Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Part 2

Chapter 23,893 wordsPublic domain

Uma commissão criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte.

Esta commissão decidiu que todos os accusados militares ou paisanos seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violação do codigo penal.

Por esta occasião é que se deu o facto memoravel que vamos relatar.

Um official que se assentava como juiz no conselho de investigação fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era:

«Que um conselho de investigação militar se devia declarar incompetente para julgar cidadãos.»

--Isso é impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos declarassemos competentes.

D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general.

O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime de lêr aos seus soldados a _Joven Italia_. O segundo foi o tenente Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo o author não o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas costas. Era uma engenhosa invenção da magistratura piemonteza para assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca.

Já não era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de Junho foram tão bem fuzillados _pelas costas_ o sargento Miglio, José Deglia e Antonio Gaortti.

Todos morreram com uma coragem admiravel.

Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre de Genova. Tentavam tirar-lhe as forças por todos os meios possiveis: falto de comida e de somno, sentia que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente, por isso resolveu não esperar que o collocassem entre a morte e a vergonha, e receiando que chegado esse momento não tivesse forças para escapar á morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão, afiou-a e degolou-se com ella.

Nas agonias da morte teve forças sufficientes para escrever na muralha com letras de sangue:

«Lego á Italia a minha vingança.»

Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o morto.

Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo.

Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, José Rigano, Assani Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri.

Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos de Jacopo Rufini.

Um condemnado d'Alexandria que escapou ás torturas de Fenestrelle, deixou nas suas memorias a narração da agonia de Andrea Vochieri:

«Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que se compunham de uma Biblia, de um livro de orações e de uma Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me ferros aos pés e conduziram-me a outra prisão mais humida mais escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas ordens de grades e as portas cadêas dobradas. Esta prisão era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede permittiam-me ver tudo quanto ali se passava.

«Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos pés, dois guardas collocados ao lado com a espada núa, e uma sentinella armada com uma espingarda se achava á porta. Reinava n'este medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o.

«Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle martyr em similhante estado não podia deixar de o contemplar a todos os momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir á morte.»

O que este prisioneiro não relata porque não o sabia, é que Vochieri foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a passar por defronte da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa e seus filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo perdesse a coragem e fizesse algumas revelações.

Vochieri sorriu tristemente:

--Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do que esposa, irmã e filhos... é a Italia. Viva a Italia!

Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, e que eram condemnados das galés em logar de soldados, disse esta unica palavra:

--Vamos!

Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas.

Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a sua vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam tantos martyres.

Esse mancebo era GARIBALDI.

=ALEXANDRE DUMAS.=

MEMORIAS DE GARIBALDI

I

MEUS PAES

Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se conserva uma padaria.

Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas.

Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de meu avô.

Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos legou.

Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n'este mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saín das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era obrigado a fazer.

Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitação. A gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gauchos.

O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio. Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios, como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a confiança que tenho em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.

Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos. N'estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte, e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto para o futuro.

Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça do que eu.

Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes, que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e sympathia dos meus compatriotas?

Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do SENHOR orando pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante anjo orava por mim.

II

OS MEUS PRIMEIROS ANNOS

Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal, que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.

Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d'um profundo fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo--tinha então oito annos--atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.

Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento particular.

Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia. Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor, é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna pela constante leitura da historia romana.

A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus pensamentos.

Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que, apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para a vida aventureira.

Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos havia visto foi o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as poucas sympathias que sinto pelos abbades.

Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, César Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.

III

AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS

«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!» disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da juventude e da primavera!

Foi illuminado por esse bello sol que tu linda _Constanza_, primeiro navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta, e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa, ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob os remos!

Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções populares.

Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me. Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem! Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos uma patria a vingar e a tornar livre?

Ninguem!

Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida não tem senão um fim--fazer fortuna.

Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe preparava, chorando, a minha bagagem.

A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre, advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na _Constanza_ de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria proveito e gloria para a patria.

Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.

A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações, se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a acompanhar-me.

Fizemos a viagem na sua tartana a _Santa Reparata_.

A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado, a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros! Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações, porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos, guiados por ella á civilisação.

Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio, parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu coração como um precioso deposito.

O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia ao SENHOR como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.

IV

AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS

Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a Cagliari no bergantim _Etna_, de que era capitão José Gervino.

N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli, navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que os nossos marinheiros chamam _Libieno_, por que antes de chegar ao Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.

A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem incídente.

De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.

Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson, podia como elle perguntar:--O que é o medo?

Foi n'uma destas viagens, no bergantim _Cortese_, capitão Barlasemeria, que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado, achei-me muito falto de recursos.

Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito na falta de dinheiro.

Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.

Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.

Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de lançar ao papel.

A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver, fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou. Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes, até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim _Notre-Dame-de-Grace_, de que tinha sido capitão Casanova.

Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.

Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro annos todo o trabalho foi inutil.

Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os negocios de Italia.

Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.

Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a palavra _patria_, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela revolução franceza de 1830.

Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!

Em outra viagem, transportei no _Clorinde_, a Constantinopla alguns _Simoniacos_, conduzidos por Emilio Parrault.

Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.

Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que, como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito, questões restrictas á Italia, e a cada provincia--mas até a grande questão da humanidade.

Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no segundo,--mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta contra a tyrannia, é mais que um soldado--é um heroe.

Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre os diversos paizes, mas o mensageiro do SENHOR. Havia partido avido de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo do futuro.

V

OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO

O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.

Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova.

Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a Mazzini.

Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri, Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.

Escreveu na sua _Joven Italia_: «Italianos, é tempo de nos juntarmos, se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.»

Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d'estas cousas. Algum tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a França e a retirar-se a Genova.