Memorias de um pobre diabo

Chapter 2

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«Illm. Sr.--Que eu deva não admira, todos os autores celebres têm contrahido dividas com a imprensa, e sabem todos que a machina inventada por Guttemberg não é simplesmente machina de imprimir, é tambem _machina de abonar o credito dos homens_. O que, porém, admira até os calcanhares é um sectario de Guttemberg menospresar a seiva, digamos assim, de que se nutre a imprensa, isto é, os fructos da intelligencia. V. S. é um renegado, queira perdoar. Commetteu crime de leza-literattura-nacional traçando o seu recado nas costas, digo, no reverso da prova da minha poesia intitulada a _Piroga_! Suspenda, portanto, a continuação da impressão do meu volume, até minha segunda ordem.»

Levou a lição!

CAPITULO V.

Em verdade, eu devia ao prélo cento e treze mil e quinhentos réis.

Do que me gabo hoje é que, actualmente nas typographias, o credito dos escriptores não monta áquella quantia.

--Diabo!.. ruminei, alguns jornaes já annunciaram o proximo apparecimento de minhas poesias: se não satisfaço a conta pára a impressão; se a impressão pára, começam os typographos a decorar os versos impressos... elles então que são _cantadores de modinhas_! e decorados, adeus novidade! Ruminando na solucção do imprevisto embaraço, fui interrompido pelo padre Severino. Conhecem-o?

Eu tambem já o-conhecia.

O reverendo entrou pelo meu habitaculo clamando:

--Leva-me preso comtigo N'um fio dos teus cabellos!

--Glose este motte, meu poeta.

Nós já nos não respeitavamos.

--Ouça isto, foi proseguindo:

Não se sabe apartar quem ama e pena, E quem nisto é mais fraco, este é mais forte; A dôr da mesma morte é mais pequena, Que quem morre melhora muito a sorte; Quem morre acaba o mal, quê toda a pena Dura co'a vida sem passar da morte: Maior pena padece o que está ausente, Pois morre de saudade e morto sente.

--O que acha?

--Que li algures...

--Onde homem? isto é meu e muito meu. Pensa vossê que só faz versos? Por mais prosa que a gente seja, batendo-lhe devéras o coração, torna-se poeta. Adivinhe o que me succedeu?

--Suspenderam-lhe as ordens...

--Assim fosse; cousa mais seria; partio para a Bahia a Mariquinhas...

--Qual dellas? o padre falla em tantas...

--A da rua da Lapa, a unica Mariquinhas, que tenho confessado, de olhos azúes. O marido foi removido.

--Coitado do homem!

--Faça idéa do meu pezar ao receber esta noticia, chegando hontem de Petropolis.

--Avalio!

--Vossê, deve escrever um artigo contra o ministerio, tosando a valer o ministro da fazenda. Isso é cousa que se pratique, remover d'aqui para alli e sem porquê um pobre empregado publico?

--E de mais a mais casado!...

--E querem moralidade, e exigem honradez da pobreza obrigando-a a fazer sacrificios... escreva o artigo, mostre tambem saber prosa.

--Mas, padre, porque não o-escreve vossê, que é o interessado?

--Muito obrigado! então vossê porque não é padre, não se interessa pelos seus semelhantes?

_Non sibi soli se natum homo_ _Meminerit..._

Seja menos egoista meu poeta, e glose o motte:

Leva-me preso comtigo N'um fio dos teus cabellos,

que é para eu remetter com aquella oitava a Mariquinhas. Quero uma decima triste, triste como o _miserere_.

--Temos outra. Pois se o padre é quem está triste, porque não compõe a glosa?

--Porque tenho que pregar um sermão na quinta-feira, o vapor sahe amanhã para a Bahia e hoje é terça.

--Pois eu, reverendo, não terei cabeça para glosar motte algum, emquanto não resolver este problema: cento e treze mil e quinhentos réis, que devo, estão para o que tenho, como o que tenho está para X...

E ficamos a olhar um para o outro, durante cinco minutos.

CAPITULO VI.

--É como conto, tornei interrompendo o silencio, devo cento e treze mil e quinhentos réis e não possuo um real para chamariz dos outros.

--A quem deve?

--Á typographia onde estou imprimindo as minhas poesias.

--Vossê ha de ter algum amigo, que lhe empreste essa quantia, nem por isso é grande.

--Empresta-m'a o padre?

--Eu? pobre de mim! Meu caro, nós os padres não ganhamos, como vulgarmente se pensa, mundos e fundos. Quantas vezes tenho, em vez de encommendar á Deus, encommendado ao diabo algumas almas... uma encommendação por dous mil réis só feita ao diabo! Já não se póde viver nesta côrte, acredite-me, encommendando; e por fallar nisto, vou vêr se fallo ao vigario capitular, quero conseguir ao menos, a nomeação de vigario encommendado. Até breve, meu poeta. Tomára já vêl-o em outra posição.

E sahio.

E que me dizem?...

CAPITULO VII.

Suggerio-me á mente uma ideia a visita do padre. Havia elle, dias antes, publicado um estirado artigo relativamente á instrucção publica e com particularidade á _desmoralisação do clero_. Quanto a esta não sei se fallou de cadeira, lá quanto á instrucção deixou impressas mil barbaridades.

--Se o conselho da instrucção publica, pensei, mandasse admittir nas escolas as minhas maximas? E porque não? As de La Rochefoucauld são muito sediças; as do marquez de Maricá inadmissiveis por extensas; as de Vauvenargues ninguem ainda leu; as do conselheiro Bastos ultramontanas exageradas; as de Montesquieu são carapuças politicas; as... as minhas são modernas... e, approvadas pelo conselho da instrucção publica, editores não faltarão.

Estava dada solução ao embaraço dos cento e treze mil e quinhentos; vendi, in-mente, a primeira edição das maximas.

Nesse mesmo dia fiz o requerimento ao conselho da instrucção publica remettendo os originaes. As sommas das maximas montava ao numero 1250, sendo algumas rimadas e outras anotadas--entre parenthesis.

Apreciem-me por esse lado, emquanto avio a lavadeira, que chega a pello.

CAPITULO VIII.

A VIDA:--A vida é um _pique-nique_, e nós, ainda os mais refinados caloteiros, havemos de pagar o nosso _escote_ á morte.

(Para these dos sermões de quarta feira de cinza não conheço outra. O _memento homo_ já não produz nada...)

VERDADE:--Uma verdade é uma mentira ás avessas.

(Difinição a mais clara possivel).

DISPENSA:--[2] A mulher que pensa Engorda a dispensa.

(E a familia toda. Na casa das minhas avós até as baratas da dispensa eram gordas, não fallando nos ratos).

AMOR:--O amôr Não tem côr.

(Neguem, se são capazes).

AMAR:--Quem ama perdoa, E não vive á toa.

CIDADÃO:--O cidadão deve ser para a patria o que o menino é para a escola.

(Conhecem moralista mais governista?)

FALLAR:--Quanto menos fallares ao jantar, Menos fome terás ao ceiar.

(Lição altamente economica).

CHÁ DO VISINHO:--Ha pessoas que tem quebrado muitas abas de chapéo fino e sujado muitas luvas de pellica--pela obrigação de uma chicara de chá do visinho.

(Conheço tres duzias).

PROSPERIDADE HUMANA:--Prosperaria mais a humanidade, se os padres semeassem trigo em vez de absurdos.

(Não creio nisso; escrevi a maxima para bolir com o padre Ventura, que então ainda vivia.)

CONDECORAÇÕES:--Se as condecorações estimulassem o caracter para o bem, a esta hora no Brasil não haveria máos caracteres.

(Negarei a paternidade desta maxima, quando fôr commendador).

BAPTISMO:--O baptismo só é util pelo lado da estatistica.

(Esta é para bolir com o padre Severino.)

ATHEO:--O atheo é um ente tão desprezivel, que, não achando entre os homens quem queira ser seu inimigo, faz-se inimigo de Deus.

(Esta salva as memorias da condemnação do index).

& & & & & & & & & & & &

CAPITULO IX.

Primeiro que as maximas obtivessem despacho, recebi da minha terra uma carta do muito probo Sr. Silva, cognominado pelo vulgo o _tira pelle_, negociante com armazem de _seccos e molhados_ na travessa da Forquilha.

Recommendo este estabelecimento aos que procuram do bom e barato.

O vulgo, que sempre ha de mostrar ser vulgo, cousa baixa e vil e mais baixa e mais vil depois das eleições concluidas, cognominára _tira pelle_ a esse honrado cavalheiro por um facto, que, em seu nome, justificarei.

O Sr. Silva nunca tirou nem pretendeu tirar o couro, quanto mais a pelle, á ninguem.... obrigaram-o a isso.

O meu amigo, actualmente negociante matriculado, começou a vida refinando assucar. Honra lhe seja feita, antes principiar a vida refinando assucar do que leval-a ao cabo na qualidade de refinado vadio, ou refinadissimo velhaco.

Achava-se certa vez na sua labutação, quando apparece na cosinha um individuo, que entrou pela casa como se fosse o dono.

--Sr. Silva! diz o individuo com má catadura.

--Bom dia, Sr. Alves, acode o laborioso refinador; e foi continuando a mecher o tacho com a grande escumadeira.

--Não temos cá bons dias! replica Alves. Quero que diga, quantas arrobas de mascavo-claro mandei refinar.

--Cinco, respondeu o refinador.

--Justas, cinco; e quantas enviou?

--Quatro e meia.

--Justas, quatro e meia. Quatro e meia, sim, quatro e meia.... porém, duas e meia de assucar e as outras do que, Sr. Silva?

--Tambem de assucar, está claro.

--De assucar.... de assucar, êim, Sr. Silva? Digo-lhe, todavia, que entendo de refinação....

--Não duvido.

--Duvide ou não duvide, o que digo, digo. E quando digo que cinco arrobas de assucar são cento e sessenta libras, é porque sei que uma arroba, seja lá do que fôr, tem trinta e duas libras. Ora, sendo certo, como é incontestavel, que cada arroba de mascavo-claro perde na refinação, quando muito cinco libras, é porque tambem sei que em cinco arrobas perderá vinte e cinco, já que a taboada quer que cinco vezes cinco sejam vinte e cinco.

--Noves fóra sete, diz rindo-se Silva.

--Não preciso que o senhor me ensine a tirar os _noves fóra_, o que preciso é saber como é isto....

--O que? pergunta o outro.

--Que devendo eu, por consequencia, receber quatro arrobas e sete libras de assucar refinado, recebi quatro arrobas e meia?

--Está-se mettendo pelos olhos; é que mandei nove libras de mais, segundo a sua taboada.

--A taboada não é minha, Sr. Silva! brada Alves, enfurecendo-se mais. A taboada é de todo o mundo, entendeu?

--Entendi... entendi... responde o meu amigo com santa calma.

--O que é meu é o calculo, e, conforme calculei, entre as quatro e meia arrobas de assucar, foram duas de arêa, fique sabendo de arêa...

--De arêa? acode o refinador cahindo das estrelas; essa agora é sua... ou então o portador...

--Não temos aqui portador nem portadores. Os meus caixeiros são homens de bem, e o senhor devia saber que, sendo meu freguez o presidente da camara, mais dia menos dia, eu seria multado pela sua... e engulio a palavra.

--Solte a palavra... brada Silva.

--A palavra é ladroeira, responde Alves.

--Então sou ladrão? Diga, se é capaz, sou ou não sou?

Alves não se intimidou e asseverou;

--É, é, e é ladrão, e ladrão refinado...

O meu amigo não podia ser mais prudente do que o foi até alli. A prudencia, porém, tem o seu termo. Alves não previu que, obrigando o honrado refinador a sahir fóra do termo da prudencia uma pollegada, sugeitava-se a receber, como recebeu, na cara a escumadeira impregnada de assucar em calda a ferver. Sem esperar repetição da dóse, Alves sahio vendendo mel ás canadas.

Quinze dias depois tinha a mesma cara, menos a pelle.

Propalado o caso, deu-se ao meu amigo o cognome citado, que nada teve com a substituição do assucar trocado por arêa, como prova a carta a qual me repórto.

CAPITULO X.

Eis a carta em capitulo separado.

«Illm. Sr. (_Historica._)

Presadissimo amigo.

«Inclusa remetto a V. S. uma letra saccada a seu favor sobre a casa Souto & C., dessa côrte, obsequio que faço a sua madrinha de baptismo, viuva do seu padrinho, ultimamente fallecido. Sendo-lhe deixada em testamento pelo dito fallecido, pelo que aceite os meus pezames, a quantia de 450$000, a letra vai saccada no valor de 437$820 por _subtração_ a que tenho direito de 12$180, sendo:

Direito de confiança, 2%.............. 9$000 Sello e seguro desta.................. 1$180 Papel e expediente.................... 2$000 Somma.................... 12$180

«Poupe o seu dinheiro, meu amigo, olhe que muito custa _havel-o_.

«Sou seu amigo e criado.»

Não foi elle quem grifou a palavra subtracção.

CAPITULO XI.

Quando o conselho da instrucção publica deu este despacho ao meu requerimento: «_Junte o supplicante folhas corridas_», eu já não precisava de editor para as maximas.--Resgatado da imprensa o meu 1.º volume já corria pelo mundo.

Estava saboreando a leitura do mais pomposo elogio, que jámais se teceu a nenhum outro homem de letras, quando entrou o Sr. Gusmão. O Sr. Gusmão era typographo e trabalhava na officina onde se imprimio o volume. Vinha buscar os originaes do segundo.

--Meu caro Sr. Gusmão, assente-se, então como vai?

--Remendando a vida.

--Já leu o meu livro?

--Sim, senhor.

--Francamente, como o-acha?

--Volumoso...

--Volumoso, sim, quasi que abrange trezentas paginas. Já comecei a urdir um poema heroico.

--Que titulo?

--Homem, ainda não sei; talvez lhe ponha o titulo em lingua indigena, quero vêr se desperto a literatura nacional.

--É muito preciso.

--Se o-é. O Sr. Gusmão entende de poesias?

--Gosto de lêr, sim, senhor.

--De qual genero gosta mais?

--De todos, sendo a poesia boa.

--Gosta do meu genero?

--Qual é?

--São todos, pois os jornaes não disseram que eu primo em todos os generos? Então não leu o meu livro?

--O senhor sabe, lêr é um caso e compôr é outro. Na qualidade de compositor li-o quando o-compunha, na qualidade, de leitor, propriamente dito, ainda não o-li.

--Então não sabe dizer se os versos são bons, se as rimas ricas, se é corrente a grammatica, se ha ideia...

--Mas V. S. deve estar contente com a opinião dos jornaes.

--Contentissimo. De cada vez que leio um elogio releio o volume, e quando acabo de relêr a este tenho vontade de escrever outro.

--Lá isso ha de ter.

--Diga com franqueza, nem de passagem notou tal ou qual defeito?

--Ninguem anda isento delles.

--Nos versos?

--A sua metrificação é regular.

--Nas rimas?

--As rimas são toleraveis, excepto algumas como, por exemplo, _nuvem_ com _houve_...

--E que diz da dicção?

--A dicção...

--Seja franco, eu não sou parente daquelle cura, que foi amo de Gil-Braz.

--Como pede franqueza direi que, se não fosse a grammatica, o livrinho podia passar incolume, mas a sua grammatica é muito differente d'aquella por onde aprendi.

--Aprendi pela do Lobato.

--Então é a mesma. Queira vêr os originaes do segundo volume.

--Ainda não os-reuni todos, volte amanhã, se não fôr incommodo. Quer fumar, offereço-lhe um charuto de Havana.

--Não senhor, obrigado, eu não fumo se não charutos de vintem.

Eu fiquei _fumando_...

CAPITULO XII.

De que lado estava a verdade, do Sr. Gusmão ou dos jornaes? Afinal de contas, o typographo tinha razão. Entretanto, a primeira parte do meu _celeiro de bom trigo_, no conceito do meu amigo bacharel, estava esgotada!

Hoje, quando corro os olhos pelo exemplar que, por castigo, releio uma vez na semana, dirijo ao creador este acto de contricção: «Meu Deus e meu Senhor! por serdes vós, quem sois, permitti que os irmãos deste exemplar caiam todos n'uma padaria e passem para as fornalhas como auxiliares da lenha, que nesse dia cosinhe os pães! São elhas por elhas, Senhor, trigo cosinhando trigo. Amen.»

CAPITULO XIII.

Ao outro dia recebi o Sr. Gusmão entre os braços.

--Entre, meu amigo, assente-se e conversemos. Ainda aqui está o charuto de Havana, aceite-o.

--Obrigado, mas não aceito, insistio o homem. Penso diversamente dos outros; o que não posso sustentar todos os dias, não alardeio uma vez. Demais, habituado a fumar charutos de vintem, sabem-me a _pessimos_ os de tostão para cima.

--Respeito o seu modo de pensar. Dou-lhe parte que suspendo a publicação das minhas obras.

--Então tomou a peito a opinião de um typographo?

--E o typographo não póde ter opinião aceitavel, não póde saber grammatica?

--Que opinião póde ter o homem, que anda de ventanilha? Lá quanto a grammatica devia saber. Onde me vê, com o pouco que entendo della, tenho salvo a reputação futura de muitos escriptores, aliás intelligencias brilhantes, emendando-lhes, quando componho seus originaes, erros de tirar couro e cabello...

--Ora, Sr. Gusmão, porque não emendou os meus?

--O senhor desejava um volume de trezentas paginas e se eu corrigisse os seus descuidos não ficava o livro com cem....

Apre! tambem esta foi de tirar couro e cabello!

EPILOGO DA SEGUNDA PARTE.

Ahi vai em italico o que devo ao Rio de Janeiro; saiba o Imperio todo:

--Devo o conhecimento do Sr. Gusmão,--que me mandou aprender--grammatica--depois dos jornaes me haverem--chamado--Homero--!

Cautela com as reputações.

TERCEIRA PARTE.

CAPITULO I.

Cheguei ao estado de dizer com o philosopho grego:

«_Omnia mea mecum porto._»

Ignoro se os gregos fallavam latim no tempo de Bias.

Cifravam-se as minhas posses em 25 annos de idade e na roupa do corpo, sendo que essa já estava fóra da moda.

O melhor excitante para o fastio do espirito é, incontestavelmente, a privação. Essa é a razão porque no vigor da idade não são os desejos vehementissimos, como aos 90 annos, na decrepitude, quando já se não póde com um gato morto, para não dizer _gata_... e isso por ser a privação, em todos os sentidos, irreparavel. Induza-se d'ahi o gráo da minha excitação, privado de meios com os quaes satisfizesse desejos, que, como vespas damnadas, me agrilhoavam por todos os modos e em todos os sentidos?!

Silencio, bocca!...

CAPITULO II.

Sem credito literario diante dos meus proprios olhos--abertos pelo bom senso do typographo Gusmão; sem abono-monetario diante de todos os olhos fechados pelas minhas circumstancias; eu andava a pleno ar a procura de um meio, que me arredasse do precipicio para cujas bordas já me encaminhava--o jogo. Eu teria calado no fundo desse abysmo, se houvesse tido para a primeira parada.

Capitulos da altura deste não indigestam. Digerem como sorvas, e fazem render um livro...

CAPITULO III.

Todas as mulheres deviam collocar na alcova de orações um nicho, e dentro delle o busto de Aristophanes. Ao mordaz atheniense são ellas obrigadas pela reforma do meu juizo a seu respeito. Antes de lêr _Lysistrata_, meu pensar era que as mulheres rezavam pela cartilha da Sra. Balbina.

Emendei-me, dando rédeas ao amor.

Amei com impeto! como o leão seria capaz de amar, se as leôas das brenhas soubessem como as das cidades--encarentar favores...

O amor! o amor! Dizem que não come! se não comesse não se alojaria no coração--que fica ás portas do estomago.

Montaigne já o-chamava _sêde da mocidade_.

Da sêde á fome vai só um passo.

CAPITULO IV.

«Eu sempre ouvi dizer:--frade nem vivo, Nem morto e nem pintado na parede.-- A rasão deste dito salta aos olhos; O que frades, outr'ora, não fizessem Incumbir ao diabo era debalde: E as chronicas referem muitos casos De quináos, que ao diabo os frades deram. Mas verdade verdade, o frade de hoje, Labéo das frias cinzas de Epicuro, Não chega ao calcanhar do velho frade.»

Repetindo em voz alta estas blasphemias, Os olhos affinquei n'um poento quadro, Meu fiel companheiro no deserto Em que a mão da fortuna me lançára.

O quadro figurava um frei Rotundo, Nutrido e nédio, rindo-se á sorrélfa Da feia carantonha do diabo, Que raivoso mordia um par de dados.

Mingúa a humanidade a pouco e pouco! Já se não topa mais um frei Bojudo Estillando gordura ao sol em pino. Que ditosa panella, a de outros tempos, Onde cahisse o lenço de Alcobaça Que limpasse o cachaço de algum frade! Sahia a olha convertida em banha. Hoje o frade, sequer, sabe o Larraga Ou Brillat-Savarin. Dantes o frade Era um poço ambulante de sciencias. E os costumes? e o lar? se bem me lembro, Algures li que, vós, ditosos monges, Fostes, nas priscas eras dos conventos, Pesadelo de todos os maridos, E horror! horror! horror! das raparigas!

«Illustre Guardião (clamo inspirado) Tu mais que Belphegor sagaz nos tramas, Mais roliço e mais sabio, tu me ensina O meio de sahir destes apuros!»

Avalie-se agora o que eram frades Em tempos que lá vão,--que desenhados Inda fazem milagres. Repentino Me occorre um pensamento de alta monta.

CAPITULO V.

Escrevi esta epistola:

«Senhora.--Vós sois a belleza, de mimosos contornos; eu sou o bello, de rudes musculos. Vós sois a bonina, que murcha ao primeiro raio do sol; eu sou o sol, que o diluvio não apagou. Vós sois a debil pastorinha avergada ao peso dos trevos com que se enfeita; eu sou o vigoroso camponez, que leva as costas um boi sem lhe sentir o peso. Senhora! meditai nestas parabolicas palavras! e se julgardes ser a força o amparo da fraqueza, respondei em carta fechada com endereço a ***, que eu mesmo a-irei tirar da latinha do escriptorio do _Jornal do Commercio_.»

O remate estragou a epistola.

CAPITULO VI.

Eram oito horas e meia da noite, subi e desci a rua do Ouvidor.

Nenhum _ignotus Deus!_ nenhuma mulher com cara de entender a epistola!

Mas eu confiava na inspiração!

As transeuntes levavam todas a reboque um marido ou cousa com semelhança disso.

Eram nove e meia. Ainda nada.

Mas o frade não me sahia da mente!

--Dar-se-ha o caso, reflecti, que hoje seja a noite tão sómente dos casados?

Entendamo-nos. Queria dizer, a noite de sómente passeiarem os casados; nós sabemos que todas as noites são delles, _quand-même_...

Puz-me a olhar através dos vidros os livros expostos á venda na casa Garnier.

D'ahi a pouco, chega e pára a outra vidraça uma mulher _só_... Só digo eu, não contando o cãosinho felpudo, que a-seguia.

Era um animalsinho com ar inoffensivo e prasenteiro e cara de quem não aceitaria, se lhe mandassem, um cartel. Começa a mão do frade!

Olhou... olhou... (ella e não o cão), e entrou na livraria. Ouvi-a dizer em francez de Racine:

--_Les Femmes, par Alphonse Karr?_

--É justamente a mulher, que eu sonhava, disse a mim mesmo; mulher que lêsse o autor de _La pêche.... en eau douce... et en eau salée...._ Abeirei-me á porta.

Deram-lhe o livro; folheou-o, pagou-o sem questionar o preço, deu boa-noite e sahio.

Fóra da loja, tomei-lhe a frente, comprimentei-a com acatamento, rogando-lhe aceitasse a carta.

--Quem é o senhor? e donde vem essa carta? perguntou meio desdenhosa.

--É tudo um mysterio, respondi. Lendo a carta saberá.

--Ah! cheira a mysterio? pois sim, dê-m'a, eu gosto dos mysterios.

Tomou-a e partio com ar senhoril. E viva o frade!

Ao desapparecer na turbamulta, aproximou-se-me um permanente pedindo-me o charuto para acender um cigarro.

--Camarada, lhe disse, eu não inventei a polvora, porque nasci depois della inventada.

Elle concordou, rosnando:

--Polvora! polvora! que diabo é polvora?

CAPITULO VII.

Doze horas depois fui ao escriptorio do _Jornal_; lá estava uma cartinha com a minha senha. Constava de duas linhas bem traçadas, quanto á essencia; quanto á calligraphia, nunca vi peóres gregotins.

«Sr. ***.--Ora queira Deus e Deus queira vos não mettais em camisa de onze varas! Rua do Conde n....»

Resposta mais laconica e expressiva, só um couce, mal comparada.

Sem perder os estribos da confiança, em presença de tamanha ameaça, fui.

Eram onze horas da manhã, duas horas depois de feita a digestão dos que almoçam ás nove.

CAPITULO VIII.

Ha trinta minutos.

--Que idade tendes? pergunta ella.

--Vinte e cinco annos; respondo.

--Como sois moço!... Meu marido morreu dessa idade.

--É lei da natureza, que se morra de toda idade.

Proferi o axioma na intenção de afugentar qualquer idéa negra, que, por ventura, viesse perturbar a interlocução.

--É facto, concordou, accrescentando, como quem a si propria dava desculpa: tambem elle era muito franzino...

E de esguelha, pela oitava vez, medio-me com os olhos de alto a baixo.

Neste ensejo, tomei-me o pulso. Deitava 105 pulsações por minuto. Eu na vespera almoçára mão de vacca.

CAPITULO IX.

Ha dous mezes. Deu-se garrote á prudencia. Reina o commumnismo. Folga Épicuro. Vai tudo de afogadilho. O trem assovia. Tenha o leitor paciencia. Escasseiam-me trégoas.

Isto é prosa.

CAPITULO X.