Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas

Part 12

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No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis, e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo. Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de todas os qualidades na sua tenda.

Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de quando em quando. Rosas então chamava-os a todos e os monges que sabiam o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime.

Immediatamente o culpado era despojado dos vestidos e fustigado pelos seus tres companheiros.

Todos conheciam em Buenos-Ayres o seu mulato Eusebio, e para isso muito concorreu Rosas que em um dia de recepção publica, teve a idéa de fazer o mesmo que a condessa Dubarry fazia com o preto Zamora.

Eusebio vestido de governador recebeu os cumprimentos das authoridades, em logar do seu _senhor_.

Não obstante a amizade que Rosas tinha a Eusebio, teve um dia a lembrança de lhe fazer uma _brincadeira_, como costumavam ser todas as que esta boa alma inventava. Fingiu que acabava de ser descoberta uma conspiração, contra elle, de que o chefe era Eusebio. O fim d'esta conspiração era matar Rosas. Eusebio foi preso apezar dos seus protestos de innocencia. Rosas dominava os juizes a tal ponto que elles não se importavam se o accusado era ou não innocente. Rosas accusava, e elles julgaram e condemnaram Eusebio á morte.

Eusebio soffreu todos os preparativos do supplicio. Confessou-se, e sendo depois conduzido ao logar do supplicio, ahi encontrou o carrasco e seus ajudantes, e quando este _brinquedo_ estava quasi a terminar tragicamente, appareceu Rosas que disse a Eusebio estar sua filha Manuelita apaixonada por elle, e que por isso lhe perdoava, com a condição de a desposar.

É inutil dizer que Eusebio não morrendo do supplicio esteve quasi a morrer de medo.

Vamos agora dizer aos nossos leitores quem era como mulher esta Manuelita que a Providencia tinha collocado ao pé de seu pae como um bom anjo, de que a principal occupação, durante toda a sua vida, foi repetir todos os dias a palavra _perdão_, alcançando-o muitas vezes.

Manuelita é hoje uma mulher de quarenta annos que por dedicação por seu pae, e póde ser, que talvez pela missão que recebeu do ceu, se tem conservado solteira, pelo menos até 1850, época em que a perdemos de vista.

Manuelita não era precisamente uma mulher encantadora, mas era bella, com uma figura distincta, dotada de um tacto profundo, coquette como uma parisiense, e muito preoccupada, sobre tudo do effeito que produzia nos estrangeiros.

Manuelita foi muito calumniada, o que era muito natural por ser filha de Rosas, isto é, do homem sobre o qual convergiam todos os odios. Era accusada de ter herdado os sentimentos crueis de seu pae, e de ter, como a filha do papa Borgia, esquecido o amor filial por outro mais terno e menos christão.

Tudo isto é falso. Manuelita ficou solteira por duas razões: a primeira porque Rosas sentia muitas vezes a necessidade de ser amado, e sabia que o unico amor real, dedicado, infinito, sobre que podia contar era o de sua filha. Manuelita ficou solteira porque, talvez, nos seus sonhos de realeza, Rosas, hoje simples particular, vivendo num canto da Inglaterra, via no futuro brilhar para Manuelita alguma alliança mais aristocratica do que aquellas a que poderia então aspirar.

Tanto a historia deve ser severa para com Rosas, tanto, a menos de ser injusta, deve ser cheia de indulgencia para com Manuelita, a quem todos que a conhecem fazem justiça, reconhecendo o que dizemos como uma verdade. Manuelita foi o dique eterno, que fazia parar a colera de seu pae. Quando creança tinha um meio muito extravagante para obter d'elle a graça que pedia.

Fazia despir completamente o mulato Eusebio, arreiando-o como um cavallo, e calçava uns lindos sapatos com esporas. Eusebio punha as mãos no chão, e Manuelita montava-se-lhe nas costas, fazendo caracolar o seu bucephalo humano diante de seu pae que ria muito d'este singular brinquedo, concedendo a Manuelita o perdão que implorava.

Mais tarde quando ella comprehendeu que não podia empregar este meio, apezar de ser tão efficaz, começou a pôr em pratica a obra de Mecena ao pé de Augusto, quando elle lhe lançava as suas tabuas nas quaes estava escripto: _Surge, carnifex_! Mas Manuelita procedia de outra maneira, porque conhecendo seu pae perfeitamente, sabia as vaidades secretas que era necessario fazer vibrar, e por isso muitas vezes alcançava o que pedia.

Manuelita era ao mesmo tempo a rainha e escrava de seu pae. Administrava a casa, cuidava de Rosas, e encarregada de todas as relações diplomaticas era o verdadeiro ministro dos negocios estrangeiros de Buenos-Ayres.

Assim como Rosas era um ente á parte, que não se confundia com pessoa alguma na sociedade, Manuelita era tambem uma creatura não só estranha no meio de todas, mas mesmo estranha a todas, e que viveu n'este mundo solitaria, longe do amor dos homens e da sympathia das mulheres.

Rosas tambem tinha um filho chamado João, mas que nunca seguiu a politica de seu pae, e uma filha que ainda creança casou, sendo hoje uma casta esposa e mãi feliz, tendo um nome, o de seu marido, honrado e respeitado por todos.

Tendo alcançado o poder, o grande trabalho de Rosas, foi anniquilar a federação.

Lopes o seu fundador, cahiu doente. Rosas mandou-o vir para Buenos-Ayres e tornou-se seu enfermeiro.

Lopes morreu envenenado.

Quiroga, o chefe da federação, que havia escapado são e salvo de vinte batalhas, e de quem a coragem e lealdade era proverbial, morreu assassinado.

Cullen, o conselheiro da federação, foi nomeado governador de Santa Fé. Rosas improvisou uma revolução, e Cullen foi entregue a Rosas pelo governador de São Thiago.

Cullen foi fuzillado.

Todos os homens notaveis no partido federal tiveram a mesma sorte que tinham tido na Italia os homens de consideração durante o dominio dos Borgias. Pouco a pouco, Rosas, empregando os mesmos meios que Alexandre VI e seu filho Cesar, conseguiu reinar na republica argentina, que apezar de reduzida a uma perfeita unidade, conserva ainda o nome pomposo de federação, e vae talvez, ser inimiga dos _unitarios_.

Diremos algumas palavras dos homens que acabamos de nomear, fazendo reviver algum tempo os seus spectros accusadores, o que dará alguma idéa da scena de Shakespeare no _Ricardo 3.º_, antes do combate.

Havia n'esses homens uma especie de selvajaria politica que é digna de ser conhecida.

Fallemos primeiramente do general Lopes. Uma unica anedocta, dará não sómente idéa d'este chefe, mas fará conhecidos os homens com quem elle tinha a tratar.

Lopes era governador da Santa Fé, e tinha em Entre Rios um inimigo pessoal, o coronel Ovando, que em seguida a uma revolta foi conduzido prisioneiro ao general Lopes.

O general almoçava. Recebeu perfeitamente Ovando e convidou-o a almoçar. A conversação travou-se entre elles como entre dois convivas, aos quaes uma egualdade de condições tivesse ordenado a mais perfeita cortezia.

Comtudo no meio da conversação, Lopes exclamou:

--Coronel, se eu tivesse cahido nas suas mãos, como cahiu nas minhas e isto no momento em que almoçasse, que faria?

--Convidal-o-ia para almoçar, como v. ex.ª acaba de fazer.

--E depois?

--Mandava-o fuzillar.

--Estimo muito que pense do mesmo modo que eu. Acabando de almoçar será fuzillado.

--Se não se quer demorar muito, póde ser já.

--Não, não, acabe de comer descançado, não tenho muita pressa.

E continuaram a almoçar com todo o descanço, e tendo concluido:

--Julgo ser tempo, disse Ovando.

--Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopes.

Depois chamando o seu camarada.

--O piquete está prompto? perguntou elle.

--Sim, meu general, respondeu o soldado.

Então voltando-se para Ovando:

--Adeus, coronel, disse Lopes.

--Adeus, não; mas sim até á vista, porque não se vive muito tempo quando se fazem guerras como as nossas.

E cumprimentando Lopes sahiu. Cinco minutos depois, o estrondo de uma descarga annunciou a Lopes que o coronel Ovando havia entregue a alma a Deos.

Passemos a Quiroga.

QUIROGA

Este é mais nosso conhecido. A sua reputação atravessando os mares, fez echo em Paris, e a moda apoderou-se d'elle: de 1820 a 1823 todos tinham capotes á Quiroga e chapeus á Bolivar. É provavel que nem um nem outro tivessem usado dos capotes e chapeus que os seus admiradores adoptaram a duas mil leguas de distancia.

Quiroga, como Rosas, era tambem camponez e havia servido, na sua mocidade, como sargento no exercito de linha contra os hespanhoes.

Retirado ao seu paiz natal, a Rioja, entrou nos partidos internos, e tornado-se senhor do paiz, lançou-se na lucta das differentes facções da republica, e foi n'estas luctas que se mostrou pela primeira vez á America.

No fim de um anno, Quiroga era a espada do partido federal, e é talvez o unico homem que tenha obtido similhantes resultados pela simples applicação do seu valor pessoal. O seu nome tinha alcançado um tal prestigio que só elle valia muitos exercitos.

A sua grande tactica no meio dos combates, era chamar para o pé de si o maior numero de perigos, e quando repentinamente dava o grito de guerra brandindo na mão essa longa lança que era a sua arma predilecta, os mais bravos faziam conhecimento com o medo.

Quiroga era cruel, ou antes feroz, mas na sua ferocidade havia sempre alguma cousa de grande e generoso. Era a ferocidade do leão e não a do tigre.

Quando o coronel Pringles, um dos seus maiores inimigos, foi feito prisioneiro e assassinado, o seu assassino apresentou-se a Quiroga, seu chefe, julgando ter ganho uma boa recompensa.

Quiroga deixou-lhe contar o seu crime, e mandou-o fuzillar.

Uma outra vez dois officiaes pertencentes ao partido inimigo foram feitos prisioneiros pelos soldados de Quiroga que lembrando-se do castigo do seu camarada, os conduziram sãos e salvos á presença do seu chefe.

Quiroga offereceu-lhe abandonar as suas bandeiras, servindo debaixo das suas ordens.

Um acceitou, outro recusou.

--Está bem, disse elle ao que havia acceitado, montemos a cavallo e vamos vêr fuzillar o seu camarada.

Aquelle sem fazer a menor observação, apressou-se a obedecer, e conversou todo o caminho alegremente com Quiroga de quem se julgava já ajudante de campo, em quanto o seu camarada cercado por um piquete, com as armas carregadas, marchava tranquillamente para a morte.

Chegado ao logar destinado para a execução, Quiroga mandou ajoelhar o official que tinha recusado trahir o seu partido, e disse-lhe que se preparasse para morrer, e quando o viu prompto:

--Vamos, disse Quiroga, ao pobre official que se julgava já morto, és um bravo.--Monta no cavallo do teu camarada e parte.

E designava o cavallo do renegado.

--E eu? perguntou este.

--Tu, respondeu Quiroga, não precisas cavallo porque vaes morrer.

E apezar das supplicas que lhe fez em favor do seu camarada, aquelle a quem acabava de dar a vida, mandou-o fuzillar.

Quiroga só foi vencido uma vez, e essa pelo general Paz, o Fabio americano. Duas vezes destruiu o exercito de Quiroga nas terriveis batalhas de Tablada e Oncativo. Era um bello espectaculo para esses jovens republicanos o vêr a arte, a tactica e a estrategia em lucta contra a coragem indomavel e a vontade de ferro de Quiroga. Mas uma vez o general Paz foi feito prisioneiro, a cem passos do seu exercito, e desde essa época Quiroga foi invencivel.

Terminada a guerra entre o partido unitario e o partido federal, Quiroga emprehendeu uma viagem ás provincias interiores sendo na volta, attacado em Barrancallaco por trinta assassinos, que fizeram fogo sobre a carroagem. Quiroga que se achava n'esta occasião doente, estava deitado, na carroagem, tendo-lhe por isso atravessado o peito uma balla. Apesar d'isso Quiroga levantou-se pallido e ensanguentado e abriu a portinhola. Vendo-o em pé, apezar de estar quasi cadaver, os assassinos fugiram; mas Santos Peres, seu chefe, dirigiu-se a Quiroga e dando-lhe um golpe na cabeça acabou de o matar.

Então os assassinos voltaram e acabaram a obra começada. Eram os irmãos Renafé, commandantes em Cordova que de accordo com Rosas dirigiam esta expedição. Mas Rosas tinha tido todo o cuidado de affastar de si todas as suspeitas, de modo que ninguem julgou fosse elle um dos cumplices em similhante morte, podendo por isso tomar o partido do que tinha feito assassinar, perseguindo os assassinos que foram presos, julgados, e fuzillados.

Falta Cullen.

Cullen, que tinha nascido em Hespanha, havia-se estabelecido na cidade de Santa Fé, onde se tinha ligado com Lopes, sendo depois seu ministro e director na politica. A immensa influencia que Lopes teve na republica argentina, desde 1820 até á sua morte em 1833, fez de Cullen uma personagem muito importante. Quando nos dias de sua desgraça, Rosas proscripto emigrou para Santa Fé, recebeu de Cullen toda a especie de serviços, mas esses serviços não poderam fazer esquecer ao futuro dictador que Cullen era um dos homens que queriam acabar com o reinado da arbitrariedade na republica argentina. Comtudo soube occultar o seu odio a Cullen debaixo das apparencias da maior amizade.

Pela morte de Lopes, Cullen foi nomeado governador da Santa Fé consagrando-se a fazer grandes melhoramentos na provincia, e em logar de se mostrar inimigo da França, mostrou por esta nação muitas sympathias, considerando que a sua alliança era um grande passo para as suas idéas civilisadoras. Então Rosas promoveu uma revolução, que appoiou publicamente, sendo coadjuvado por alguma tropa. Cullen vencido refugiou-se na provincia de Santiago del Estero, que governava o seu amigo Ibarra. Rosas, que destruindo a federação tinha já declarado Cullen _selvagem unitario_, entabolou negociações com Ibarra afim de lhe entregar Cullen.

Durante muito tempo estas negociações não obtiverão resultado algum, julgando-se Cullen, seguro pela confiança que tinha no seu amigo, mas um dia foi preso pelos soldados de Ibarra e conduzido a Rosas que o mandou assassinar no meio do caminho, porque disse elle n'uma carta dirigida ao governador de Santa Fé que tinha succedido a Cullen, o seu _processo estava feito pelos seus crimes que eram conhecidos por todos_.

Cullen era dotado d'uma conversação agradavel e d'um coração generoso. A sua influencia sobre Lopes foi sempre empregada a evitar toda a especie de rigor, e foi em resultado d'esta influencia que o general Lopes, não obstante as supplicas de Rosas, não consentiu em mandar fuzillar um unico dos prisioneiros da campanha de 1831, campanha que poz em seu poder os chefes mais importantes do partido unitario.

Cullen possuia uma instrucção superficial e os seus talentos eram mediocres.

Foi d'esta sorte que Rosas, o unico que talvez não teve nenhuma gloria militar, entre os chefes do partido federal, se desembaraçou dos chefes d'este partido, ficando desde então a pessoa mais importante da republica argentina, e senhor absoluto de Buenos Ayres.

Então Rosas tendo alcançado todo o poder, commeçou a sua vingança contra as classes elevadas que até então o tinham despresado. No meio das personagens mais aristocratas e mais elegantes mostrava-se sempre vestido de jaqueta, ou sem gravata. Aos seus bailes a que presidia com sua mulher e filha, não eram convidados senão os carreiros, sapateiros, etc. Um dia abriu o baile dançando com uma escrava, e Manuelita com um gaucho.

Mas não foi só d'esta maneira que elle puniu a soberba cidade, porque proclamou o terrivel principio:

«_o que não está comigo é contra mim_»

E desde então todo o homem que lhe desagradava foi classificado de _selvagem unitario_, e o que uma vez Rosas havia designando por este nome não tinha mais direito nem á vida nem á honra.

Então para por em pratica as theorias de Rosas, organisou-se debaixo dos seus auspicios a famosa sociedade MAS-FORCA, isto é, ainda ha forca. Esta sociedade era composta de tudo quanto havia de peor na sociedade.

N'ella se achavam filiados por ordem superior o chefe da policia, os juizes de paz, e todos aquelles que deviam vigiar pela ordem publica. Por este meio quando os membros d'esta sociedade entravam em casa de qualquer cidadão, para a roubar ou assassinar o seu proprietario, era escusado chamar em seu auxilio a policia, porque ninguem corria a soccorrer a desgraçada victima. Estas excursões tinham logar quasi sempre de dia, tanto era o receio dos criminosos.

E quer o leitor alguns exemplos? Vamos dal-os, por que não é costume nosso fazer uma accusação sem a provar.

Os elegantes de Buenos-Ayres tinham n'esta época o habito de trazer os bigodes de modo que pareciam formar um U, e isto era sufficiente para a sociedade dos MAS-FORCA, debaixo do pretexto de que o U queria dizer unitario, se apoderar do desgraçado, rapando-lhe a cara com navalhas mal afiadas, de modo que a carne vinha juntamente aos pedaços com os cabellos. Depois de praticarem esta barbaridade, abandonavam a victima aos caprichos da populaça, que muitas vezes continuava esta brincadeira até dar a morte áquelle desgraçado.

As mulheres do povo começavam a usar nos cabellos a fita encarnada chamada _mono_. Um dia a Mas-forca collocada ás portas das principaes egrejas, marcou com um ferro em brasa todas as mulheres que entravam ou sahiam sem ter a tal fita.

Tambem não era uma cousa extraordinaria o ver uma mulher despojada dos seus vestidos e açoitada no meio da rua, e isto porque ella trazia um lenço, um vestido um enfeite qualquer, no qual havia a cor azul ou verde. O mesmo succedia com os homens da mais elevada posição, sendo apenas necessario para elles correrem os maiores perigos que se apresentassem em publico de casaca ou com uma gravata.

Ao mesmo tempo que as pessoas, sem duvida designadas á muito, e que pertenciam ás classes superiores da sociedade perseguidas por uma cruel vingança, eram victimas d'estas violencias, centenas de cidadãos eram encarcerados, e isso só porque as suas opiniões não estavam em harmonia com as do dictador. Ninguem conhecia o crime porque era preso, mas isso tambem era desnecessario, visto ser conhecido de Rosas. Do mesmo modo que o crime ficava desconhecido, tambem o julgamento era considerado inutil, e todos os dias as prisões para poderem dar entrada a novas victimas, eram despojadas de algumas d'ellas que erão fuziladas. Estes fuzilamentos tinham logar de noute, sendo a cidade constantemente accordada de sobresalto.

De manhã, cousa horrivel que nem mesmo em França se viu durante os terriveis dias de 1793, os carreiros apanhavão tranquillamente os cadaveres dos assassinados e hiam ás prisões buscar os dos que tinham sido fuzillados, e conduzindo-os a um grande fosso onde eram todos lançados, sem que fosse permittido aos parentes das victimas o vir reconhecel-as e prestar-lhe as ultimas honras funebres.

Ainda não é tudo: os carreiros que conduzião estes restos deploraveis annunciavam a sua chegada por terriveis gracejos que faziam fechar todas as portas e fugir a população. Muitas vezes decepavam a cabeça do tronco, enchendo cestos com ellas, e offerecendo-as depois aos tranzuentes assustados.

Bem depressa o calculo se juntou á barbaridade, o fisco á morte.

Rosas comprehendeu que o meio de se conservar no poder era crear em volta de si interesses inseparaveis dos seus.

Então mostrou a uma parte da sociedade metade da fortuna da outra dizendo-lhe--É tua.

A partir d'este momento a ruina dos antigos proprietarios de Buenos-Ayres foi consumada, começando os amigos de Rosas a obter grandes fortunas.

O que não tinha ousado pensar nenhum tyranno, o que não tinha vindo á idéa de Nero, foi executado por Rosas: depois de haver assassinado o pai prohibiu ao filho o deitar luto. A lei que continha esta prohibição foi proclamada e fixada nas esquinas, e bem necessaria foi, porque quando não, tudo em Buenos Ayres andaria de luto!

Os excessos d'este despotismo admiraram alguns estrangeiros e sobre tudo alguns francezes. Rosas cansou a paciencia de Luiz Felippe, paciencia bem reconhecida, e logo depois teve lugar o primeiro bloqueio pela esquadra franceza.

Entretanto as classes elevadas tão mal tractadas, commeçarão a fugir de Buenos Ayres e para encontrar um asylo refugiaram-se no estado oriental, onde a maioria da cidade proscripta achou hospitalidade.

Foi em vão que a policia de Rosas redobrou de vigilancia, foi em vão que uma lei prohibio de morte a emigração, foi em vão que a essa morte se juntaram os mais crueis detalhes, porque Rosas conheceu bem depressa que a morte só não era sufficiente; o terror e o odio que inspirava Rosas eram mais fortes que os meios inventados por elle, e a emigração augmentava d'uma maneira espantosa a todos os momentos. Para realisar a fuga de toda uma familia, era só necessario encontrar um barco que a podesse transportar. Encontrado elle, pai, mãe, filhos, irmãos, ahi se lançavam, abandonando casa, bens, fortuna, e todos os dias, se via chegar ao estado oriental, isto é a Montevideo algumas d'essas barcas cheias de passageiros tendo por unica fortuna o fato que levavam em cima de si.

Nenhum d'esses fugitivos teve de se arrepender da confiança que tinham posto na hospitalidade do povo oriental, pois essa hospitalidade foi como o teria sido a d'uma republica antiga; hospitalidade como devia esperar o povo argentino d'amigos, ou antes d'irmãos, que tantas vezes tinham combatido unidos para repellir os inglezes, hespanhoes ou brasileiros,--inimigos communs, inimigos estrangeiros--menos perigosos comtudo do que esse que havia nascido no meio d'elles.

Os argentinos chegavão em grande quantidade, e erão esperados no porto pelos habitantes, que escolhiam em rasão dos seus recursos pecuniarios, ou do tamanho da sua casa os emigrados que podiam recolher. Então viveres, dinheiro, fato, tudo era posto á disposição d'esses desgraçados, até que elles tivessem alcançado alguns recursos, no que todos os coadjuvavão. Elles do seu lado reconhecidos entregavam-se ao trabalho, afim de alliviar o fardo que impunhão aos seus hospedes, dando-lhe assim os meios de receber novos fugitivos. Para poderem praticar tão nobre acção, as pessoas mais habituadas ao luxo trabalhavão nos misteres mais infimos, enobrecendo-se tanto mais a occupação a que se entregavam era em opposição com o seu estado social.

Foi por este modo que os mais bellos nomes da republica argentina figuram na emigração.

Lavallée, a espada mais brilhante do seu exercito, Florencio Varella, o seu mais bello talento, Aguero, um dos seus primeiros homens de estado; Echaverria, o seu Lamartine; La Vega, o Bayardo do exercito das Andes; Guttierez, o feliz cantor das glorias nacionaes; Alsina o grande advogado e illustre cidadão, pertencem ao numero dos emigrados, assim como apparecem Saenz, Valente, Molino, Torres, Ramos, Megia, grandes proprietarios; como apparecem, Rodrigues, o velho general dos exercitos da independencia, e unitario; Olozabal, um dos mais bravos d'esse exercito das Andes de que dissemos ter sido La Vega o Bayardo. Rosas perseguia igualmente o _unitario_ e o _federal_, não se preocupando senão de se desembaraçar de todos os que podiam ser um obstaculo á sua dictadura.

É á hospitalidade concedida aos homens que elle perseguia que deve ser attribuido o odio de Rosas ao Estado oriental.

Na épocha a que nos referimos a presidencia da republica era exercida pelo general Fructuoso Rivera.

Rivera era camponez, como Rosas, como Quiroga; unicamente os seus instinctos erão humanitarios o que o fazia inimigo de Rosas. Como homem de guerra, a bravura de Rivera não podia ser excedida; como chefe de partido a sua generosidade não podia ser igualada. Durante trinta e cinco annos figurou nas scenas politicas do seu paiz. Quando a revolução contra a Espanha começou, Rivera sacrificou a sua fortuna, por que não era só generoso, era prodigo.