Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas
Part 4
Nós ficámos em Maldonato,--quer dizer á entrada d'esse magnifico rio que na sua embocadura tem trinta leguas de largo--durante oito dias que se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha.
Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a tractar em terra.
Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato, não tinha tempo a perder.
Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me tranquillamente para casa do negociante.
Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida corria risco.
Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação apresentei-lhe uma pistola aos peitos:
--O meu dinheiro, lhe disse eu.
Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil patacões que me devia.
Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.
Ás onze horas da noute levantámos ancora.
IX
O RIO DA PRATA
Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos cachopos das Pedras Negras.
Como me achava em tal situação é que eu não podería explicar. Não havia dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa, consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar.
Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d'ahi mandei orçar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea.
Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir á galeota, que do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos.
Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos, tão conhecidos dos navegantes, tão bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos quaes julgava estar quando me achava no meio d'elles.
Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se por infelicidade, amanhecendo, não tivesse conhecido o perigo:
Em pouco tempo tudo me foi explicado.
Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao meu comprador do café, tinha mandado pôr no tambadilho os sabres e fuzís, para estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os marinheiros tinham collocado as armas ao pé da bitácola.
Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe, tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola continuou a andar regularmente.
Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de Montevideo está quasi na mesma distancia que Maldonato.
A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente os viveres, por isso que não tinhamos tido tempo de os comprar antes da nossa partida. Como não nos era possivel desembarcar, pelas ordens dadas, era necessario lançar mão de algum expediente para arranjarmos comestiveis.
Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa.
Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto possivel da praia, e como não tinha escaler, porque, como já disse, havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado com um croque, embarquei n'esta embarcação de novo gosto com um unico marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi: o seu pronome era Mauricio.
O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos pampeiros que eram mui violentos.
Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas sim dançando em cima de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e desembarquei.
X
AS PLANICIES ORIENTAES
O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que admirava pela primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes das--planicies orientaes--assim chamadas porque estão no lado oriental do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte de Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo cheio de novidade para um homem chegado do outro lado do Atlantico, e sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso vêr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens.
Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia sahido das suas mãos no dia da creação.
Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que é o de um tapete de verdura e flores, não muda senão nas margens do ribeiro Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de arvores com folhas luxuriantes.
Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á falta de creaturas humanas os habitantes d'essas immensas solidões, que só são atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes, as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua supposta dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga.
Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco que os opprime, os homens, essas creaturas creadas á imagem de Deus, cumprimentam-no e se curvam, não ousando dar os mesmos signaes de independencia que os animaes selvagens dão á vista do gaucho.
SENHOR, até quando permittireis tão grande aviltamento da vossa creatura!?
Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos ao novo, tão joven, e tão cheio de esperanças!
Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca sentiram a friesa do aço! Como respiram livremente debaixo do contacto da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como é soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, evita, fugindo em sua companhia, a presença dominadora do homem!
Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como heide exprimir a emoção que á vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco annos, que pela primeira vez estendia os braços para a immensidade.
Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem o cavallo o reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo é um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes. Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. Ninguem deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem desconfiar do touro, animal dissimulado e traiçoeiro. As gazellas e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se para verem se eram perseguidas.
N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens.
XI
A POETISA
Continuei dirigindo-me para uma _estancia_.[4] Ahi encontrei só a mulher do _capataz_.[5] Como não podia vender-me ou dar um boi sem consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais era tarde e antes do dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao mar.
[4] Nome das herdades na America do Sul.
[5] Dono do estabelecimento.
Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo tempo que elles se affastam continúa vivendo e augmentando na nossa memoria e tão bem que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa recordação só se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma educação cultivada, uma poetiza sabendo pelo coração Dante, Petrarcha e Tasso.
Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola, fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu marido não chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d'essas poesias, dizendo-me que m'o dava para apprender por sua causa o hespanhol. Perguntei-lhe então se era poetisa.
--Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza não seja poeta?
E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi combinado que no dia seguinte me venderia e levaria á praia um boi.
Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude, mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito, receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs n'esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os touros.
No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao laço. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal é a habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue.
Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o para o navio, isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os cachopos onde se despedaçavam as ondas furiosas.
Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.
Já sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo: uma meza com um tonel amarrado a cada pé, um pau no centro, que vindo do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua.
Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara na mão, e eu com um croque, começámos a manobrar temdo agua até aos joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo.
A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da tripulação da galeota, que fazia ardentes votos, póde ser, não pela nossa salvação, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi submergidos.
Felizmente atravessamo-la sem novidade.
Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.
Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era impossivel dirigir a embarcação. Alem d'isso a corrente tornando-se mais violenta, á medida que avançamos no rio, arrojava-nos para longe da galeota.
Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando só em Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.
Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, não tinham senão o recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava de terra a galeota bem depressa nos alcançou.
Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos um cabo. Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos içado todos os viveres é que Mauricio e eu subimos. Em seguida içámos a meza que foi reintregada no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a exercer as suas funcções habituaes.
Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que com tanto trabalho tinhamos alcançado, consideramo-nos sufficientemente recompensados das nossas fadigas.
Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d'um navio que cruzava n'estas paragens.
Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.
XII
O COMBATE
Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós, julguei prudente o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d'isso mandei pôr no tombadilho os mosquetes e sabres.
Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um fuzil, depois respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com todo o pano mandei.--Ás vélas de diante.
Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada, voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que n'aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes. Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.
Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de fuzil e sabre nos livraram d'elles.
Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir esta abordagem agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.
O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a subir o rio.
Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil durante o resto do combate.
Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado, tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata; para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens. Os marinheiros aterrados--os italianos, devo dizel-o, não partilhavam estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os--e receiando serem presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco, em cada canoa, em cada tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo enviado em sua perseguição.
O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as cerimonias costumadas n'estas occasiões, por que durante muitos dias não podemos desembarcar em parte alguma.
Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia.
No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes versos de Foscolo:
«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d'aquelles que a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.»
O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que era a minha unica esperança!
Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um carinho paternal.
XIII
LUIZ CARNIGLIA
Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas piedosas que me consagrou.
Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por elles!
XIV
PRISIONEIRO
Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.
No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.
Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D. Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição.
Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não admirava, porque a balla atravessando-me o pescoço de lado a lado tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo grandes melhoras.
D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendação para Gualeguay,--fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada, biscainho, que se achava estabelecido na America--e particularmente para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romão Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha ferida, e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por que tinha entrado, fez a extracção com toda a habilidade, tratando-me durante algumas semanas, isto é até ao meu completo restabelecimento, com os cuidados mais affectuosos e desinteressados.
Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho Andreas, que teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados.
Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a boa vontade do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a população de Gualeguay, era obrigado a esperar a resolução do dictador de Buenos-Ayres que não decidia cousa alguma.
O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas, de quem tratando de Montevideo, terei occasião de fallar mais de vagar.
Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz em que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: mas tudo isto não valia a minha liberdade.
Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia muito elevada ao governador, porque em differentes occasiões me foram feitas offertas de se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas, eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo veria a minha fuga sem grande pesar. Não era pois necessario fazer grande violencia para que eu adoptasse uma resolução de que ja havia formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era um certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha mostrado nem interesse, nem odio, não tendo pois o mais pequeno motivo para me queixar d'elle.
Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, afim de estar prompto na primeira occasião que se me apresentasse. Uma noute de tempestade dirigi-me para casa d'um excellente homem que costumava de quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay.