Chapter 1
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MEMORIAS
DE
UM POBRE DIABO
POR
ARISTOTELES DE SOUSA.
RIO DE JANEIRO
LIVRARIA LUSO-BRASILEIRA
30--RUA DA QUITANDA--30
MEMORIAS DE UM POBRE DIABO.
LIVRARIA BRAZILEIRA
DE
TANCREDO DE BARROS PAIVA
132, Rua do Lavradio, 132
Annuncia ás Terças-feiras no "Jornal do Commercio"
Typographia--PERSEVERANÇA--rua do Hospicio n. 91
1868
MEMORIAS
DE
UM POBRE DIABO
POR
ARISTOTELES DE SOUSA.
ARISTOTELES DE SOUSA.
_Do autor._
RIO DE JANEIRO
LIVRARIA LUSO-BRASILEIRA
30--RUA DA QUITANDA--30
Prologo.
Pobreza não é vileza. Aviados andariam os vicios se fizessem conta dos pobres. Por não ser a pobreza vicio, fogem della, até os... escriptores... E como esperar _um pobre diabo_ que outrem, que não elle, escreva _suas memorias_?
Responda o respeitavel--Publico--, sujeito em quem nesta occasião não descarrego a mais tremenda das descomposturas por amor á vazão deste livrinho. Cá me fica ella, porém, de reserva para quando eu haja de escrever algum _juizo critico_ sobre alheia obra.
Eis ahi o que é um _prologo_; em latim--_exordium_, em francez--_avant-propos_, no alemão--_Einleitung_, no inglez... _foolery_, e em as outras linguas como queiram, excepto no grego quê por fôrça será _pro-logos_, de _logos_ discurso, _pró_ antecipado, para se não dizer que embaço.
Este prologo e os capitulos seguintes são escriptos em portuguez, com perdão do meu professor de grammatica.
PRIMEIRA PARTE.
CAPITULO I.
Vim á luz ao pôr do sol, minutos antes do toque das Ave-Marias. Hora fresca. No anno em que nasci, não appareceu nenhum cometa por cima de mim. Não requeri para _vir á luz_ e, ai de nós! se o nascimento dependesse de um--_como requer!_--A esta hora meio mundo não teria feito a barba.
Do dia do nascimento aos meus oito annos de idade, deram-se mil e uma circumstancias; notem que não digo--_pormenores_ e aprendam a evitar um _hespanholismo_.
CAPITULO II.
Aos doze annos lia, escrevia, contava e até _grammaticava_, se dou crédito ao attestado do meu professor, que, nesse tempo, escrevia deste modo--_proFeçôr_.
Ainda noje não atinei como aprendi a lêr, a escrever, a contar e a grammaticar com um professor, que lia _Simeão da Nautica_ em vez de _Simão de Nantua_, orthographava professor d'aquelle modo, contando pelos dedos quando sommava 3+2+5?!
Tambem já não tinha medo de almas do outro mundo.
CAPITULO III.
Ouçam isto:
--Senhor meu sobrinho! abeire-se cá, sommemos as nossas contas. Ha dous mezes esteve vossê de cama, em risco de morrer entrevado, consequencias das suas sahidas de casa a deshoras; pondo novamente os pés na rua foi contrahir uma divida na importancia de oitenta e cinco mil e quinhentos réis; aqui tenho a nota:
1 Vestido de cambraia de côr com babados... 15$000 1 Chale de lã e sêda....................... 10$000 Dinheiro pedido........................... 6$000 Juros..................................... 2$000 2 Pares de chinelas de saltinho............. 6$000 1 Peça de morim francez..................... 8$000 1 Vidro d'agua de Colonia................... 1$500 1 Dito de Patchouly......................... 1$000 1 Pente de tartaruga (imitação)............ 10$000 1 Pote de pomada............................ 1$000 1 Par de brincos (ouro de lei)............. 25$000 Rs..... 85$500
pagos por mim ao Sr. Moreira, por honra das cinzas de meu irmão. Não satisfeito com esta compra, que vossê diz ter feito para seu uso, como se eu fosse algum pato, ave a mais estupida dos gallinheiros, tanto assim que sempre ouvi chamar _pato_ a quem se deixa levar, sobretudo, pelos _não me-deixes_ de certas mulheres; não satisfeito, dizia, ha oito dias recebeu vossê uma _sova de peias_, em resposta aos desaforados versos que dirigio á santa mulher do honrado visinho o Sr. Onofre. Somme as parcellas, subtrahindo a _sova a seu favor_, e veja quanto me resta? O embolso é a sua entrada para a escola de aprendizes marinheiros.... Vá aprender a ser homem....
--E os meus estudos, tio? balbuciei.
--Os seus estudos! replicou elle; o que estuda vossê?
--Oh tio! o latim....
--Sim, o latim.... ha quatro annos anda vossê estudando o latim; e o que sabe delle?
--Já declino os _nominativos_, tio....
Que vergonha! eu chegava aos 16 annos!
CAPITULO IV.
O excellente velho era homem de têmpera austera, não lia os jornaes. Se os lesse teria visto que eu, apezar de haver gasto quatro annos para no cabo chegar aos nominativos da _artinha_, por outro lado, dava provas do meu talento.
N'aquella idade já o _Camarão_ e o _Lagarto_, periodicos _literarios_, _artisticos_, _politicos_ e _burlescos_ publicados então, chamavam a attenção dos leitores, o primeiro para o meu artigo intitulado _O homem deve ser sceptico_ e o outro sobre a minha poesia--_Ella_ (á qual meu tio alludio quando fallou na santa mulher do nosso honrado visinho o Sr. Onofre).
O meu primeiro escripto que andou em letra redonda foi o artigo. Quem conhece o gigante pelo dedo, conhecerá o artigo inteiro por este começar:--«Eil-o cabisbaixo e taciturno fitando o horisonte da existencia... Esqueleto de crenças resequidas, elle descrê da luz e das trévas, de si e de todos, etc.»
O _Camarão_, sem inquirir como póde a gente _cabisbaixa_ fitar o horisonte da existencia, e muito menos a que animal pertencera o _esqueleto de crenças resequidas_, rematava o encomio ao artigo com estas palavras de arromba:
«É de crêr que o joven e talentoso escriptor com o andar do tempo modifique as doentias idéas, prematuramente bebidas nas fontes de Benedicto Spinosa, J. J. Rousseau, Claudio Helvecio, e outros materialistas. Asseveramos, no entanto, que se este artigo levasse o nome de um destes autores--seria uma faisca electrica lançada no meio da sociedade; tal é o vigor dos seus paradoxos...»
Muito obrigado, aos Srs. Redactores do _Camarão_.
CAPITULO V.
Quando escrevi--_O homem deve ser sceptico_, eu sabia onde ficava a fonte de Helvecio, Rousseau, Spinosa e outros, que o _Camarão_ conhecia igualmente, como no Japão a esta hora se sabe que hontem chegou o vapor do Norte! Mas tal nomeada de literato consummado ganhei na opinião dos ledores do _Camarão_, que a redacção do _Lagarto_, receiando desequilibrar a prosperidade, poz logo á minha disposição todas as suas columnas.
Respondi á offerta enviando a minha--_Ella_.
Tres dias depois, corria ella o mundo, inserta na 1.ª columna do 1.º numero da 2.ª serie do periodico, levando na cabeça este chapelinho:
«--A redacção do _Lagarto_ sente ineffavel satisfação dando aos seus assignantes a grata noticia de haver o muito talentoso, muito sympathico e já assaz conhecido autor do--_Homem deve ser sceptico_, honrado as humildes columnas do nosso periodico com o prestigio do seu invejavel nome. A poesia abaixo inserta, verdadeiro primor da imaginação, fôra o melhor padrão da gloria de Petrarcha, se Petrarcha a escrevesse. Felicitamo-nos, pois, reconhecendo que o mavioso poeta deste torrão, reune em si conjunctamente as qualidades dos cysnes do Senna, do Tejo, de Thebas, de Albião, de Torento, da Ausonia, etc.»
Leiam a primeira estrophe _d'ella_:
--Não sei dizer se a flôr da larangeira É tão formosa, tão gentil, tão bella, Como a flôr do jardim da phantasia, A flôr do meu amor, a minha--_Ella_...
Quem souber, diga.
Vim a saber mais tarde que cysne Ausonio queria dizer--Virgilio; cysne de Torento--Torquato Tasso; Cysne de Albião--Miltão; cysne de Thebas--Pindaro; cysne do Tejo--Camões; cysne do Senna--Lamartine; cysne da... n'uma palavra, que todos os poetas tem o seu _quê de pato_.
CAPITULO VI.
Peroremos: meu tio não tentára torcer a minha vocação se lesse os jornaes, ficando provado que se _ella_ fosse outra e não a pessoa da Sra. D. Balbina, santa mulher do Sr. Onofre, de memoria não saudosa para meus ossos, eu não teria levado a _sova de peias_ estreando na poesia.
--Do berço á tumba só padece o genio!
CAPITULO VII.
O irmão de meu pai não faltava quando promettia.
Era seu dizer de todos os dias que o _cumprimento devia andar nas ancas do prometter_, (ditado da maior embirração dos ministros).
Prometteu-lhe no domingo, cumprio na segunda.
Sahia-me eu lepido com a _artinha_ debaixo do braço.
--Aonde vamos? pergunta.
--A aula; respondo.
--Não senhor, não é a aula, vamos para o arsenal de marinha... marche...
--Eu juro ao tio... gaguejei, esfregando os olhos com as costas da mão, de ora em diante estudar, como se fosse um boi...
Tinham-me contado que se os bois fossem homens seriam grandes letrados.
--Para boi caminha vossê, replica elle, que para bezerro não lhe falta nada.
Já estavamos no meio da rua. E a mulher do Sr. Onofre na janella.
Nem de caso pensado, meu tio foi em direitura. Eu tinha desejado o contrario... n'aquelle dia bastava eu desejar, para succeder ás avessas, fosse o que fosse.
CAPITULO VIII.
--Bom dia, vizinha; disse elle parando a um metro de distancia.
--Deus lhe dê o mesmo; respondeu ella.
--O vizinho Onofre, está?
--Sahio.
--Tinha a dar-lhe boa noticia.
--Que noticia é, então?
--A da entrada deste _meco_ para a companhia de aprendizes marinheiros... além de outros, pelo atrevimento... a vizinha bem sabe...
Para encobrir o pudor, que me colorio as faces, abri a artinha fingindo declinar o _servus servi_, observando de esguelha a vizinha.
--Por isso não vá agora o vizinho, acudio ella medindo as palavras, desencaminhar o moço dos estudos.... sabe que... repelli o atrevimento... Disse--_repelli_--em tom menor.
--Desencaminhado anda elle, ha muito tempo, tornou meu tio... Ainda hontem, fui saber no mercado que o nome deste madraço já corre em _letras_ de _fórma_.
O Sr. Onofre apontou na esquina.
Patife!
CAPITULO IX.
--Perguntava pelo vizinho.
--Apre! diz o Sr. Onofre, já não se póde em dias de hoje comer farinha... cára como o assucar... Como vai o rapazete? (continua, dirigindo-me a palavra).
Não me pude conter. Tudo quanto quizesse, menos rapazete diante da mulher.
--Sr. Onofre, investi, veja como falla!... Rapazete foi o senhor quando tinha 16 annos; eu aos 16 annos não sou rapazete, sou um homem de muito talento e escriptor de boa nota e como tal reconhecido pelo _Camarão_ e pelo _Lagarto_, fique sabendo, se não sabe lêr. Se o senhor me chama rapazete porque não tenho barbas, saiba que não faço caso de cabellos, desses distinctivos do toucinho ordinario, e que não tenho barbas porque não as quero ter. E de mais, assim como ha mulheres as quaes não sendo do genero masculino têm barbas, de igual modo, ha homens os quaes não sendo do genero feminino não as têm...
Os circumstantes pasmaram.
De relance, pensei que meu tio gostara da resposta, quando... zás... atira-me uma tapona, verdadeira tapona, tapona com todos os ff e rr e mais esta addenda:
--Leve, malcriado, para môlho do _Camarão_ mais do seu _Lagarto_.
CAPITULO X.
Atirando o Antonio Pereira pelos ares, deixando voar o chapéo, deitei a correr pela rua fóra, enfiando-me pelo primeiro becco, como navio fugindo do temporal pela primeira enseada.
Abençoado becco!
Abençoadas pernas!
Abençoados oitenta e cinco mil e quinhentos réis, pagos por meu tio ao Sr. Moreira!
Abençoado tambem seja o dito Sr. Moreira, pelo bom conceito, que fez do meu credito!
Bem empregados oitenta e cinco mil e quinhentos réis dispendidos comtigo,--Aurora!
CAPITULO XI.
Na aurora da vida, ao alvorecer do amor, a primeira mulher que amei chamava-se--Aurora!
Como é poetica esta coincidencia, e como ficou bem phraseada! Quando eu for homem celebre ahi fica o thema para uma Epopéa.
Aurora morava no becco!
Relatei-lhe a occurrencia, guardando reserva ácerca da tapona.
