Part 10
--Os politicos não teem coração.
E o rei dizia a um e a outro:
--Seja bom portuguez e meu amigo.
Março--1908.
--Vou a Lisboa--diz o Columbano ao conde d'Arnoso.
--Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta.
Março--1908.
Antonio José de Freitas:
--O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e, conversando com Rouvier, perguntou-lhe:
--Se se fizer a republica em Portugal?...
--Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a federação latina.
Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:
--Que familia! O melhor de todos é o cego--mas esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso furar-lhos!
Março--1908.
O João Chagas:
--O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida, que disse:--Eu não só não sou republicano, mas sou anti-republicano.--Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa riamos ás gargalhadas.
Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa, nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo. Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz.
--Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto inevitavel. Que me importa o Porto?
E como eu duvide:
--Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em que os regimentos são completamente nossos.
Abril--1908.
Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no _Jornal do Commercio_, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos:
--D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as armas reaes.
Novembro--1908.
A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis:
--Os outros não os conheço, mas aquella cara do homem das barbas nunca mais me sae dos olhos[7].
Dezembro--1908.
O caso do dia é este:--Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:--Vossa Magestade anda iludido. Esta gente que o cerca engana-o. A situação do paiz é deploravel, etc.
Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente, interrompida pela primeira vez naquella representação em que o formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem totalmente repelil-as.
Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...
Janeiro--1909.
--Esta vida artificial como lhe sinto a falta!--exclama o Fialho ali ao pé do Suisso.
--E porque não vive em Lisboa?
--Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente cria amor...--Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta isto:--Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!
Falamos de politica:
--Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha republicanos--ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um campo...
* * * * *
O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:
--A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento.
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Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio, declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:--Eu bem sabia, por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os fazer...--Porquê, almirante?--A situação não me era agradavel.
* * * * *
Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira dissera:--Vendi a carabina a Fulano.--O ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.
* * * * *
O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi correu, de que o rei se confessa todas as semanas.
* * * * *
Larga distribuição d'estes papelinhos:[ver nota de editor]
Janeiro--1909.
Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de lisboeta--café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria. Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma mulher já _fannée_, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda, depois um sofá...
--E que tal, Munhoz?
--Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje almoçamos nós um _bidet_--e por signal que não estava nada mau!...
* * * * *
Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:--Um... dois... três...--A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos phantasmas que se sentam a seu lado:--Come, Luiz? Não queres d'este prato, Carlos?--E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época. Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer amarelo...
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O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:--Se m'o matarem quero ser rei uma hora, mas n'essa hora hei-de mandar...
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--E o rei?
--O rei...--diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço--O rei é um fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de orgulho.--E acrescenta:--Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por você.
Janeiro--1909.
Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:
--Era um pedante.
--Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros não se apura uma pagina...
Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...
--O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço--e algumas por causa do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o _Hamlet_ commigo--elle que me roubou duzentas e tantas phrases!--e eu disse-lhe:--Pois sim, vamos lá discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem nervoso...--E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle disse-me:--Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o _Hamlet_ como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular...
E eu respondi logo:
--Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um diplomata; se é por organisação é porque é um histerico...
E elle mandou-me embora.
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Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:--Vou organisar um concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.
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O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os particulares, com a gente que lhe chamava _doutor Tavares_, e então regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria.
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Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher _caline_, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.
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A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada, sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:
--Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o camarote.
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Não sei quem fala do Saldanha...
--Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam que não era _persona grata_. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:--Mandem lá esse velho pecador.
Fevereiro--1909.
O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo do Hintze:
--Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses _criminosos_, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis mezes depois tinham morrido _cincoenta_ de febres!...
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No outro dia--diz o Freitas--estive com a rainha D. Amelia. Está uma mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei, perguntei e explicaram-me:--São os aneis de brilhantes, que ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho--e que traz sempre comsigo.
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Um empregado da fazenda:
--Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por desleixo.
Fevereiro--1909.
O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:
--O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,--adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por uma guitarrada.
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No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis emprestados.
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Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador «seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para lha segurar:--Mas tem cuidado que são ovos!...--observava sempre.
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Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma _loja_, executar um alto personagem...
25 de Fevereiro--1909.
Visita ao Coelho de Carvalho, que está doente, e mora n'um velho palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados. São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre, fala-se em politica. Não se fala n'outra coisa...--A policia tem o processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia 21, n'uma _loja_ maçonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinação politica com o João Franco? Disse-mo elle a mim:--«O acordo esteve feito para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e Beltrano decidimos perdel-o»...--Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graça. Tinham até ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os adiantamentos. E foi por isso que o João Franco pôde responder como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mãos provas d'essa combinação.
Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado que foi muito tempo no ministerio da justiça, é hoje alli n'uma meza do Martinho. Desconfio que mistifica os clientes--para se divertir... As dificuldades da sua vida são talvez invenciveis, mas a desgraça encontra-o sempre de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas brancas enquadrando uma face moça, e oculos redondos de tartaruga, que lhe dão uma aparencia de retrato de Holbein.--Os oculos de Spinoza...--como elle lhes chama.
Março--1909.
O Armando Navarro:
--D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que conheço, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar á Hespanha, é o primeiro passo...
6 de Março--1909.
Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a alguem a chorar:
--D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!
Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus senhores...». Entrou no palco e disse a phrase:
Boas noites, meus senhores...
E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e responderam á uma:
--Muito boas noites, senhor Taborda!
A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São mais felizes.
Março--1909.
As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:--«A reacção envolve o rei».--Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa--fazendo-o visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...
* * * * *
Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que elle quer lá voltar para lhe dar uma lição.
Março--1909.
Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas--e ficou pobre: são as Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com magnificas encadernações.
Março--1909.
Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração muito adiantada.
--Porque não escreve as suas memorias?
--Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia... Depois deixo-me d'isso.
E conta-me:
--Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:--Não faça questão, que será um dos membros da junta.
E diz:
--Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me o peor que é possivel do rei e acrescentou:--Aceito a sua idéa... E tem casa?--Tenho.--E se a policia intervier?--Resistimos e apelamos para o povo.--Bem, vá falar ao José Luciano.--Procurei essa _vil alforreca_, que exclamou:--Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...--Dias depois o Hintze dizia-me:--O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.--Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.--Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de amanhã.--No dia seguinte estava morto.
Março--1909.
Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos, emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas--festas de Santo Antonio, etc.--poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço e perguntou pelo rei.--Está com o seu director espiritual.--Então preciso de falar á rainha.--Está tambem com o seu director espiritual.
* * * * *
A rainha--dizem-no todos--arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a perder o rei.
Março--1909.
Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do general Baracho para se pôr á frente d'um movimento.
--Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os outros as comam!
Março--1909.
O Cunha e Costa:
--O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou ao Amaral:--São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco de Abril...--Vou indagar.--Meia hora depois:--Está? Sou o Amaral.--E muito placidamente:--Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...--!!!--Os republicanos do _Mundo_, quando lhes constou que iam ser atacados:--Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...--A casa do cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.--Ao Pimentel Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação de jantar com os makavenkos:--Janto, janto, mas pago, meus senhores, pago sempre.--Ao Arroyo, quando lhe dizia:--Enganaram-no, almirante.--É que eu sou um ingenuo.
Abril--1909.
Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da rainha D. Amelia.
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O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:
--Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas as condecorações--todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o _bonnet_ às tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos--e elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:--O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me, etc.--E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao _bonnet_ e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.
* * * * *
Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica, durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa.
--Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...
--Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando aliado com os progressistas...
--Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos declarados.
Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio, de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...--P'ra diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!--Era um convencido. Diz-se que os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião e concluiu:
--Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de vencermos, governaremos...
Ao que João Franco respondera:
--Não, podendo evitar-se o sangue--evitamol-o.
E Jaime Victor conclue:
--A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle, por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o receber.
Novembro--1909.
Guerra Junqueiro desalentado: