Part 12
Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S. Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de Herculano.--Que eram seus avós?--Pedreiros.--Efectivamente no retrato Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo, afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano edificou em granito--e no granito abriu pacientes e admiraveis lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam o pedaço sêco de pão com um ar solemne,--acabaram, emfim, por encontrar um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o universo--o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam--e capaz de edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade, veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no pó--mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem, sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra do pedreiro maximo de toda a sua geração.
Março--1910.
José d'Azevedo:
--Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União Vinicola. Disse-lhe logo:--Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso.
Abril--1910.
O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'_O Mundo_--esteve estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou hoje n'_O Imparcial_ e disse ao José d'Azevedo:--Se isto assim continua minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso Costa.--Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus vencimentos suspensos...
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Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze:
--O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes estava o meu nome, eu disse:--Mas isso não é uma lista de pares--é uma lista de credores.--Soube-o logo e nunca me perdoou.
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Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'_O Imparcial_, disse:--Este é o creado do Paçô, que vae muito ao _Mundo_ e pertence ás associações secretas.
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--O José Luciano foi sempre um homem pernicioso--diz o José d'Azevedo.
--Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar--conclue o Fuschini. E acrescenta:--Quem manda é o seu _salão_ onde se fazem os negocios mais escuros e mais porcos d'este paiz.
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--Esse ministro italiano que ahi está--conta o José d'Azevedo--foi um dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe disse:--Prohibo-te que te metas n'isso.--Não se importou. Procurou Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.--Isso é extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.--Reuniram-se e examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:--Pois meu tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.--O embaixador conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo. Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:--Andei dois annos com febre!
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José d'Azevedo:
--Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria. Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto--e venci. Uma tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:--Olha o que me diz o Paçô...--E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de José Luciano.
1 de Maio--1910.
José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:--Não são sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem auctorisação dos governadores.
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É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva. Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda, linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que synthetisa n'estas palavras:--Babo-me... Não escrevo, babo-me...--Não crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou com elle, dizia:--As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me medo.--São os olhos dos Brocas.
--Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui com o meu creado, a cavalo--e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios, depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o degolar...
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Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:--Sobrinho, Deus não existe... ou embarcou!
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E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José d'Azevedo, depois do medico sahir:
--Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o _Eusebio Macario_, estes filhos de boticario!
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Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no primeiro periodo de loucura:--Veja esse desgraçado... Era um rapaz inteligente...--E depois d'uma pausa dolorosa:--E tudo isto porquê, sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.
Junho--1910.
Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana. Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:
|| Ide escravos quebrar os grilhões, || As algemas da fome homicida; || Armas promptas contra esses ladrões, || Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis) || Nova aurora de Paz, Redempção, || Vá doirar nossos valles e cerros, PROPAGANDA ELEIÇOEIRA || Libertando os captivos dos ferros, DO BLOCO PREDIAL || Dando aos pobres a luz e o pão. ---------------- || (Musica--A MARSELHEZA) || Avante! Lusitanos! || Largae a servidão! || Unir! Unir! contra os tyramnos, || Salvemos a Nação! || Avante Lusitanos, || Salvemos a Nação. || || || Tareco.
E o folheto «Os Barbadões»[11]:
«O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha _O Barbadão_; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 annos reina em Portugal.
A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias, bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo proprietário: *A Nação*.
Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira.
Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV; beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou prezas ao seu vestido de noiva!
Seu filho _Afonso VI_ que no throno lhe sucedeu, corria de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão _Pedro II_ para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.
*João V* que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio.
*José I* faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.
[Figura: _Teixeira de Sousa._]
*Maria I* tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e endoidece; seu filho _João VI_ que em seu nome governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por oficiaes inglezes.
*D. Miguel* foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do throno pela _revolução_ triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe ficaram fieis.
*Pedro IV*, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso imperio indiano.
*Maria II* para se aguentar no throno chama marujos inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha _liberal_.
*Pedro V* não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.
*Luiz I* arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho _Carlos_. Este, esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no _xão_ atirou com elle ao chão. Seu filho _Manuel II_ que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.
Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas, barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe deve: uma divida colossal de *oitocentos mil contos*, nenhumas industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho: *365 contos* por anno só para elle, mais *60 contos* para a mamã, *outros 60* para a vóvó e *16* para o titi; tem tambem para alfinetes *160 contos* a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais *60 contos* para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria e daremos *20 contos* annuaes por cada pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo de Beja.
* * * * *
Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares; viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da filha do _Barbadão_.
* * * * *
*Portuguezes!* façamos votos pela conservação d'esta gloriosa dynastia--*Oremos*--*Padre Nosso*--*Ave-Maria*.
Junho--1910.
Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está livido.
--A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como habitualmente.
--E o rei?
--O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia, fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...
Julho--1910.
Do João de Menezes:
--Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas que deram dinheiro para jornaes e o resto.
* * * * *
A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do exemplo de João Franco?--A um ministro foi preciso escrever-lhe uma ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.--O exercito é nosso.--E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo, manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos, mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José d'Azevedo desafia-os:--Venham para a rua!--Fiado em quê? O pacto de Vila Viçosa efectivamente existe?[12] Já o João Franco dizia tambem com arrogancia:--Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui a dois annos garanto-lhes que a não fazem.--Mas será este rei um chefe?--pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos respondem d'esta forma n'_O Liberal_:
«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella de quem lhe bate os pés.
«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.
«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a honra de uma nação.
«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós todos, *que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei*».
A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder, ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:--Estamos sobre um vulcão!--A audacia dos republicanos todos os dias augmenta:--Lisboa é nossa!--exclama o Chagas.--Se os republicanos fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a republica estava feita!--afirma o Silva Graça--E o Porto e a provincia?--pergunto eu ao Chagas.--Que me importa a provincia! Que importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo telegrapho.--Outro diz-me:--A marinha está toda comnosco. Tem havido ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido contel-os...--Todos os dias corre um boato e a agitação popular augmenta pela carestia da vida[13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o terror, mortes?...--Não, soceguem, quando se fizer a republica--já o anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro--o que se ha-de ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres...
A SOCIEDADE ELEGANTE