Part 11
--Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal.
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Do João Franco diz:
--Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou.
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O Carneiro de Moura:
--Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para _O Portugal_, vinte contos. Já lá vão em pagodes!
[Figura: _Dantas Baracho._--Caricatura inedita de Celso Herminio.]
Novembro--1909.
Conta hoje o Fuschini--sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade e dos cabelos todos brancos:
--O Soveral é um homem de negocios[8]. O que elle quer é dinheiro. Já tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa um correspondente do _Dail Maily_, que contou á Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do casamento.
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O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:
--Quem deu o dinheiro para _O Portugal_ foram as beatas. Um padre lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a viscondessa de Sarmento deu seis.
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Um artigo curioso do _Corriere de la Sera_, assignado pelo Gomes dos Santos:
«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?
Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar do crime.
É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque os regicidas não eram anarchistas.
O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se compõe de homens _capazes de tudo_. Tudo deixa crer que o regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande coragem individual.
Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião publica com um diversivo.
Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia da conspiração.
Dois suicidios mysteriosos--um sob o comboio de Cascaes, outro na redacção d'um jornal revolucionario--parecem ter intimas relações com a existencia da Mão Negra local.
Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes independentes dedicaram longas columnas.
Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice--um dos implicados na revolução republicana de 28 de janeiro--que era o receptador das armas roubadas. Já a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, auctor do furto.
Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do alto das ribas.
O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente que cometera o crime,--e que, além de ser antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e confessada.
Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde está de sentinella á vista.
Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o crime?
A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta interrogação...»
Dezembro--1909.
Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações carbonarias.
Dezembro--1909.
O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei quanto--outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.
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Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia um companheiro de repartição:
--Tenho lá em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito negro que queria que você visse.
Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos, lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e está hoje na galeria do Paço d'Ajuda.
Dezembro--1909.
O Avelino d'Almeida:
--A verdadeira razão por que o _Seculo_ se fez republicano?... É que no Paço, das ultimas vezes que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal, trataram-no d'alto.
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--Um homem muito honesto o Hintze--diz o Carneiro de Moura--um homem muito honesto que fazia assim:--Ó Val-Flôr, empreste-me vinte contos.--E o Val-Flôr emprestava-lhos--e recebia do Estado compensações que valiam o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do Estado o valor de cincoenta mil reis.
Dezembro--1909.
Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno Chiado:--O rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos prometido o poder!
E o Vilaça conta:
--O José Luciano reuniu-nos hontem á noite, a mim, ao Beirão, ao Dias Costa, ao Moreirinha e disse-nos:--Se os senhores estão no partido apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. Não podem recusar as pastas que eu lhes indicar.--Todos se curvaram, o Vilaça, que perde dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria ser outra vez ministro.
23 de Dezembro--1909.
O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador. Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima entrevista, dizendo a alguem:--Só lhe faltou bater-me...
Dezembro--1909.
O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe genealogias, negoceia em _bric-à-brac_ e escreve satyras. D'uma vez, a um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala, perguntando:--Hein, com quem se parece?...--escreveu elle a seguinte quadra:
Do Imperador, de quem diz que é filho, Tem o retrato na sala, Mas da p... que o pariu Não tem retrato nem fala...
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Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas a meninas do _Sacre Coeur_ sobre a masculinidade dos creados... Depois fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive hoje arredado em Torres Novas.
--D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o _craquelé_--e debaixo das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias...
Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças magnificas, _signé Germain_, e que valem um milhar de contos.--D'uma vez disse a D. Luiz:--Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar com a _boiserie_ de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa apresenta uma sala assim.--Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro. Vi as contas todas, photographei tudo...
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--Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...--e sorri com ironia--comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata antiga a um canto.--Que é aquillo?--Está alli para derreter.--Deixem-me vêr.--Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro--uma salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.--São para derreter? Então venda-m'as. Quanto pezam?--Quinhentos mil reis.--Dou seiscentos.--Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me alguns contos de reis.
Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo--e d'algumas peças que tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»...
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Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou sempre na tradição da sua familia:
--O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume--mas ella não cede. Pede, suplica--perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se depois das contumelias da pragmatica--e, ao sahir, volta-se de repente e dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso manguito...
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Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.--É o _pendant_ do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro.
Janeiro--1910.
Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente, de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero...
Janeiro--1910.
O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:
--No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas automaticas. Meteram-no no calabouço--e confessa, não confessa... o homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:--Nós vamos alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.--E começou:--Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que vinha aqui para nos atirar bombas!--Quando o oficial abriu a porta do calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:--Não me matem que eu confesso tudo.--Então quem te entregou o caixote?--Foi o Alfredo Costa.--Veio a participação para o governo civil--mas só chegou ás mãos do juiz depois da morte do rei...
[Figura: _José Maria de Alpoim._]
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O juiz:
--Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras populares.
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O dr. Antonio Emilio ao Beirão:
--Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que os chacinem.
E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.
Janeiro--1910.
Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se, diz-se...
Fevereiro--1910.
O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro aviso.
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O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se o que _O Povo d'Aveiro_, que está tendo tiragens enormes, publicou nos ultimos numeros[9].
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O T..., d'_O Mundo_, disse-me que janta duas vezes por semana com o Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do _Diz-se_...
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O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:
--No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente preparado para a deposição de D. Carlos--marinha, tropa, organisações, tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que o João Franco estivesse morto.
Março--1910.
Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei, assistiram trinta pessoas.
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Paçô Vieira:
--A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo, corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel na mão.--Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta carta do rei que me levou a pedir a demissão.--Repliquei-lhe:--Sei perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por phrase.--E diante do espanto do Hintze:--Vim no comboio com o Afonso Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa carta...--Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos republicanos--naturalmente ao Bernardino--antes de ser enviada ao Hintze.
Março--1910.
Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é--emfim! emfim!--o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As suas melhores obras--as que sonhou e nunca se resolveu a escrever--leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta:
--É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!...
--Fuja.
--Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba--e eu alli ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado!
Março--1910.