Memorias de um pobre diabo

Chapter 3

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Chamava-se Monica; nome que não anda na bocca de todos, e a essa vantagem reune a de ser esdruxulo.

Casára aos vinte nove annos de idade com um rapaz de vinte e quatro; e enviuvou no anno seguinte. Tudo isto foi muito natural, sendo mais natural a morte do rapaz.

Não era bonita, era sympathica. Não era sabia como D. Maria Caetana Agnezi, mas era intelligente; e mais _espiritada_ do que espirituosa. Neste ponto trivialissima.

Lia o portuguez corrente como um juiz de paz, e trazia o francez em sarilho. Tocava a _saloia_ ao piano, e nutria a presumpção de saber contar.

Quando a-conheci seus progenitores já haviam levado a breca.

Pretendeu-a na viuvez um capitalista, tambem viuvo.

Monica accedeu á licita pretenção. Nas vesperas das bodas, revelou-se-lhe o noivo com queda para a literatura-_funda_, ao lêr um artigo, inserto não sei em qual periodico, onde, _ad-rem_, o escriptor citava este aphorismo de Balzac:

«_Un mari ne doit jamais s'endormir le premier ni se réveiller le dernier._»

Seguia-se a traducção, o pomo da discordia: «_O marido não deve pegar no somno antes da mulher e nem acordar depois della._»

--Como isto é fundo! exclamou o capitalista, chamando a attenção da noiva para o conselho em portuguez.

--E o senhor, perguntou Monica, no seu tempo de casado seguio isso á risca?

--Como seguiria, se é agora que sei disto?! Ah! se eu em outro tempo adivinhára... e engasgou-se com o resto. Mas, proseguio, cá me fica no canhenho; conselhos como estes não se perdem.

Confessemos, o capitalista não andava corrente com o _Codigo do Bom-Tom_. Declarar á noiva que um aphorismo de tal jaez lhe ficava no canhenho, foi falta de tino imperdoavel.

Monica, que lia Alphonse Karr e tencionava dar um pulo até á França para comprimentar o autor das _Guêpes_, com o que o Sr. Alphonse Karr, por sem duvida, muito se lisongearia, não contendeu.

Na manhã do dia seguinte pespegou ao capitalista em carta este _bofetão_:

«Senhor.--Toda a noite considerei no conselho de hontem e não me convenci que seja o marido quem deva pegar no somno depois da mulher e acordar antes della, por muitas e longas razões com as quaes eu encheria uma resma de papel, se quizesse argumentar. Tendo V. S. no seu canhenho, tomado nota do conselho, pol-o-ha em pratica depois de casado; achando-me em opposição a semelhante pratica, desisto do meu compromisso. V. S. está livre, disponha do seu coração. Prefiro a _monogamia_ ás desavenças do lar.

«Sua criada

«MONICA.»

Quando um homem recebe nas bochechas um recado destes, é mister que saibam todos o seu nome.

O capitalista chamava-se Joaquim.

CAPITULO XI.

O Sr. Joaquim leu, releu e treleu a carta. Ao depois chamou o guarda-livros.

--Sô Pinto? chegue-se, faça favor.

Pinto aproxima-se.

--Que palavra é esta? pergunta mostrando a Pinto a segunda palavra do remate da carta.

Pinto arregalou os olhos, soletrou a palavra e leu--_monógámia_... e repetio separando as syllabas: Mo-nó-gá-mi-a... Isto não é palavra, decidio.

--A mim tambem me parece que não é, concordou o Sr. Joaquim, cuja intelligencia dava pelo estalão da do outro.

Pinto voltou aos livros.

O Sr. Joaquim garatujou;

«Senhora.--Eu quando digo as cousas é porque sei. Não é debalde que sou viuvo. O meu pezar é ter aberto os olhos quando a mulher fechou os seus. O conselho do periodico é fundo como um poço, e os periodicos quando dizem as cousas--são como eu--sabem o que dizem. Estou no mesmo pé. A mulher ha de pegar no somno antes do marido e acordar depois delle, sem esta condição saia não me torna a entrar em casa. A palavrinha monogamia não leva a resposta devida por não ser palavra.

«E temos conversado.»

Monica revelou-me este episódio uma vez quando lhe disse andar perto de querer casar com ella.

No fim da narração, pendi para a opinião do Sr. Joaquim.

Não sei porque, mais tarde, fizeram barão a este homem, que tanto senso parecia ter!

CAPITULO XII.

Não fui eu, propriamente dito, que cahi na graça da viuva.

Disse-me ella:

--Á primeira vista antipathisei com o teu focinho. Cahio-me no gôto o teu singular modo de amar. Fui sempre enfermiça do desejo de ser amada por um _exquisito_, um original fosse em que fosse. Meu marido foi um homem como os mais, media pela bitola geral. Não se lhe notava particularidade alguma, que o destacasse do _chavão_ commum. Tu me pareceste um homem raro, a julgar pela tua carta.

E case-se um homem _commum_?!

--Tenho desmentido a tua espectativa? perguntei.

--Vais descahindo... vais... ha dias a esta parte: respondeu.

De facto, eu descahia a ôlho.

Que querem?

_L'amour use vite les hommes; il soutient longtemps les femmes..._

Aphorismo é isto.

CAPITULO XIII.

Balzac limpe as mãos á parede.

«É mais facil, diz elle, ser-se amante do que marido, por isso que é mais difficil ter-se espirito todos os dias do que, de quando em quando, amabilidades para dizer».

E quando o amante, meu caro Sr. Balzac, no meu caso, á guisa de marido, cohabita com a amante, é facil ter espirito todos os dias?

Nem uma nem outra cousa. Eu já não tenho que dizer a Monica.

No capitulo passado não briguei com ella por evitar a descripção da queréla. E se não fosse o medico, a botica, o padre, a confissão e depois o enterro, e em seguida as missas e no fim, tres dias de nôjo--matava-a neste.

CAPITULO XIV.

Uma tarde, no largo de S. Francisco de Paula, no espaço onde plantaram o actual lampeão, que lá existe com ar de vedeta desarmada, encontrando-me com o meu velho amigo Simphoriano, o unico que possuo com este nome, me disse elle:

--Que tens tu? estás pallido como uma abobora?

Simphoriano é filho de uma provincia do Norte, cujos naturaes chamam _pallidas_ ás aboboras _maduras_.

--Falta de sangue, meu caro; o sangue se me aguou todo, depois da ictericia, respondi.

Elle sabia que essa doença me acommettera havia dous annos.

--E a magreza? replicou.

--Que queres? transpira-se muito neste Rio de Janeiro... o sol derrete...

--Fosse essa a causa...

--Não sei de outra.

--Disse-me o Patricio (Patricio era um _trocatintas_ do meu conhecimento), que tu _sacrificas em demazia ás graças_...

--És tu quem sacrifica a verdade á peta, trepliquei, pelo gostinho de alardeares certa illustração. Quem ainda não sabe que Platão aconselhava ao discipulo Xenócrates, austero, como Newton, nos costumes, a sacrificar ás graças? Ouve o que do mesmo Xenócrates disse o padre José Agostinho na _Viagem extatica_:

«Da belleza inimigo e da ternura, Xenócrates descubro austero e triste, Vergonhoso baldão da especie humana, Que nem ao vivo scintilar de uns olhos, Nem ao mago sorriso deslizado De um labio, côr de purpura, ou de rosas, Ou aos aureos anneis de tranças de ouro, Da natureza escuta a voz suave, E sopro avivador, que atêa o fogo, Tão grato ao coração, que é delle a vida; Fogo, que até do mar no abysmo fundo Sujeita a seu imperio equóreos monstros, E a sanguinario tigre, indocil sempre, Amar ensina, e conhecer ternura.»

--Isto disse o padre, como entendedor que era, na _Viagem extatica_ que, ao depois, crismou com o nome de _Newton_ emendando entre outros, este verso, que tu nem ninguem recitará sem ao principio latir o seu pouco:

OU AOS AUREOS--anneis de tranças de ouro.

--Concorda, prosegui, não me achaste descalço. Agora o suppores que abuso do _sacrificio_ é outro engano. O _nequid nimis_--equivalente ao preceito de Hippocrates:

«_Omne nimium naturae inimicum est_» foi sempre a minha divisa.

Houve excepção....

Simphoriano ia tomando a mão.

Atalhei-o, já esquentado.

--Andas sempre a prasmar contra os que sacrificam ás graças. Quererás ser tido na conta dos ditos Xenócrates e Newton ou de Kan, Vico, W. Pitt ou Carlos XII?

Pensas que ignoro que Mirabeau morreu aos quarenta e dous annos em consequencia do abuso desse sacrificio e que pela mesma consequencia morreria Bichat, a quem Bourg levantou uma estatua, se não morresse em 1802 aos trinta e um annos, da queda que deu descendo as escadas do _Hotel de Dieu_ cujo medico era? Vês que ás apalpadellas não ando nos factos da historia, e será bom que percas o sestro de _literato á la violeta_.

Com effeito, Simphoriano era boa creatura, mas não soltava tres palavras sem citar dous ditos ou nomes de homens celebres, seus conhecidos--pelos catalagos dos livros.

E eu sem saber o cabo que darei a Monica?!

CAPITULO XV.

--Estás sufficientemente barbado, proseguia de outra feita o meu amigo. A ultima de mão que a natureza dá ao homem são as barbas....

Isto dito em francez--passava a proverbio.

--Portanto, continuava elle, és homem feito, em todos os sentidos.

--Em sentido algum, nunca deixei....

--Não me atrapalhes e nem comeces a zombar, senão, calo-me. Trata-se de cousa séria; sou mais velho, sou teu amigo, ouve-me.

--Sou todo ouvidos, falla.

--Bem. Estás perto dos trinta annos...

--Cinco annos distante...

--Aos vinte e cinco já se tem andado quazi meio caminho da vida. Na outra metade precisamos pôr todo o cuidado. D'aqui a vinte e cinco annos serás velho, e esse espaço de tempo, além de curto, passa com a velocidade do vento. Em que te occupas presentemente? Dás pasto á ociosidade abusando da tua compleição.... vives, portas a dentro, com uma desgraçada, que te suga a seiva da mocidade e até os brios...

--Alto lá....

--E os brios, sim. Que esperas do futuro? o menospreço publico--a mais digna herança dos _chichisbéos_....

--Perdôa-me, atalhei-o, senão arrebento. De accordo com o _Diccionario do amor_, chichisbéo é, commummente, um celibatario maduro, namorador assiduo, servo de uma mulher casada com todos os _onus_ do marido, excepto os _lucros_... Ora;--não me deves metter na conta dos celibatarios, por que, ha dous dias, posso dizer, cheguei á idade rébora, juridicamente fallando; e quanto á _graça_ a quem _sacrifico_ é viuva e o homem, que foi seu marido, já está livre dos onus... Applica-me outro substantivo, menos esse.

--Como enxergas tudo, rematou Simphoriano murchamente, pelo prisma da facecia, tua alma--tua palma, adeus.

E desappareceu na primeira esquina da rua o unico amigo, que eu possuia com aquelle nome.

CAPITULO XVI.

Cocegaram-me o arrependimento aquellas palavras.

Cocegar era o unico verbo cuja falta se sentia na lingua portugueza. Criei-o, ahi fica. Não m'o-estraguem.

Percorri com os olhos o horizonte do meu futuro. Trevas e só trevas... nenhum vagalume, no espaço!

Cheguei a casa com vontade de brigar.

Monica, que não levou ainda a breca, estava risonha, como um dia de primavera.

Eu levava o inverno dentro d'alma.

--Chegas a proposito, disse acariciando-me; lê esta cartinha.

Tomei-a e li sem desfranzir as sobrancelhas:

«Senhora Dona Monica.

«Participo-lhe, para seu castigo, que tirei o _diploma_ de barão, ficando a senhora sem ser barôa por querer pegar no somno depois de mim...»

--De quem é esta carta? bufei, arremessando-a precipitadamente ao soalho, sem terminar a leitura.

--De quem ha de ser? do Joaquim, respondeu Monica.

--Qual Joaquim?

--O Joaquim do aphorismo, aquelle capitalista... mas estás pallido e a ranger os dentes! que tens?

--Remorsos, senhora! respondi já de cothurnos. Remorsos, perfida, tres vezes perfida! Era assim que tu correspondias ao meu amor! era assim! entretendo relações pela surdina com esse Sr. Joaquim, que já é barão! Com que cara hei de sahir á rua?!

--Vossê endoideceu, homem! diz ella, rindo-se a bandeiras despregadas.

--Doido!... sim, mulher, endoideci... com um _endoideceu_ é que se desculpa o escandalo!! Mulheres! mulheres! todas são a mesma estampa...

--Com flores o punhal disfarçam rindo!

--Ande vêr a minha mala, senhora, quero sahir desta casa...

--Qual mala nem pêra mala! objectou com despreso ironico; vossê quando entrou nesta casa não trouxe a mala, se é que algum dia a-teve.

Tolerei a vergalhada sem replicar.

--Quer sahir, saia, proseguio, ingrato de um dardo! não me deixa saudades; e saiba que já não estou em Paris por sua causa; ainda tenho com que pagar a passagem.

--Pois, não a-demorarei mais. O paquete parte a vinte e cinco, estamos a dezoito, sobejam-lhe sete dias para arrumar os bahús. Boa-viagem. Se encontrar no Mabille o Alphonse Karr, dê-lhe lembranças minhas.

E sahi.

E lá vai a Monica...

CAPITULO XVII.

Cahia a noite e a chuva.

Não se me dava a queda da noite, importava-me a queda da agua.

Eu não tinha guarda-chuva.

Identificando o corpo com as paredes das casas, cheguei ao _Restaurant_ do Mangini ensopado como uma garoupa de escabeche, pois que fallei em restaurant.

Por felicidade das tres quatro partes do genero humano, se a agua da chuva tem a propriedade de ensopar o facto, este tem a de enxugar passado o preciso tempo. Panno para mangas tinha eu aqui, se quizesse mostrar até onde chego em physica.

Assentei-me junto a uma meza, onde não dava em cheio a luz.

Nenhum dos caixeiros do estabelecimento fez conta da minha _humida-individualidade_.

Cheguei no momento em que um sujeito, galhardamente vestido á moderna, travava razões com um dos caixeiros. Dizia elle, calçando as luvas e olhando de travez para a nota da despeza, que fizera:

--Oh! senhor! esta conta está exacta? em que despendi essa enorme somma? nem no hotel da Europa.

--V. S. veja a lista, acodia o caixeiro.

--Vêr o que, homem? pois eu quando como, olho lá o preço das iguarias? peço o que quero, porque não venho a estas casas comer de graça, fique sabendo, mas isto é um roubo.

--Confira pela lista e verá que lhe não levamos um vintem de mais...

--Não sou conferente de casas de pasto, ouvio? bradou o homem com nobre altivez. Confira vossê.

O proprietario do estabelecimento que se achava ao balcão, dirige-se ao cavalheiro, e com bons modos, lhe disse que se não amofinasse, que a conta estava exacta, mas se não queria pagar--seria o mesmo.

--Tenho muito dinheiro, alardeou o freguez; não preciso do seu jantar. Nem ando comendo nos _botequins_; se entrei neste, antes foi para esperar que passasse a chuva do que para outro fim. Almoço, janto e ceio no hotel da Europa, porém, não quero ser roubado, não estamos na Siberia.

Ein, Siberia?

--Pois, senhor, a chuva já passou, V. S. não deve nada, respondeu o proprietario.

--Então, não reforma a conta?

--Está exacta.

--Ah! está exacta! pois sim, já disse que não estamos na Siberia, adeus.

E partio.

O dono da casa aproximou-se-me dizendo;

--Veja isto; um homem, que calça luvas de pellica, almoça, janta e ceia no hotel da Europa, sahe d'aqui deixando o debito de dous mil setecentos e sessenta réis. Ha de vêr que é sustentado por alguma...

Não o-deixei acabar, todo o corpo se me arrepiou...

--Um calix de cognac!

CAPITULO XVIII.

Sorvendo a ultima gota do licor, affigurou-se-me Monica arrumando as malas.

--Monica vai para Paris, disse entre mim. O Sr, Joaquim já é barão... e eu aqui fico, sem eira nem beira... nem ao menos sou commendador!... Paris! todos fallam em Paris e eu mesmo já o-descrevi em verso, sem ainda lá ter ido:

Paris! Paris! Paris! terra de encantos, Eterno, ebri-festante paraiso, Aonde os risos de prazer são tantos, Que só é sério quem não tem juizo!...

As melhores descripções são devidas aos que pintam lugares, que nunca viram. Isto já passa em julgado e, passará a anexim, quando apparecer o meu romance passado om Djirjeh, no alto Egypto, aonde não pretendo jámais pizar.

CAPITULO XIX.

Decidido a mudar de rumo, fui levar essa nova a Simphoriano.

Entrei pé ante pé. O meu amigo estudava. Simphoriano ainda acreditava que, para se saber alguma cousa, fosse mister--queimar as pestanas. Toleirão por esse lado.

Não se convencia que a _sapience-moufle_ do filho de Gargantua é a que mais _apanha_ neste abençoado torrão, aonde de meia em meia braça se esbarra a gente com um Dr. Tubal Holoferne.

Isto não offende a ninguem... É pura inveja.

CAPITULO XX.

--Boa noite, Simphoriano!

--Ah!... Sê bem vindo.

--Deus te pague. O que fazes?

--Nada; estou lendo.

--A _Historia de Cezar_, por Napoleão?

--Leio Humboldt.

--Perdes o tempo: Humboldt não sabia nada, foi um pessimo copista de Plinio.

--Sim? quando leste Plinio?

--Nunca, e nem Humboldt e nem precisava para formar o meu juizo.

--Achaste a pedra philosophal?

--Nem nada. Ouvi dizer que Plinio estudava a natureza; depois me disseram que o mesmo fez Humboldt. Logo, tudo quanto este fez copiou do outro, isto é logico. Seja lá no que fôr, segue este methodo e farás figura, passando por sabio. Ideias associadas, Humboldt foi barão e o Sr. Joaquim tambem já o-é. E, passando a inscrever o nome na nobiliarchia deste Imperio, julgou-se com direito de enviar um epigramma á _graça_ á qual não _sacrificarei_ mais, o que te participo, sob a condição de uma hospedagem por esta noite, senão vou dormir ao relento.

E narrei o succedido.

Simphoriano pulou de contentamento.

Fallou em _regeneração_ (palavrinha a mais elastica dos tempos modernos), citando todos os moralistas das cinco partes do globo, inclusive um poeta de nome Sadi ou Saadi, que elle jurou ser perso e eu suppunha italiano, por acabar o nome em--_i._--

Prasmou contra o meu passado aconselhando-me a cuidar do futuro.

--Vejo por ahi muitos futuros á feição do meu desejo, mas os homens não me protegem.

--Homem, sentenciou o meu amigo, é aquelle que é o que quer ser e não o que os outros querem que elle seja. Toma nota disto. Arrima-te na perseverança; faze della bastão e caminha. Caminha... e se encontrares obstaculos, que te empeçam os passos, desanda-lhes a perseverança. Tornam a apparecer adiante? torna a dar. Dá, dá de rijo, dá a valer, não te doam os pulsos e verás se chegas a ser o que quizeres.

Copiei a receita para matar os obstaculos, mas em vez de bastão comprei um guarda sol, que tambem guarda da chuva e serve de bengala sendo preciso.

CAPITULO XXI.

Por desobriga de minha consciencia, respondi á mofa do Sr. Joaquim. Exigia a lembrança do passado que eu vingasse a viuva da affronta do capitalista. Mandei-lhe a resposta. Ignoro se elle a-recebeu e se Monica chegou a ter conhecimento da remessa feita em seu nome.

Disse-lhe:

_Illm. e Exm. Sr. Joaquim, barão._

«E tenho observado que, ha trinta annos a esta parte, essa molestia (_empanturração_) só aos burros cançados e a _certos barões_ acommette... (Dr. Gomez d'Eça. Art. Veterinaria; cap. XXV, § II--; edição de Simão Thadeo Ferreira. Lisboa 1718)»

Sua criada

«MONICA.»

E ficamos, de uma vez para sempre, livres della e do barão, que já se me ia apegando.

Abrenuntio!

CAPITULO XXII.

Até esta data, comigo ainda não se verificou a sentença _si vis potes_. Ha quatro annos--_quero_--succeder na herança de uma velha rica e nenhuma ainda morreu, que se lembrasse de mim. Isto é o menos.

_Quero_--que o tabellião, em cujo cartorio sou _copista_,--augmente _dez vintens_ no meu salario de mil réis e em vão tenho querido isto--ha quarenta e oito mezes.

Não obstante, vislumbro ainda muitas esperanças, mormente, quando considero que o mesmo Simphoriano _quiz_ ser e _foi_ condecorado pelos relevantes serviços, que prestou ao Brazil no Paraguay aonde nunca poz os pés!... (É facto).

Tambem o padre Severino _quiz_ ser vigario e _foi_,--e a população da freguezia... _cresce_...

EPILOGO DA TERCEIRA E ULTIMA PARTE.

Agua vai!

Quem em dias de sua vida não pregou um calote?

Esperava o leitor que os meus conhecidos morressem apunhalados, e, sabidas as contas, apenas falleceram dous, em consequencia dos remedios das boticas!

Fallei em bodas e o Sr. Joaquim roeu-nos a corda.

Moraes no seu diccionario, a proposito da palavra--_boi_, cita estes versos:

Coisas ha hi que passam sem ser cridas, E coisas cridas ha nunca passadas...

E eu, a proposito do amor, fui mais laconico que o _veni, vidi, vici_; tantas vezes citado e nem uma só comprehendido!

Puz em scena um enthusiasta do genio e não me referi ao--_stultorum infinitus est numerus_ de Salomão!

Abiquei o Parnaso e não arenguei á cerca da impropriedade deste decasyllabo de Francisco Manoel:

_Capri-barbi-corní-pedes-felpudos!_

Agatanhei Plinio e não trouxe á balha o livro 7.º cap. 9.º onde diz que a--_gloria para uma mulher é suspender das orelhas duas perolas_!

Notei Pantagruel e não aproveitei este remate de um discurso, (vai a um de fundo):

_dos poros dos nossos corações, transuda a mais pura essencia, que póde ser respirada pelo olfacto da patria;_[3]

para analysar o _Tratado do Sublime_ do conselheiro da rainha Zenobia!

Embarquei Monica para a França e não lhe besuntei os labios com o adeus de Scipião ao sahir de Roma:

_Ingrata patria, non possidebis ossa mea!_

Tropecei no _commumnismo_ e nem patavina com referencia á _Republica_ de Platão, ou á _Utopia_ do Moro, ou á _Civitas solis_ de Thomaz de Campanella, o Calabrez, que nunca li.

Obviei... É tarde.

Ah! se não fosse tarde! Só na applicação, que Monica fez da palavra _monogamia_ (que não é palavra, conforme decidiram o capitalista e o seu guarda-livros), tinhamos materia para um in-folio, se, ácinte, eu pretendesse revoltar contra mim trezentos e sessenta e cinco doutores, pelo minimo. Mas é que tenho teiró ás inimizades.

E os plagiatos? Neste ponto o reverendo padre Severino fôra como um Potosi. Tem-lhe custado caro alguns! Rendeu-lhe, por exemplo, tres mezes de cama esta odesinha copiada, assignada e enviada a quem não a inspirara.

A M.... (_O original dizia--A R...._)

Não cumpriste o promettido, Teu marido, Teu marido t'o-privou! Não te salva essa desculpa... Teve a culpa, Teve a culpa--quem faltou. --- Teu marido... oh que embaraço Erro crasso; Erro crasso, e provo-o já; Elle velava ou dormia: Que fazia? Que fazia, dize lá? --- Se velava e... cobiçoso... Desejoso... Desejoso em... te ameigar... Entre os braços te-prendia; Não podia, Não te-podia... _obrigar_... --- Se dormia--estava morto. Franco o _porto_... Franco o porto estava então... Mas, não dormia; velava, Devorava... Devorava o meu _quinhão_... --- Adormeceste cançada, Fatigada, Fatigada... Deus do Céo! Elle tambem--fatigado, Do seu lado, A teu lado adormeceu! --- E eu? lá ao sereno exposto! Dando o gôsto, Dando o gosto ao meu rival, De me vêr magro... e desfeito, Pelo effeito, Effeito... da catarrhal! --- Não cumpriste o promettido! Teu marido, Teu marido t'o-privou; Não te salva essa desculpa: Teve a culpa Quem com elle se _fartou_...

Pobre pastor!

Verificou-se-lhe no lombo o rifão--guardado está o bocado para quem o hade comer.

Eu compuz as estrophes e elle comeu a... sova!

Antes assim! que lhe faça bom proveito.

...........

Leitor!... talvez não acredites e no entanto assim é: vou passar a limpo uma escriptura!

Se alguma vez eu escrever as minhas aventuras, abarrotar-te-hei de _pasteis_....

_P. S._

POSTERIDADE!

--Fallei a puro esmo em quanto disse.... da minha pessoa. Quando escreveres a minha biographia procura em outra fonte os apontamentos, senão irás de gatinhas como até esta data em todas as mais... tens ido.

FIM.

[1] E se ha ahi quem saiba de algum remedio, que repare essa doença, annuncie pelos jornaes, por especial favor a uma creatura sugeita, desde aquella época até hoje, aos seus accessos.