Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Part 3

Chapter 33,839 wordsPublic domain

N'esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,--alguns mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.

Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.

Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um chefe.

Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas na Polonia.

Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e então Mazzini cedeu.

Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por Genova.

Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o vigiar.[3]

[3] Estes successos que tinham logar em um ponto aonde não estava Garibaldi, são aqui referidos unicamente para explicação historica, sendo extrahidos de Angelo Brofferio.

Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a expedição devia ter logar em outubro.

Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava prompta senão em janeiro de 1834.

Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se mostrado firme.

Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um ajudante de campo.

A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros. Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes, que haviam adherido ao movimento.

Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.

Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon, devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de S. Julião.

Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava debaixo das ordens de Graboky.

O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França, por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.

Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.

Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro armas.

Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as armas e aprisionou os soldados.

Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago.

Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um estado deploravel.

Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam facilmente pela extensão e difficuldade do caminho.

A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou indifferentes.

Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente, arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte.

Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas intenções, e que caminho seguia.

As respostas do general nunca o haviam satisfeito.

Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e Ramorino achavam-se na mesma camara.

Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu olhar sombrio desconfiado.

--Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo. Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao menos á Italia que sabemos morrer.

--Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general, para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr inutilmente a flôr da mocidade italiana.

--Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa, ainda que seja com o nosso sangue.

Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria se ouviu.

Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado.

Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido um rebate falso.

Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais longe e ordenou a retirada.

Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e atravessou a fronteira da Saboya.

O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos foram attacados de noute e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos, e dispersos depois d'um combate que durou uma hora.

N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava fumegante o sangue de Elfico Tolla.

Por este modo terminou aquella expedição.

VI

O DEUS DOS BONS

Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido logar, e havia-a acceitado sem discutir.

Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe da fragata _Eurydice_. A minha missão era alcançar proselytos para a nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era possivel.

Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos republicanos.

Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova, devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde, como já disse, estava situado o quartel.

Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu. Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido feitas.

Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do _Eurydice_, começando a pensar nos meios de me pôr em fuga.

No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a praça.

Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava.

A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades, ainda não finalisou.

Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.

Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.

Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo minha mãe lhe tirasse todos os cuidados.

Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.

Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade a vau.

Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.

Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.

N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega; disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.

Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a iam mandar pedir a Paris.

Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.

Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella sem grades, dava para um jardim.

Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas, menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas, saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas montanhas.

Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.

Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á mesa esperando pela ceia.

Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum alimento.

O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua mulher. Acceitei.

A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente. Senti então um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como só se experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga não haver mais nada a receiar.

O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu rosto alegre e prasenteiro.

Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario, porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz--e em França á prisão.

Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei tudo.

Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.

--Que tem? lhe perguntei.

--É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não tenho remedio senão prendel-o.

Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem que eu temesse.

--Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do _dessert_. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação.

Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe faltavam.

A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás noutes para beber, fumar, e fallar da politica.

A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.

O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me perdia de vista.

É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.

Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que pareceu socegar o meu homem.

No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão:

--Agora pertence-me, disse eu:

E comecei a cantar o _Deus dos bons_.

Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão.

Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o auditório.

Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando acabei, gritaram--Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia!

Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me; o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal, ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.

Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas.

Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me prestou.

VII

ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE

Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado Genova.

Engano-me, um incidente, que li no _Povo Soberano_, me succedeu.

Estava condemnado á morte.

Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um jornal.

Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a chamar-me Pane.

Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da hospitalidade do meu amigo José Paris.

Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no navio _Union_, capitão Gozan.

No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que faltando-lhe um pé caíu ao mar.

Estava vestido á _domingueira_, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido. Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu recebido no meio dos seus applausos e bravos.

Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que tinha tomado.

Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.

Fiz na _Union_ a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em 1720 quando ali grassava a febre negra.

O cholera fazia então estragos horriveis.

Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes. Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio.

Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.

Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.

Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos paizes, embarquei-me, como segundo no brigue _Nantonnier_, de Nantes, capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de Janeiro.

Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.

Se para ser poeta é necessario escrever a _Iliada_, a _Divina Comedia_, as _Meditações de Lamartine_, ou os _Orientaes_, de Victor Hugo, eu não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor juvenil no meio das ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabeça ou por um braço quebrado--então sou poeta.

Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia quarenta horas, e morto de cançasso costeava Urbano e os seus doze mil homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o perigo para ouvir um rouxinol.

Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não! Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.

Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada _Paus d'Assucar_, immenso rochedo conico que serve não de pharol, mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos contemplavam.

Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo.

Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous irmãos.

Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso e valente cidadão.

Depois de termos passado algum tempo na _ociosidade_--Chamo ociosidade o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não tinhamos disposição alguma--o acaso fez com que travassemos relações com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se eleva á direita á entrada do porto d'onde chamam os navios á falla. Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu a carta para poder piratear os navios brasileiros.

Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando livres de todo o perigo ao Rio Grande.

VIII

CORSARIO

Armámos em guerra o _Mazzini_, pequeno navio de trinta toneladas, e fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilhão republicano; emfim eramos _corsarios_.

Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos capazes de declarar a guerra a um imperio.

Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munições estavam occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos negros.

Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado.

Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade e orgulho inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no mais alto dos ares.

O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio.

A occasião de o exercer não se fez esperar.

Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado sobre o meu observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilhão brasileiro.

Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci á praia.

Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo correr tão grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro.

Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão para se render immediatamente. Para sua justiça é necessario dizer que não fizeram a mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo. Vi então dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mão uma caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em troca da vida.

Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua vida não corria perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes para melhor occasião.

Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das baterias do porto. Transportámos as armas e munições para bordo da galeota e affundámos o _Mazzini_ que como se vê, tinha tido uma curta, mas gloriosa existencia.

A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha Grande, situada á direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e estava carregada de café que era enviado á Europa.

O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa, porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu fazia a guerra na America.

Dei á galeota o nome de _Farropilha_, derivado de _Farrapos_, nome que no imperio do Brasil se dá aos habitantes das republicas da America do Sul, assim como Filippe II chamava _mendigos de terra ou de mar_, aos revoltosos dos Paizes Baixos.

Até então a galeota chamava-se _Luiza_.

O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles, não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.

Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que punir.

Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.

Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade engajaram-se como marinheiros.

Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á republica oriental de Uruguay.

Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e apurar algum dinheiro.