição da dôr. A dôr, segundo o Humanitismo, é uma pura illusão. Quando a criança é ameaçada por um páu, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa _predisposição_ é que constitue a base da illusão humana, herdada e transmittida. Não basta certamente a adopção do systema para acabar logo com a dôr; mas é indispensavel; o resto é a natural evolução das cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que elle é o proprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento á substancia original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução porém é tão profunda, que mal se lhe podem assignar alguns milhares de annos.
O Quincas Borba leu-me dahi a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscriptos, de cem paginas cada um, com letra miuda e citações latinas. O ultimo volume compunha-se de um tratado politico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do systema, posto que concebida com um formidavel rigor de logica. Reorganisada a sociedade pelo methodo delle, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anonyma, a miseria, a fome, as doenças; mas sendo esses suppostos flagellos verdadeiros equivocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substancia interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existencia não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando taes flagellos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro á concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruido o systema, e por dous motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substancia creadora e absoluta, cada individuo deveria achar a maior delicia do mundo em sacrificar-se ao principio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio delle, como as estrellas, as brisas, as tamaras e o rhuibarbo. Pangloss, dizia-me elle ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.
CAPITULO CXVIII
A terceira força
A terceira força (Veja a primeira linha do capitulo passado) a terceira força que me chamava ao bulicio era a impaciencia de luzir, e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão attrahia-me, o applauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos objectos de seducção. Se a idéa do emplasto me tem apparecido nesse tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria celebre. Mas o emplasto não veiu. Veiu o desejo de agitar-me em alguma cousa, com alguma cousa e por alguma cousa. _Tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls._ Esta maxima de la Bruyère sempre me pareceu um grande disparate. Não ha duvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.
CAPITULO CXIX
Parenthesis
(Haverá uma critica tão perversa que possa attribuir a minha opinião sobre la Bruyère á inveja das suas maximas? Eu aparo desde já esse golpe, transcrevendo algumas das que compuz por aquelle tempo, e rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prélo. Fil-as n'um periodo em que a flor amarella do capitulo XXV tornára a abrir; eram bocejos de enfado. E se não vejam:
Supporta-se com paciência a colica do proximo.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
Um cocheiro philosopho costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.
Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
Não se comprehende que um botocudo fure o beiço para enfeital-o com um pedaço de páu. Esta reflexão é de um joalheiro.
Não te irrites se te pagarem mal um beneficio: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)
CAPITULO CXX
Compelle intrare
--Não, senhor, agora quer você queira, quer não, ha de casar, disse-me Sabina. Que bello futuro! Um solteirão sem filhos.
Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéa de ter filhos deu-me um sobresalto; percorreu-me outra vez o fluido mysterioso. Sim, cumpria ser pae. A vida celibata podia ter certas vantagens proprias, mas seriam tenues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; impossivel. Dispuz-me a aceitar tudo, ainda mesmo a alliança do Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no Quincas Borba, fui ter com elle e expuz-lhe os movimentos internos da minha paternidade. O philosopho ouviu-me com alvoroço; declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio; animou-me ao casamento; ponderou que eram mais alguns convivas que batiam á porta, etc. _Compelle intrare_, como dizia Jesus. E não me deixou sem provar que o apologo evangelico não era mais do que um prenuncio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.
CAPITULO CXXI
Morro abaixo
No fim de tres mezes, ia tudo á maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pae, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimonio. A lembrança de Virgilia apparecia de quando em quando, á porta; e com ella um diabo negro, que me mettia á cara um espelho, no qual eu via ao longe Virgilia desfeita em lagrimas; mas outro diabo vinha, côr de rosa, com outro espelho, em que se reflectia a figura de Nhã-loló, terna, luminosa, angelica.
Não falo dos annos. Eu não os sentia; acrescentarei até que os deitára fóra, certo domingo, em que fui á missa na capella do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes á missa. O morro estava ainda nú de habitações, salvo o velho palacete do alto, onde era a capella. Pois um domingo, ao descer com Nhã-loló pelo braço, não sei que phenomeno se deu que fui deixando aqui dous annos, alli quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte annos apenas, tão lépidos como elles tinham sido.
Agora, se querem saber em que circumstancias se deu o phenomeno, basta-lhes ler este capitulo até o fim. Vinhamos da missa, ella, o pae e eu. No meio do morro achámos um grupo de homens. O Damasceno, que vinha ao pé de nós, percebeu o que era e adiantou-se alvoroçado; nós fomos atraz delle. E vimos isto: homens de todas as edades, tamanhos e côres, uns em mangas de camisa, outros de jaqueta, outros mettidos em sobrecasacas esfrangalhadas; attitudes diversas, uns de cócaras, outros com as mãos apoiadas nos joelhos, estes sentados em pedras, aquelles encostados ao muro; e todos com os olhos fixos no centro, e as almas debruçadas das pupillas.
--Que é? perguntou-me Nhã-loló.
Fiz-lhe signal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos me foram cedendo espaço, sem que positivamente ninguem me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga de gallos. Vi os dous contendores, dous gallos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava desplumado e rubro; invadia-os o cançasso. Mas lutavam ainda assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquelle, vibrantes e raivosos. O Damasceno não sabia mais de nada; o espectaculo eliminou para elle todo o universo. Em vão lhe disse que era tempo de descer: elle não respondia, não ouvia, concentrara-se no duello. A briga de gallos era uma de suas paixões.
Foi nessa occasião que Nhã-loló me puxou brandamente pelo braço, dizendo que nos fossemos embora. Aceitei o conselho e vim com ella por alli abaixo. Já disse que o morro era então deshabitado; disse-lhes tambem que vinhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. Tão forte que eu abri logo o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo que ajuntei uma pagina á philosophia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas... Foi assim que os annos me vieram caindo pelo morro abaixo.
Ao sopé detivemo-nos alguns minutos; á espera do Damasceno; elle veiu dahi a pouco, rodeado dos apostadores, a commentar com elles a briga. Um destes, thesoureiro das apostas, distribuia um velho maço de notas de dez tostões, que os triumphadores recebiam duplamente alegres. Quanto aos gallos vinham sobraçados pelo respectivo dono. Um delles trazia a crista tão comida e ensanguentada, que vi logo nelle o vencido; mas era engano,--o vencido era o outro, que não trazia crista nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo, esfalfados. Os apostadores, ao contrario, vinham alegres, sem embargo das fortes commoções da luta; biographavam os contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando, vexado; Nhã-loló, vexadissima.
CAPITULO CXXII
Uma intenção mui fina
O que vexava a Nhã-loló era o pae. A facilidade com que elle se mettêra com os apostadores punha em relevo antigos costumes e affinidades sociaes; e Nhã-loló chegára a temer que tal sogro me parecesse indigno. Era notavel a differença que ella fazia de si mesma; estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida attrahia-a, principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nhã-loló observava, imitava, adivinhava; ao mesmo tempo dava-se ao esforço de mascarar a inferioridade da familia. Naquelle dia, porém, a manifestação do pae foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu busquei então divertil-a do assumpto, dizendo-lhe muitas chanças e motes de bom tom; vãos esforços, que não a alegravam mais. Era tão profundo o abatimento, tão expressivo o desanimo, que eu cheguei a attribuir a Nhã-loló a intenção positiva de separar, no meu espirito, a sua causa da causa do pae. Este sentimento pareceu-me de grande elevação; era uma affinidade mais entre nós.
--Não ha remedio, disse eu commigo, vou arrancar esta flor a este pantano.
CAPITULO CXXIII
O verdadeiro Cotrim
Não obstante os meus quarenta e tantos annos, como eu amasse a harmonia da familia, entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Elle ouviu-me e respondeu-me seriamente que não tinha opinião em negocio de parentes seus. Podiam suppor-lhe algum interesse, se acaso louvasse, as raras prendas de Nhã-loló; por isso calava-se. Mais: estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão, mas se ella o consultasse, o seu conselho seria negativo. Não era levado por nenhum odio; apreciava as minhas bôas qualidades,--não se fartava de as elogiar, como era de justiça; e pelo que respeita a Nhã-loló, não chegaria jámais a negar que era noiva excellente; mas dahi a aconselhar o casamento ia um abysmo.
--Lavo inteiramente as mãos, concluiu elle.
--Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes...
--Isso é outro negocio. Acho que é indispensavel casar, principalmente tendo ambições politicas. Saiba que na politica o celibato é uma rémora. Agora, quanto á noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas confidencias, segundo me disse; mas em todo caso ella não é tia carnal de Nhã-loló, como eu. Olhe... mas não... não digo...
--Diga.
--Não; não digo nada.