Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Part 7

Chapter 73,810 wordsPublic domain

Nunca havia pensado no casamento, visto que me considerava incapaz de ser um bom marido por causa da minha grande independencia de caracter e decidida paixão pelas aventuras. Ter mulher e filhos parecia humanamente impossivel ao homem que consagrou a sua vida a um principio de que o successo, por mais completo que seja, não póde deixar nunca o socego necessario a um chefe de familia. O destino havia decidido o contrario: depois da morte de Luiz, Eduardo e dos meus outros amigos, achava-me n'um isolamento completo, parecendo-me existir só no mundo.

Não me havia ficado um só d'esses amigos de que o coração tem necessidade como a vida de alimento. Os que tinham escapado, eram como já disse, estrangeiros. Eram sem duvida dotados de um excellente coração, mas conhecia-os á pouco tempo para ter com elles grande intimidade. N'esse espaço enorme que aquella terrivel catastrophe tinha feito em volta de mim, sentia a necessidade d'uma alma que me amasse, porque sem essa alma, a existencia era-me insuportavel, quasi impossivel. Havia, é verdade, encontrado Rossetti, isto é, um irmão; mas Rossetti obrigado pelos deveres do seu emprego não podia viver comigo, vendo-o apenas uma vez por semana. Tinha pois necessidade d'alguem que me amasse. A amisade é fructo do tempo, e é por isso necessario muitos annos para amadurecer, em quanto que o amor é como o relampago, filho muitas vezes da tempestade. Mas que importava! Não sou eu dos que preferem as tempestades á bonança e socego d'alma.

Era pois uma mulher que se me tornava necessaria, só uma mulher me podia curar, uma mulher quer diser, o unico refugio, um anjo consolador, a estrella da tempestade. A mulher é uma divindade que nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado.

Era com este incessante pensamento que, do meu camarote a bordo do _Itarapika_, voltava sem cessar o meu olhar para a terra. D'ahi descobria formosas meninas occupadas em differentes trabalhos domesticos. Uma d'ellas, principalmente, attraia-me a attenção. Mandaram-me desembarcar e immediatamente me encaminhei para a casa sobre que ha tanto tempo se fixava o meu olhar. O coração batia-me apressado, mas tinha formado uma d'essas resoluções que uma vez tomadas, nunca mais enfraquecem.--Um homem convidou-me a entrar,--teria-o feito ainda mesmo que elle o prohibisse--tinha-o visto uma vez--vi sua filha e disse-lhe: «Virgem pertences-me!» Havia por estas simples palavras creado um laço que só a morte podia quebrar.--Tinha encontrado um thesouro prohibido, mas de tal preço!... Se houve uma falta commettida, a responsabilidade só a mim pertence; se foi uma falta, unirem-se dois corações, despedaçando a alma de um innocente.

Mas ella está morta e elle vingado--Onde conheci a grandeza da minha falta?--Na embocadura do Cridam no dia em que esperando disputal-a á morte, lhe apertava convulsivamente o pulso para contar as suas ultimas pulsações, absorvendo o seu alento fugitivo...... Beijava os seus labios muribundos, e apertava nos meus braços um cadaver chorando lagrimas de desesperação.[7]

[7] Quando acabei de lêr este capitulo fiquei admirado de o vêr pouco comprehensivel. Voltei-me para Garibaldi, e disse-lhe:

--Lê isso, acho ahi uma grande falta.

Lêu, e depois de um momento de silencio, disse-me suspirando:

--É necessario que isso fique como está.

Dous dias depois recebi um manuscripto intitulado--_Annita Garibaldi_.

XXV

O CRUZEIRO

O general tinha determinado que eu sahisse com tres navios armados para atacar as bandeiras imperiaes que crusavam na costa do Brasil. Preparei-me para cumprir esta ardua tarefa, reunindo todos os elementos necessarios ao meu armamento. Os meus tres navios eram o _Rio Pardo_, commandado por mim--a _Cassapara_, por Griggs, ambos goletas e o _Seival_ commandado pelo italiano Lourenço. A embocadura do lago estava bloqueada pelos navios de guerra imperiaes, mas apesar d'isso sahimos de noute e sem ser incommodados.--Annita, então companhia de toda a minha vida, e por consequencia, de todos os meus perigos, tinha querido acompanhar-me.

Chegados á altura de Santos, encontrámos uma corveta imperial, que durante dois dias, nos deu caça inutilmente. No segundo dia aproximamo-nos da ilha do _Abrigo_ onde tomámos duas sumacas carregadas de arroz. Continuámos o cruzeiro e fizemos mais algumas prezas. Oito dias depois da nossa partida dirigi-me para o lago.

Não sei porque, tinha um sinistro presentimento do que ali se passava, visto que antes da nossa partida já um certo descontentamento se manifestava contra nós. Estava além d'isso prevenido da aproximação d'um corpo consideravel de tropas, commandadas pelo general Andréa a quem a pacificação do Pará, tinha dado uma grande reputação.

Na altura da ilha de Santa Catharina, quando voltavamos, encontrámos um patacho de guerra brasileiro.--Tinha unicamente comigo dous navios o _Rio Pardo_ e o _Seival_, porque a _Cassapara_ havia muitos dias que se tinha separado de nós por causa d'um grande nevoeiro. Quando descobrimos o navio inimigo estava na nossa prôa, por isso não havia meio de o evitar. Navegámos então direitos a elle e o atacámol-o resolutamente. Começámos o fogo e o inimigo respondeu-nos, mas este combate teve um exito mediocre por causa do muito mar.--O seu resultado foi a perda de algumas das nossas presas, porque os seus commandantes assustados pela superioridade do inimigo baixaram os pavilhões.--Outros deram á costa.

Uma só das nossas presas foi salva. Era capitaneada por Ignacio Bilbáo, o nosso bravo biscainho que o conduzio a Imbituba, que então se achava em nosso poder. O _Seival_ tendo a peça desmontada e fazendo agua, tomou o mesmo caminho, e eu fui obrigado a seguil-os por que estava com mui poucas forças para andar só no mar.

Entrámos em Imbituba, impellidos pelo nordeste. Com este vento era-nos impossivel entrar no lago e com certeza os navios imperiaes estacionados em Santa Catharina, informados pelo _Andorinha_, assim se chamava o navio de guerra com que tinhamos combatido, não tardariam a vir atacar-nos; era pois necessario prepararmo-nos para o combate. O canhão desmontado do _Seival_ foi içado n'um promontorio que fechava a bahia do lado do levante, e ahi construimos uma bateria coberta com cestões.

Com effeito no dia seguinte ao apparecer da aurora vimos tres navios dirigindo-se para nós. O _Rio Pardo_, começou então um combate mui desigual, porque os imperiaes nos eram mui superiores em numero.

Havia querido desembarcar Annita, mas ella não tinha consentido, e como do fundo da minha alma admirava a sua coragem e me achava orgulhoso pelo seu valor, cedi aos seus rogos.

O inimigo favorecido na sua manobra pelo vento que então fazia, manteve-se á véla canhoneando-nos furiosamente. Podia d'esta maneira aproveitar todos os seus canhões dirigindo todo o seu fogo contra a nossa goleta. Nós, pelo nosso lado, combatiamos com a mais obstinada resolução e como estavamos tão perto que nos podiamos servir das nossas clavinas; as perdas eram de parte a parte importantes. As nossas comtudo eram mais numerosas em razão da inferioridade numerica, e a coberta ja se achava cheia de mortos e feridos. Apesar de tudo isto, apesar do flanco do nosso navio estar crivado de ballas, da nossa mastreação ter avaria, estavamos resolvidos a não ceder deixando-nos matar até ao ultimo. É verdade que eramos conservados n'esta resolução pela vista da amazona brasileira que estava a bordo. Annita, que, como ja disse, não havia querido desembarcar, tinha tambem tomado parte no combate, e com a clavina na mão coadjuva-nos admiravelmente. Eramos tambem, devo dizel-o, perfeitamente sustentados pelo bravo Manuel Rodrigues, commandante da nossa bateria de terra.

O inimigo estava mui encarniçado especialmente contra a goleta. Muitas vezes durante este combate, aproximou-se tanto que julguei hia abordal-a, o que me dava muito prazer, porque estavamos preparados para tudo.

No fim de cinco horas de uma lucta terrivel, o inimigo, com grande admiração nossa, retirou-se. Soubemos depois que a morte do capitão da _Bella-Americana_ tinha sido a causa.

Tive durante este combate uma das mais vivas e crueis emoções da minha vida. Annita achava-se de sabre em punho em cima do tombadilho animando os meus homens. Repentinamente uma balla a derribou e a dous dos meus camaradas. Corri para ella, julgando não encontrar mais que um cadaver, mas Annita levantou-se sãa e salva; os dous homens estavam mortos; suppliquei-lhe então que descesse para a camara.

--Sim, vou descer, me disse ella, mas é para enxutar os poltrões que lá se foram esconder.

E bem depressa tornou a apparecer trazendo adiante de si dous ou tres marinheiros envergonhados por serem menos bravos que uma mulher.

Passámos o resto do dia a sepultar os mortos e a reparar as avarias, que não eram pequenas, causadas á goleta pelo fogo do inimigo. No dia seguinte os imperiaes não appareceram, porque sem duvida se preparavam para algum novo ataque; vendo isto embarcámos o nosso canhão e levantando ancora pela noite, dirigimo-nos para o lago.

Quando o inimigo deu pela nossa partida, começou a perseguir-nos, mas só no dia seguinte é que nos poude enviar algumas ballas que não nos causaram prejuizo algum. Entrámos, pois, sem outro incidente no lago onde fomos festejados pelos nossos que se admiravam de termos escapado a um inimigo tão superior em numero.

XXVI

SAQUE DE IMERUI

Outros acontecimentos nos esperavam no lago.

Como o inimigo continuava a avançar por terra, e em tal numero que era loucura o tentar resistir-lhe, e como por outro lado as nossas tolices e brutalidades nos tinham indisposto com os habitantes de Santa Catharina que estavam promptos a revoltarem-se e a reunirem-se aos imperiaes, tendo-se já rebellado a cidade de Imerui, situada na extremidade do lago, foi-me determinado pelo general Canavarro que fosse castigar este desgraçado paiz, pelo ferro e pelo fogo: vi-me obrigado obedecer a esta ordem.

Como os habitantes e a guarnição tinham feito preparativos de defeza pelo lado do mar, desembarquei então a tres milhas de distancia, e assaltei-os, no momento em que menos o esperavam, pelo lado da montanha. Surprehendida e batida a guarnição, foi posta em fuga, achando-nos senhores da cidade.

Desejo não só para mim, para todos os individuos, o não receber uma ordem igual á que eu tinha recebido, e que era por tal modo terminante, que não havia meio de a illudir. Ainda que existam longas e prolixas relações de acontecimentos iguaes, julgo impossivel que a mais terrivel se aproxima da verdade. Deus me perdôe! mas não tenho em toda a minha vida, successo que me deixasse tão amargas recordações como o saque de Imerui. Ninguem póde fazer idéa do que soffri para alcançar que, deixando livre a pilhagem, não se attentasse contra a vida de pessoa alguma, limitando a destruição ás coisas inanimadas, alcancei o que pertendia, mas emquanto ás propriedades foi impossivel evitar a desordem. Nem a authoridade de commandante, nem os castigos poderam alcançar coisa alguma. Cheguei a ameaçal-os com a volta do inimigo.

Espalhei o boato de que elle tendo recebido reforços vinha atacar-nos; mas tudo foi inutil, e na verdade, se o inimigo tornasse atraz achando-nos assim debandados teria-nos, sem muita difficuldade, anniquillado. Infelizmente, a cidade ainda que pequena, tinha muitos armazens cheios de vinho e licôres, de modo, que exceptuando-me, porque não bebo senão agua, e alguns officiaes que consegui conservar ao pé de mim, tudo se achava embriagado. Além d'isso os meus soldados eram na sua maioria recrutas, homens que eu apenas conhecia, e por conseguinte indisciplinados. Cincoenta soldados determinados atacando-nos de improviso teria-nos desbaratado. Emfim á força de ameaças e esforços consegui reembarcar estes animaes selvagens.

Conduziram a bordo alguns viveres e objectos salvos da pilhagem, destinados á divisão e voltamos ao lago.

Durante este tempo o coronel Teixeira com a sua vanguarda retirava-se diante do inimigo que avançava rapido e vigoroso.

Quando chegámos ao lago, começavam a conduzir as bagagens á margem direita, e bem depressa os soldados deviam seguil-as.

XXVII

NOVOS COMBATES

Tive muito que fazer no dia em que se effectuou a passagem da divisão para a margem meridional, porque, se o exercito era pouco numeroso as bagagens pareciam não ter fim.--Na parte mais estreita do rio a corrente redobrava de violencia.--Trabalhámos pois desde o nascer do sol até ao meio dia para fazer passar a divisão.

Pelo meio dia começou a apparecer a flotilha inimiga, composta de vinte e duas vélas. Combinavam os seus movimentos com a tropa de terra, e traziam a bordo além de equipagem grande numero de soldados. Subi á montanha mais proxima para observar o inimigo, e vi immediatamente que o seu plano era reunir as suas forças á entrada do lago. Dei logo parte ao general Canavarro que no mesmo momento deu as ordens convenientes, mas não obstante essas ordens os nossos homens não chegaram a tempo de defender a entrada do lago. Uma bateria que haviamos construido na embocadura do lago e que era dirigida pelo bravo Capotto resistiu fracamente, pois não tinha senão peças de pequeno calibre, e alem d'isso mal servidas por artilheiros inhabeis. Os nossos tres pequenos navios estavam reduzidos á metade da equipagem, porque a outra metade tendo sido mandada para terra para coadjuvar a passagem das tropas, não se nos juntou, deixando-nos sós para combater um tão temivel inimigo.

Durante este tempo o inimigo ajudado pelo vento e mare vinha para nós com toda a força. Dirigi-me então a toda a pressa para o meu posto a bordo do _Rio Pardo_, onde já a minha corajosa Annita tinha começado o combate, apontando e dando ella mesmo fogo á peça de que se tinha encarregado, animando com a voz e o exemplo os meus companheiros um pouco atemorisados.

O combate foi horrivel e mais mortifero que se poderia julgar. Tive poucos mortos, porque, como já disse, metade da equipagem estava em terra, mas dos seis officiaes que estavam nos tres navios só eu escapei são e salvo.

Todas as nossas peças estavam desmontadas, mas o combale continuou á clavina e não cessámos de atirar em quanto o inimigo passou por diante de nós. Durante o combate Annita ficou sempre ao meu lado, no posto mais perigoso, não querendo nem desembarcar nem aproveitar-se de nenhum alivio, e despresando mesmo o inclinar-se como faz o homem mais bravo, quando vê a mecha aproximar-se do canhão inimigo.

Soffrendo mil cuidados por a vêr exposta a tantos perigos, julguei encontrar um meio de affastar.

Ordenei-lhe, foi necessario uma ordem, para me obedecer que fosse pedir reforço ao general dando-lhe a minha palavra de que se me enviasse esse reforço entraria no lago perseguindo os imperiaes e tratando-os de tal maneira que elles não pensariam em desembarcar, embora tivesse que largar o fogo á sua flotilha. Obriguei Annita a prometter-me que ficaria em terra enviando-me a resposta por um homem seguro; mas com bastante pesar meu foi Annita, que trouxe a resposta do general:

«Não tinha soldados para me mandar, e ordenava-me que não largasse o fogo á esquadra inimiga, mas que viesse para a terra salvando as armas e munições.»

Obedeci. Então debaixo de um fogo que não cessou um momento, conseguimos fazer transportar a terra as armas e munições. Foi Annita quem á falta de officiaes dirigiu esta operação em quanto eu passando de um navio a outro collocava no logar mais inflamavel de cada um d'elles, o fogo que o devia devorar.

