Part 6
Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel--rodeados de invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam um desfalecimento--uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca Magalhães, outros respondendo á audacia com audacia, outros sucumbindo ao nojo, com estas palavras que já surprehendi a alguem n'um momento supremo:--Não, não valia a pena!
* * * * *
O mundo politico é tão curioso! O que está á vista não tem importancia, o que se mostra não passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porquê? Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no á metropole. O artigo _D. Folião_ do Colen fez successo... Já se diz:--Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou uma pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar, antes de cahir, um logar não sei onde. Ha politicos que se servem de todos os meios: ha-os--sei eu--que se escrevem cartas anonimas. Parece até que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos corredores das camaras, ácerca dum deputado da maioria:--O que eu admiro é o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta em que elle se confessa ladrão!--Este mundo tem as suas leis, as suas convenções, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal é o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas côrtes é apenas aparato: o José Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas surge ás vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze teimou--o rei teimou:--Vae para casa e pensa...--A atitude do Navarro explica-se porque o rei nunca o deixou ser par...[4] D'ahi o odio--d'ahi barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que não fizesse o discurso contra o rei:--Sou eu, chefe dum grande partido, que lhe afirmo que não está inutilisado.--E publica no _Correio da Noite_ o discurso com alusões á rainha--que o Alpoim manda retirar do _Dia_, por causa do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, mas cá em baixo vêm-se referver os interesses, as ambições, os despeitos. O D. Carlos mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz--e é talvez por isso mesmo que o atacam e o acusam. Não intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz ao José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse ministerio:--Isso não, meu senhor! E vou já d'aqui dizel-o ao Braamcamp.--Tudo parece confusão, todos os dias a teia se emaranha. Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por interesse, por camaradagem, seja pelo que fôr, mas já não ha ninguem que defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, só se fala no rei... O rei! o rei! o rei!...
Junho--1903.
--Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou são pedantes ou fadistas.
A este proposito o D. João da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um discurso á mãe, dizendo-lhe ella no fim:
--O menino ha-de sahir um bom pedante.
Se tarda em morrer acabava odiado.
E acabava. As grandes figuras moraes são sempre uma calamidade para si e para os outros. O universo é amoral, e não ha como os acomodaticios, com alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os outros só fazem a sua desgraça e a desgraça dos que os rodeiam.
Junho--1903.
Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. Lá no fundo morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascença, experimentou o _fresco_, as tapeçarias, os trabalhos em cêra e prata. A senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e dizia:
--Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. Criei-os a todos.
--E o Columbano?
--Esse é meu irmão, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os maiores homens de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala:
--O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu _atelier pousar_ para o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu transtornada:
--Salve-nos! salve-nos!
Era depois dos acontecimentos do _ultimatum_. O Martins procurou ou escreveu--não me lembro--ao Anthero do Quental e elle afastou-se e abandonou tudo.
São curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou. Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para se lhe não ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia, desaparecia logo: não pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de pedinte:
--Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou...
Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul--mas quando falava!... Nunca olhou para o retrato.
--Está prompto?
Foi-se embora como viera...
Junho--1903.
O José de Figueiredo diz-me:
--Copiei por minhas mãos, para o Antonio Candido, a carta em que o Soveral é durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que, se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
Junho--1903.
--Ninguem me mete na cabeça que esta rainha é boa pessoa--diz o Alpoim ao vel-a descer o Chiado.
Mas, quando passa, toda a redacção do _Dia_ corre á janella, para a cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixão, põe á pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar n'uma grande cortezia.
* * * * *
Fala-se hoje do Soveral na redacção do _Dia_, e da amizade que o liga ao rei d'Inglaterra.
--São tão amigos que por occasião do ultimatum, ainda Eduardo VII era Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e só lhe disse estas palavras:--A Alemanha está comnosco...
O Soveral correu ao telegrapho.
Junho--1903.
O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas combinações de finança, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers, etc.:
--Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o. Todos estendiam a mão. Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá, magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:--É magnifico... só lhe falta o assucar.--Eu, que já ia prevenido, tirei das algibeiras alguns rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:--E agora?--Agora está optimo.--E concluiu:--Você é uma mercearia ambulante!
Junho--1903.
O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga:
--É que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forçado a viver em Portugal, fazia-me revolucionario.
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Tambem o Alpoim diz hoje:
--Quem me dera uma revolução!
E, deante do nosso espanto, explica:
--Para pôr o rei no seu logar... Eu não tenho nada a perder, meus filhos estão colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas quê! Agora com a aliança ingleza é muito peor. Ainda outro dia dizia o José Luciano:--Podem vir os republicanos todos juntos, os de cá e os de Hespanha, que não fazem nada. É da aliança que, se houver qualquer movimento, desembarcam tropas e defendem o rei.
E acrescenta:
--Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho.
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--Elle é mau, é--diz o Alpoim do rei--mas a gente não tem outro.
Junho--1903.
O Abel d'Andrade:
--Conheço muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem, pessimas n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe que o enganam--e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades, que vão crescendo á medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme; não é capaz de dizer _não_ peremptoriamente a ninguem.
Junho--1903.
O Emygdio Navarro está furioso com o rei. Sentiu immenso que o não convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra--quando foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliança anglo-portugueza.
Junho--1903.
Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o Rato, por causa d'uma querela do _Dia_. É um homem atarracado e forte, com um ar de falsa bonhomia. Ha n'elle não sei quê de inquisidor e de satiro, e é tão desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras doiradas de palhinha e _consoles_ com gatos de vidro, ha varios mostrengos em exposição: o retrato delle e retratos de familia, temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro não sei de quem, ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em pêlo...
É este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se mais casos curiosos. É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo á sua disposição para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraçados. Tortura--verdade ou mentira?--no fundo das celulas alguns presos politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que ao José do Valle não o deixaram dormir sem elle confessar tudo...--É uma especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem o diga uma especie de Providencia. É incontestavelmente um homem esperto, que protesta:--Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente não sabe ou não quer defender-se...
Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem não encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada, surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiçados, que dão de comer, ás escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e deitam a fugir quando me vêem.
Junho--1903.
O artigo de hontem, das _Novidades_, sobre a mortandade da Servia, cheio d'alusões ao rei, fez sensação. E dizia-se por ahi:
--Quando se faz cá o mesmo?
--Foi uma limpeza!--phrase do Alpoim.
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O Beirão:
--O Alpoim não quer vêr que o partido do João Franco, apezar de pequeno, é um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe os mesmos poderes que tem dado ao Hintze ou ao José Luciano.
Junho--1903.
Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito do rei e do poder pessoal:
--Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo, pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que não pareça _poder pessoal_... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D. Augusto meteu-se-lhe em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. Era no tempo em que se falava muito na união iberica. O Corvo opoz-se, apesar da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e disse-lhe:
--Escusa de insistir, que não casa. É pelo bem do paiz.
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O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse hoje!...
Junho--1903.
--O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:--Peço-lhe que desista.--O infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de ir ao estrangeiro. Resposta do rei:--Cá ha um bom especialista.--Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio Lencastre. O rei tem pensado...
--Se isso fosse verdade!--exclama o Alpoim.
Junho--1903.
Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do _Dia_, a procissão do Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos--quando o bispo de Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
--Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!--Tinha hypothecado lá fóra os rendimentos do curia por noventa annos!
Junho--1903.
O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas dois retratos--o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do Remexido, quando o fuzilaram. E termina:--A Angela Pinto é neta do Remexido. Aposto que não sabiam!
Julho--1903.
--Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal--disse um patusco ao Marçal Pacheco.
--De juiz?!
--Isso.
--Mas você endoideceu! Não lh'o dão!
--Isso sei eu.
--Mas então porque é que o pede?
--Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já sei, mas é _capital_ de queixa que amontôo.
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O Alpoim:
--Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço esplendido--e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando charutos enormes e com as saias arregaçadas...
Setembro--1903.
O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com os ataques nas _Novidades_.
Outubro--1903.
O Alpoim recomenda no _Dia_ que se não publique nada que possa ferir as susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se podem ver: têem um pelo outro odio figadal.
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Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo.
[Figura: _José Luciano encerra o Parlamento._--Caricatura inedita de Celso Herminio.]
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Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da iluminação da Avenida diz-se:--Dos Restauradores para cima dirige o Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...
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Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto, emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.
Outubro--1903.
O D. João da Camara conta o seguinte:
--O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa. Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o dinheiro.--E o Brazão?--Cuido que não são casados, apezar do que por ahi se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:--É o meu melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe a _Odette_ e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.
Outubro--1903.
--Vi eu, vi eu!--exclama o Antonio José de Freitas--o Oliveira Martins, n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer, d'um janota banal.
Dezembro--1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
--Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o meu amigo que todos os annos ha um _deficit_ de 7:000 contos. Ninguem tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se roubar á vontade!
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O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.
Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as relações com a Italia.
--Se o José Luciano morrer é á facada!--exclama o Alpoim.
Morrer era ainda--Deus me perdoe!--uma solução... Peor será conserval-o na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.--Hoje deitou um litro de pus pela pelle.--Está salvo!--Morre!--Fica invalido!--Tem sifilis!--Nesta altura da politica portugueza, é elle quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»
Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço--dizem todos os politicos--e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que se succedam trez annos de fome.--Tudo quanto se faz de mau é o rei quem o faz...--Ainda hoje ouvi esta conversa:--Foi o Hintze quem disse ao Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer». Nunca lh'o deveria ter dito.--Os politicos inutilisam-no e inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no _Noticias_, no _Seculo_ e no _Diario_, anunciando um grande emprestimo no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca, Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:--Quem não deixa passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada. No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no estrangeiro. Elle manda em tudo:--manda no Credito Predial, no Banco de Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe. Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.--A esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.--Hoje deitou mais pus!--Morre!--Com quem está o Paço?--O Moreirinha com a algalia não lhe sae da cabeceira.--Quem vae ao poder? O João Franco?
--Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São mil os interesses, mil as ambições.--Tudo menos o Beirão, que só tem por si a gente velha, a gente conhecida pelos _batibarbas_.
Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem, que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima--ambição ou grandeza?--ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o ataque, á frente dos _batibarbas_, contra o Alpoim, e o Alpoim, que ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois do conluio feito pelo Silva Graça:--Com esse me entendo eu!
Fevereiro--1904.
Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos. Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho. Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro, soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam baixinho os escandalos.