Part 8
D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos: os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o _Seculo_ e o Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o José Luciano, dizendo depois á familia:--O José Luciano está cada vez mais velhaco!--De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta anecdota que define uma figura:--O Rebello da Silva era muito amigo do Latino--mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o tempo do governo.
--Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro.
--Eu?!...--e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão sereno, que o outro ficou gelado...
Dezembro--1907.
O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado:
--Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D. Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos. A mim, que era então sargento, deram-me seis contos, para distribuir dezoito tostões por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse hoje gastava-os no brodio.
--Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles.
--O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graça, mais tarde celebre como major Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o sempre--conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.
Dezembro--1907.
O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o João Franco, das descomposturas ao rei, etc.,--e referindo-se aos politicos:
--Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos os dias me escrevem, e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de nojo!
Dezembro--1907.
Conta-me o D. João da Camara:
--A rainha era amicissima do meu irmão, o conde da Ribeira Grande. Visitou-o seis vezes durante a sua doença. N'uma das ultimas noites elle puxou-a a si, beijou-a, e explicou:
--É como se fosse minha filha.
Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe, n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas:
--Os politicos! Cautela com os politicos!
E ella respondeu-lhe:
--Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus quizer.
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Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, passou a consolal-a...
Janeiro--1908.
O Fialho conta, indignado, que a viuva do Eça de Queiroz, a quem o Estado dá uma pensão, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento e tantos contos.
--Veja você que pouca vergonha! São uns poucos de kilometros de terra de semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de cevados! Bem sei que metade da propriedade é da irmã, da mulher do Luiz Osorio... Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo o que o senhor Arnoso quer!...
Janeiro--1908.
Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo:
--Todos os oficiaes d'armada, á excepção de meia duzia, não podem vêr o rei, a quem chamam _o pulha_. Se houvesse em terra um movimento republicano, secundavam-no logo.
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Diz-se por ahi:
--Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre d'isto!
Janeiro--1908.
No _Turf_ e no _Club Tauromachico_ joga-se sempre escandalosamente. O conde de... lá vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no _Club Tauromachico_, o visconde de... tambem lá perdeu uma fortuna.
Janeiro--1908.
Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, _O Marquez da Bacalhôa_. Este Albuquerque, conhecido pelo _Lendea_, é o ultimo descendente, pelo pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto João de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de louça da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caçou no Cabo com lords, tocou guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalações electricas na Italia. Agora é jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo, em que a rainha, Senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquillo--e peor--anda por ahi de bocca em bocca ha muito tempo. E não vem de baixo--vem de cima...
* * * * *
Do Paço mandaram buscar um exemplar á livraria Ferreira.
Janeiro--1908.
O rei em Villa Viçosa caça; o João Franco em Carnide dorme com a casa cercada de policia. Fala-se em conspirações, na tropa, em transferencias d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria ao Bernardino Machado:
--Isto cheira a cadaver...
--Cheira a polvora, é que é--respondeu lhe elle.
Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prisões--fala-se em mais prisões ainda e os jornaes estão garrotados.
* * * * *
O Maximiliano d'Azevedo:
--É falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey. Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á Manuela. Ella aceitou-lha, e uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.
Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:
--Não! Não!
Chorou--e morreu. Já estava tisica ha muito tempo.
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E conta-me tambem:
--A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lêr e toda a vida deu sylabadas.
Janeiro--1908.
O governo retira as munições a alguns regimentos e á marinha: só tem confiança na guarda. Diz-me o Schwalbach:--«Ouvi-o da bocca do oficial encarregado d'esse serviço. A noite passada retiraram as munições a um regimento da capital». Corre com insistencia que o coronel Albano da Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob pretexto de estudo de renovação e adaptação das munições, que se removeram para o serviço de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que varias peças do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios de guerra.
[Figura: _Gomes Leal._--Desenho de Antonio Carneiro.]
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O Fialho está um franquista ferrenho:
--O João Franco já me mandou chamar tres vezes.
E, como eu me espante de o vêr conservador, elle diz:
--Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu respeito:--É um bohemio que trata a roupa com nephetalina!
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A Angela Pinto está com um preto que lhe poz automovel.
--Ó Angela, então tu agora?!
--Vocês que querem? Não andam todos os dias ahi a prégar que o futuro de Portugal está nas nossas colonias?
Janeiro--1908.
Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. O João Barreira conta-me que a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas não descobriu os depositos d'armamento. O João Pinto dos Santos diz:
--A prisão de Antonio José d'Almeida é um ensaio. Se virem que as massas populares não protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou aqui estou preso: o João Franco odeia-me.
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Um livreiro:
Fizeram mal em prohibir _O Marquez da Bacalhôa_. Já ha quem tenha dado por um exemplar tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez a quinze tostões... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais que toda a gente sabia onde era impresso.
28 de Janeiro--1908.
A atmosphera é electrica.--Isto não pode ser! isto não pode ser!--ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei que não podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no Porto e Villa Real; está assignado um decreto expulsando do paiz republicanos e dissidentes; e--sabem? sabem?--o movimento é preparado pelo João Franco para tomar medidas d'excepção... O Coelho de Carvalho, de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria Ferreira:--Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotação augmentada em cento e sessenta contos, pagos em oiro.
Ás sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:--Que ha? que ha?...--Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco da Bandeira....--Só?--E arranca-me das mãos o _Correio da Noite_:--Vem feroz! vem optimo!...--No comercio não se desconta uma letra. A rua do Oiro não tem metade do movimento habitual. Consta que o João Franco disse hontem:--Dá-se-lhes uma sangria...--O que eu lhe posso garantir, e sei-o por uma senhora de relações intimas do João Franco--diz o Fialho,--é que elle passa as noites sem dormir.--Medo--ou revolução? As mulheres vão buscar os maridos ás repartições e aos bancos, outras, na previsão de acontecimentos, fornecem-se á pressa nas lojas. Ha nervos na atmosphera. A questão dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, discutido e injuriado. Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o Hintze com desgostos. Os Braganças são todos ingratos. Que quer o rei? O rei só quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a _piolheira_, o rei é um ladrão. Dizem-no até os cavadores d'enxada da provincia:--O rei é um ladrão! o rei é um ladrão!--Gera-se não sei que excitação que se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma pressão a que não ha fugir. Nas esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, anunciando o folhetim _Soror Amelia_, com o retrato da rainha vestida de freira...
O que os jornaes de grande circulação não se atrevem a dizer, o _Seculo_, o _Mundo_, o _Noticias_, propala-se de ouvido para ouvido, ou publica-o o _Correio da Noite_, do velho José Luciano, que ataca com violencia o rei e o governo.--Que há? Que há?--Um policia aliciado pelo João Chagas denunciou a revolução; o juiz ao lêr o depoimento do Antonio José d'Almeida, exclamou:--Ora até que emfim encontro um homem!--O Cunha e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:--Vocês que querem? Está tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com este quadro: d'um lado da porta um municipal lia _O Mundo_, do outro, outro municipal lia _A Lucta_.
E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites enchentes nas revistas, _Ou vae... ou racha, Pr'a frente!_ Todas as noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo as suas manias, as suas ambições, os seus interesses...
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Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que queria matar o João Franco, entrou n'um café. A policia tentou apalpal-os--defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem, fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os guardas. Havia um plano de revolução? É fóra de duvida. Lançaram-se bombas que não explodiram a varias esquadras--á do Campo de Sant'Anna, por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo de dissidentes, Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o elevador da Bibliotheca, no intuito de lançar um foguetão, que desse o signal á esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes pontos, deviam assaltar os quarteis. Só o Alpoim e o Ameal conseguiram fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e telegraphos. No forte de Caxias estão presas 93 pessoas, e presos estão tambem o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A policia desandou então a prender a tôrto e a direito. O José de Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:--Já prendemos quatro.--Prendam mais.--Era preso quem passava na rua.
Á revolução adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos decididos a correr a municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio parece que foi sustel-os á ultima hora. Varios bandos foram prevenidos logo que o signal falhou. Os que esperavam no café do Rato, a hora do assalto á casa do João Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral, que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graça--e deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em casa d'um negociante, foi uma irmã dum actor de D. Maria.
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--Isto--toda a gente o afirma--acaba logicamente no atentado pessoal.
30 de Janeiro--1908.
Corre com insistencia que o João Chagas morreu d'uma pleurizia no hospital.
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Os _bufos_ são aos centos. Pára-se a conversar--tem-se logo um _bufo_ á perna. O Baracho procurou hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:
--Eu não conspiro; portanto não me mandem espionar, senão corro os _bufos_ a tiro. Se desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei. E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: Os senhores não hão-de ser sempre ministros. Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem de o ser, eu lhes tomarei as responsabilidades.--Ao que o ministro respondeu:--Se soubesse, general, as saudades que eu tenho do meu caminho de ferro!...
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Tem sido tambem presos alguns oficiaes do exercito. E o Fialho faz _blague_:
--Desde que a policia entrou no caminho das descobertas, foi dar com a escripturação completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas dobradas. Uma revolução burocrata!
31 de Janeiro--1908.
Sabem qual é a impressão geral? Pena de que o movimento gorasse.
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Até as mulheres estão furiosas com o Franco. Ha-as que dizem:--Eu vou matal-o!--Mas ha tambem quem o defenda e aplauda como nenhum ministro foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena rua do Ouro:
--Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c... que não cabiam em Lisboa. Agora não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c... que não cabem em Portugal!
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O Bernardino Machado:
--Sabe o que isto parece? Parece que o rei disse ao João Franco, entregando-lhe uma carabina:--«João arranja-me dinheiro».--O João Franco executa.--«João torna a levar a carabina e traz mais dinheiro».--E a atitude vergonhosa das nações estrangeiras que assistem com aplauso a este espectaculo! Porquê? Pelo que eu disse um dia d'estes a um negociante francez:--Ha um dictado em Portugal que explica tudo:--Ladrões não se encobrem de graça!
1 de Fevereiro--1908.
O João Franco responde aos clamores e á revolta com o decreto d'hoje:
Senhor--São bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em perigo a segurança das pessoas e das propriedades.
Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar a acção das medidas de circumstancia á esphera restricta de legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperança de que essa publicação fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse aviso efficaz aos agitadores.
D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre publicações attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro sobre crimes contra a segurança do Estado, das pessoas e das propriedades.
Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar que as tentativas e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e instigadores d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica e segurança do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham accrescentar se ás desgraças já occasionadas e, porventura, originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e á fortuna nacional.
Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha apresentou ás côrtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por deliberação do conselho de ministros, sob prévia informação das auctoridades locaes, as pessoas que pertençam a associações hostis á ordem social e que de semelhantes principios façam propaganda, e como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o são mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercussão em toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta e criminosamente a forma de governo de Estado.
N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe á segurança do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes da Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.
Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que contra a segurança do proprio Estado se manifestam ou que como inimigos da sociedade se apresentam.
Taes são, Senhor, as principaes disposições do diploma que tenho a honra de submeter á apreciação de Vossa Magestade.
Paço, em 31 de Janeiro de 1908. _João Ferreira Franco Pinto Castello Branco_--_Antonio José Teixeira d'Abreu_--_Fernando Augusto Miranda Martins de Carvalho_--_Antonio Carlos Coelho Vasconcellos Porto_--_Ayres d'Ornellas de Vasconcellos_--_Luciano Afonso da Silva Monteiro_--_José Molheira Reymão_.
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O Alpoim fugiu para a Hespanha.
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O Cunha e Costa:
--Ha mais de duzentas pessoas apostadas em matar o João Franco. Isto acaba por um atentado pessoal.
1 de Fevereiro--1908.
Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O quê?!--Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...
Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça despedaçada!...--Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece. Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era calvo. O policia varou-o com um tiro.
E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram, reconstituo assim a tragedia:
O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia.
O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na sombra...--El-Rei não joga?--perguntou o principe.--Jogo, jogo...--Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou n'esse dia nem almoçou no seguinte.
Nem uma nuvem. «Tarde sem par»--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João Franco:--Não haverá perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovação!--Tinha-lha preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D. Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio, sem precipitação, colocar-se á porta do ministerio do reino[6].
Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não conheciam uns aos outros.--«Eu assisti--diz o Navarro.--Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse uma palavra que não percebi bem»...--«Ao primeiro tiro--continua o Navarro--a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Então não acodem?! Não ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça: sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado, exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um!
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Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro quando sahia do Paço.
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O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em punho, dizendo:
--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe!
Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve este movimento colerico: bater no João Franco.
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Acusam á boca cheia o João Franco--que não tomou precauções para o rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.
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A rainha no Arsenal disse ao João Franco:
--Veja a sua obra...
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