Foi uma missão terrivel que me fez passar uma triplece revista de mortos e feridos. Era um verdadeiro açougue de carne humana; andava-se por cima de montões de cadaveres. O commandante do _Itaparika_ João Henriques de la Laguna estava deitado no meio de dous terços da sua equipagem com uma balla que lhe tinha feito no meio do peito um buraco por onde podia entrar perfeitamente um braço. O pobre João Griggs tinha, como já disse, o corpo separado em dois por um tiro de metralha. Fiquei suffocado, com a vista de similhante espectaculo, e perguntei a mim mesmo como poderia ter escapado.

N'um momento uma nuvem de fumo envolveu os nossos navios e os nossos bravos tiveram ao menos uma sepultura digna d'elles.

Em quanto tinha comprido a minha obra de destruição, Annita pela sua parte havia cumprido a sua de salvação. Para transportar á praia todas as nossas armas e munições fez talvez vinte viagens ao navio passando constantemente debaixo do fogo do inimigo. Andava n'um pequeno barco com dois remadores, e os pobres diabos curvavam-se o mais possivel, para evitar as ballas.

Annita pelo contrario na pôpa, no meio da metralha, estava direita e socegada como uma estatua de Pallas, e Deus que me cobria com uma das suas mãos, estendia-lhe tambem essa protecção.

Era noite fechada quando tendo reunido todos os marinheiros que haviam escapado, me juntei com a nossa divisão, e nos retirámos para o Rio Grande seguindo o mesmo caminho que alguns mezes antes tinhamos atravessado com o coração cheio de esperança e procedidos pela victoria.

XXVIII

A CAVALLO

No meio das peripecias da minha aventureira existencia, tenho tido sempre horas bem agradaveis, e ainda que esta em que me achava não parecesse á primeira vista fazer parte das que me tem deixado uma grata lembrança, foi ao menos cheia de emoções.

Á testa de alguns homens, resto de tantos combatentes, que tinham com justa rasão merecido o titulo de bravos, caminhava a cavallo, orgulhoso dos vivos, orgulhoso dos mortos, e quasi orgulhoso de mim mesmo. Ao meu lado hia a rainha da minha alma, a mulher digna de toda a admiração. Estava lançado n'uma carreira mais attrahente do que a de marinha: que me importava pois, como o philosopho grego, não possuir senão o que tinha comigo? Que me importava servir uma republica pobre, que não pagava a ninguem, e de que ainda que fosse rica, eu não teria acceitado cousa alguma? Não tinha ao lado um sabre, uma clavina passada atravez do arção do meu cavallo? Não tinha perto de mim Annita, o meu thesouro, caracter tão ardente como o meu pela liberdade dos povos? Não encarava ella os combates como um divertimento, como uma simples distracção? O futuro sorria-me sempre afortunado, e quanto mais se me apresentavam selvagens e desertas as solidões americanas, mais deliciosas e bellas me pareciam.

Continuámos a retirar para as Torres, limite das duas provincias onde estabelecemos o nosso acampamento. O inimigo contentou-se em retomar o lago, não nos perseguindo.

A divisão Cunha que vinha da provincia de S. Paulo, juntando-se com a divisão Andrea, dirigiam-se para _Cimo da Serra_, provincia da montanha pertencente ao Rio Grande.

Os montanhezes nossos amigos, pediram soccorro ao general Canavarro, que mandou em seu auxilio uma expedição ás ordens do coronel Teixeira. Fizemos parte d'esta expedição. Recebidos pelos serraminhos, commandados pelo coronel Aranha, batemos completamente o inimigo em Santa Victoria. Cunha affogou-se no rio Pelatos e a maior parte das suas tropas ficou prisioneira.

Esta victoria poz debaixo do dominio da republica as duas provincias de Vaccaria e das Lages, e nós entramos em triumpho na principal povoação d'esta ultima.

A noticia da invasão imperial tinha feito acordar o partido brasileiro, e Mello, chefe inimigo, tinha enviado a esta provincia o seu corpo de cavallaria, composto quasi de quinhentos homens.

O general Bento Manoel, encarregado de o atacar não o tinha podido fazer por causa da sua retirada, contentando-se em enviar o coronel Portinko em perseguição de Mello que se dirigia sobre S. Paulo.

A posição que occupavamos e as nossas forças, permettia-nos não só oppor-nos á passagem de Mello, mas tambem de o anniquillar. Mas a fortuna não o quiz: o coronel Teixeira incerto se o inimigo vinha por Vaccaria ou por Coritibani, dividiu a sua tropa em dois corpos, enviando o coronel Aranha a Vaccaria com a melhor cavallaria, em quanto que nós com a infanteria e só com alguns soldados de cavallaria, tirados quasi todos dos prisioneiros inimigos, nos dirigimos para Coritibani. Foi este o caminho que tomou o inimigo.

Esta divisão das nossas forças foi-nos fatal: a recente victoria, o caracter ardente do nosso chefe, e as noticias que tinhamos do inimigo fizeram com que o desprezassemos mais do que merecia.

Em tres dias de marcha chegámos a Coritibani, e acampámos a pouca distancia de Maromba por onde julgavamos que deviam passar os imperiaes. Collocamos um posto na praia e sentinellas nos sitios que julgamos convenientes, e ficamos mui descançados.

Em quanto a mim, o habito que tinha d'estas guerras fez com que, como se costuma dizer, dormisse com um olho aberto e outro fechado.

Pela meia noite o posto que se achava na praia, foi atacado e com tanta furia que os nossos soldados tiveram apenas tempo de fugir trocando alguns tiros com o inimigo.

Quando senti o primeiro tiro puz-me logo a pé dando o grito de «Ás armas.» Em poucos minutos todos estavamos promptos para o combate. Algum tempo depois de nascer o dia o inimigo appareceu, e tendo passado o rio parou a alguma distancia formado em batalha. Vendo o numero superior do inimigo o coronel Teixeira deveria ter expedido correios para chamar em seu auxilio a segunda divisão, mas Teixeira temendo que elle se retirasse sem ter occasião de combater, lançou-se no combate importando-se pouco da sua inferioridade numerica e da posição vantajosa que o inimigo occupava.

Este aproveitando-se das irregularidades do terreno tinha estabelecido a sua linha de batalha n'uma collina mui elevada, diante da qual existia um vale profundo obstruido por muitos abrolhos tinha além d'isso embuscado nos seus flancos alguns pelotões. Teixeira ordenou o ataque que começou com todo o vigor. O inimigo então fingiu retirar-se. Os nossos soldados começaram a perseguil-os sem cessar a fazillaria, mas repentinamente foram atacados pelos pelotões embuscados que elles não tinham visto e que tomando-os pelos flancos os obrigaram a passar o vale em desordem. Perdemos n'este combate um dos nossos melhores officiaes, Manoel N...... que era mui estimado pelo chefe. A nossa linha, bem depressa organisada de novo atacou o inimigo com tal impetuosidade, que foi posto em retirada.

O numero de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso, porque as tropas que tomaram parte no combate foram diminutas.

O inimigo retirou-se com precipitação e nós fomos em sua perseguição com grande encarniçamento. Infelizmente como tinhamos pouca cavallaria não podémos perseguir a sua que fugia a todo a galope. Aproximando-se do _Passo de Maromba_ o chefe da nossa vanguarda o major Jacintho participou ao coronel que o inimigo fazia passar em uma grande desordem o rio aos seus bois e cavallos, o que provava de que elle queria continuar a retirar-se. Teixeira não hesitou um momento; ordenou ao nosso pequeno esquadrão que mettesse a galope, recommendando-me que o seguisse o mais de perto possivel com a minha infanteria.

A retirada do inimigo não era comtudo senão uma astucia, e infelizmente esta astucia teve para nós terriveis resultados. Por causa das irregularidades do terreno e pela precipitação com que o tinha atravessado o inimigo achou-se fóra da nossa vista e chegando ao rio, havia, como nos tinha participado o major Jacintho, passado para a outra banda os bois e cavallos, mas os soldados tinham ficado occultos por detraz de collinas que os escondiam completamente á nossa vista.

Tomadas estas precauções e tendo deixado um pelotão para sustentar a sua linha de atiradores, os imperiaes, sabendo da nossa imprudencia em deixar a infanteria na retaguarda, fizeram uma contra-marcha e repentinamente os seus esquadrões appareceram no cimo de um valle.