Memorias de José Garibaldi, volume 1 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas
Part 11
--Ávante!
--A marche marche, ou no passo ordinario? perguntou um official.
--No passo da victoria, respondeu elle.
N'essa mesma tarde todo o exercito hespanhol tinha capitulado, e achava-se prisioneiro d'aquelles que o tinham sido seus.
Artigas havia sido um dos primeiros a festejar a revolução. Tinha-se posto á testa do movimento, e por sua vez offereceu a Pacheco o commando, como annos antes elle o havia feito.
Esta troca ia-se talvez operar quando Pacheco foi surprehendido na Casa branca, no Uruguay, por marinheiros hespanhoes, e ficou seu prisioneiro.
Artigas continuou a sua tarefa libertadora. Em pouco tempo expulsou os hespanhoes do campo de que se havia tornado rei, reduzindo-os a serem senhores unicamente de Montevideo, que podia apresentar uma séria resistencia, visto ser a segunda cidade fortificada da America.
A primeira era S. João de Ulloa.
Em Montevideo achavam-se refugiados todos os partidarios dos hespanhoes, protegidos por um exercito de quatro mil homens. Artigas sustentado pela alliança de Buenos-Ayres começou o cerco da cidade, mas um exercito portuguez veiu em auxilio dos hespanhoes e Artigas teve de retirar-se. Em 1812 Montevideo soffreu novo cerco. O general Rondeau commandava as forças de Buenos-Ayres e Artigas as dos patriotas, e foram estes que de novo cercaram a cidade.
O cerco durou vinte e tres mezes, tendo logar no fim d'este tempo uma capitulação que entregou a capital da futura republica oriental aos sitiantes, commandados então pelo general Alvear.
Porque razão era então general em chefe Alvear e não Artigas? Vamos dizel-o.
É que no fim de vinte mezes de cerco, depois de tres annos de contacto entre os homens de Buenos-Ayres e os de Montevideo, as differenças de habitos, de costumes, e direi mesmo de raças, que tinham sido causa de simples desintelligencias, haviam-se tornado em motivos de odios mortaes.
Artigas, como Achilles havia-se retirado desapparecendo pelos campos tão seus conhecidos no tempo da sua mocidade em que exercia o mister de contrabandista.
O general Alvear tinha-o substituido, sendo general em chefe dos _Portenos_, na occasião em que Montevideo se entregou.
_Portenos_ é o nome que dão aos naturaes de Buenos-Ayres, e _Orientaes_ aos de Montevideo.
Tentaremos explicar as differenças que ha entre os _Portenos_ e os _Orientaes_.
O habitante de Buenos-Ayres fixado no paiz ha trezentos annos na pessoa de seus avós, perdeu desde o fim do primeiro seculo da sua existencia na America, todas as tradicções da mãe patria, isto é da Hespanha. Os habitantes de Buenos-Ayres são hoje tão americanos, como o eram antigamente os indios que d'ali expulsaram.
O habitante de Montevideo, ao contrario, existindo apenas ha um seculo no paiz,--sempre na pessoa de seus avós, bem entendido--não teve o tempo de esquecer que é de raça hespanhola. Tem o sentimento da sua nova nacionalidade, mas sem ter esquecido as tradicções da velha Europa, em quanto que o de Buenos-Ayres, se affasta todos os dias da Europa para entrar na barbaria.
O paiz não deixa de ter sua influencia, sobre este movimento retrogrado de um lado, progressivo do outro.
A população de Buenos-Ayres, espalhada em areaes immensos, com habitações muito affastadas umas das outras, em sitios completamente desprovidos de agua, e de todos os objectos necessarios, e habitando cabanas mal construidas, ganha um caracter sombrio, insociavel e bulhento. As suas tendencias dirigem-se para os indios selvagens das fronteiras, com os quaes elles negoceiam em todos os objectos que trazem dos sitios onde a civilisação ainda não penetrou, e são completamente desconhecidos aos europeus, dos quaes recebem em troca agua-ardente e tabaco que levam para as grandes planicies dos pampas, de que tomaram o nome, ou a quem póde ser deram o seu.
A população de Montevideo, pelo contrario, possue um bello paiz, cortado por muitos rios. Não possue vastos bosques, não tem grandes florestas, como a America do Norte, mas as margens dos seus rios são ornadas de bellas e magestosas arvores. Possue além d'isso bellos edificios, e a terra produz todo o necessario para o seu sustento. As suas casas, quintas e herdades são proximas umas das outras, e o seu caracter franco e hospitaleiro, é inclinado a essa civilisação de que a aproximação do mar lhe conduz continuamente.
Para a população de Buenos-Ayres o typo da perfeição é o indio a cavallo.
Para a de Montevideo é o europeo apertado na sua casaca, na sua gravata e nas botas de polimento.
Os naturaes de Buenos-Ayres tem a pertenção de serem os primeiros da America em elegancia. Teem mais imaginação que os de Montevideo, e os primeiros poetas que a America conheceu, nasceram em Buenos-Ayres. Varela e Lafinur. Domingos e Marmol são poetas portenos.
O habitante de Montevideo é menos poetico, mas mais socegado e mais firme nas suas resoluções e nos seus projectos. Se o seu rival tem a pertenção de ser o primeiro em elegancia, elle tem a de o ser na coragem. Entre os seus poetas figuram de Hidalgo, de Berro, de Figueira, e João Carlos Gomes.
As mulheres de Buenos-Ayres tambem teem a pretenção de serem as mais bellas da America meridional desde Lemairé até ao Amazonas.
Póde ser que na realidade o rosto das mulheres de Montevideo seja menos formoso que o das suas visinhas, mas as suas fórmas são maravilhosas.
Ha pois entre os dois paizes;
Rivalidade de coragem e elegancia, entre os homens;
Rivalidade de belleza e elegancia, entre as mulheres;
Rivalidade de talento entre os poetas, esses hermaphroditas da sociedade, colericos como os homens, caprichosos como as mulheres e simples muitas vezes como as creanças mais innocentes.
Havia pois, como se vê por tudo que acabamos de dizer, motivos sufficientes para as relações serem interrompidas entre Montevideo e Buenos-Ayres, entre Artigas e Alvear.
Não foi unicamente uma separação, que teve logar, mas sim uma guerra.
Todos os elementos de antipathia foram dirigidos contra os homens de Buenos-Ayres pelo antigo chefe de contrabandistas. Pouco lhe importavam então os meios, de que tinha a servir-se, com tanto que alcançasse o seu fim que era expulsar do paiz os Portenos.
Foi então que Artigas reunindo todos os recursos que lhe offerecia o paiz, se poz á testa d'esses bohemios da America que se chamam gauchos.
A guerra que fazia Artigas tinha alguma cousa de santa; assim nada lhe podia resistir, nem o exercito de Buenos-Ayres, nem o partido hespanhol, que sabia perfeitamente que a entrada de Artigas em Montevideo, era a substituição da força brutal á intelligencia.
Os que tinham previsto esta volta á barbaria não se haviam enganado. Pela primeira vez homens vagabundos, por civilisar, e sem organisação, viam-se formando um exercito e com um general. Durante a dictadura de Artigas teve logar um periodo que tem alguma analogia com o nosso de 1793. Montevideo viu o reinado do homem dos pés nús, dos _casoncillos_ fluctuantes, da _chiripa_ escosseza, do _puncho_ despedaçado, e com o chapeu deitado sobre a orelha seguro pelo _barlipo_.
Então Montevideo foi testemunha de scenas inauditas grotescas, e algumas vezes terriveis. Muitas vezes as primeiras classes da sociedade foram reduzidas á impotencia, Artigas tendo de menos a crueldade e de mais a coragem, tornou-se então o que mais tarde devia ser Rosas.
A dictadura de Artigas teve não obstante muitas cousas de brilhante e nacional. Uma foi a lucta de Montevideo contra Buenos-Ayres, em que Artigas derrotou sempre as forças d'este paiz e de que fez cessar a influencia e a resistencia ao exercito portuguez que invadiu o paiz em 1815.
O pretexto d'esta invasão foi a desordem da administração de Artigas e a necessidade de salvar os povos visinhos de desordens eguaes, que podia fazer nascer entre elles o contagio do exemplo. Estas desordens tinham no mesmo paiz, dobrado a opposição que fazia o partido da civilisação. As classes elevadas sobre tudo desejavam do coração uma victoria que substituisse o dominio portuguez a esse dominio nacional que trazia a brutal tyrannia da força material. Comtudo não obstante os ataques portenos e dos portuguezes, Artigas resistiu quatro annos, dando tres batalhas, e vencido retirou-se para Entre rios, isto é para o outro lado do Uruguay. Ahi, apezar de se achar fugitivo, Artigas representava ainda, se não pelas suas forças, ao menos pelo seu nome, um poder respeitavel, quando Ramiro seu tenente se revoltou, contra elle, collocando-se á frente da terça parte das suas forças, e derrotando-o de modo que lhe tirou toda a esperança de reconquistar a sua posição perdida, obrigando-o a sair d'este paiz aonde como Anteo, parecia ganhar novas forças todas as vezes que ahi tocava.
Foi então que, egual a uma d'essas trombas que se evaporam, depois de ter deixado a desolação e as ruinas na sua passagem, Artigas desappareceu retirando-se para o Paraguay, onde, como já dissemos, em 1848 na época em que Garibaldi defendia Montevideo, vivia ainda tendo noventa e tres ou noventa e quatro annos, gosando de todas as suas faculdades intellectuaes e de quasi todas as suas forças.
Artigas vencido não fez opposição ao dominio portuguez que se estabeleceu no paiz, e o barão de Laguna francez de origem foi seu representante em 1825. N'este anno Montevideo como todas as possessões portuguezas da America foram cedidas ao Brazil.
Montevideo foi então occupado por um exercito de oito mil homens e tudo parecia assegurar ao imperador a sua pacifica posse.
Foi então que um natural de Montevideo, proscripto, residente em Buenos-Ayres, reuniu trinta e dois companheiros proscriptos como elle, e decidiram que dariam a liberdade á patria ou que morreriam.
Este punhado de patriotas embarcou em duas canoas e desembarcou no Grande Areal.
O chefe chamava-se João Antonio Lavalleja.
Lavalleja havia de antecipação tido relações com um proprietario do paiz que devia no momento do seu desembarque, ter os cavallos promptos. Assim logo que desembarcou enviou-lhe um mensageiro, que lhe trouxe em resposta que tudo estava descoberto, que os cavallos haviam sido roubados e que Lavalleja e os seus companheiros não tinham outro partido a tomar senão embarcarem de novo e o mais depressa possivel, devendo dirigir-se para Buenos-Ayres.
Mas Lavalleja respondeu que não partia, pois não podia, nem queria recuar, e ordenando aos remadores de voltarem para Buenos-Ayres sem elle, tomou posse, no dia 19 de abril, de Montevideo em nome da liberdade.
No dia seguinte os trinta valentes que tinham apanhado alguns cavallos, com o consentimento de seus donos, pozeram-se em marcha para a capital, mas foram encontrados por um destacamento de cavalleiros, de que quarenta eram brazileiros e cento e sessenta orientaes.
Eram commandados por um antigo irmão de armas de Lavalleja, o coronel Jurien. Lavalleja podia evitar o combate, mas não o quiz e marchou direito aos duzentos cavalleiros, e pediu uma entrevista ao coronel antes de entrar em combate.
--Que quer e que vem aqui fazer? perguntou Jurien a Lavalleja.
--Venho libertar Montevideo do dominio estrangeiro, respondeu Lavalleja, se tem as minhas idéas acompanhe-me, se não, entregue-me as suas armas, ou prepare-se para o combate.
--Não comprehendo o que querem dizer essas palavras = _entregue-me as suas armas_, respondeu o coronel, e espero que ninguem m'as ha-de explicar.
--Então tome o commando dos seus soldados, e vamos vêr por quem é Deus.
--Veremos, disse Jurien.
E partiu a galope a unir-se aos seus soldados.
Mas no mesmo momento Lavalleja desenrolou a bandeira nacional, azul, branca e encarnada e immediatamente os cento e sessenta orientaes passaram para o seu lado.
Os quarenta brazileiros foram feitos prisioneiros.
A marcha de Lavalleja para Montevideo foi uma verdadeira marcha triumphal, de que o resultado foi que a republica oriental, proclamada pela vontade e enthusiasmo de um povo inteiro, tomou logar entre as nações.
ROSAS
Durante estes acontecimentos engrandecia-se um nome que mais tarde devia ser o terror da federação argentina.
Pouco depois da revolução de 1810 um mancebo de quinze a dezaseis annos saía de Buenos-Ayres, abandonando a cidade e dirigindo-se para o campo. Ia muito perturbado e caminhava apressadamente.
Este mancebo chamava-se João Manoel Rosas.
Porque esta creança, este fugitivo abandonava a casa onde havia nascido? Porque ia pedir um asylo aos habitantes dos montes? É porque acabava de insultar sua mãe, como mais tarde devia insultar a sua patria; ia perseguido pela maldição paterna.
Este successo, sem nenhuma importancia para os acontecimentos d'aquelle paiz, esqueceu bem depressa no meio de factos mais serios que então tiveram logar, e em quanto todos os antigos companheiros do fugitivo se reuniam debaixo do estandarte da independencia para combater os hespanhoes, Rosas, andava pelos _pampas_ entregando-se á vida dos gauchos, adoptando o seu vestuario e costumes, tornando-se um dos melhores cavalleiros e um dos homens mais habeis d'essas immensas planicies, no manejo do laço e da bola, de sorte que vendo-o tão habil n'estes exercicios selvagens, quem não o conhecesse não o tomaria por um habitante da cidade, nem por um _pueblero_ fugitivo, mas por um verdadeiro gaucho.
Rosas entrou primeiramente como _peon_, isto é jornaleiro, em uma estancia, depois foi _capataz_,--Garibaldi já nos explicou o que era um _capataz_--chegando depois a _mayordomo_.
N'esta qualidade governava os bens da poderosa familia Anchorena. É d'ahi que começa a sua fortuna como proprietario.
Sendo o nosso designio fazer conhecer Rosas debaixo de todos os aspectos; vamos dizer qual era a situação do seu espirito no meio dos acontecimentos que então tinham logar.
Rosas tinha estado em Buenos-Ayres durante os prodigios praticados pela revolução contra a Hespanha. Então quem tinha coragem procurava a celebridade no campo da batalha, quem tinha instrucção procurava-a nos conselhos. Rosas era ambicioso de celebridade, mas qual era a que elle poderia esperar? Que nome poderia adquirir, elle que não tinha nem coragem para se apresentar no campo da batalha, nem instrucção alguma para adquirir um nome entre os homens da sciencia? A todos os momentos ouvia proferir a seu lado alguns nomes que se haviam tornado celebres. Eram como ministros, Rivadaria, de Pasos, de Aguerro, como guerreiros, Saint-Martin, de Baléarés, de Rodrigues, e de Las Heras.
E todos estes nomes de que o ruido, vindo da cidade, ia achar éco nas solidões dos campos, todos estes nomes avivavam o seu odio contra essa cidade que tendo triumphos para todos, não tinha para elle senão o exilio.
Já n'esta época Rosas pensava no futuro e preparava-o. Errando pelos pampas, confundido com os gauchos, fazia-se o companheiro da miseria do povo, elogiando os prejuizos do homem das planicies, excitando-o contra os cidadãos, demonstrando-lhe a superioridade do numero e diligenciando fazer-lhe comprehender que quando quizessem os habitantes do campo, seriam senhores da cidade.
Os annos foram passando, até que chegamos a 1820.
Foi então que Rosas começou a apparecer, apoiado na influencia que havia adquirido nos habitantes das planicies.
Já vimos o que se passou em Montevideo. Vejamos agora o que se passou em Buenos-Ayres.
A milicia de Buenos-Ayres rebellou-se contra o governador Rodrigues. Então um regimento das milicias do campo, _los colorados de las Conchas_ entraram na cidade, em 5 de outubro de 1820, tendo á sua frente um coronel, que era conhecido em Buenos-Ayres, e que conhecia Buenos Ayres.
Este coronel era Rosas.
No dia seguinte as milicias do campo, e as milicias da cidade vieram ás mãos, mas n'esse dia o coronel não estava á frente do regimento.
Uma violenta dôr de dentes, que Rosas deixou de soffrer assim que finalisou o combate, affastava-o, com grande pezar, do campo da batalha. E porque não teria elle razão? Octavio tambem teve um grande ataque de febre no dia da batalha de Actium.
Rosas parecia-se muito com Octavio; mas mais tarde Octavio foi Augusto, o que segundo todas as probabilidades nunca será Rosas.
Esta entrada em Buenos-Ayres foi a unica expedição guerreira em que Rosas tomou parte durante toda a sua vida politica.
Foi então que Rivadavia, já mui conhecido, foi nomeado ministro do reino, tomando a direcção de todos os negocios.
Rivadavia era um d'esses homens de genio, como apparecem no meio das revoluções durante os dias de tormenta. Havia viajado muito na Europa, possuindo uma instrucção universal, e parecendo animado do mais ardente e puro patriotismo. Infelizmente a vista da civilisação europea, que tinha estudado em Paris e Londres havia-lhe feito nascer falsas idéas da sua applicação a um povo que não tendo por detraz de si dez seculos de luctas sociaes, não as podia admittir.
Rivadavia queria dobrar a marcha do tempo e fazer o mesmo pela America que Pedro o Grande havia feito pela Russia; mas não tendo á sua disposição os meios de Pedro foi obrigado a desistir das suas intenções.
Póde ser que com mais alguma esperteza Rivadavia as tivesse alcançado, mas censurava os homens pelos seus habitos e certos habitos são uma nacionalidade e outros um orgulho. Escarnecia os trajes americanos, manifestando a sua repugnancia pela _jaqueta_, o seu desprezo pela _chiripa_, o vestuario do homem dos campos, e como ao mesmo tempo não occultava a sua preferencia pela casaca e bota de polimento, despopularisou-se pouco a pouco, e sentiu o poder prestes a escapar-lhe.
E não obstante que de beneficios não fez ao seu paiz em troca d'esses vestidos ridiculos que lhe queria tirar? A sua administração foi a mais prospera que Buenos-Ayres teve. Foi elle que fundou a universidade, os liceos, e que introduziu nas escolas o ensino mutuo. Durante a sua administração, muitos sabios foram chamados da Europa, as artes foram protegidas, desenvolvendo-se muito, emfim Buenos-Ayres era chamada a Athenas da America do Sul.
Já fallámos da guerra de Buenos-Ayres em 1826. Para sustentar esta guerra, Buenos-Ayres fez sacrificios enormes, exgotando as suas finanças, e enfraquecendo por esse motivo muito as molas da sua administração.
Exgotadas as finanças, enfraquecido o governo, as revoluções começaram.
Já dissemos que em Buenos-Ayres como em Montevideo, o campo e a cidade nunca estavam em harmonias de opiniões, como nunca o estavam em harmonias de interesse.
Buenos-Ayres fez uma revolução.
Immediatamente o campo fez uma revolução, e dirigindo-se sobre Buenos-Ayres, invadiu a cidade e fez o seu chefe governador.
Este chefe era Rosas.
Vamos fechar o parenthesis, aberto algumas paginas atraz.
Em 1830 Rosas foi eleito governador pela influencia dos habitantes do campo, não obstante a opposição da cidade, que elle encontrou meia policiada pela administração de Rivadavia.
Então Rosas, o gaucho, tentou reconciliar-se com a civilisação, parecendo querer esquecer os costumes selvagens adoptados por elle até então: a serpente queria mudar de pelle.
Mas a cidade resistiu ás suas tentativas, e a civilisação recusou receber o transfuga que se havia passado para o campo da barbaria. Rosas mostrava-se revestido de um uniforme, e immediatamente os militares perguntavam em que campo de batalha havia elle ganho aquellas dragonas. Fallava n'uma reunião, e logo os homens intelligentes perguntavam entre si onde tinha elle ido aprender aquelle estylo; quando apparecia n'um passeio, as mulheres designando-o com o dedo diziam: «Ahi vae o gaucho disfarçado!»
Os tres annos do seu governo passaram-se n'esta lucta mortal para o seu orgulho, e póde ser que a estas torturas moraes que lhe fizeram soffrer n'este periodo, seja devida a sua ferocidade. D'esta maneira quando resignou o poder e desceu a escada do palacio, com a alma cheia de odio, e o coração de fel, sabendo que desde então não havia alliança possivel com a cidade, foi ter de novo com os seus fieis gauchos, e as suas estancias de que era o senhor, com a intenção de um dia entrar de novo em Buenos-Ayres, como Scylla, que elle não conhecia e de quem provavelmente nunca havia ouvido fallar, havia entrado em Roma, com a espada n'uma mão e uma tocha m outra.
Para alcançar este fim vejamos o que elle fez. Pedia ao governo que lhe concedesse um commando qualquer no exercito que ia combater os indios selvagens. O governo que o temia julgou affastal-o concedendo-lhe este favor, e deu-lhe todas as tropas de que podia dispôr, esquecendo que se enfraquecia mettendo todo o poder nas mãos de Rosas.
Este logo que se achou á frente do exercito fez uma revolução em Buenos-Ayres, fez-se chamar ao poder que não acceitou senão com grandes condições, porque tinha ás suas ordens todo o exercito, e entrou em Buenos-Ayres com a dictadura mais absoluta de que se tem conhecimento, isto é _com toda la suma del poder publico_--com toda a extensão do poder publico.
O governador que elle fez cair, ou antes que elle precipitou era o general João Romão Baleace, um dos homens que tinha mais trabalhado na guerra da independencia, e um dos chefes do partido federal de que Rosas se dizia o sustentaculo. Baleace era um nobre coração e a sua fidelidade á patria era proverbial. Havia acreditado em Rosas e tinha trabalhado muito para a sua elevação. Baleace foi o primeiro sacrificado por Rosas, morrendo proscripto e quando o seu cadaver repassou a fronteira, protegido pela morte, Rosas recusou á sua familia, não as honras funebres que eram devidas a um ex-governador, mas as simples ceremonias a quem todo o cidadão tem direito.
Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade de sangue. Este primeiro periodo não tinha sido marcado senão pelo fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo não devemos esquecer que foi n'esta época que tiveram logar muitas mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a data com tinta encarnada no livro das nações.
D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram logar n'esta época. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra Antonio.
Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não nos appareceu senão como dictador, mas tendo já alcançado um poder como poucos homens tem exercido n'uma nação.
Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo, cabellos louros, olhos azues, e uma presença soffrivel. Não usava nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse examinar, mas Rosas havia-se habituado a não olhar de frente, nem os seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era doce, e, quando tinha necessidade de agradar a sua conversação tinha muito de attrahente. A sua reputação de cobarde é proverbial, e a de esperto é universal. Adorava as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes de se entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, não foi senão uma distracção, que eram brutaes como a sua natureza.
Citemos um ou dois exemplos:
Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre só lhe falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel, bebeu-a toda. Rosas não bebeu se não agua, e partiu logo que acabou o jantar para a sua estancia.
Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas teria, sem duvida, rido muito mais.
Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, fazia-o montar em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da queda que o cavalleiro dava.