Part 9
O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos, porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios artificiaes.
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Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o menos possivel...
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Phrase cruel d'um popular:
--Foi caçado como elle caçava os javardos--e em tempo defezo.
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No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis, evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter. Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas vinte e tantas pessoas.
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A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia:
--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...
E a rainha:
--Has-de cumprir o teu dever até ao fim.
[Figura: _D. Carlos I de Portugal._]
O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.
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Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos postados nas esquinas até ás Necessidades.
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A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:
--Foram portuguezes?
--Foram.
--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.
E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:
--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!
Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se, inventam-se outras mais.
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O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do caso. Ficou furioso:
--Vá beber da merda!
--Digo a V. Ex.^a que a policia não teve culpa...
--Vá beber da merda o senhor e a policia!
--Mas...
--Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda!
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Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa.
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Paçô Vieira:
--Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava de quando em quando:--A morte do rei será muito sentida?--Estava tudo preparado para uma revolução. O Afonso Costa não deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente authentico: o João Franco ainda se ofereceu para governador civil de Lisboa.
--Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no Paço. Estavam lá tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais ninguem--nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a revolução. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de cá para lá, infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:--Que diz o Antonio Candido?--Elle não respondeu e ella continuou a passear de cá para lá como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de cá para lá, infatigavelmente...
3 de Fevereiro--1908.
Venho agora de Lisboa e--caso curioso--a impressão geral é d'alivio. Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram os homens que o assassinaram.
--Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado no _Je sais tout_... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria mulher--afirma o João Barreira.
--Foi um grande exemplo e uma tremenda lição.
--Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!
Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:
--A memoria do rei há-de ser rehabilitada.
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No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior, como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel.
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O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um ministro no governo--o Penha Garcia. Disseram-lhe:
--Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte das suas medidas.
--Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com isso.
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A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:
--Então V. Ex.^a não faz testamento?
--Não, o rei tambem o não fez...
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O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um dos assassinos.
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Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.
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No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da rainha está agora de cima.
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Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os homens, dizia de D. Carlos:--«Nunca o pude perceber».
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Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:--É Saboia.--No conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o ouviam:--Não estou preparado para reinar.
Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe chamava _prior do Crato_. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é mais impetuoso--mas tem melhor coração.
Fevereiro--1908.
Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.
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A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem conversa em segredo, a medo--ch... ch... ch...--ao ouvido. A noticia soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.
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Foi no automovel do Baltar do _Janeiro_ que o Alpoim se safou para a Hespanha.
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As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao rebordo do camarote no theatro.
O homem suicidou-se quando se viu descoberto.
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O novo rei não gosta de _sport_. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em pequeno dizia:
--Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim, é que é gloria!...
As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:
--Isso são _mariquices_ do senhor infante.
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Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:
--Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não era porque elle não _tivesse vontade_, era porque _o não deixavam!_...
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Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.
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Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:
--Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do _yacht_. Ella deu-lhes uma desanda tremenda.
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O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.
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O pae do João Franco e os redactores do _Jornal da Noite_ foram corridos do Suisso.
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Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos, foi consultar a bruxa--M.^{me} Brouillard, uma transmontana esperta que ahi está em Lisboa.
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Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á _morgue_. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o guarda:
--Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!
--Qual!
--Parece...
--Já teve, já, mas agora está lasso.
--Mas olhe que...
E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem apalpa, e deu-lhe _um formidavel aperto de mão_.
O _frigorifico_ é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de morto--exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.
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Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:
--Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera, quando se lhe falavam em politica:--Não me falem em politiquices! não me falem em politiquices!
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O João Pinto dos Santos:
--Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de Lemos:--O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas balas!--Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos, calças de verão, d'inverno, etc.--para ter a sensação de que estava livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica--e fui quasi feliz. O juiz interrogou-me:--Porque está preso?--Não sei.--Há uma testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.--É falso. Estava n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.--Chamou-se um policia a quem o juiz perguntou: --Conhece o snr. João Pinto dos Santos?--Não senhor.--Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? _O João Franco avocou o processo a conselho de ministros e condemnou-me!_ Era odio pessoal. Na municipal fui sempre bem tratado.
--E souberam?
--Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr e diante do meu quarto bradou á sentinella:--Cuidado com esse sujeito!--O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um soldado lhe fez um _manguito_. Os oficiaes é que continham a soldadesca--mas até onde?
--E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?
--É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu respondi-lhe:--Bem vê V. Ex.^a que não quero que meus filhos possam dizer:--Meu pae foi um assassino.--Isso não! Mas se um dia, depois de o insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.^a nem toda a guarda municipal m'o arrancam das unhas!
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Ha quem diga do João Franco:--Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o tio, o _Mil diabos da capinha_, dava tiros e fazia disturbios sempre que tinha as costas quentes.
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João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.
8 de Fevereiro--1908.
É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E por ahi diz-se á bocca cheia:
--Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam ás mãos das camarilhas.
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Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem apregoa:--_O ultimo granadeiro!_ quem quer _O ultimo granadeiro?_--Mais carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se levasse o luto da monarchia.--_O ultimo granadeiro!_...--Mais coches, e aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo... Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa--silencio e um largo ah! a que se segue uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por largarem n'uma abalada de pavor--carros funerarios passando entre a indiferença gelada--farrapos de multidão que atravessam o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:--_O ultimo granadeiro!_ quem quer _O ultimo granadeiro?_...
Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:--Então morreu-lhe alguem da familia?...
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O Correia d'Oliveira:
--Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou... A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.
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Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:
Morte aos Sanguinarios Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava, os Verdadeiros Assassinos
DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.
E outros, escriptos á machina, atribuindo o crime a este e áquelle...
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A preocupação do rei é esta:
--N'este caso que faria D. Pedro V?
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O João Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias.
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O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, disse em casa das Thomares:
--Ha cinco annos que o João Franco está doido.
E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:
--Ás vezes avançava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mãos á cara ou desatava aos berros--e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e sem interrupção, colera, despreso, ambição, serenidade, medo, orgulho, riso, ferocidade, paz, vertigem...
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E outro:
--Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Sómente o Martins dissera, arrependido, a Junqueiro:
--Nas penitenciarias está gente muito melhor que o rei.
11 de Fevereiro--1908.
Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma _intentona_--e os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores civis!
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O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão alvadio:
--Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema--dizia comigo:--Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós, estamos perdidos!--Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á sentinela:--Cuidado!--O frio era mortal. O soldado encostou-se á porta--não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...
[Figura: _Oliveira Martins._--Desenho de Antonio Carneiro.]
E o João Pinto dos Santos:
--Pude ver d'uma vez o _Diario Illustrado_, nas mãos d'um soldado, com o retrato do rei, mas calculei:--chegaram de Vila Viçosa.
--Mas nem sequer reparou na tarja de luto?
--Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que o rei tinha sido morto.
--Os oficiaes--continua o Chagas--trataram-me muito bem, mas á despedida disse-lhes:--Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum rumor.
E conclue:
--Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem, _durante alguns mezes_. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!...
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Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam horas a conversar baixinho.
--Eram muitos?
--Ás vezes doze ou quinze--diz o creado.--E ficavam até tarde em grandes discussões...
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Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos.
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E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse logo:--Escusam de procurar, isso é d'El-Rei.
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O _Seculo_, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000 exemplares.
Fevereiro--1908.
Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a contra revolução.
--Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.
20 de Fevereiro--1908.
Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma dictadura militar.
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Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de anno--dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e de ternura a envolver tudo isto...
Conheceu o rei e explica-o:
--Quando queria era um _charmeur_. Ás vezes ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um sorriso:--É minha filha.
E conclue:
--Era um grande pantomimeiro!
Fevereiro--1908.
O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:
--O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que pensam ou escrevem em Portugal--afastou-os. Ha annos para cá o caso explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da vida palaciana que se não comprehendem.
--E como artista?
--Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não tinha tempo--outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um mal--começou a sel-o apenas ha um anno.
Fevereiro--1908.
Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.
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O Manuel Ramos:
Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:--Mas se Vossa Magestade receia...--E elle logo decidido:--Eu não!--E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos politicos.
Fevereiro--1908.
A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque de armas e munições.
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Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta de escarros!
Fevereiro--1908.
O João Chagas:
--Tem visto a atitude palaciana do _Dia_? Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo _Alpoim_ e todos os dias collo pedaços do _Janeiro_ e do _Dia_. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como agora... Impõe-nos um governo--e esse governo, não podendo ser rotativo, ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!... Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo _O Regicida_, se elle e os seus amigos nos atraiçoarem--os seus amigos, que, diante de mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!
Março--1908.
O Brazão conta que na _première_ do _Othelo_, o irmão de Augusto Machado foi cumprimental-o ao camarim:
--Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a peça é uma grande borracheira...
9 de Março--1908.
Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse:
--Não tenho medo por mim, é por elle...
--Os politicos, agora vão ter juizo...--disse alguem. E ella respondeu: