Part 7
Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras, como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos. Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha. São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis esta mãe viciosa com a filha ao lado--de olhos limpidos e innocentes. Peor, ha peor... E mais esta--e mais esta--e mais esta condessa, que n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...
Puz-me a ouvir, a ouvir,--verdade? mentira?--e lembrei-me ao mesmo tempo da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da _Chartreuse de Parma_.
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O general Lencastre de Menezes:
--Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado assim...
Março--1904.
Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima: lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim. Tinham-no casado com uma linda rapariga branca--e o preto, á farta, pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.
Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou um _yacht_ de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria. Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea.
Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis, pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e procurações para assignar--o enredo, a teia subtil em que o negralhão foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto, falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante.
...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe--de preto. Os brancos ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi, emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla--e lá em casa se toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.
Março--1904.
As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos.
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O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno.
Março--1904.
O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:--O amigo... o camarada... descança em paz.--Depois o Cunha e Costa falou na nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não cessavam de cantar--e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho:
--Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!...
Abril--1904.
O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:
--Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala grande, quando ella do alto da galeria:
--Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de honrarias?...
O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á baixa, não trocamos palavra.
Março--1904.
As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella, quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle subiu--e depois desceu e foi tourear...
O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D. Carlota Joaquina.
Abril--1904.
A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal chega para uma hora de combate!
Abril--1904.
O dr. Antonio Centeno protesta:
--Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a camara e para os jornaes.
Abril--1904.
Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos estrangeiros chancela.
Abril--1904.
Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil. O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico.
Abril--1904.
Diz o Alpoim:
--O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz, que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho. Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.
Maio--1904.
O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...
--Eu disse-o depois ao rei.
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A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto durante muitos annos.
Junho--1904.
Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado d'_entente_ entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos de Delcassé.
Julho--1904.
A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades--chalet do Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.
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Do Antonio José de Freitas:
O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D. Fernando com a _comica_, como elle lhe chamava. Uma senhora da aristocracia conversando com o marquez:
--Fui visitar el-rei que me disse:--Não queres vêr a condessa?--Falei com ella e parece-me...--hesitando--muito interessante...
[Figura: _Celso Herminio._]
E o marquez logo:
--A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa...
Dezembro--1904.
O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor do _Amor de Perdição_. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe metade.--N'esse dia--disse ella ao Alberto Pimentel--não tinha que lhes dar de comer.
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O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...
Dezembro--1904.
O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das _Novidades_. Um amigo disse-lhe:--Deixe lá o Sebastião Telles ou o Alpoim ser presidente do conselho.--Essa hypothese não a admito eu!--protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras--talvez proposital--dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia direitos adquiridos senão dentro da lei.--Elle quer inutilisar-se...--É um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca--o nariz do Beirão--motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros[5]. Já em Abril, no conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:--Acabo de dar uma enxadada na minha reputação!--Quanto ao Alpoim desconfia que o José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças dentro do seu proprio partido: comprou _A Tribuna_ e parece influenciar no _Diario_.--Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe porquê...--Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica agrava-se.
Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:--Se a Companhia dos Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.--Corre que os republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto, aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:
...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal.
«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.
«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem mais contribuiu para ella.
«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal; Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim em absolutismo.
«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade da nação.
«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual delles mais avançado, da reforma constitucional.
«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido progressista faz a centralisação dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça sempre suspensa sobre todos os liberaes.
«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.
«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu auge,--toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de morte para Portugal...
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«A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso Calmon.
«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?
«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo. Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma, alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido conquistar as massas populares, e para captar as simpathias internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os, porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.
«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é comtudo imputado aos que o rodeiam.
«Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso peso.
«E não se diga que a monarchia está identificada com a independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do povo.
«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de governo.
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«É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza. _Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação_. É preciso que o partido republicano se transforme em partido do governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios; se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e dos humildes.
«Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em 1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica.
«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar á educação do povo. O estado actual o demonstra: _tanto é certo que quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção_.
«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da familia, a cooperação economica e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.
«Torna-se necessario defender a religião como um principio immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.
«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres principios: _liberdade politica, liberdade economica e liberdade religiosa_. Em nome de todos que querem saber, e não podem, oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem, oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios; em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende em Portugal: _o partido republicano_.
«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».