Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Part 13

Chapter 132,253 wordsPublic domain

Do mesmo modo que Rivera era prodigo para com os homens, Deus tinha sido prodigo para com elle. Era um bello cavalheiro, em todo o sentido da palavra hespanhola _caballero_, que comprehende ao mesmo tempo o soldado e o gentilhomem, de estatura elevada, de olhar prescutador, conversando com graça, e attraindo todos por um gesto particular que só lhe pertencia, sendo por isso o homem mais popular dos Estados orientaes. Mas se Rivera como homem era mui apreciavel, como administrador nunca houve nenhum que desorganisasse mais os recursos pecuniarios d'uma nação. Assim como havia destruido a sua fortuna particular, destruiu a fortuna publica, não para se enriquecer, mas porque homem publico tinha conservado todos os habitos do homem particular.

Na epocha que descrevemos, essa ruina ainda não se fazia sentir: Rivera, commeçava a sua presidencia, e estava rodeado dos homens mais notaveis do paiz: Obez, Herrero, Vasques, Alvares, Ellauri, Luiz Eduardo Peres, erão verdadeiramente senão seus ministros ao menos seus directores, e com estes homens tudo o que era progresso, liberdade e prosperidade, estava promettido a este bello paiz.

Obez, o primeiro dos amigos de Rivera era um homem d'um caracter respeitavel. O seu patriotismo, o seu talento eminente, a sua instrucção profunda o collocaram no numero dos grandes homens da America, e para que nada faltasse á sua popularidade, morreu no exilio victima do systema de Rosas no Estado oriental.

Luiz Eduardo Peres, era o Aristides de Montevideo. Republicano severo, patriota exaltado, consagrou a sua longa existencia á virtude, á liberdade, e ao seu paiz.

Vasquez, homem de talento e instrucção, rendeu os primeiros serviços ao seu paiz no cerco de Montevideo, na guerra contra a Hespanha e acabou a sua carreira durante o cerco contra Rosas.

Herrera, Alvares, e Ellauri cunhados de Obez, não ficaram atraz dos que temos nomeado. Foram deffensores dedicados do Estado oriental, e de toda a causa americana, sendo por isso os seus nomes mui respeitados em todo o territorio americano.

MANUEL ORIBE

A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general Manuel Oribe foi quem lhe succedeu, por influencia do proprio Rivera que contava ter n'elle um amigo e continuador do seu systema. Com effeito Manuel Oribe tinha sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte da precedente administração, como ministro da guerra.

Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu espirito era fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se por isso a sua alliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa alliança trazia comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual tantas vezes havia combatido.

Como general a sua incapacidade era incompleta. As suas paixões tinham a violencia das organisações nervosas e arrastavam-n'o á crueldade. Como particular era um homem honesto.

Como administrador foi mais economico que Rivera e não se lhe pode censurar o ter augmentado o defficit do thesouro, e comtudo é a elle que cabe toda a responsabilidade da ruina do Estado oriental. Esquecendo que para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional de que Rivera era chefe. Querendo formar um partido seu, excitou a desconfiança de todos e espantado pela sua fraqueza lançou-se nos braços de Rosas. Ainda que o tratado tivesse ficado secreto todos conheceram esta alliança pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração argentina e como todos detestavão o systema de Rosas, o paiz seguiu Rivera, quando elle em 1836 se collocou á frente d'uma revolução contra Oribe.

Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi todo o paiz, Oribe resistiu até 1838.

Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente perante as camaras e sahiu do paiz tendo pedido ás mesmas camaras licença para se retirar.

Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o a protestar contra essa renuncia, e reconhece-o como chefe do paiz de que havia sido expulso. Foi o mesmo do que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont reconhecido o duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.

Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade do dictador, mas elle preparava-se para mudar esses risos em lagrimas.

A consequencia natural da conducta de Rosas era a guerra entre as duas nações.

Esta guerra foi horrivel.

Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por Rosas, chamaram o _illustre_ e o _virtuoso_ Oribe, foi ao mesmo tempo general e carrasco.

Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de sangue publicadas pela _America do Sul_, e nas quaes vem registados dez mil assassinatos.

Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas pelos seus agentes e officiaes.

O general D. Marianno Achaque serve no exercito contrario a Rosas, defende S. João e no dia 22 de agosto de 1841 rende se depois de quarenta e oito horas de resistencia. D. José Ramires official de Rosas transmitte então ao governo de S. João o relatorio official d'este successo. Copiaremos estas linhas:

_Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia para todos os prisioneiros. Entre elles está um filho de Lamadrid._

Agora leia-se o numero 2067 do _Diario da tarde_ de Buenos Ayres, de 22 de outubro de 1841, e em opposição do documento official de José Ramires, que assegura a vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:

Desaguedero, 22 de setembro de 1841.

«_O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado e a sua cabeça exposta ao publico._

Assignado: _Angelo Pacheco._»

É necessario não confundir este Pacheco, tenente de Rosas com seu primo Pacheco y Obes um dos seus inimigos mais encarniçados.

O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires se acha esta frase.

«_Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid._»

Veja-se a _Gazeta Mercantil_, numero 5703, de 20 de abril de 1842 e ahi se encontrará esta carta escripta por Mazario Benavides a D. João Manoel Rosas:

Miraflore 7 de abril de 1842.

«Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos porque conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, mas sabendo que elle se tinha dirigido a muitos chefes da provincia para os resolver a tomar a sua defesa, mandei assim que cheguei a Rioja _decapital-o, assim como o salvagem unitario Manoel Julião Frias, natural de Santiago_.

Assignado: _Mazario Benavides._»

Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados de submetter as provincias Argentinas, derrotou, a 15 de abril de 1842, no territorio de Santa-Fé as forças commandadas pelo general João Paulo Lopes.

Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João Martins.

Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:

«No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de abril de 1842.--Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, entre as quaes se achava _João Martines a quem hontem mandei decepar a cabeça_.

Assignado: _Manoel Oribe._»

Se ainda tendes em vosso poder a _Gazeta mercantil_, vêde o numero 5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi encontrareis um relatorio official de Manuel Antonio Saravia, empregado no exercito de Oribe.

Este relatorio contém uma lista de desasete individuos, de que um era chefe de batalhão e outro capitão, que foram prisioneiros em Numayan, soffrendo ahi o _castigo ordinario da pena de morte_.

Voltemos ao _illustre_ e _virtuoso_ Oribe, numero 3007 do _Diario da tarde_, onde vem o seguinte a proposito da batalha de Monte Grande.

«Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.

«Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem unitario, ex-coronel Facundo Borda, que _foi executado immediatamente, com outros pertendidos officiaes de cavallaria e infanteria_.

_Manoel Oribe._»

Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador de Tucuman e os seus officiaes. Eis como elle annuncia esta noticia a Rosas.

«Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841.

«Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante Sandoval e que são Marion, o pertendido governador general de Tucuman, Avellanieda, o pertendido coronel J. M. Villela, o capitão José Espejo, e o tenente Leonardo de Sousa, _foram immediatamente executados na forma ordinaria_, á excepção de Avellanieda a quem ordenei que cortassem a cabeça, sendo exposta ao publico na praça de Tucuman.

_Manoel Oribe._»

Agora passemos a outro carrasco de Rosas.

«Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia o senhor governador Arredondo.

«Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada á espada, e a cavallaria posta na mais completa desordem.

«O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste com trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e a sua cabeça será bem depressa exposta na praça publica, assim como já o estão as dos perteadidos ministros Gonçalves Dulce e Espeche.

«Viva a federação!

Assignado: _M. Maza._»

«_Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e officiaes que foram executados depois da acção de 29_:

«Coronel: Vicente Mercao.

«Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce, Damasio Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.

«Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz.

«Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro Araujo, Izidoro Ponce, Pedro Barros.

«Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, Francisco Quinteros Daniel Rodrigues.

«Tenente: Domingos Dias.

Assignado: _M. Maza._»

Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois voltarmos a Rosas.

«Casamarca, 4 de novembro de 1841.

«Já lhe disse que pozemos em completa desordem o selvagem unitario Cubas, e que era perseguido, esperando ter em breve em meu poder a cabeça do bandido. Foi com effeito prisioneiro no Cerro das Ambastes, e a sua cabeça está exposta na praça publica da cidade.

«Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove officiaes que seguiam Cubas. _Não dei quartel._ O triumpho foi completo.

_M. Maza._»

Vejamos de passagem no _Boletim de Mendonça_ n.º 12, esta carta escripta no campo de batalha d'Arroyo Grande e dirigida ao governador Aldao pelo coronel D. Jeronymo Costa.

«Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes que foram executados immediatamente.»

Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos pelo seu ramalhete este fogo de artificio de sangue.

Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir a minha promessa.

O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida a Rosas que passou tres horas a dar-lhe pontapés. N'esse momento soube que um outro coronel, irmão d'armas do primeiro, havia sido feito prisioneiro. No primeiro momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por dia, durante tres dias, essa cabeça cortada em cima de uma meza que se devia achar collocada na sua frente.

Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns dos prisioneiros do general Paz.

Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador de S. Luiz; no meio do supplicio o filho do condemnado lançou-se nos braços de seu pae.

--Fuzillae ambos, disse Rosas.

E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro.

Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos Ayres oitenta prisioneiros indios, e em pleno dia e na presença de todos os mandou matar a estocadas.

Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda d'uma das principaes familias de Buenos-Ayres, foi seduzida por um padre de vinte e quatro, e fugiram ambos de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa de Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola. Corrientes cahe em poder de Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos por um padre e denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou fuzillar.

--Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida!

--Baptisae o ventre, diz Rosas, que como _excellente christão_, quer salvar a alma do menino.

Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.

Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe que os havia estendido para proteger seu filho...

Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou em favor de Rosas?

E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante Mackan, firmou então o poder de Rosas, deixando só a republica oriental engagada na lucta.

Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do Rio Grande.

D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza, o poder combatendo pelo despotismo.

Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade arruinada, um thesouro exhausto, um povo sem recursos, não podendo pagar aos seus defensores, mas combattendo pela liberdade.

Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores da liberdade.

Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar a historia d'esse cerco, que como o de Troia, durou nove annos.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

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ÍNDICE

PROLOGO 5 I MEUS PAES 25 II OS MEUS PRIMEIROS ANNOS 27 III AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS 29 IV AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS 31 V OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO 34 VI O DEUS DOS BONS 38 VII ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE 42 VIII CORSARIO 45 IX O RIO DA PRATA 48 X AS PLANICIES ORIENTAES 50 XI A POETISA 52 XII O COMBATE 55 XIII LUIZ CARNIGLIA 57 XIV PRISIONEIRO 58 XV A APOLEAÇÃO 60 XVI VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE 62 XVII A LAGOA DOS PATOS 65 XVIII ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA 67 XIX A ESTANCIA DA BARRA 69 XX EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA 75 XXI PARTIDA E NAUFRAGIO 77 XXII JOÃO GRIGGS 81 XXIII SANTA CATHARINA 83 XXIV UMA MULHER 85 XXV O CRUZEIRO 87 XXVI SAQUE DE IMERUI 90 XXVII NOVOS COMBATES 91 XXVIII A CAVALLO 94 XXIX A RETIRADA 98 XXX ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES 100 XXXI BATALHA DE TAQUARI 103 XXXII ASSALTO A S. JOSÉ DO NORTE 108 XXXIII ANNITA 110 XXXIV LEVANTA-SE O CERCO.--ROSSETTI 116 XXXV A PICADA DAS ANTAS 118 XXXVI CONDUCTOR DE BOIS 122 XXXVII PROFESSOR DE MATHEMATICA E CORRETOR DE COMMERCIO 128 MONTEVIDEO 130 ROSAS 139 QUIROGA 150 MANUEL ORIBE 158

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Nota do Transcritor

Pontuação e hifenização foram normalizados.

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1860. A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns erros óbvios.

Palavras em itálico e frases são apresentados por em torno do texto com sublinhados (_itálico_).

O índice foi adicionado.