Para ganhar mais no seu coração, fallei nos oitenta e cinco mil e quinhentos réis, acrescentando, se eu tal adivinhára houvera empenhado na loja do Sr. Moreira todos os teres e haveres de meu tio.
O galanteio influe naturalmente no coração da mulher, soube aos 16 annos, antes de saber latim, e, conseguintemente, antes de lêr Ovidio.
O numero do _Camarão_ onde vinha inserto o meu artigo _O homem deve ser sceptico_, e o do _Lagarto_ onde vinha a _Ella_, andavam comigo como talismans. Tirei do bolso o _Lagarto_ e dei a Aurora para lêr os versos, declarando serem feitos quando pensava n'ella.
A rapariga ainda ignorava mais essa prova de amor, (que tão cara me sahira quando a dei á visinha).
A ultima quadra commoveu-a de uma vez: tambem era o _sentimentalismo_ metrificado.
Que peito de mulher não commoverá esta quadra:
«Sê minha? Serei teu.... abre-me os braços.... Voemos deste mundo.... Sacuras Fujamos do paul.... vamos, querida, Fazer o nosso ninho nas alturas?!
Aurora lia soletrando palavra por palavra. Quando acabou de lêr eu estava com fome. Davam tres horas da tarde:
CAPITULO XII.
Eu contava 16 annos.
Aurora cerca de 26.
Meu tio ignorava o rumo, que eu tomara, em seguida a tapona; Aurora não tinha a quem désse contas do rumo e nem quem lhe désse taponas.
Eu precisava de _credito_ no coração de Aurora; Aurora _creditava_ meu amor...
N'uma palavra, se me afiançam dous dias, tão saudosos, como os que passei ao abrigo de Aurora, vá feito, aceito uma tapona de tres em tres dias... Não posso ser mais rasoavel.
CAPITULO XIII.
Verdade lizas diziam os antigos, diziam elles: _hospede ao terceiro dia fede._
Na casa do proprio amor, tres dias depois, não cheira o hospede.
Ao quarto dia, me disse Aurora:
--Não te amuas comigo?
--Porque? perguntei.
--Se eu te disser a verdade?
--Não.
--És um _empecilho_...
--Só?
--E é pouco?
Era de facto assaz. Puz-me a pensar.
--No que pensas? tornou ella.
--Na cousa mais simples deste mundo.
--Qual?
--N'um chapéo...
--Por fallares em chapéo, de quem será um, que anda pelo sotão?
--Poderá ser meu... anda vêr...
A rapariga não se deixou rogar. Lesta foi, lesta voltou.
--É justamente meu, clamei, antes de pôr o chapéo na cabeça.
O chapéo era tanto meu como de quem me ouve. Ficava-me na cabeça por muito obsequio.
--Acautela-te, acudio Aurora, olha que elle quer subir...
--Aurora, lhe disse com seriedade, toma um beijo... é tudo quanto posso dar-te, como lembrança de minha gratidão...
Ao proferir a palavra gratidão--cresceu-me o nó da garganta.
--Não me deves nada, meu querido, respondeu a meia voz. Eu sinto muito mas... tu sabes...
--Sei... tens razão... adeus...
Beijamo-nos...
--Tornas ao tio?
--Torno.
Sahi.
--Pois, se tornares ao tio, rematou ella fechando a porta, apparece por aqui de quando em quando...
--Se tornares ao tio, repeti a mim mesmo, sim! se tornares ao tio, isto é, quando tiveres casa, a minha estará as tuas ordens... Agradecido, Aurora.
No entanto, Aurora tinha coração.
Assim houvesse ella juizo.
CAPITULO XIV.
Entrei em casa com cara de quem voltava da missa.
Meu tio estava almoçando.
--Quem é? perguntou ouvindo os meus passos, e sem volver os olhos.
--Sou eu... tio... respondi, entre dentes.
--Quem?
--O Sr. moço; respondeu por mim Nicoláo.
--Senta-te, meu filho; o almoço não se diminuio, nem o jantar... nem o amor. Disse com natural bondade.
A minha cadeira estava como d'antes á sua esquerda, o talher e o prato no lugar do costume.
Sentei-me e cruzei os braços como um penitente.
Meu tio continuou a almoçar sem dar palavra.
Eu tinha almoçado no becco...
Nicoláo trouxe a nata, sobremesa que meu tio nunca dispensava ao almoço. Regeitou-a. O preto carregou as sobrancelhas admirado. Pôz-lhe o café na chicara; sorveu-o e, emfim, levantou-se.
Levantei-me tambem.
--Agora venha esta sobremesa, melhor que todas as natas, disse abrindo os braços.
Atirei-me n'elles como o prodigo nos de seu pae.
Solucei devéras, pela primeira vez em dias de minha vida.
Tambem pela primeira vez a modo que vi lagrimas nos olhos de meu tio.
Este capitulo ia tomando fórma de _eça_?
CAPITULO XV.
Nasceram-me n'aquelle dia os dentes do siso.
Oito mezes depois, fui examinado e aprovado _cum laude_ em latim e francez. Após dous annos, em geographia e historia, philosophia, rhetorica e lingua tupy. Presidio aos exames um bispo.
As pitadas de algebra e geometria, inglez, physica e chimica, tomei-as mais tarde aqui no Rio de Janeiro.
Reunindo tudo o que sei, fico sabendo conscienciosamente que careço aprender tudo de novo, menos o methodo de passar por sabio.
EPILOGO DA PRIMEIRA PARTE.
Os ultimos dias dos meus dezenove annos correram nesta côrte.
Meu tio já havia fallecido quando deixei o torrão natal:
A santa mulher do Sr. Onofre enviuvado segunda vez:
O redactor em chefe do _Camarão_, pedido demissão de supplente de delegado de policia, por desaccordo politico com o redactor do _Lagarto_, que se fizera genro do delegado.
Se as cousas não pararam alli, a esta hora o delegado está avô de alguns netos, estes inspectores de quarteirão e a Sra. Balbina viuva pela quinta vez.
Mulher de nome Balbina, perca as esperanças, comigo não casa.
SEGUNDA PARTE.
CAPITULO I.
Devo muito ao Rio de Janeiro, não é por estar na sua presença.
Ha um sentimento que eleva o cão acima de muitos homens: o reconhecimento do bem que se lhe faz.
Verdade, verdade; por esse lado, corro parelhas com a parentella de Pythagoras, cada vez mais numerosa, apezar das _bolas_.
Quando cheguei a esta capital, contava ella apenas _seis peccados mortaes_; dias depois, prefazia o numero dos indicados na cartilha.
Não vim prefazer o setimo, como já pensaram; foi o ministerio n. 7, que se criou depois da minha chegada.
De haver a minha estrella influido para essa _criação_, é que não é nenhum juizo temerario, caipora depois de mim, só eu mesmo.
Isto não é politica.
Lembro-me que o programma do _Camarão_ rematava assim (_vide esse periodico n. 1, I.ª colum. ultimas linhas_).
«Não somos politicos; a politica é uma escada; os _tolos_ são os degráos por onde os _ladinos_ sobem....»
Bem bonita definição.
«Não somos _tão tolos_, continuava a rezar o programma, que de nós deixemos fazer degráos, nem _tão ladinos_ que queiramos subir.»
Linda epigraphe para a testa de um _jornal_ intitulado _O modesto_.
E, pois, nunca fui _tão tolo_ nem _tão ladino_, isto é, _politico_.
O que eu aspirava _ex-corde_, dos _seios da alma_, como hoje dizem, dando a alma a propriedade de _amas de leite_, era ser _literato_.
CAPITULO II.
Ser literato... fosse como fosse, custasse o que custasse, desse no que desse, era o meu diuturno desejo.
Sahi do torrão natal no firme proposito de estudar _mathematicas_ e os primeiros livros que comprei nesta côrte foram o _Diccionario poetico_, por Candido Lusitano e o das _Rimas_ por Beltrano de Tal Guerreiro.
Eu era um _montão de poetas_ a um só tempo, não se enganara o _Lagarto_.
Todas as paixões me ferviam dentro da alma, como a um tempo fervem muitas panellas n'um só fogão.
Na segunda feira, eu era poeta sceptico e crente; na terça, ascetico e materialista; na quarta, pudico e licencioso, e d'ahi até o domingo, mais seis poetas extremamente oppostos.
Animações choviam.
Os _jornaes diarios_ e _periodicos_, a partir dos mais rispidos e terminando na benevolentissima _Marmota Fluminense_, me gritavam _avante_!
Se eu dava á luz uma poesia recendendo scepticismo--é Byron, é Voltaire... diziam elles; se asceticismo--é o novo padre Caldas, é Racine (pai e filho), é o nosso David... se materialismo--é, outra vez, Byron, Piron, Parny... se tristeza--André Chénier e mais quatro; se facecia--é Bocage, Diniz e não sei quaes mais... se pudicicia e amor, não tem que vêr,--é Bernardim Ribeiro e até Sapho! se epigramma--é Juvenal, é Marcial, é Nicoláo Tolentino e mais tres vivos, sendo um destes o meu amigo Faustino Xavier de Novaes... se... o menos que me chamaram foi Homero!
E o echo repercutia pelos angulos do imperio--Homero!
Estavam cumpridas as prophecias do _Camarão_ mais do _Lagarto_: na minha vanguarda não se via outro literato mais consummado.
E quando ao por do sol, do postigo das minhas aguas-furtadas, eu percorria in mente as paginas da literatura de todas as nações partindo do 1.º até o 19.º seculos, eu desdenhava os genios com a sobranceria do Pão d'Assucar contemplando as microscopicas ilhas dispersas pelo oceano, como pés de repolhos á tona d'agua.
CAPITULO III.
Aos vinte e dous annos colleccionei meus manuscritos que, impressos, dariam tres volumes, inclusive versos e prosas, romances e dramas, comedias e algumas maximas.
Dirigia-me ao prélo com os originaes do primeiro volume (poesias), quando encontrei o maior enthusiasta e admirador do genio que o céo cobre, moço de 25 annos de idade, bacharelado em letras pelo collegio de Pedro II.
--Que andas fazendo, meu poeta? perguntou elle.
--Vou á typographia, respondi.
--O que estás imprimindo?
--As minhas obras, disse enchendo a bocca....
--Meus parabens, a ti e ao Brazil. Ora, graças a Deus! vamos ter uma literatura patria.
Enguli a pilula sem difficuldade, como outros muitos a--tem engulido depois de mim.
--Quantos volumes?
--Tres.
--Só?! clamou admirado.
Como se aos vinte e dous annos de idade tres volumes de asneiras não bastassem.
--E quando sahem?
--Breve, aqui levo os originaes do primeiro volume.
--Permittes?....
--Pódes vêr.
O bacharel, meu amigo e enthusiasta, depois de varrer duas vezes com os olhos os originaes, assim se exprimio, como quem entendia do riscado.
--O titulo abrange o _totum_; direi até--este titulo foi inspirado e leu.
«_Horas incertas Versos, prosas e comedias, Dramas, maximas e pensamentos do Exilio._»
--É como digo, proseguio; isto que é saber achar um titulo. Horas incertas! quanta profundeza nestas duas palavras _horas incertas!..._ Se as horas da vida são incertas, mais incertas são as horas do genio....
(Sim, porque o genio não tem horas certas, é da sua indole não saber nunca a quantas anda.)
--Concedes-me uma observação.
--Faze-a.
--Gósto de tudo isto, tudo isto é grande, menos a epigraphe. Esta epigraphe não cabe nas obras de um genio.... E leu a epigraphe:
«Joios da adolescencia levados á praça pela precisão.»
--Joios! chamar joios a um celeiro de trigo são! e depois, levados á praça pela precisão! que significa isto?
--Eu te explico....
--Não pergunto por ignorar o teu pensamento; sinto-lhe a essencia; sei o que tu queres dizer: levados á praça pela precisão, todos entenderão a elipse, pela precisão de... voar... sim, de voar, porque o genio precisa voar como a aguia, como o condor. Os malevolos, porém e invejosos cujas linguas não poupam os genios, esses dirão ser a precisão de dinheiro, apezar de todos saberem que tu de dinheiro não precisas...
Estavam adiantados! era justamente do que eu mais precisava[1].
--Ou precisas? perguntou com ar de quem responderia sentir muito não me poder servir na occasião, se lhe eu respondesse pela affirmativa.
--Ora... desdenhei. Eu lá careço de dinheiro!
--Se precisas, tornou animadamente, não faças ceremonia comigo.
E sem esperar pelo _muito obrigado_, continuou.
--O estylo é o homem, disse Buffon; por minha vez tambem digo: o nome do autor é a epigraphe do seu livro; tu não te deves rebaixar deitando outra epigraphe nas tuas obras que não teu proprio nome.
Á vista disto, chegando ao prélo borrei a epigraphe.
CAPITULO IV.
Já se achava quasi finda a impressão do primeiro volume, quando em um bom dia recebi este bilhete traçado a lapis:
«Illm. Sr.--Vou suspender a impressão das suas poesias, até que V. S. satisfaça a importancia de 113$500 das ultimas folhas impressas.»
Subi ás nuvens. O recadinho vinha escripto no reverso da prova de uma das minhas mais mimosas poesias.
Tomei a penna e desanquei o recado com esta resposta: