Memorial de Ayres

mim. Desta maneira pudemos ouvir palpitar o coração aos dous,-hiperbole

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permitida para dizer que em ambos nós, em mim, ao menos, repercutia a felicidade daquelles vinte e cinco annos de paz e consolação.

A dona da casa, afavel, meiga, deliciosa com todos, parecia realmente feliz naquella data; não menos o marido. Talvez elle fosse ainda mais feliz que ella, mas não saberia mostral-o tanto. D. Carmo possue o dom de falar e viver por todas as feições, e um poder de atrair as pessoas, como terei visto em poucas mulheres, ou raras. Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e gosto dão á velhice um relevo particular, e fazem cazar nella todas as idades. Não, sei se me explico bem, nem é preciso dizer melhor para o fogo a que lançarei um dia estas folhas de solitario.

De quando em quando, ella e o marido trocavam as suas impressões com os olhos, e pode ser que tambem com a fala. Uma só vez a impressão visual foi melancolica. Mais tarde ouvi a explicação a mana Rita. Um dos convivas,-sempre ha indiscretos,-no brinde que lhes fez aludiu á falta de filhos, dizendo «que Deus lh'os negara para que elles se amassem melhor entre si.» Não falou em verso, mas a ideia suportaria o metro e a rima, que o autor talvez houvesse cultivado em rapaz; orçava agora pelos cincoenta annos, e tinha um filho. Ouvindo aquella referencia, os dous fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana Rita me disse depois que essa era a unica ferida do cazal. Creio que Fidelia percebeu tambem a expressão de tristeza dos dous, porque eu a vi inclinar-se para ella com um gesto do calis e brindar a D. Carmo cheia de graça e ternura:

--Á sua felicidade.

A esposa Aguiar, comovida, apenas pode responder logo com o gesto; só instantes depois de levar o calis á boca, acrescentou, em voz meia surda, como se lhe custasse sair do coração apertado esta palavra de agradecimento:

--Obrigada.

Tudo foi assim segredado, quasi calado. O marido aceitou a sua parte do brinde, um pouco mais expansivo, e o jantar acabou sem outro rasto de melancolia.

De noite vieram mais visitas; tocou-se, tres ou quatro pessoas jogaram cartas. Eu deixei-me estar na sala, a mirar aquella porção de homens alegres e de mulheres verdes e maduras, dominando a todas pelo aspecto particular da velhice D. Carmo, e pela graça apetitosa da mocidade de Fidelia; mas a graça desta trazia ainda a nota da viuvez recente, aliás de dous annos. Shelley continuava a murmurar ao meu ouvido para que eu repetisse a mim mesmo: _I can give not what men call love._

Quando transmiti esta impressão a Rita, disse ella que eram desculpas de mau pagador, isto é que eu, temendo não vencer a resistencia da moça, dava-me por incapaz de amar. E pegou daqui para novamente fazer a apologia da paixão conjugal de Fidelia.

--Todas as pessoas daqui e de fora que os viram,-continuou,-podem dizer a você o que foi aquelle cazal. Basta saber que se uniram, como já lhe disse, contra a vontade dos dous paes, e amaldiçoados por ambos. D. Carmo tem sido confidente da amiga, e não repete o que lhe ouve por discreta, resume só o que pode, com palavras de afirmação e de admiração. Tenho-as ouvido muita vez. A mim mesma Fidelia conta alguma cousa. Converse com o tio... Olhe, elle que lhe diga tambem da gente Aguiar...

Neste ponto interrompi:

--Pelo que ouço, emquanto eu andava lá fóra, a reprezentar o Brazil, o Brazil fazia-se o seio de Abrahão. Você, o cazal Aguiar, o cazal Noronha, todos os cazaes, em suma, faziam-se modelos de felicidade perpetua.

--Pois peça ao desembargador que lhe diga tudo.

--Outra impressão que levo desta casa e desta noite é que as duas damas, a casada e a viuva, parecem amar-se como mãe e filha, não é verdade?

--Creio que sim.

--A viuva tambem não tem filhos?

--Tambem não. É um ponto de contacto.

--Ha um ponto de desvio; é a viuvez de Fidelia.

--Isso não; a viuvez de Fidelia está com a velhice de D. Carmo; mas se você acha que é desvio tem nas suas mãos concertal-o, é arrancar a viuva á viuvez, se puder; mas não pode, repito.

A mana não costuma dizer pilherias, mas quando lhe sae alguma tem pico. Foi o que eu lhe disse então, ao metel-a no carro que a levou a Andarahy, em quanto eu vim a pé para o Cattete. Esqueceu-me dizer que a casa do Aguiar é na praia do Flamengo, ao fundo de um pequeno jardim, casa velha mas solida.

—-—-—

Sabado.

Hontem encontrei um velho conhecido do corpo diplomatico e prometi ir jantar com elle amanhã em Petropolis. Subo hoje e volto segunda-feira. O peor é que accordei de mau humor, e antes quizera ficar que subir. E dahi pode ser que a mudança de ar e de espectaculo altere a disposição do meu espirito. A vida, mormente nos velhos, é um oficio cançativo.

* * * * *

Segunda-Feira.

Desci hoje de Petropolis. Sabado, ao sair a barca da Prainha, dei com o desembargador Campos a bordo, e foi um bom encontro, porque dahi a pouco o meu mau humor cedia, e cheguei a Mauá já meio curado. Na estação de Petropolis estava restabelecido inteiramente.

Não me lembra se ja escrevi neste _Memorial_ que o Campos foi meu colega de anno em S. Paulo. Com o tempo e a ausencia perdemos a intimidade, e quando nos vimos outra vez, o anno passado, apezar das recordações escolásticas que surgiram entre nós, eramos estranhos. Vimo-nos algumas vezes, e passámos uma noite no Flamengo; mas a diferença da vida tinha ajudado o tempo e a ausencia.

Agora na barca fomos reatando melhor os laços antigos. A viagem por mar e por terra, eram de sobra para avivar alguma cousa da vida escolar. Bastante foi; acabámos lavados da velhice.

Ao subir a serra as nossas impressões divergiram um tanto. Campos achava grande prazer na viagem que iamos fazendo em trem de ferro. Eu confessava-lhe que tivera maior gosto quando alli ia em caleças tiradas a burros, umas atraz das outras, não pelo vehiculo em si, mas porque ia vendo, ao longe, cá em baixo, aparecer a pouco e pouco o mar e a cidade com tantos aspectos pintorescos. O trem leva a gente de corrida, de afogadilho, desesperado, até á propria estação de Petropolis. E mais lembrava as paradas, aqui para beber café, alli para beber agua na fonte celebre, e finalmente avistado alto da serra, onde os elegantes de Petropolis aguardavam a gente e a acompanhavam nos seus carros e cavalos até á cidade; alguns dos passageiros de baixo passavam alli mesmo para os carros onde as familias esperavam por elles.

Campos continuou a dizer todo o bem que achava no trem de ferro, como prazer e como vantagem. Só o tempo que a gente poupa! Eu, se retorquisse dizendo-lhe bem do tempo que se perde, iniciaria uma especie de debate que faria a viagem ainda mais sufocada e curta. Preferi trocar de assunto e agarrei-me aos derradeiros minutos, falei do progresso, elle tambem, e chegamos satisfeitos á cidade da serra.

Os dous fomos para o mesmo hotel (Bragança). Depois de jantar saimos em passeio de digestão, ao longo do rio. Então, a proposito dos tempos passados, falei do cazal Aguiar e do conhecimento que Rita me disse que elle tinha da vida e da mocidade dos dous conjuges. Confessei achar nestes um bom exemplo de aconchego e união. Talvez a minha intenção secreta fosse passar dalli ao cazamento da propria sobrinha delle, suas condições e circumstancias, cousa dificil pela curiosidade que podia exprimir, e aliás não está nos meus habitos, mas elle não me deu azo nem tempo. Todo este foi pouco para dizer da gente Aguiar. Ouvi com paciencia, porque o assunto entrou a interessar-me depois das primeiras palavras, e tambem porque o desembargador fala mui agradavelmente. Mas agora é tarde para transcrever o que elle disse; fica para depois, um dia, quando houver passado a impressão, e só me ficar de memoria o que valer a pena guardar.

* * * * *

4 de Fevereiro.

Eia, resumamos hoje o que ouvi ao desembargador em Petropolis ácerca do cazal Aguiar. Não ponho os incidentes, nem as anedotas soltas, e até excluo os adjectivos que tinham mais interesse na boca delle do que lhes poderia dar a minha penna; vão só os precisos á comprehensão de cousas e pessoas.

A razão que me leva a escrever isto é a que entende com a situação moral dos dous, e prende um tanto com a viuva Fidelia. Quanto á vida delles eil-a aqui em termos secos, curtos e apenas biograficos. Aguiar cazou guarda-livros. D. Carmo vivia então com a mãe, que era de Nova-Friburgo, e o pae, um relojoeiro suisso daquella cidade. Cazamento a grado de todos. Aguiar continuou guarda-livros, e passou de uma caza a outra e mais outra, fez-se socio da ultima, até ser gerente de banco, e chegaram á velhice sem filhos. É só isto, nada mais que isto. Viveram até hoje sem bulha nem matinada.

Queriam-se, sempre se quizeram muito, apezar dos ciumes que tinham um do outro, ou por isso mesmo. Desde namorada, ella exerceu sobre elle a influencia de todas as namoradas deste mundo, e acaso do outro, se as ha tão longe. Aguiar contára uma vez ao desembargador os tempos amargos em que, ajustado o cazamento, perdeu o emprego por falencia do patrão. Teve de procurar outro; a demora não foi grande, mas o novo logar não lhe permitiu cazar logo, era-lhe preciso assentar a mão, ganhar confiança, dar tempo ao tempo. Ora, a alma delle era de pedras soltas; a fortaleza da noiva foi o cimento e a cal que as uniram naquelles dias de crise. Copio esta imagem que ouvi ao Campos, e que elle me disse ser do proprio Aguiar. Cal e cimento valeram-lhe logo em todos os casos de pedras desconjuntadas. Elle via as cousas pelos seus proprios olhos, mas se estes eram ruins ou doentes, quem lhe dava remedio ao mal fisico ou moral era ella.

A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de cazados. Aguiar dava-se a trabalhos diversos para acudir com suprimentos á escassez dos vencimentos. D. Carmo guiava o serviço domestico ajudando o pessoal deste e dando aos arranjos da casa o conforto que não poderia vir por dinheiro. Sabia conservar o bastante e o simples; mas tão ordenadas as cousas, tão completadas pelo trabalho das mãos da dona que captavam os olhos ao marido e ás visitas. Todas ellas traziam uma alma, e esta era nada menos que a mesma, repartida sem quebra e com alinho raro, unindo o gracioso ao precizo. Tapetes de meza e de pés, cortinas de janelas e outros mais trabalhos que vieram com os annos, tudo trazia a marca da sua fabrica, a nota intima da sua pessoa. Teria inventado, se fosse preciso, a pobreza elegante.

Criaram relações variadas, modestas como elles e de boa camaradagem. Neste capitulo a parte de D. Carmo é maior que a de Aguiar. Já em menina era o que foi depois. Havendo estudado em um colegio do Engenho Velho, a moça acabou sendo considerada a primeira alumna do estabelecimento, não só sem desgosto, tacito ou expresso, de nenhuma companheira, mas com prazer manifesto e grande de todas, recentes ou antigas. A cada uma pareceu que se tratava de si mesma. Era então algum prodigio de talento? Não, não era; tinha a inteligencia fina, superior ao comum das outras, mas não tal que as reduzisse a nada. Tudo provinha da indole afetuosa daquella creatura.

Dava-lhe esta o poder de atrair e conchegar. Uma cousa me disse Campos que eu havia observado de relance naquella noite das bodas de prata, é que D. Carmo agrada igualmente a velhas e a moças. Ha velhas que não sabem fazer-se entender de moças, assim como ha moças fechadas ás velhas. A senhora de Aguiar penetra e se deixa penetrar de todas; assim foi joven, assim é madura.

Campos não os acompanhou sempre, nem desde os primeiros tempos; mas quando entrou a frequental-os, viu nella o desenvolvimento da noiva e da recem-casada, e comprehendeu a adoração do marido. Este era feliz, e para socegar das inquietações e tedios de fóra, não achava melhor respiro que a conversação da espoza, nem mais doce lição que a de seus olhos. Era della a arte fina que podia restituil-o ao equilibrio e á paz.

Um dia, em casa delles, abrindo urna coleção de versos italianos, Campos achou entre as folhas um papelinho velho com algumas estrofes escritas. Soube que eram do livro, copiadas por ella nos dias de noiva, segundo ambos lhe disseram, vexados; restituiu o papel á pagina, e o volume á estante. Um e outro gostavam de versos, e talvez ella tivesse feito alguns, que deitou fóra com os últimos solecismos de familia. Ao que parece, traziam ambos em si um germen de poesia instintiva, a que faltára expressão adequada para sair ca fóra.

A ultima reflexão é minha, não do desembargador Campos, e leva o unico fim de completar o retrato deste casal. Não é que a poesia seja necessaria aos costumes, mas pode dar-lhes graça. O que eu fiz então foi perguntar ao desembargador se taes creaturas tiveram algum resentimento da vida. Respondeu-me que um, um só e grande; não tiveram filhos.

--Mana Rita disse-me isso mesmo.

--Não tiveram filhos, repetiu Campos.

Ambos queriam um filho, um só que fosse, ella ainda mais que elle. D. Carmo possuia todas as especies de ternura, a conjugal, a filial, a maternal. Campos ainda lhe conheceu a mãe, cujo retrato, encaixilhado com o do pae, figurava na sala, e falava de ambos com saudades longas e suspiradas. Não teve irmãos, mas a afeição fraternal estaria incluida na amical, em que se dividia tambem. Quanto aos filhos, se os não teve, é certo que punha muito de mãe nos seus carinhos de amiga e de esposa. Não menos certo é que para essa especie de orfandade ás avessas, tem agora um paliativo.

--D. Fidelia?

--Sim, Fidelia e teve ainda outro que acabou.

Aqui referiu-me uma historia que apenas levará meia duzia de linhas, e não é pouco para a tarde que vae baixando; digamol-a depressa.

Uma das suas amigas tivera um filho, quando D. Carmo ia em vinte e tantos annos. Sucessos que o desembargador contou por alto e não valia a pena instar por elles, trouxeram a mãe e o filho para a casa Aguiar durante algum tempo. Ao cabo da primeira semana tinha o pequeno duas mães. A mãe real precisou ir a Minas, onde estava o marido; viagem de poucos dias. D. Carmo alcançou que a amiga lhe deixasse o filho e a ama. Taes foram os primeiros liames da afeição que cresceu com o tempo e o costume. O pae era comerciante de café,-comissario,-e andava então a negocios por Minas, a mãe era filha de Taubaté, S. Paulo, amiga de viajar a cavalo. Quando veiu o tempo de batizar o pequeno, Luiza Guimarães convidou a amiga para madrinha delle. Era justamente o que a outra queria; aceitou com alvoroço, o marido com prazer, e o batizado se fez como uma festa da familia Aguiar.

A meninice de Tristão,-era o nome de afilhado,-foi dividida entre as duas mães, entre as duas cazas. Os annos vieram, o menino crescia, as esperanças maternas de D. Carmo iam morrendo. Este era o filho abençoado que o acaso lhes deparára, disse um dia o marido; e a mulher, catolica tambem na linguagem, emendou que a Providencia, e toda se entregou ao afilhado. A opinião que o desembargador achou em algumas pessoas, e creio justa, é que D. Carmo parecia mais verdadeira mãe que a mãe de verdade. O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um pouco mais a mãe postiça. A razão podiam ser os carinhos maiores, mais continuados, as vontades mais satisfeitas e finalmente os doces, que tambem são motivos para o infante, como para o adulto. Veiu o tempo da escola, e ficando mais perto da caza Aguiar, o menino ia jantar alli, e seguia depois para as Laranjeiras, onde morava Guimarães. Algumas vezes a própria madrinha o levava.

Nas duas ou tres molestias que o pequeno teve, a aflição de D. Carmo foi enorme. Uso o proprio adjetivo que ouvi ao Campos, com quanto me pareça enfatico, e eu não amo a enfasis. Confesso aqui uma cousa. D. Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que são «doudas por morangos», nem que «morrem por ouvir Mozart.» Nella a intensidade parece estar mais no sentimento que na expressão. Mas, emfim, o desembargador assistiu á ultima das molestias do menino, que foi em casa da madrinha, e pôde ver a aflição de D. Carmo, os seus afagos e sustos, alguns minutos de desespero e de lagrimas, e finalmente a alegria de restabelecimento. A mãe era mãe, e sentiu de certo, e muito, mas diz elle que não tanto; é que haverá ternuras atadas, ou ainda moderadas, que se não mostram inteiramente a todos.

Doenças, alegrias, esperanças, todo o repertorio daquella primeira quadra da vida de Tristão foi visto, ouvido e sentido pelos dous padrinhos, e mais pela madrinha, como se fora do seu proprio sangue. Era um filho que alli estava, que fez dez annos, fez onze, fez doze, crescendo em altura e graça. Aos treze annos, sabendo que o pae o destinava ao comercio, foi ter com a madrinha e confiou-lhe que não tinha gosto para tal carreira.

--Porque, meu filho?

D. Carmo usava este modo de falar, que a idade e o parentesco espiritual lhe permitiam, sem usurpação de ninguem. Tristão confessou-lhe que a sua vocação era outra. Queria ser bacharel em direito. A madrinha defendeu a intenção do pae, mas com ella Tristão era ainda mais voluntarioso que com elle e a mãe, e teimou em estudar direito e ser doutor. Se não havia propriamente vocação, era este titulo que o atraía.

--Quero ser doutor! quero ser doutor!

A madrinha acabou achando que era bom, e foi defender a causa do afilhado. O pae deste relutou muito. «Que havia no comercio que não fosse honrado, além de lucrativo? Demais, elle não ia começar sem nada, como sucedia a outros e sucedeu ao proprio pae, mas já amparado por este.» Deu-lhe outras mais razões, que D. Carmo ouviu sem negar, alegando sempre que o importante era ter gosto, e se o rapaz não tinha gosto, melhor era ceder ao que lhe aprazia. Ao cabo de alguns dias o pae de Tristão cedeu, e D. Carmo quiz ser a primeira que désse ao rapaz a boa nova. Ella propria sentia-se feliz.

Cinco ou seis mezes depois, o pae de Tristão resolveu ir com a mulher cumprir uma viagem marcada para o anno seguinte,-visitar a familia delle; a mãe de Guimarães estava doente. Tristão, que se preparava para os estudos, tão depressa viu apressar a viagem dos paes, quiz ir com elles. Era o gosto da novidade, a curiosidade da Europa, algo diverso das ruas do Rio de Janeiro, tão vistas e tão cançadas. Pae e mãe recusaram leval-o; elle insistiu. D. Carmo, a quem elle recorreu outra vez, recusou-se agora, porque seria afastal-o de si, ainda que temporariamente; juntou-se aos paes do mocinho para conserval-o aqui. Aguiar desta vez tomou parte ativa na luta; mas não houve luta que valesse. Tristão queria á fina força embarcar para Lisboa.

--Papae volta daqui a seis mezes; eu volto com elle. Que são seis mezes?

--Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Você vae perder um anno...

--Pois que se perca um anno. Que é um anno que não valha a pena sacrifical-o ao gosto de ir ver a Europa?

Aqui D. Carmo teve uma inspiração; prometeu-lhe que, tão depressa elle se formasse, ella iria com elle viajar, não seis mezes, mas um anno ou mais; elle teria tempo de ver tudo, o velho e o novo, terras, mares, costumes... Estudasse primeiro. Tristão não quiz. A viagem se fez, a despeito das lagrimas que custou.

Não ponho aqui taes lagrimas, nem as promessas feitas, as lembranças dadas, os retratos trocados entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se afirmou de parte a parte, mas nem tudo se cumpriu; e, se de lá vieram cartas, saudades e noticias, quem não veiu foi elle. Os paes foram ficando muito mais tempo que o marcado, e Tristão começou o curso da Escola Medica de Lisboa. Nem comercio nem jurisprudencia.

Aguiar escondeu quanto pôde a noticia á mulher, a ver se tentava alguma cousa que trocasse as mãos á sorte, e restituisse o rapaz ao Brazil; não alcançou nada, e elle proprio não podia já disfarçar a tristeza. Deu a dura novidade á mulher, sem lhe acrescentar remedio nem consolação; ella chorou longamente. Tristão escreveu comunicando a mudança de carreira e prometendo vir para o Brazil, apenas formado; mas dahi a algum tempo eram as cartas que escasseavam e acabaram inteiramente, ellas e os retratos, e as lembranças; provavelmente não ficaram lá saudades. Guimarães aqui veiu, sosinho, com o unico fim de liquidar o negocio, e embarcou outra vez para nunca mais.

* * * * *

5 de Fevereiro.

Relendo o que escrevi hontem, descubro que podia ser ainda mais resumido, e principalmente não lhe pôr tantas lagrimas. Não gosto dellas, nem sei se as verti algum dia, salvo por mama, em menino; mas lá vão. Pois vão tambem essas que ahi deixei, e mais a figura de Tristão, a que cuidei dar meia duzia de linhas e levou a maior parte dellas. Nada ha peor que gente vadia,-ou apozentada, que é a mesma cousa; o tempo cresce e sobra, e se a pessoa pega a escrever, não ha papel que baste.

Entretanto, não disse tudo. Verifico que me faltou um ponto da narração do Campos. Não falei das ações do Banco do Sul, nem das apolices, nem das cazas que o Aguiar possue, alem dos honorarios de gerente; terá uns duzentos e poucos contos. Tal foi a afirmação do Campos, á beira do rio, em Petropolis. Campos é homem interessante, posto que sem variedade de espirito; não importa, uma vez que sabe despender o que tem. Verdade é que tal regra levaria a gente a aceitar toda casta de insipidos. Elle não é destes.

* * * * *

6 de Fevereiro.

Outra cousa que tambem não escrevi no dia 4, mas essa não entrou na narração do Campos. Foi ao despedir-me delle, que lá ficou em Petropolis tres ou quatro dias. Como eu lhe deixasse recomendações para a sobrinha, ouvi-lhe que me respondeu:

--Está em casa da gente Aguiar; passou lá a tarde e a noite de hontem, e conta ficar até que eu desça.

* * * * *

6 de Fevereiro, á noite.

Diferença de vocações: o cazal Aguiar morre por filhos, eu nunca pensei nelles, nem lhes sinto a falta, apezar de só. Alguns ha que os quizeram, que os tiveram e não souberam guardal-os.

* * * * *

10 de Fevereiro.

Hontem, indo jantar a Andarahy, contei a mana Rita o que ouvi ao desembargador.

--Elle não disse nada da sobrinha?

--Todo o tempo foi pouco para falar da gente Aguiar.

--Pois eu soube o que me faltava de Fidelia; foi a propria D. Carmo que me contou.

--Se a historia é tão longa como a della...

--Não, é muito mais curta; diz-se em cinco minutos.

Tirei o relogio para ver a hora exata, e marcar o tempo da narração. Rita começou e acabou em dez minutos. Justamente o dobro. Mas o assunto era curioso, trata-se do cazamento, e a viuva interessa-me.

--Conheceram-se aqui na Corte, disse Rita; na roça nunca se viram. Fidelia passava uns tempos em casa do desembargador (a tia ainda era viva), e o rapaz. Eduardo, estudava na Escola de Medicina. A primeira vez que elle a viu foi das _torrinhas_ do Teatro Lirico, onde estava com outros estudantes; viu-a á frente de um camarote, ao pé da tia. Tornou a vel-a, foi visto por ella, e acabaram namorados um do outro. Quando souberam quem eram, já o mal estava feito, mas provavelmente o mal se faria, ainda que o soubessem desde principio, porque a paixão foi repentina. O pae de Fidelia, vindo á Corte, teve noticia do caso pelo proprio irmão, que cautelosamente lhe disse o que desconfiava, e insinuou que era boa ocasião de fazerem as pazes as duas familias. O barão ficou furioso, pegou da moça e levou-a para a fazenda. Você não imagina o que lá se passou.

--Imagino, imagino.

--Não imagina.

--Pôl-a no tronco?

--Não, protestou Rita; não fez mais que ameaçal-a com palavras, mas palavras duras, dizendo-lhe que a poria fora de casa, se continuasse a pensar em tal atrevimento. Fidelia jurou uma e muitas vezes que tinha um noivo no coração e cazaria com elle, custasse o que custasse. A mãe estava do lado do marido, e opoz-se tambem. Fidelia resistiu e recolheu-se ao silencio, passava os dias no quarto, chorando. As mucamas viam as lagrimas e os sinaes dellas, e desconfiavam de amores, até que adivinharam a pessoa, se não foi palavra que ouviram aos proprios senhores. Emfim, a moça entrou a não querer comer. Vendo isto, a mãe, com receio de algum acesso de molestia, começou a pedir por ella, mas o marido declarou que não lhe importava vel-a morta ou até douda; antes isso que consentir na mistura do seu sangue com o da gente Noronha. A oposição da gente Noronha não foi menor. Ao saber da paixão do filho pela filha do fazendeiro, o pae de Eduardo mandou-lhe dizer que o deixaria na rua, se teimasse em semelhante afronta.

--Como inimigos eram dignos um do outro, observei.

--Eram, concordou Rita. O desembargador soube o que se passava e foi á fazenda, onde viu tudo confirmado, e disse ao irmão que não valia opor-se, porque a filha, chegada á maioridade, podia arrancar-se de caza. Ninguem obrigava a humilhar-se deante da gente Noronha, nem a fazer as pazes com ella; bastava que os filhos cazassem e fossem para onde quizessem. O barão recusou a pés juntos, e o desembargador dispunha-se a voltar para a Corte, sem continuar a comissão que se dera a si mesmo, quando Fidelia adoeceu deveras. A doença foi grave, a cura dificil pela recusa dos remedios e alimentos... Que sorriso é esse? Não acredita?

--Acredito, acredito; acho romanesco. Em todo caso, essa moça interessa-me. A cura, dizia você, foi dificil?

--Foi; a mãe resolveu pedir ao marido que cedesse, o marido concedeu finalmente, impondo a condição de nunca mais receber a filha nem lhe falar; não assistiria ao cazamento, não queria saber della. Restabelecida, Fidelia veiu com o tio, e no anno seguinte cazou. O pae do noivo tambem declarou que os não queria ver.

--Tanta luta para não serem felizes por muito tempo.

--É verdade. A felicidade foi grande mas curta. Um dia resolveram ir á Europa, e foram, até que se deu a morte inesperada do marido, em Lisboa, donde Fidelia fez transportar o corpo para aqui. Você lá a viu ao pé da sepultura; lá vae muitas vezes. Pois nem assim o pae, que tambem já é viuvo, nem assim quiz receber a filha. Quando veiu á Corte a primeira vez, Fidelia foi ter com elle, sosinha, depois com o tio; todas as tentativas foram inuteis. Nunca mais a viu nem lhe falou. Eu, mais ou menos, já contei isto a você; só não conhecia bem as particularidades da resistencia na fazenda, mas ahi está. Agora diga se ella é viuva que se caze.

--Com qualquer, não; pelo menos, é dificil; mas, um sujeito fresco,-continuei enfunando-me e rindo.

--Você ainda pensa...?

--Eu, mana? Eu penso no seu jantar, que hade estar delicioso. O que me fica da historia é que essa moça, além de bonita, é teimosa; mas a sua sopa vale para mim todas as noções esteticas e moraes deste mundo e do outro.

Ao jantar, contei a Rita o que me dissera o desembargador sobre haver ido a sobrinha passar alguns dias ao Flamengo, e perguntei-lhe se era assim a intimidade na casa.

--Certamente que é. Já uma vez Fidelia adoeceu no Flamengo e lá se tratou. Tendo perdido a esperança do filho postiço, o Tristão, que os esqueceu inteiramente, ficaram cada vez mais ligados á viuva. D. Carmo é toda ternura para ella. Você lembra-se das bodas de prata, não? Aguiar não lhe chama filha para não parecer que usurpa esse titulo ao pae verdadeiro; mas a mulher, não tendo ella mãe, é o nome que lhe dá. Nem Fidelia parece querer outra mãe.

* * * * *

11 de Fevereiro.

Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que ás creanças só se punham nomes de santos ou santas. Mas Fidelia...? Não conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado á filha do barão, como a fórma feminina de _Fidelio_, em homenagem a Beethoven? Pode ser; mas eu não sei se elle teria dessas inspirações e reminiscencias artisticas. Verdade é que o nome da familia, que serve ao titulo nobiliario, Santa-Pia, tambem não o acho na lista dos canonisados, e a unica pessoa que conheço, assim chamada, é a de Dante: _Ricorditi di me, chi son la Pia._

Parece que já não queremos Annas nem Marias, Catarinas nem Joannas, e vamos entrando em outra onomastica, para variar o aspeto ás pessoas. Tudo serão modas neste mundo, excepto as estrelas e eu, que sou o mesmo antigo sujeito, salvo o trabalho das notas diplomaticas, agora nenhum.

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18 de Fevereiro.

Campos disse-me hoje que o irmão lhe escrevera, em segredo, ter ouvido na roça o boato de uma lei proxima de abolição. Elle, Campos, não crê que este ministerio a faça, e não se espera outro.

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24 de Fevereiro.

A data de hoje (revolução de 1848) lembra-me a festa de rapazes que tivemos em S. Paulo, e um brinde que eu fiz ao grande Lamartine. Ai, viçosos tempos! Eu estava no meu primeiro anno de direito. Como falasse disso ao desembargador, disse-me este:

--Meu irmão crê que tambem aqui a revolução está proxima, e com ella a Republica.

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2 de Março.

Venho da casa do Aguiar. Lá achei Fidelia, um primo desta, filho do desembargador, alumno da Escola de Marinha (16 annos) e um empregado do Banco do Brazil. Passei uma boa hora ou mais. A velha esteve encantadora, a moça tambem, e a conversação evitou tudo o que pudesse lembrar a ambas a respetiva perda, uma do esposo, outra do filho postiço. Contavam-se historias de sociedade, que eu ouvi sorrindo, quando era preciso, ou consternado nas ocasiões pertinentes. Tambem eu contei uma, de sociedade alheia e remota, mas o receio de lembrar á viuva Noronha alguma terra por onde houvesse andado com o marido me fez encurtar a narração e não começar segunda. Entretanto, ella referiu duas ou tres reminiscencias de viagem, impressões do que vira em muzeus da Italia e da Allemanha. Da nossa terra dissemos cousas agradaveis e sempre de acordo. A mesma torre da matriz da Gloria, que alguns defenderam como necessaria, deixou-nos a nós, a ella e a mim, concordes no desacordo, sem que aliás eu combatesse ninguem. O cazal Aguiar ouviu-nos sorrindo; o moço da Escola de Marinha tentou, em vão, suscitar a questão militar.

Com isso e o mais enchemos a noite. Ninguem pediu a Fidelia que tocasse, embora me digam que é admiravel ao piano. Em compensação, ouvimos-lhe dizer alguma cousa de mestres e de paginas celebres, mas isso mesmo foi breve e interrompido, pode ser que lhe lembrasse o finado. Saí antes della. Ouvi ao Aguiar que daqui a dous mezes, começará as suas reuniões semanaes.

* * * * *

10 de Março.

Afinal houve sempre mudança de gabinete. O conselheiro João Alfredo organizou hoje outro. Daqui a tres ou quatro dias irei aprezentar as minhas felicitações ao novo ministro dos negocios estranjeiros.

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20 do Março.

Ao desembargador Campos parece que alguma cousa se fará no sentido da emancipação dos escravos,-um passo adiante, ao menos. Aguiar, que estava presente, disse que nada corre na praça nem lhe chegou ao Banco do Sul.

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27 de Março.

Santa-Pia chegou da fazenda, e não foi para a casa do irmão; foi para o Hotel da America. É claro que não quer ver a filha. Não ha nada mais tenaz que um bom odio. Parece que elle veiu por causa do boato que corre na Parahyba do Sul acerca da emancipação dos escravos.

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4 de Abril.

Ouvi que o barão caiu doente, e que o irmão conseguiu trazel-o para casa. Eis aqui como. Não lhe pediu logo que viesse; achou meio de lhe dizer que Fidelia estava em casa da amiga, donde não viria tão cedo, e acabou propondo-lhe tratar-se em casa delle. Santa-Pia recusou, depois aceitou. Tudo isso foi planeado com ella. Fidelia está effetivamente no Flamengo com a gente Aguiar. Deste modo a caza do Campos ficou livre ao pae irritado e enfermo. A opinião do Campos e do Aguiar é que o fazendeiro, mais tarde ou mais cedo, acabará perdoando a filha. Em todo caso, não se encontram agora, com pezar della.

Ora, pergunto eu, valia, a pena ter bridado com o pae, em troca de um marido que mal começou a lição do amor, logo se apozentou na morte? Certo que não. Se eu propuzesse concluir-lhe o curso, o pae faria as pazes com ella; ai, era preciso não haver esquecido o que aprendi, mas esqueci,-tudo ou quasi tudo. _I can not_ etc. (Shelley).

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7 de Abril.

A distração faz das suas. Hoje, vindo da cidade para caza, passei por esta, e dei commigo no largo do Machado, quando o bonde parou. Apeei-me, e antes de arrepiar caminho, a pé, detive-me alguns instantes, e enfiei pelo jardim, em direção á matriz da Gloria, a olhar para a fachada do templo com a torre por cima. Fiz isto porque me lembrou a conversação da outra noite no Flamengo.

A poucos passos, duas senhoras pareciam fazer a mesma cousa. Voltaram-se, eram nada menos que Fidelia e D. Carmo; estavam sem chapeo, tinham vindo a pé de caza. Viram-me, fui ter com ellas. Pouco dissémos: noticias do barão, que está melhor, e do Aguiar, que está bom, e despedimo-nos.

Vim para o lado do Cattete, ellas continuaram para o da matriz. A pequena distancia, lembrou-me olhar para traz. Poderia fazer outra cousa? É aqui que eu quizera possuir tudo o que a filosofia tem dito e redito do livre arbitrio, afim de o negar ainda uma vez, antes de cair onde elle perde a mesma aparencia de realidade; acabaria esta pagina por outra maneira. Mas não posso; digo só que não pude reter a cabeça nem os olhos, e vi as duas damas, com os braços cingidos á cintura uma da outra, vagarosas e visivelmente queridas.

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8 de Abril.

Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta penna vadia. Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que eu me vá desta vida, sem tempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem depois da missa do setimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de amor.

Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha meza, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre a rua e o ceu, e alli ou acolá acharás descanço. Commigo, o mais que podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que elle chegue, virá a troça dos malevolos ou simplesmente vadios.

Escuta, papel. O que naquella dama Fidelia me attrae é principalmente certa feição de espirito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudal-a se tiver ocasião. Tempo sobra-me, mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José, e para ti, se tenho vagar e quê,-e pouco mais.

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10 Abril.

Grande novidade! O motivo da vinda do barão é consultar o desembargador sobre a alforria coletiva e immediata dos escravos de Santa-Pia. Acabo de sabel-o, e mais isto, que a principal razão da consulta é apenas a redação do acto. Não parecendo ao irmão que este seja acertado, perguntou-lhe o que é que o impelia a isso, uma vez que condenava a ideia atribuida ao governo de decretar a abolição, e obteve esta resposta, não sei se subtil, se profunda, se ambas as cousas ou nada:

--Quero deixar provado que julgo o acto do governo uma expoliação, por intervir no exercicio de um direito que só pertence ao proprietario, e do qual uso com perda minha, porque assim o quero e posso.

Será a certeza da abolição que impele Santa-Pia a praticar esse acto, anterior de algumas semanas ou mezes ao outro? A alguem que lhe fez tal pergunta respondeu Campos que não. «Não, disse elle, meu irmão crê na tentativa do governo, mas não no resultado, a não ser o desmantelo que vae lançar ás fazendas. O acto que elle resolveu fazer exprime apenas a sinceridade das suas convicções e o seu genio violento. Elle é capaz de propor a todos os senhores a alforria dos escravos já, e no dia seguinte propor a queda do governo que tentar fazel-o por lei.»

Campos teve uma ideia. Lembrou ao irmão que, com a alforria immediata, elle prejudica a filha, herdeira sua. Santa-Pia franziu o sobrolho. Não era a ideia de negar o direito eventual da filha aos escravos; podia ser o desgosto de ver que, ainda em tal situação, e com todo o poder que tinha de dispor dos seus bens, vinha Fidelia perturbar-lhe a ação. Depois de alguns instantes respirou largo, e respondeu que, antes de morto, o que era seu era somente seu. Não podendo dissuadil-o, o desembargador cedeu ao pedido do irmão, e redigiram ambos a carta de alforria.

Retendo o papel, Santa-Pia disse:

--Estou certo que poucos delles deixarão a fazenda; a maior parte ficará commigo, ganhando o salario que lhes vou marcar, e alguns até sem nada,-pelo gosto de morrer onde nasceram.

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11 de Abril.

Fidelia, quando soube do acto do pae, teve vontade de ir ter com elle, não para invetival-o, mas para abraçal-o; não lhe importam perdas futuras. O tio é que a dissuadiu dizendo-lhe que o barão ainda está muito zangado com ella.

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12 de Abril.

Santa-Pia não é feio velho, nem muito velho; terá menos idade que eu. Arqueja um pouco, ás vezes, mas pode ser da bronquite. É meio calvo, largo de espaduas, as mãos asperas, cheio de corpo.

Conhecemo-nos um ao outro, eu primeiro que elle, talvez porque a Europa me haja mudado mais. Elle lembra-se do tempo em que eu, colega do irmão, jantei com elle aqui na Corte. Já o irmão lhe havia falado de mim, recordando as relações antigas. Disse-me que daqui a tres dias volta para a fazenda, onde me dará hospedagem, se quizer honral-o com a minha pessoa. Agradeci e prometi, sem prazo nem ideia da lá ir. Custa muito sair do Cattete. Já é demais Petropolis.

Está claro que lhe não falei da filha, mas confesso que se pudesse diria mal della, com o fim secreto de acender mais o odio-e tornar impossivel a reconciliação. Deste modo ella não iria daqui para a fazenda, e eu não perderia o meu objeto de estudo. Isto, sim, papel amigo, isto podes aceitar, porque é a verdade intima e pura e ninguem nos lê. Se alguem lesse achar-me-ía mau, e não se perde nada em parecer mau; ganha-se quasi tanto como em sel-o.

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13 de Abril.

Hontem com o pae, hoje com a filha. Com esta tive vontade de dizer mal do pae, tanto foi o bem que ella disse delle, a proposito da alforria dos escravos. Vontade sem ação, veleidade pura; antes me vi obrigado a louval-o tambem, o que lhe deu azo a estender o panegirico. Disse-me que elle é bom senhor, elles bons escravos, contou-me anedotas de seu tempo de menina e moça, com tal desinteresse e calor que me deu vontade de lhe pegar na mão, e, em sinal de aplauso, beijar-lha. Vontade sem ação. Tudo sem ação esta tarde.

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19 de Abril.

Lá se foi o barão com a alforria dos escravos na mala. Talvez tenha ouvido alguma cousa da resolução do governo; dizem que, abertas as camaras, aparecerá um projeto de lei. Venha, que é tempo. Ainda me lembra do que lia lá fóra, a nosso respeito, por ocasião da famosa proclamação de Lincoln: «Eu, Abrahão Lincoln, presidente dos Estados-Unidos da America...» Mais de um jornal fez alusão nominal ao Brazil, dizendo que restava agora que um povo christão e ultimo imitasse aquelle e acabasse tambem com os seus escravos. Espero que hoje nos louvem. Ainda que tardiamente, é a liberdade, como queriam a sua os conjurados de Tiradentes.

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7 de maio.

O ministério apresentou hoje á camara o projeto de abolição. É a abolição pura e simples. Dizem que em poucos dias será lei.

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13 de Maio.

Emfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do senado e da sanção da Regente. Estava na rua do Ouvidor, onde a agitação era grande e a alegria geral.

Um conhecido meu, homem de imprensa, achando-me a li offereceu-me logar no seu carro, que estava na rua Nova, e ia enfileirar no cortejo organisado para rodear o paço da cidade, e fazer ovação á Regente. Estive quasi, quasi a aceitar, tal era o meu atordoamento, mas os meus habitos quietos, os costumes diplomaticos, a propria indole e a idade me retiveram melhor que as redeas do cocheiro aos cavalos do carro, e recusei. Recusei com pena. Deixei-os ir, a elle e aos outros, que se ajuntaram e partiram da rua Primeiro de Março. Disseram-me depois que os manifestantes erguiam-se nos carros, que iam abertos, e faziam grandes aclamações, em frente ao paço, onde estavam tambem todos os ministros. Se eu lá fosse, provavelmente faria o mesmo e ainda agora não me teria entendido... Não, não faria nada; meteria a cara entre os joelhos.

Ainda bem que acabámos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os actos particulares, escrituras e inventarios, nem apagar a instituição da historia, ou até da poesia. A poesia falará della, particularmente naquelles versos de Heine, em que o nosso nome está perpetuo. Nelles conta o capitão do navio negreiro haver deixado trezentos negros no Rio de Janeiro, onde «a casa Gonçalves Pereira» lhe pagou cem ducados por peça. Não importa que o poeta corrompa o nome do comprador e lhe chame Gonzales Perreiro; foi a rima ou a sua má pronuncia que o levou a isso. Tambem não temos ducados, mas ahi foi o vendedor que trocou na sua lingua o dinheiro do comprador.

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14 de Maio, _meia noite._

Não ha alegria publica que valha uma boa alegria particular. Saí agora do Flamengo, fazendo esta reflexão, e vim escrevel-a, e mais o que lhe deu origem.

Era a primeira reunião do Aguiar; havia alguma gente e bastante animação. Rita não foi; fica-lhe longe e não dá para isto, mandou-me dizer. A alegria dos donos da casa era viva, a tal ponto que não a atribui somente ao facto dos amigos juntos, mas tambem ao grande acontecimento do dia. Assim o disse por esta unica palavra, que me pareceu expressiva, dita a brazileiros:

--Felicito-os.

--Já sabia? perguntaram ambos.

Não entendi, não achei que responder. Que era que eu podia saber já, para os felicitar, se não era o facto publico? Chamei o melhor dos meus sorrisos de acordo e complacencia, elle veiu, espraiou-se, e esperei. Velho e velha disseram-me então rapidamente, dividindo as frases, que a carta viera dar-lhes grande prazer. Não sabendo que carta era nem de que pessoa, limitei-me a concordar:

--Naturalmente.

--Tristão está em Lisboa, concluiu Aguiar, tendo voltado ha pouco da Italia; está bem, muito bem.

Comprehendi. Eis ahi como, no meio do prazer geral, pode aparecer um particular, e dominal-o. Não me enfadei com isso; ao contrario, achei-lhes razão, e gostei de os ver sinceros. Por fim, estimei que a carta do filho postiço viesse após annos de silencio pagar-lhes a tristeza que cá deixou. Era devida a carta; como a liberdade dos escravos, ainda que tardia, chegava bem. Novamente os felicitei, com ar de quem sabia tudo.

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16 de Maio.

Fidelia voltou para casa, levando e deixando saudades. Os tres estão muito amigos, e os dous parecem paes de verdade; ella tambem parece filha verdadeira. O desembargador, que me contou isto, referiu-me algumas palavras da sobrinha ácerca da gente Aguiar, principalmente da velha, e acrescentou:

--Não é dessas afeições chamadas fogo de palha; nella, como nelles, tudo tem sido lento e radicado. São capazes de me roubarem a sobrinha, e ella de se deixar roubar por elles. Tambem se não forem elles, será o pae. Creio que meu irmão já vae amansando. A ultima vez que me escreveu, depois de falar muito mal do imperador e da princeza, não lhe esqueceu dizer que «agradecia as lembranças mandadas.» Fidelia não lhe mandára lembranças, estava ainda no Flamengo; eu é que as inventei na minha carta para ver o efeito que produziriam nelle. Hade amansar; isto de filhos, conselheiro, não imagina, é o diabo; eu, se perdesse o meu Carlos, creio que me ia logo desta vida.

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17 de Maio

Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descançar, porque eu não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguem, a não ser o meu creado José. Este mesmo, se cumprir, mandal-o-hei á Tijuca, a ver se eu lá estou. Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, e só minha exclusivamente. Velhice esfalfa.

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18 de Maio.

Rita escreveu-me pedindo informações de um leiloeiro. Parece-me caçoada. Que sei eu de leiloeiros nem de leilões? Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem elle, e a minha pelle com o resto; não é nova, não é bella, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rustico. Não é preciso chamar um leiloeiro.

Vou responder isto mesmo á mana Rita, acrescentando algumas noticias que trouxe da rua,-a carta do Tristão, por exemplo, os agradecimentos do barão á filha, e esta grande peta: que a viuva resolveu casar commigo... Mas não; se lhe digo isto, ella não me crê, ri, e vem cá logo. Justamente o que eu não desejo. Preciso de me lavar da companhia dos outros, ainda mesmo della, apezar de gostar della. Mando-lhe só dizer que o leiloeiro morreu; provavelmente ainda vive, mas hade morrer algum dia.

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21 de Maio.

Hontem escrevi á mana Rita anunciando-lhe a morte do homem, e hoje de manhã abrindo os jornaes, dei com a noticia de haver falecido hontem o leiloeiro Fernandes. Chamava-se Fernandes. Sucumbiu a não sei que molestia grega ou latina. Parece que era bom chefe de familia, honrado e laborioso, e excelente cidadão; a _Vida Nova_ chama-lhe grande, mas talvez elle votasse com os liberaes.

Mana Rita, já pela minha carta, já pelas noticias de hoje, correu a ter commigo. Senhoras não deviam escrever cartas; raras dizem tudo e claro; muitas tem a linguagem escassa ou escura. Rita pedira-me noticias do leiloeiro, por lhe dizerem que elle morava no Cattete, e adoecera gravemente ha dias. Como era meu visinho, podia ser que eu soubesse delle: foi o motivo da pergunta, mas esqueceu dizel-o.

Hesitei entre confessar a minha invenção ou deixal-a encoberta pela coincidencia, mas foi só um minuto, nem isso, foi um instante. Rita é minha irmã, não me ficaria querendo mal e acabaria rindo tambem. Ouviu a minha verdade, sem zanga, mas tambem sem riso. A razão disto é um pormenor, que não vale a pena dizer miudamente e só o bastante para explicar a carta e a seriedade. Trata-se de contas entre ella e o finado, objetos que ella mandou vender, e não sabe se elle vendeu ou não, nem como havel-os ou o dinheiro; bastará ir ao armazem. Hade haver escrituração donde conste tudo; prometi acompanhal-a amanhã. Ficou satisfeita, começou então a sorrir, depois disse-me os objetos que eram, quadros velhos, romances lidos.

Jantou commigo. Antes de irmos para a meza, vimos passar o enterro do Fernandos. Teve a pachorra de contar os carros; ai de mim, tambem eu os contava em pequeno; ella é que parece não haver perdido esse costume estatistico. O Fernandes levava trinta e sete ou trinta e oito carros.

Deixo aqui esta pagina com o fim unico de me lembrar que o acaso tambem é corregedor de mentiras. Um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exato e sincero.

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22 de Maio.

Em caminho, mana Rita contou-me o que já sabe da carta de Tristão e da resposta que D. Carmo lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe as duas cartas. Tristão pede mil desculpas do longo silencio de annos e lança-o á conta de tarefas e distrações. Ultimamente, já formado em medicina, foi em viagem a varias terras, onde viu e estudou muito. Não podendo escrever as viagens, contar-lh'as-ha um dia, se cá vier. Pede noticias della e do padrinho, pede-lhes os retratos, e manda-lhes pelo correio umas gravuras; assim tambem lembranças do pae e da mãe que estão em Lisboa. A carta é longa, cheia de ternuras e saudades. A resposta, disse-me mana Rita que é em tom verdadeiramente maternal. Não sabe mostrar-se magoada; é toda perdão e carinho. Só lhe faz uma queixa; é que, pedindo os retratos della e do marido, não lhe mandasse logo o seu, o ultimo dos seus, porque os antigos cá estão. Diz muitas cousas longas, lembra os tempos de infancia e de estudo, e no fim insinua-lhe que venha contar-lhe as viagens. As gravuras são da casa Goupil.

Rita esteve com ella no dia 15, entre uma e duas horas da tarde, depois que a viuva saiu de lá para a casa do tio desembargador. Apezar da separação desta e suas saudades, sentia-se alegre com a afeição que cresce entre ambas, e igualmente alegre com a resurreição do afilhado. Chama-lhe resurreição por imaginar que o moço inteiramente os esquecera. Via agora que não, e parecia-lhe a mesma alma daqui saída. Falando ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de uma vez, acha mana Rita que lhe viu apontar uma lagrima, uma pequenina lagrima de nada...

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23 de Maio.

_Les morts vont vite._ Tão depressa enterrei o leiloeiro como o esqueci. Assim foi que escrevendo o dia de hontem, deixei de dizer que no armazem do Fernandes achámos todos os objetos de mana Rita notados e vendidos, e o dinheiro á espera da dona. Pouco é; recebel-o-ha oportunamente. Talvez não houvesse necessidade de escrever isto; fica servindo á reputação do finado.

Outra cousa que me ia esquecendo tambem, e mais principal, porque o oficio dos leilões pode acabar algum dia, mas o de amar não cança nem morre. A culpa foi de mana Rita que, em vez de começar por ahi, só me deu a noticia no largo de S. Francisco, indo a entrar no bonde. Parece que Fidelia mordeu uma pessoa; foram as proprias palavras della.

--Mordeu? perguntei sem entender logo.

--Sim, ha alguem que anda mordido por ella.

--Isso hade haver muitos, retorqui.

Não teve tempo de me dizer nada, trepára ao bonde e o bonde ia sair; apertou-me a mão sorrindo, e disse adeus com os dedos.

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24 de Maio, ao meio dia.

Esta manhã, como eu pensasse na pessoa que terá sido mordida pela viuva, veiu a propria viuva ter commigo, consultar-me se devia cural-a ou não. Achei-a na sala com o seu vestido preto do costume e enfeites brancos, fil-a sentar no canapé, sentei-me na cadeira ao lado e esperei que falasse.

--Conselheiro, disse ella entre graciosa e séria, que acha que faça? Que caze ou fique viuva?

--Nem uma cousa nem outra.

--Não zombe, conselheiro.

--Não zombo, minha senhora. Viuva não lhe convem, assim tão verde; cazada, sim, mas com quem, a não ser commigo?

--Tinha justamente pensado no senhor.

Peguei-lhe nas mãos, e enfiamos os olhos um no outro, os meus a tal ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e foram pousar no rosto do meu criado, unica pessoa existente no quarto, onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quasi todas as manhãs: «Vae... vassouras! vae espanadores!»

Comprehendi que era sonho e achei-lhe graça. Os pregões foram andando, emquanto o meu José pedia desculpa de haver entrado, mas eram nove horas passadas, perto de dez. Fui ás minhas abluções, ao meu café, aos meus jornaes. Alguns destes celebram o anniversario da batalha de Tuyuty. Isto me lembra que, em plena diplomacia, quando lá chegou a noticia daquella victoria nossa, tive de dar esclarecimentos a alguns jornalistas estranjeiros sequiosos de verdade. Vinte annos mais, não estarei aqui para repetir esta lembrança; outros vinte, e não haverá sobrevivente dos jornalistas nem dos diplomatas, ou raro, muito raro; ainda vinte, e ninguem. E a terra continuará a girar em volta do sol com a mesma fidelidade ás leis que os regem, e a batalha de Tuyuty, como a das Thermopylas, como a de Iena, bradará do fundo do abismo aquella palavra da prece de Renan: «Ó abismo! tu és o deus unico!»

Ahi fica um desconcerto acabando em desconsolo,-tudo para annotar pouco mais que nada. Posso dizer com D. Francisco Manuel: «Eu de meu natural sou miudo e prolixo; o estar só e a melancolia, que de si é cuidadosa...» Ahi deixo uma pagina feita de duas, ambas contrarias e filhas da mesma alma de sexagenario desenganado e guloso. Ao cabo, nem tão guloso nem tão desenganado. Conversações do papel e para o papel.

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26 de Maio.

Aqui ficam os sinaes do sujeito mordido pela viuva Noronha. Vinte e oito annos, solteiro, advogado do Banco do Sul, donde lhe vieram as relações com o gerente Aguiar; boa feição, boas maneiras, acaso timido. É filho de um antigo lavrador do Norte, que rezide agora no Recife. Dizem que tem muito talento e grande futuro. Chama-se Osorio.

Esteve no Flamengo, na noite de 14, primeira reunião do Aguiar. Não vi nada que fizesse suspeitar a inclinação que se lhe atribue, mas parece que já então lhe queria, e a paixão é crescente. Continua a vel-a em casa do desembargador, onde a conheceu. Quem sabe se não sae dalli um noivo, e mana Rita perde a aposta que fez commigo? Fidelia pode muito bem casar sem esquecer o primeiro marido, nem desmentir a afeição que lhe teve.

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29 de Maio.

Hontem, na reunião do Aguiar, pude verificar que o joven advogado está mordido pela viuva. Não tem outra explicação os olhos que lhe deita; são daquelles que nunca mais acabam. Realmente, é timido, mas de uma timidez que se confunde com respeito e adoração. Se houvesse dança, elle apenas lhe pediria uma quadrilha; duvido que a convidasse a valsar. Conversaram alguns minutos largos, e por duas vezes, e ainda assim foi ella que principalmente falou. Osorio gastou o mais do tempo em miral-a, e fazia bem, porque o gesto da dama era cheio de graça, sem perder a tristeza do estado.

Tambem eu lhe falei o meu pouco, á janella. Ambos eramos de acordo que não ha bahia no mundo que vença a do nosso Rio de Janeiro.

--Não vi muitas, disse ella, mas nenhuma achei que se aproxime desta.

Sobre isto dissemos cousas interessantes,-ella, ao menos,-mas estou que tambem eu. Quiz perguntar-lhe se nos mares que percorreu viu algum peixe semelhante áquelle que anda agora em volta della, mas não ha intimidade para tanto, e a cortezia opunha-se. Conversámos da cidade e suas diversões. Não vae a teatro, qualquer que seja, nada sabe de dramas nem de operas; não insisti no assunto. Apenas me servi da segunda parte, a parte lirica, para lhe falar dos seus talentos de pianista, que ouvira gabar muito.

--São impressões de amigos, respondeu sorrindo.

Depois confessou-me que ha muito não toca, e provavelmente esquecerá o que sabe. Talvez não fosse sincera nesta conjetura, mas tudo se hade perdoar ao oficio da modestia, e ella parece modesta. Guiei a conversação de modo que mais ouvisse que falasse, e Fidelia não se recusou a essa distribuição de papeis. Disse pouco de si e muito da gente Aguiar. Neste ponto falou com algum calor; não me deu cousas novas, mas o que sentia dos dous foi expresso com alma. Contou-me até que entre D. Carmo e a mãe della achava semelhanças que lhe faziam lembrar alguma vez a finada,-ou seria simplesmente a afeição que aquella lhe tem. Emfim, separámo-nos quasi amigos.

Não repeti á gente Aguiar o que a seu respeito ouvi á viuva Noronha; falei a D. Carmo nos talentos musicaes da moça, e ella me confirmou que a viuva está disposta a não tocar mais. Se não fosse isso, pedia-lhe que nos desse alguma cousa. Ao que eu respondi:

--A propria arte a convidará um dia a tocar em casa, a sós comsigo...

--Póde ser; em todo caso, não a convidarei a tocar aqui; o aplauso podia avivar-lhe a saudade-ou, se a distraisse della, viria diminuir-lhe o gosto de sofrer pelo marido. Não lhe parece que ella é um anjo?

Achei que sim; acharia mais, se me fosse perguntado. D. Carmo crê na reconciliação della com o pae, e nem por isso receia perdel-a. Fidelia saberá ser duas vezes filha, é o resumo do que lhe ouvi, sem entrar em pormenores nem na especie de afeição que lhe tem. Do que ella me disse ácerca do «gosto de sofrer pelo marido», concluo que a senhora do Aguiar é daquellas pessoas para quem a dor é cousa divina.

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Fim de Maio.

Acaba hoje o mez. Maio é tambem cantado na nossa poesia como o mez das flores,-e aliás todo o anno se pode dizer dellas. A mim custou-me bastante aceitar aquellas passagens de estação que achei em terras alheias.

A viuva Noronha, ao contrario, pelo que me disse na ultima noite do Flamengo, achou deliciosa essa impressão lá fora, apezar de nascida aqui e criada na roça. Ha pessoas que parecem nascer errado, em clima diverso ou contrario ao de que precisam; se lhes acontece sair de um para outro é como se fossem restituidas ao proprio. Não serão communs taes organismos, mas eu não escrevi que Fidelia seja commum.

A descrição que ella me fez da impressão que teve lá fora com a entrada da primavera foi animada e interessante, não menos que a do inverno com os seus gelos. A mim mesmo perguntei se ella não estaria destinada a passar dos gelos ás flores pela ação daquelle bacharel Osorio... Ponho aqui a reticencia que deixei então no meu espirito.

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9 de Junho.

Este mez é a primeira linha que escrevo aqui. Não tem sido falta de materia, ao contrario; falta de tempo tambem não; falta de disposição é possivel. Agora volta.

A materia sobra. Antes de mais nada, Osorio recebeu carta do pae, pedindo-lhe que o fosse ver sem demora; está doente e mal. Osorio preparou-se e embarcou para o Recife. Não o fez logo, logo; parece que a imagem de Fidelia o prendeu uns tres dias, ou porque se não pudesse separar della, ou por temor de a perder ás mãos de terceiro; ambas as causas seriam.

Os paes fazem muito mal em adoecer, mormente se estão no Recife, ou em qualquer cidade que não seja aquella onde os filhos namorados vivem perlo das suas damas. A vida é um direito, a mocidade outro; perturbal-os é quasi um crime. Se eu tenho podido dizer isto ao Osorio, talvez elle não partisse; acharia na minha reflexão um eco do proprio sentimento, e escreveria ao pae uma carta cheia de piedade; mas ninguem lhe disse nada.

Haveria tambem outro recurso, que conciliaria a piedade e o amor, era escrever a Fidelia dizendo-lhe que embarcava e pedindo-lhe alguns minutos de atenção. A carta, se levasse um ar petulante, aguçaria naturalmente a curiosidade da viuva, e a entrevista se realizaria em presença ou na ausencia do desembargador; é indiferente. Talvez elle preferisse sair da sala.

--Titio pode ficar, diria ella ao receber o cartão de Osorio.

--Não, é melhor sair. Provavelmente é algum caso de advocacia, continuaria elle sorrindo, e eu sou magistrado, não devo ouvir nada por ora; mais tarde terei de ser juiz.

Osorio entraria, e depois de alguns comprimentos, pediria a mão da viuva. Suponhamos que ella recusasse, fal-o-hia com palavras polidas e quasi afetuosas, dizendo que sentia muito, mas resolvera não cazar mais. Pausa longa; o resto adivinha-se. Osorio talvez lhe perguntasse ainda se a resolução era definitiva, ao que ella, para evitar mais dialogo, responderia com a cabeça que era, e elle iria embora. Fidelia correria a contar a novidade ao tio. Quero crer que este defendesse a candidatura do advogado, e dissesse das boas qualidades delle, da carreira prospera, da familia distinta e o resto; Fidelia não se arrependeria da recusa.

--Resolvi não cazar, diria pela terceira vez naquella tarde.

Tres vezes negou Pedro a Christo, antes de cantar o galo. Aqui não haveria galo nem canto, mas jantar, e os dous iriam pouco depois para a meza. Não diriam nada durante os primeiros minutos, elle pensando que teria sido vantajoso á sobrinha cazar com o rapaz, ella remoendo a impressão do amor que este lhe tinha. Por muito que se recuse deixa sempre algum gosto a paixão que a gente inspira. Ouvi isto a uma senhora, não me lembra em que lingua, mas o sentido era este. E Fidelia deixaria a meza sem chorar, como Pedro chorou depois do galo.

Tudo imaginações minhas. A realidade unica é que Osorio embarcou e lá vae, e a viuva cá fica sem perder as graças, que cada vez me parecem maiores. Estive com ella hoje, e se não a arrebatei commigo não foi por falta de braços nem de impulsos. Quiz perguntar-lhe se não sonhara com o pretendente despedido, mas a confiança que começo a merecer-lhe não permitte taes inquirições, nem ella contaria nada de si mesma. Contou-me, sim, que as pazes com o pae estarão concluidas daqui a pouco, ainda que lhe seja preciso ir á fazenda. Naturalmente aprovei este passo. Fidelia disse-me que o pae já na ultima carta ao irmão lhe mandou lembranças, não nominalmente, mas por esta forma coletiva: «lembranças a todos».

--Hade custar-lhe a dar o primeiro passo, mas a mim não me importa fazei-o, concluiu ella.

--Naturalmente.

--A separação que se deu entre nós era impossivel impedil-a. Conselheiro, o senhor que viveu lá fóra a maior parte da vida não calcula o que são aqui esses odios politicos locaes. Papae é o melhor dos homens, mas não perdoa a adversario. Hoje creio que está tudo acabado; a abolição fel-o desgostoso da vida politica. Já mandou dizer aos chefes conservadores daqui que não contem mais com elle para nada. Foram os odios locaes que trouxeram a nossa separação, mas póde crer que elle padeceu tanto como eu e meu marido.

Confiou-me, em prova do padecimento de ambos, varias reminiscencias da vida conjugal, que eu ouvi com grande interesse. Não as escrevo para não acumular noticias, vá só uma.

Um anno depois do cazamento, pouco mais, tiveram elles a ideia de propor aos paes a reconciliação das familias. Primeiro escreveria o marido ao pae delle; se este aceitasse de boa feição, escreveria ella ao seu, e esperariam ambos a segunda resposta. A carta do marido dizia as suas felicidades e esperanças, e concluia pedindo a bênção, ou, quando menos, que lhe retirasse a maldição. Era longa, terna e amiga.

--Meu marido nunca me mostrou a resposta do pae, concluiu Fidelia, ao contrario, disse-me que não recebera nenhuma. Eu é que a achei depois de viuva, seis ou oito mezes depois, entre papeis delle, e comprehendi porque a escondera de mim...

Parou aqui. Tive curiosidade de saber o que era, e, evocando a musa diplomatica, lembrou-me induzil-a á confissão ou retificação, dizendo á minha recente amiga:

--Dissesse o que fosse a seu respeito ou de seu pae, era natural da parte de um inimigo...

--Não, não, acudia Fidelia; não teve nenhuma palavra de odio. Não gosto de repetir o que foi, uma simples linha ou linha e meia, assim: « Recebi a tua carta, mas não recebi o teu remedio para o meu reumatismo.» Só isto. Elle era reumatico, e meu marido, como sabe, era medico.

Ri commigo. Não esperava tal remoque da Parahyba do Sul, e comprehendi tambem a reserva do marido. Não comprehendi menos a confidencia da viuva; cedia, alem do mais, á necessidade de contar alguma cousa que distribuisse ao sogro parte grande na culpa que cabia ao pae. Não podia tolher que falasse em si o sangue do fazendeiro. Tudo era Santa-Pia.

* * * * *

14 de Junho.

Más noticias de Santa-Pia. O barão teve uma congestão cerebral; Fidelia e o tio vão para a fazenda amanhã. Não é facil adivinhar o que vae sair daqui, mais não seria dificil compor uma invenção, que não acontecesse. Enchia-se o papel com ella, e consolava-se a gente com o imaginado. Melhor é dizer que a reconciliação parece fazer-se mais depressa do que esperavam, e tristemente.

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15 de Junho.

Ha na vida simetrias inesperadas. A molestia do pae de Osorio chamou o filho ao Recife, a do pae de Fidelia chama a filha á Parahyba do Sul. Se isto fosse novela algum critico tacharia de inverosimil o acordo de factos, mas já lá dizia o poeta que a verdade pode ser ás vezes inverosimil. Vou hoje á casa do Aguiar para ver se a filha postiça deixou saudades aos dous; deve tel-as deixado.

* * * * *

16 de Junho.

Deixou, deixou saudades e grandes. Achei-os sós e conversámos da amiga. Propriamente não estavam tristes da ausencia della, mas da tristeza que ella levou comsigo. Quero dizer que lhes doía a magua da outra; foi o que me pareceu. A ausencia contam que não seja longa, e será temperada por visitas á capital; em todo caso, a separação não é tamanha que elles não possam dar um pulo á fazenda. Taes foram os sentimentos e as esperanças que lhes adivinhei. Falaram-me do golpe recebido pela moça. D. Carmo disse-me que eu não podia imaginar como a foi achar abatida.

--Ofereci-me para acompanhal-a á fazenda; recusou agradecida, e pela primeira vez me deu um nome que o ceu não quiz que eu tivesse na terra: «Obrigada, mãesinha», e beijou-me com grande ternura.

A minha ternura não é grande, nem acaso pequena, mas comprehendi o sentimento da boa senhora, e gostei de saber que em tão grave instante, Fidelia lhe tivesse dado aquella palavra cordial. Parecia contental-a muito e ao marido. Este, aliás, acompanhou a narração da mulher em silencio, com os olhos no tecto; naturalmente não queria incorrer na pecha de fraco, mas a fraqueza, se o era, começou nos gestos; elle ergueu-se, elle sentou-se, elle acendeu um charuto, elle retificou a posição de um vaso... Eu, para espanar a melancolia da sala, perguntei se os negocios do barão iam bem, e se os libertos... Aguiar volveu a ser gerente de banco e expoz-me algumas cousas sobre o plantio do café e os titulos de renda.

Nessa ocasião entrou um intimo da casa e conversou tambem do fazendeiro. Disse que os negocios delle, apezar do desfalque, não iam mal; deve ter uns tresentos contos. Aguiar não sabe exatamente, mas aceitou o calculo.

--Tem só aquella filha, concluiu a visita, e é provavel que ella case outra vez.

Eu, para ser agradavel aos donas da casa, quiz dizer que me parecia que não, mas este bom costume de calar me fez engolir a emenda, e agora me confesso arrependido. Ao cabo eu já me vou conformando com a viuvez perpetua da bella dama, se não é ciume ou inveja de a ver cazada com outro. Já me parece que realmente Fidelia acaba sem cazar. Não é só a piedade conjugal que lhe perdura, é a tendencia a cousas de ordem intelectual e artistica, e pouco mais ou mais nada. Fique isto confiado a ti sómente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso.

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17 de Junho.

O barão de Santa-Pia está mal, muito mal.

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18 de Junho.

Viva a Fortuna, que sabe ás vezes consolar o mal agudo com algum balsamo inesperado. A gente Aguiar recebeu carta de Tristão, que lhes anuncia a vinda ao Brazil, talvez no paquete proximo. Logo que entrei... Era dia de recepção delles, e soube depois que tinham pensado em transferil-a por causa da tristeza de Fidelia, mas consideraram que era modesta e resumida, que se não dansava, raro se cantava, e apenas se conversava e tomava chá; podia ser mantida sem escandalo.

Logo que entrei deu-me Aguiar a noticia. Quando fui comprimentar D. Carmo, e a felicitei pela vinda do moço, ouviu-me com grande prazer. Meia hora depois, tornámos a falar do assunto, ella e eu, e então foi ella que iniciou a conversação, dizendo-me que estava em caza, longe de esperar tal cousa, e de repente viu entrar no jardim um homem do banco com um bilhete do Aguiar, dando-lhe a boa nova, e acompanhado da carta que Tristão mandava aos dous. Contando-me estas particularidades, acaso dispensaveis, D. Carmo queria naturalmente communicar-me o proprio alvoroço. Conheço estas intenções reconditas e manifestas a um tempo; é velho sestro de felizes.

A gente pouca e as relações estreitas deram azo a que no fim da noite falassemos todos do hospede vindouro. Ahi vem o afilhado que elles tiveram por esquecido, quasi ingrato, esse outro meio filho que ajudaram a criar e a amar. Aguiar e a mulher deram explicações pedidas, contaram episodios de infancia, historias de graça, de esperteza, algumas de manha, mas a manha das creanças só enfada em ação; recordada, deleita, como outras cousas idas. Uma das senhoras presentes quiz lembrar alguns actos de carinho e dedicação de D. Carmo ácerca do pequeno, mas a boa velha esquivou-se depressa, e apenas ouvimos um ou dous. Noite de familia; saí cedo, vim para casa tomar leite, escrever isto e dormir. Até outro dia, papel.

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20 de Junho.

Telegrama da Parahyba do Sul: «O barão de Santa-Pia faleceu hoje de manhã.» Vou mandar a noticia a mana Rita, e enviar cartões de pezames. É caso de dar tambem os pezames á gente Aguiar? Pezames não, mas uma visita discreta e afetuosa, amanhã ou depois...

* * * * *

21 de Junho.

Aguiar vae á fazenda de Santa-Pia, em visita de pezames a Fidelia; parte amanhã. D. Carmo fica. Foi o que elle me disse na rua do Ouvidor.

--Já lhe mandei os meus, disse-lhe. Receba-os tambem, se a afeição que os liga a D. Fidelia pode justificar esta participação de desgosto...

--Ambos nós sentimos a dor que aflige a nossa boa amiga. Carmo queria ir commigo; eu é que lhe disse que não, que não vá; pode cançal-a muito a viagem assim rapida.

Lá vae o Aguiar enfraquecer da alegria do filho com a magua da filha; cá virá convalecer da tristeza da moça com a alegria do rapaz. Tudo se atenua assim neste mundo, e ainda bem. O peor é não serem filhos de verdade, mas só de afeição; é certo que, em falta de outros, consolam-se com estes, e muita vez os de verdade são menos verdadeiros.

* * * * *

21 de Junho, á noite.

Cá esteve hoje a minha boa mana; ia visitar a gente Aguiar, eu disse-lhe que vá commigo amanhã, e aceitou.

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23 de Junho.

A mana e eu estivemos hontem em casa da boa velha Aguiar. Saí de lá mais cedo do que quizera; se pudesse, ficaria muito mais tempo.

Achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um estado que se não descreve; eu, ao menos, não posso. Recebeu-nos como sempre; ella sabe dar ao gesto e á palavra um afago sem intenção, verdadeiramente delicioso. Quando lhe falámos de Fidelia disse da tristeza da amiga com outra tristeza correspondente, e referiu a partida do marido na manhã de hontem, sem aludir ás obrigações que elle teve de interromper. Não tardou, porém, que lhe perguntassemos pelo afilhado e respondeu com satisfação grande. O resto da visita dividiu-se entre ambos, mas ao rapaz coube a maior parte da conversação, naturalmente por ser mais longa a ausencia, maior a distancia e inesperada a volta.

D. Carmo continuou a narração da outra noite, agora mais intima, eramos tres pessoas apenas. Não diria toda a primeira vida do pequeno, o tempo seria pouco, ella mesma o confessou, mas muita cousa principal disse. Era fragil, magrinho, quasi nada, creaturinha de escasso folego. Não disse que se fez mãe; esta senhora não conhece a lingua do proprio louvor, mas eu já sabia, e percebia-se do carinho da narração que devia ser assim mesmo. Rita arriscou esta reflexão rindo:

--As creanças não sabem o cuidado que dão, e esquecem depressa o que sabem.

--É preciso desculpar a Tristão o que é proprio de rapaz, acudiu D. Carmo. Elle não é mau; esqueceu-se um pouco de nós, mas a idade e a novidade dos espectaculos explicam tudo. A prova é que ahi vem elle ver-nos, e se lêsse as cartas delle... Aguiar não lhe mostrou a ultima?

--Não, minha senhora, respondi; disse-me só o que continha.

--Talvez não dissesse tudo.

Cuido que quizesse mostrar-me as cartas do rapaz, uma só que fosse, ou um trecho, uma linha, mas o temor de enfadar fez calar o desejo. Foi o que me pareceu e deixo aqui escrito. Tornámos á viuva, depois voltámos a Tristão, e ella só passou a terceiro assunto porque a cortezia o mandou; eu, porém, para ir com a alma della, guiei a conversa novamente aos filhos postiços. Era o meu modo de ser cortez, com a boa senhora. Custa-me dizer que saí de lá encantado, mas saí, e mana Rita tambem. Rita disse-me na rua:

--Ha poucas creaturas como aquella.

--Creio, creio, é excelente... sem desfazer em você.

--Eu não, replicou Rita prontamente. Não me acho má, porém estou longe de ser o que ella é. Você repare que tudo naquella senhora é bom, até a opinião, que nem sempre é justa, porque ella perdoa e desculpa a todos. Eu não sou assim; acho muita gente má, e se fôr preciso dizel-o, digo. D. Carmo não é capaz de criticar ninguem. Algum reparo que aceite é sempre explicando; quando menos, calando.

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24 de Junho.

Hontem conversei com a senhora do Aguiar ácerca das antigas noites de S. João, Santo Antonio e S. Pedro, e mais as suas sortes e fogueiras. D. Carmo pegou do assunto para tratar ainda do filho postiço. Leve o diabo tal filho. A filha postiça é que hade estar a esta hora mui triste no cazarão da fazenda, onde certamente passou as antigas noites de S. João de donzela esperançada e credula. A deste anno sem pae deve ser aborrecida, não tendo mãe que o continue, nem marido que os supra. Um tio não basta para tanta cousa.

Tambem eu tirei sortes outr'ora. Com pouco se fingia de Destino,-um livro, um rimador de quadras e um par de dados. «Se hade despozar a pessoa a quem ama», dizia o titulo da pagina, por exemplo; deitavam-se os dados, os numeros eram cinco e dous, sete; ia-se á quadra setima, e lia-se. Suponhamos que se lia... Vá, risco a quadra que cheguei a escrever aqui. Geralmente era engraçada,-pelo menos, mas tambem troçava com a pessoa que consultava o Destino. Todos riam; alguns criam deveras; em todo caso passavam-se as horas até chegar o somno. E alli vinha este velho camareiro da humanidade, que os pagãos chamaram Morpheu, e que a pagãos e christãos, e até a incréos fecha os olhos com os seus eternos dedos de chumbo. Agora, meu somno amigo, só tu virás daqui a uma ou duas horas, sem livros de sortes nem dados. Quando muito trarás sonhos, e já não serão os mesmos de outro tempo.

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27 de Junho.

Missa do barão de Santa-Pia em S. Francisco de Paula. O filho do desembargador representava a familia; este e a sobrinha ouviram missa na fazenda. Hade ter sido outra recordação antiga para a viuva. A fazenda tem capela, onde um padre dizia missa aos domingos e confessava pela quaresma. Tambem eu conheci esse costume em pequeno, e ainda me lembra que, na quaresma, eu e outros rapazes iamos esconder-nos do confessor em baixo das camas ou nos desvãos da caza. Já então confundiamos as praticas religiosas com as canceiras da vida, e fugiamos dellas. Entretanto, o padre que me confessou pela primeira vez era meigo, atento, guiava-me a confissão indicando os pecados que devia dizer, e até que ponto, e punha a absolvição na lingua antes que os pecados lhe entrassem pelo ouvido; assim me pareceu. Perdôe-me a sua memoria, se não é verdade. Tudo isso vae longe. A segunda confissão foi por ocasião de cazar. Dahi em diante não fui mais que virtudes.

Bastante gente em S. Francisco de Paula. Na sacristia havia folhas de papel onde se inscreveram as pessoas que lá foram, e uma ou outra que não foi mas encomendou o cuidado a um terceiro. Vi magistrados, advogados, pessoas do comercio e do funcionalismo, senhoras, algumas senhoras. Destas eram moças umas, amigas de Fidelia, outras eram velhas do tempo da mãe. Uma destas era a que não faltaria, ainda que lá não fosse ninguem, e só amiga da viuva, a boa Aguiar, naturalmente. Lá estava tambem Rita, que veiu almoçar commigo.

Se as missas pudessem ser ditas, segundo a ocasião, eu acharia que o padre ajustou a sua á pouca presença do sangue do morto, tão breve foi, mas não é assim; cada padre diz a missa á sua maneira de sempre, apressada ou vagarosa, conforme usa ler ou falar.

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30 de Junho.

Ora bem, a viuva Noronha mandou uma carta a D. Carmo, documento psicologico, verdadeira pagina da alma. Como elles tiveram a bondade de mostrar-m'a, dispuz-me a achal-a interessante, antes mesmo de a ler, mas á leitura dispensou a intenção; achei-a interessante deveras, disse-o, reli alguns trechos. Não tem frases feitas, nem frases rebuscadas; é simplesmente simples, se tal adverbio vae com tal adjetivo, creio que vae, ao menos para mim.

Quatro paginas apenas, não deste papel de cartas que empregamos, mas do antigo papel chamado de peso, marca Bath, que havia na fazenda, a uso do pae. Trata longamente delle e das saudades que ella foi achar lá, das lembranças que lhe acordaram as paredes dos quartos e das salas, as colunas da varanda, as pedras da cisterna, as janellas antigas, a capela rustica. Mucamas e moleques deixados pequenos e encontrados crescidos, livres com a mesma afeição de escravos, tem algumas linhas naquellas memorias de passagem. Entre os fantasmas do passado, o perfil da mãe, ao pé o do pae, e ao longe como ao perto, nas salas como no fundo do coração, o perfil do marido, tão fixo que cheguei a vel-o e me pareceu eterno.

Vou reconhecendo que esta moça vale ainda mais do que me parecia a principio. Não é a questão de amar ou não o defunto marido; creio que o ame, sem que essa fidelidade lhe aumente a pureza dos sentimentos. Pode ser obra delle, ou della, ou de ambos a um tempo. O maior valor della está, além da sensação viva e pura que lhe dão as cousas, na concepção e na analise que sabe achar nellas. Pode ser que haja nisto, da minha parte, um aumento de realidade, mas creio que não. Se fosse nos primeiros dias deste anno, eu poderia dizer que era o pendor de um velho namorado gasto que se comprazia em derreter os olhos atravez do papel e da solidão, mas não é isso; lá vão as ultimas gabolices do temperamento. Agora, quando muito, só me ficaram as tendencias esteticas, e deste ponto de vista, é certo que a viuva ainda me leva os olhos, mas só deante delles. Realmente, é um bello pedaço de gente, com uma dose rara de expressão. A carta, porém, dá a tudo grande nota espiritual.

Acredito que D. Carmo sinta essa dama como eu a entendo, mas desta vez o que lhe penetrou mais fundo foi o comprimento final da carta, as tres ultimas palavras, anteriores á derradeira de todas, que é o nome: «da sua filhinha Fidelia.» Percebi isto, vendo que ella desceu os olhos ao fim do papel tres ou quatro vezes, sem querer acabar de o dobrar e guardar.

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1 de julho.

Tambem ha ventanias de felicidade, que levam tudo adeante de si. A gente Aguiar recebeu hontem a carta de Fidelia, e hoje outra de Tristão, em que este lhe annuncia que embarca no paquete inglez para cá; deve chegar a 23 ou 24. A alegria com que elles leram esta noticia foi naturalmente grande; por quanto Fidelia cá está e diz-se filha da boa velha; Tristão ahi vem e annuncia que esta carta é a ultima; a seguinte é elle proprio. Tudo isso a um tempo.

Preparam-lhe alojamento em casa. Aguiar anda tão satisfeito que, contra os seus habitos de discrição, já me disse ter em vista a mobilia do quarto que lhe destinam; é simples e elegante. Provavelmente a mulher começará já a obra dos seus ornamentos de lã e de linho para as cadeiras e a meza. Isto não foi elle que me disse nem ninguem; eu é que o adivinho e escrevo aqui para mostrar a mim mesmo o que é facil de ver. Para a boa Carmo, bordar, cozer, trabalhar, emfim, é um modo de amar que ella tem. Tece com o coração.

É regra velha, creio eu, ou fica sendo nova, que só se faz bem o que se faz com amor. Tem ar de velha, tão justa e vulgar parece. Dahi a perfeição daquellas suas obras domesticas. Será como dormir ou transpirar. Não lhe tiro com isto o merito; por maior que seja a necessidade, não é menor a virtude. Tambem eu fiz a minha diplomacia com amor, e ouvi a ministros que bem, mas no meu caso (distingamos-nos da velha Aguiar) não bastou amor nem necessidade; se não fosse carreira é provável que eu acabasse juiz, banqueiro ou outra cousa.

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2 de Julho.

O que ouvi dizer hontem a Aguiar foi no Banco do Sul, aonde tinha ido depozitar umas apolices. Esqueceu-me escrever que, á saida, perto da egreja da Candelaria, encontrei o desembargador Campos; tinha chegado de Santa-Pia ante-hontem, á noite, e ia ao Banco levar recados da sobrinha para o Aguiar e para a mulher. Perguntei-lhe se Fidelia ficava lá de vez; respondeu-me que não.

--Ficar de vez, não fica; demora-se algumas semanas, depois virá e provavelmente transfere a fazenda; acho que não faz mal. Ficaria, segundo me disse, se fosse util, mas parece-lhe que a lavoura decae, e não se sente com forças para sustel-a. Dahi a ideia de vender tudo, e vir morar commigo. Se ficasse tinha geito. Ella mesma tomou contas a todos, e ordenou o serviço. Tem ação, tem vontade, tem espirito de ordem. Os libertos estão bem no trabalho.

Conversámos um pouco dos efeitos da abolição, e despedimo-nos.

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5 de Julho.

Obrigado pela palavra a ir passar a noite com o corretor Miranda, lá fui hoje. Veiu mais gordo da Europa, onde só esteve alguns mezes; é o mesmo impetuoso de sempre, mas bom sujeito e excelente marido. Nada novo, a não ser um jogo, parece que inventado nos Estados-Unidos e que elle aprendeu a bordo. No meu tempo não se conhecia. Chama-se _poker_ eu trouxe o _whist_, que ainda jogo, e peguei no meu velho voltarete. Parece que o _poker_ vae derribar tudo. Na casa do Miranda até a senhora deste jogou.

As filhas não jogaram, nem a cunhada, D. Cesaria, que não acha recreação nas cartas; confessou (rindo) que é muito melhor dizer mal da vida alheia, e não o faz sem graça. Justamente o que falta ao marido, a quem sobra o resto. Cuidei que os dous estivessem brigados com o corretor, não formalmente, porque D. Cesaria não briga nunca, arrufa-se apenas; cuidei que estivessem arrufados com o corretor, quando este e a familia embarcaram. Estivessem ou não, a volta os reconciliou. É uma das prendas desta senhora. Talvez tivesse dito mal da propria irmã ou do cunhado, mas tão habilmente se arranjou que os achei unidissimos. Não sei o que ella dirá de mim, eu acho-lhe interesse, e preferi-lhe a lingua ao _poker_; com a lingua não se perde dinheiro.

Como se falasse da morte do barão de Santa-Pia e da situação da filha, D. Cesaria perguntou se ella realmente não cazava. Parece que duvida da viuvez de Fidelia. Eu não lhe disse que já pensara o mesmo, nem lhe disse nada; não quiz trazer a outra á conversação e fiz bem. D. Cesaria aceitou dahi a pouco a hipothese da viuvez perpetua, por não achar graça á viuva, nem vida, nem maneiras, nada, cousa nenhuma; parece-lhe uma defunta. Eu sorri como devia, e fui ouvir a explicação que me davam de um _bluff._ No _poker_, _bluff_ é uma especie de conto do vigário.

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13 de Julho.

Sete dias sem uma nota, um facto, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque tambem hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem pensa nada.

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18 de Julho.

Tristão chegou a Pernambuco; esperam por elle a 23.

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20 de Julho.

Chegou á Bahia o afilhado dos Aguiares. Creio que elles lhe darão festa de recepção, ainda que modesta. A ultima fotografia foi mandada encaixilhar e pendurar. É um bello rapaz, e a atitude do retrato tem certo ar de petulancia que lhe não fica mal, ao contrario.

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25 de Julho.

Já aqui chegou o Tristão. Não o vi ainda; tambem não tenho saido de caza estes tres dias. Entre outras cousas, estive a rasgar cartas velhas. As cartas velhas são boas, mas estando eu velho tambem, e não tendo a quem deixar as que me restam, o melhor é rasgal-as. Fiquei só com oito ou dez para reler algum dia e dar-lhes o mesmo fim. Nenhuma dellas vale uma só das de Plinio, mas a todas posso aplicar o que elle escrevia a Apollinario: «teremos ambos o mesmo gosto, tu em ler o que digo, e eu em dizel-o.» Os meus Apollinarios estão mortos ou velhos; as Apollinarias tambem.

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27 de Julho.

Vi hoje o Tristão descendo a rua do Ouvidor com o Aguiar; adivinhei-o por este e pelo retrato. Trazia no vestuario alguma cousa que, apezar de não diferir da moda, cá e lá, lhe põe certo geito particular e proprio. Aguiar aprezentou-nos. Tristão falou-me polidamente, e com tal ou qual curiosidade, não ouso dizer interesse. Naturalmente já ouviu falar de mim em casa delles. Cinco minutos de conversação apenas,-o bastante para me dizer que está encantado com o que tem visto. Creio que seja assim, porque eu amo a minha terra, apezar das ruas estreitas e velhas; mas tambem eu desembarquei em terras alheias, e usei igual estilo. Entretanto, esta cidade é a delle, e, como eu lhe dissesse que não devera ter esquecido o Rio de Janeiro, donde saíra adolescente, respondeu que era assim mesmo, não esquecera nada. O encanto vinha justamente da sensação de cousas vistas, uma resurreição que era continuidade, se assim resumo o que elle me disse em vocábulos mais simples que estes. Cinco minutos e despedimo-nos.

É uma bonita figura. A palavra forte, sem ser aspera. Os olhos vives e lepidos, mas talvez a brevidade do encontro e da aprezentação os obrigasse a essa expressão unica; possivelmente os terá de outra maneira alguma vez. É antes alto que baixo, e não magro. A certa distancia, ia eu a voltar a cabeça para vel-o ainda, mas recuei a tempo; seria indiscreto e apressado, e talvez não valesse a pena. Irei uma destas noites ao Flamengo. Ha já tres semanas que não apareço lá.

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28 de Julho.

Não duvido que o Tristão visse com prazer o Rio de Janeiro. Quaesquer que sejam os costumes novos e ligações de familia, e por maior que tenha sido a ausencia, o logar onde alguem passou os primeiros annos hade dizer á memoria e ao coração uma linguagem particular. Creio que elle esteja realmente encantado, como me disse hontem. Demais, lá fora ouvia a mesma lingua daqui; a mãe é a mesma paulista que o gerou e levou comsigo, e está agora em Lisboa, com o pae, ambos velhos.

Eu nunca esqueci cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous sujeitos barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco annos; era com bacias de madeira ou de metal, ficaram inteiramente molhados e foram pingando para as suas cazas. Só não me acode onde ellas eram. Outra cousa que igualmente me lembra, apezar de tantos annos passados, é o namoro de uma visinha e de um rapaz. Ella morava defronte, era magrinha e chamava-se Flor. Elle tambem era magro e não tinha nome conhecido; só lhe sabia a cara e a figura. Vinha ás tardes e passava tres, quatro, cinco e mais vezes de uma ponta á outra da rua. Uma noite ouvimos gritos. Na manhã seguinte ouvi dizer que o pae da moça mandára dar por escravos uma sova de páu no namorado. Dias depois foi este recrutado para o exercito, dizem que por empenho do pae da moça; alguns creram que a sova fôra um simples desforço eleitoral. Tudo é um; amor ou eleições, não falta materia ás discordias humanas.

Que valem taes ocurrencias agora, neste anno de 1888? Que pode valer a loja de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguesugas á porta, dentro de um grosso frasco de vidro com agua e não sei que massa? Ha muito que se não deitam bichas a doentes; ellas, porém, cá estão no meu cerebro, abaixo e acima, como nos vidros. Era negocio dos barbeiros e dos farmaceuticos, creio; a sangria é que era só dos barbeiros. Tambem já se não sangra pessoa nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece.

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31 de Julho.

Tem agradado muito o Tristão, e para crer que o merece basta dizer que a mim não me desagrada, ao contrario. É ameno, conversado, atento, sem afetação nem presunção; fala ponderado e modesto, e explica-se bem. Ainda lhe não ouvi grandes cousas, nem estas são precisas a quem chega de fóra e vive em familia; as que lhe ouvi são interessantes.

No vestido e nas maneiras usa o tom da conversa; a mesma correção e simplicidade. O encanto que outro dia me disse achar na cidade continua a achar nella e na gente; reconhece ruas, cazas, costumes e pessoas; pergunta por muitas destas e interessa-se em ouvir as noticias que lhe dão. Algumas reconhece logo, outras com pouca explicação. Emfim, não é mau rapaz.

Para a gente Aguiar é mais que excelente. Essa está tanto ou mais encantada que elle; nestes poucos dias já o levou a differentes partes. O desembargador Campos, que lá jantou hontem, disse-me que D. Carmo estava que era uma creança; quasi que não tirava os olhos de cima do afilhado. Tristão conhece musica, e á noite, a pedido della, executou ao piano um pedaço de Wagner, que elle achou muito bem. Alem do Campos, jantou lá um padre Bessa, o que batizou Tristão.

Não era habituado do Flamengo este padre; foi o proprio Tristão que o descobriu, de maneira que merece notar. Perguntou por elle, e, ao cabo de dous dias, sabendo que residia na Praia Formosa, dispoz-se a lá ir, depois de recusar ao padrinho a companhia que este lhe ofereceu.

--Quero ir eu só, replicou, para lhe mostrar que não desaprendi a minha cidade.

E lá foi, e lá andou, e lá descobriu o padre, dentro de uma cazinha-baixa. Bessa, que fora comensal dos paes delle, não o conheceu logo, mas ás primeiras noticias recompoz o passado e adivinhou o menino a quem dera batismo. Aguiar fel-o convidar e vir á caza delle, a ver o moço e visital-o, sempre que quizesse. É uma boa figura de velho e de sacerdote, disse-me o desembargador, calvo bastante, cara magra, e expressão placida, apezar das miserias que terá cortido; chega a ser alegre.

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1 de Agosto.

O desembargador deu-me tambem noticia da sobrinha. Está boa e virá brevemente da fazenda. Contou-lhe em carta um sonho que teve ultimamente, a aparição do pae e do sogro, ao fundo de uma enseada parecida com a do Rio de Janeiro. Vieram as duas figuras sobre a agua, de mãos dadas, até que pararam deante della, na praia. A morte os reconciliára para nunca mais se desunirem; reconheciam agora que toda a hostilidade deste mundo não vale nada, nem a politica nem outra qualquer.

Quiz replicar ao desembargador que talvez a sobrinha tivesse ouvido mal. A reconciliação eterna, entre dous adversarios eleitoraes, devia ser exatamente um castigo infinito. Não conheço igual na _Divina Comedia._ Deus, quando quer ser Dante, é maior que Dante. Recuei a tempo e calei a facecia; era rir da tristeza da moça. Pedi mais noticias della, e elle deu-m'as; a principal é que está cada vez mais firme na ideia de vender Santa-Pia.

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2 de Agosto.

Aguiar mostrou-me uma carta de Fidelia a D. Carmo. Letra rasgada e firme, estilo correntio, linguagem terna; promete-lhes vir para a Corte logo que possa e será breve. Estou cançado de ouvir que ella vem, mas ainda me não cancei de o escrever nestas paginas de vadiação. Chamo-lhes assim para divergir de mim mesmo. Já chamei a este _Memorial_ um bom costume. Ao cabo, ambas as opiniões se podem defender, e, bem pensado, dão a mesma cousa. Vadiação é bom costume.

A carta de Fidelia começa por estas tres palavras: «Minha querida mãesinha», que deixaram D. Carmo morta de ternura e de saudades; foi a propria expressão do marido. Nem tudo se perde nos bancos; o mesmo dinheiro, quando alguma vez se perde, muda apenas de dono.

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3 de Agosto.

Hoje fazia annos o ministerio Ferraz, e quem já pensa nelle nem nos homens que o compunham e lá vão, uns na morte, outros na velhice ou na inação? Foi elle que me promoveu a secretario de legação, sem que eu lh'o pedisse e até com espanto meu.

Dizendo isto ao Aguiar, ouvi-lhe anedotas politicas daquelle tempo (1859-1861), contadas com animação, mas saudade. Aguiar não tem costela de homem publico; todo elle é familia, todo espozo, e agora tambem filhos, os dous filhos postiços,-Tristão mais que Fidelia, pela razão que penso haver já dito. Confirmou-me as boas impressões do desembargador, e concluiu:

--Conselheiro, já falou ao nosso Tristão, já o ouviu, e creio aprecial-o, mas eu dezejo que o conheça mais para aprecial-o melhor. Elle fala da sua pessoa com grande respeito e admiração. Diz que um dia o viu em Bruxellas, e estava longe de crer que viria achal-o e falar-lhe aqui.

--Já me disse isso mesmo. Acho que é um moço muito distinto.

--Não é? Tambem nós achamos, e outras pessoas tambem. Não lhe pedi que me contasse a vida delle lá, mas conversei de maneira que elle me foi dizendo muita cousa, os estudos, as viagens, as relações; pode ser que invente ou exagere, mas creio que não; tudo o que nos disse é verosimil e combina com o que vimos delle aqui, e tambem do compadre e da comadre. Se pudessemos ficar com elle de uma vez, ficavamos. Não podemos; Tristão veiu apenas por quatro mezes; a nosso pedido vae ficar mais dous. Mas eu ainda verei se posso retel-o oito ou dez.

--Veiu só para visital-os?

--Diz que só. Talvez o pae aproveitasse a vinda para encarregal-o de algum negocio; apezar de liquidado, ainda tem interesses aqui; não lhe perguntei por isso.

--Pois veja se o faz ficar mais tempo; elle acabará ficando de vez.

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4 de Agosto.

Indo a entrar na barça de Nicterohy, quem é que encontrei encostado á amurada? Tristão, ninguem menos, Tristão que olhava para o lado da barra, como se estivesse com desejo de abrir por ella fóra e sair para a Europa. Foi o que eu lhe disse, gracejando, mas elle acudiu que não.

--Estou a admirar estas nossas bellezas, explicou.

--Deste outro lado são maiores.

--São iguaes, emendou. Já as mirei todas, e do pouco que vi lá fora é ainda o que acho mais magnifico no mundo.

O assunto era velho e bom para atar conversa; aproveitamol-o e chegamos ao desembarque, depois de trocadas muitas ideias e impressões. Confesso que as minhas não eram mais novas que o assunto inicial, e eram curtas, as d'elle tinham sobre ellas a vantagem de evocações e narrativas. Não estou para escrever tudo o que lhe ouvi ácerca dos annos de infancia e adolescencia, nem dos de mocidade passados na Europa. Foi interessante, de certo, e parece que sincero e exacto, mas foi longo, por mais curta que fosse a viagem da barca. Emfim, chegámos á Praia-Grande. Quando eu lhe disse que preferia este nome popular ao nome oficial, administrativo e politico de Nicterohy, dissentiu de mim. Repliquei-lhe que a razão do dissentimento vinha de ser eu velho e elle moço. «Criei-me com a Praia-Grande; quando o senhor nasceu a chrisma de Nicterohy pegára.» Não havia nisto agudeza alguma; elle, porém, sorriu como achando fina a resposta, e disse-me:

--Não ha velhice para um espirito como o seu.

--Acha? perguntei incredulamente.

--Já meus padrinhos m'o haviam dito, e eu reconheço que diziam a verdade.

Agradeci de cabeça, e, estendendo-lhe a mão:

--Vou ao palacio da presidencia. Até á volta, se nos encontrar-mos.

Uma hora depois, quando eu chegava á ponte, lá o achei. Imaginei que esperasse por mim, mas nem me cabia perguntar-lh'o, nem talvez a elle dizel-o. A barca vinha perto, chegou, atracou, entrámos. Na viagem de regresso tive uma noticia que não sabia; Tristão, alcunhado _brazileiro_ em Lisboa, como outros da propria terra, que voltam daqui, é portuguez naturalisado.

--Aguiar sabe?

--Sabe. O que elle ainda não sabe, mas vae saber, é que nas vesperas de partir aceitei a proposta de entrar na politica, e vou ser eleito deputado ás cortes no anno que vem. Não fosse isso, e eu cá ficava com elle; iria buscar meu pae e minha mãe. Sei que elle me hade querer dissuadir do plano; meu padrinho não gosta de politica, menos ainda de politica militante, mas eu estou obrigado pelo gosto que lhe tenho e pelo acordo a que cheguei com os chefes do partido. Escrevi algum tempo n'um jornal de Lisboa, e dizem que não inteiramente mal. Tambem falei em comicios.

--Elles querem-lhe muito.

--Sei, muito, como a um filho.

--Tem tambem uma filha de afeição.

--Tambem sei, uma viuva, filha de um fazendeiro que morreu ha pouco. Já me falaram della. Vi-lhe o retrato encaixilhado pelas mãos da madrinha. Se conhece bem a madrinha, hade saber o coração terno que tem. Toda ella é maternidade. Aos proprios animaes estende a simpatia. Nunca lhe falaram de um terceiro filho que tiveram, e ella amava muito?

--Creio que não; não me lembra.

--Um cão, um pequeno cão de nada. Foi ainda no meu tempo. Um amigo do padrinho levou-lh'o um dia, com poucos mezes de existencia, e ambos entraram a gostar delle. Não lhe conto o que a madrinha fazia por elle, desde as sopinhas de leite até aos capotinhos de lã, e o resto; ainda que me sobrasse tempo, não acharia credito em seus ouvidos. Não é que fosse extravagante nem excessivo; era natural, mas tão igual sempre, tão verdadeiro e cuidadoso que era como se o bicho fosse gente. O bicho viveu os seus dez ou onze annos da raça; a doença achou enfermeira, e a morte teve lagrimas. Quando entrar no jardim, á esquerda, ao pé do muro, olhe, foi ahi que o enterraram; e já me não lembrava, a madrinha é que m'o apontou hontem.

Não me soube grandemente essa aliança de gerente de banco e pae de cachorro. É verdade que o proprio Tristão dá a maior parte á madrinha, que é mulher. Com a pratica dos dias anteriores e estas duas viagens de barca, sinto-me meio habilitado a possuir bem aquelle moço. Só lhe ouvi meia duzia de palavras algo parecidas com louvor proprio, e ainda assim moderado. «Dizem que não escrevo inteiramente mal» encobrirá a convicção de que escreve bem, mas não o disse, e pode ser verdade.

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7 de Agosto.

D. Carmo foi a Nova-Friburgo com o afilhado para lhe mostrar novamente a cidade em que nasceu, creio que tambem a rua, e parece que a propria caza. Tudo está velho e quieto, dizem-me. Isto vae com os habitos della, que sabe e gosta de guardar os velhos retalhos e lembranças antigas, como que lhe dando um ar perpetuo de mocidade. Tristão, não tendo aliás o mesmo interesse, mostrou prazer em a acompanhar. Toda a gente continua a gostar delle, Campos mais que outros, pois o conheceu menino. Mana Rita é que apenas o viu; tem estado adoentada, levantou-se ante-hontem; só hontem soube disso, e fui visital-a. Contei-lhe o que havia daquella caza e da caza do desembargador; dei-lhe vontade de vir tambem á gente Aguiar, quando os dous voltarem de Nova-Friburgo.

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10 de Agosto.

Meu velho Ayres, trapalhão da minha alma, como é que tu comemoraste no dia 3 o ministerio Ferraz, que é de 10? Hoje é que elle faria annos, meu velho Ayres. Vês que é bom ir apontando o que se passa; sem isso não te lembraria nada ou trocarias tudo.

Fidelia chega da Parahyba do Sul no dia 15 ou 16. Parece que os libertos vão ficar tristes; sabendo que ella transfere a fazenda pediram-lhe que não, que a não vendesse, ou que os trouxesse a todos comsigo. Eis ahi o que é ser formosa e ter o dom de cativar. Desse outro cativeiro não ha cartas nem leis que libertem; são vinculos perpetuos e divinos. Tinha graça vel-a chegar á Corte com os libertos atraz de si, e para quê, e como sustental-os? Custou-lhe muito fazer entender aos pobres sujeitos que elles precisam trabalhar, e aqui não teria onde os empregar logo. Prometeu-lhes, sim, não os esquecer, e, caso não torne á roça, recomendal-os ao novo dono da propriedade.

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11 de Agosto.

Recebi hoje um bilhete de Tristão, escrito de Nova-Friburgo, no qual me diz que está muito satisfeito com o que vê e o que ouve; reconheceu a cidade, que é encantadora com a sua gente. A companheira de viagem ainda o é mais que a gente e a cidade. Copio estas palavras do bilhete: «A madrinha ou mãesinha,-não sei bem qual dos nomes lhe dê, ambos são exactos,-é aqui muito querida e festejada, não só por duas amigas velhas que lhe restam dos tempos de creança, mas ainda por outras que conheceu depois de cazada, parentas daquellas ou somente amigas tambem. Gosto do logar e do clima; a temperatura é excelente; ficaremos uns tres dias mais.»

Não ha nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez que elle desce daqui a tres dias. Creio que elle cedeu ao desejo de ser lido por mim e de me ler tambem. Questão de simpatia, questão de arrastamento. Vou responder-lhe com duas linhas...

... Lá vae a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas, dizendo-lhe cousas que busquei fazer alegres, e com certeza sairam quasi amigas. Concordei que Nova-Friburgo era delicioso, e conclui por estas palavras: «Quando descer venha almoçar commigo; falaremos de lá e de cá.»

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17 de Agosto.

Fidelia chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou; eu mesmo cheguei a mim mesmo,-por outras palavras, estou reconciliado com as minhas cans. Os olhos que puz na viuva Noronha foram de admiração pura, sem a minima intenção de outra especie, como nos primeiros dias deste anno. Verdade é que já então citava eu o verso de Shelley, mas uma cousa é citar versos, outra é crer nelles. Eu li ha pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso e abastado. Pois ainda que eu não desse então toda a fé ao poeta inglez, dou-lh'a agora, e aqui a dou de novo para mim. A admiração basta.

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19 de Agosto.

Tristão veiu almoçar commigo. A primeira parte do almoço foi a gloza da carta que elle me escreveu. Contou-me que já em creança tinha ido com a madrinha a Nova Friburgo algumas vezes, parece-lhe que tres; reconheceu a cidade agora e gostou muito della. De D. Carmo fala entusiasmado; diz que a afeição, o carinho, a bondade, tudo faz della uma creatura particular e rara, por ser tudo de especie tambem rara e particular. Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois confessou que as impressões da nossa terra fazem reviver os seus primeiros tempos, a infancia e a adolescencia. O fim do almoço foi com o naturalizado e o politico. A politica parece ser grande necessidade para este moço. Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas publicas em Portugal e na Hespanha; confiou-me as suas ideias e ambições de homem de Estado. Não disse formalmente estas tres palavras ultimas, mas todas as que empregou vinham a dar nellas. Emfim, ainda que pareça algo excessivo, não perde o interesse e fala com graça.

Antes de sair, tornou a dizer do Rio de Janeiro, e tambem falou do Recife e da Bahia; mas o Rio foi o principal assunto.

--A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu elle com um suspiro.

Talvez o intuito fosse compensar a naturalização que adotou,-um modo de se dizer ainda brazileiro. Eu fui ao deante delle, afirmando que a adoção de uma nacionalidade é acto politico, e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memoria do berço. Usei taes palavras que o encantaram, se não foi talvez o tom que lhes dei, e um sorriso meu particular. Ou foi tudo. A verdade é que o vi aprovar de cabeça repetidas vezes, e o aperto de mão, á despedida, foi longo e fortissimo.

Ate aqui um pouco de fel. Agora um pouco de justiça.

A idade, a companhia dos paes, que lá vivem, a pratica dos rapazes do curso medico, a mesma lingua, os mesmos costumes, tudo explica bem a adoção da nova patria. Acrescento-lhe a carreira politica, a visão do poder, o clamor da fama, as primeiras provas de uma pagina da historia, lidas já de longe por elle, e acho natural e facil que Tristão trocasse uma terra por outra. Ponho-lhe, emfim, um coração bom, e comprehendo as saudades que a terra de cá lhe desperta, sem quebra dos novos vinculos travados.

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21 de Agosto.

Ante-hontem fui deixar um bilhete de visita a Fidelia; hontem, a convite do tio, que me encontrou na rua, fui tomar chá com ambos.

Naturalmente conversámos do defunto. Fidelia narrou tudo o que viu e sentiu nos ultimos dias do pae, e foi muito. Não falou da separação trazida pelo cazamento, era assunto velho e acabado. A culpa, se houve então culpa, foi de ambos, ella por amar a outro, elle por querer mal ao escolhido. Eu é que digo isto, não ella, que em sua tristeza de filha conserva a de viuva, e se houvesse de escolher outra vez entre o pae e o marido, iria para o marido. Tambem falou da fazenda e dos libertos, mas vendo que o assunto era já demasiado pessoal, mudou de conversa, e cuidámos da cidade e das ocurrencias do dia.

Pouco depois chegaram D. Cesaria e o marido, o doutor Faria, que vinham tambem visital-a. A expansão com que D. Cesaria falou a Fidelia e lhe deu o beijo da entrada compensou, a meu ver, o dente que lhe meteu ha dias em casa do corretor Miranda. Daquella vez, apezar da graça com que falou, não gostei de a ver morder a viuva; agora tudo está pago. Repito o que lá digo atraz: esta senhora é muito mais graciosa que o marido. Nem precisa muito; elle o mal que diz dos outros dil-o mal, ella é sempre interessante.

D. Cesaria pagou tudo. Não é que as palavras que empregou hontem deem muito de si, como louvor e amizade, mas a expressão dos olhos, o ar admirativo e aprovador, um sorriso teimoso, quasi constante, tudo isso valia por um capital de afecto. Papel moeda tambem é dinheiro. Com elle comprei esta tinta e esta penna, o charuto que estou fumando e o almoço que começo a digerir. As duas senhoras não sofrem comparação entre si, e para conversar, D. Cesaria basta e sobra. Eu conheci na vida algumas dessas pessoas capazes de dar interesse a um tedio e movimento a um defunto; enchem tudo comsigo. Fidelia parece ter-lhe simpatia e ouvil-a com prazer. A noite foi boa.

Ia-me esquecendo uma cousa. Fidelia mandou encaixilhar juntas as fotografias do pae e do marido, e pol-as na sala. Não o fez nunca em vida do barão para respeitar os sentimentos deste; agora que a morte os reconciliou, quer reconcilial-os em efigie. Foi ella mesma que me deu esta explicação, quando eu olhava para elles. Não me admira a delicadeza de outr'ora, nem a resolução de agora; tudo responde á mesma harmonia moral da pessoa.

Quando eu disse isto cá fora ao cazal Faria (saimos juntos), o marido torceu o nariz. Não lhe vi o gesto, mas elle proferiu uma palavra que implica o gesto; foi esta: «Afetação!» Quiz replicar-lhe que não podia havel-a em acto tão intimo e particular, mas a tempo encolhi a lingua. D. Cesaria não aprovou nem reprovou o dito; ponderou apenas que o gaz estava muito escuro. Notei para mim que estava clarissimo, e que provavelmente ella não achara mais pronto desvio á conversação. Faria aproveitou o reparo da espoza para dizer o mal que pensa da companhia do gaz e do governo, e chamou ladrão ao fiscal. Eram onze horas.

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21 de Agosto, cinco horas da tarde.

Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cançados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diario de factos, impressões e ideias. Talvez seja melhor parar. Velhice quer descanço. Bastam já as cartas que escrevo em resposta e outras mais, e ainda ha poucos dias um trabalho que me encomendaram da secretaria de Estranjeiros,-felizmente acabado.

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24 de Agosto.

Qual! não posso interromper o _Memorial_; aqui me tenho outra vez com a penna na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel cousas que querem sair da cabeça, por via da memoria ou da reflexão. Venhamos novamente á notação dos dias.

Desta vez o que me põe a penna na mão é a sombra da sombra de uma lagrima...

Creio tel-a visto ante-hontem (22) na palpebra de Fidelia, referindo-me eu á dissidencia do pae e do marido. Não quizera agora lembrar-me della, nem tel-a visto ou sequer suspeitado. Não gosto de lagrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tedio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens,-ou mais pacientes, mais capazes de sofrer a dor e a adversidade... Ahi está; tinha resolvido não escrever mais, e lá vae uma pagina com a sombra da sombra de um assunto.

Tambem, se foi verdadeiramente lagrima, foi tão passageira que, quando dei por ella, já não existia. Tudo é fugaz neste mundo. Se eu não tivesse os olhos adoentados dava-me a compor outro _Ecclesiastes_, á moderna, posto nada deva haver moderno depois daquelle livro. Já dizia elle que nada era novo debaixo do sol, e se o não era então, não o foi nem será nunca mais. Tudo é assim contraditorio e vago tambem.

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27 de Agosto.

A alegria do cazal Aguiar é cousa manifesta. Marido e mulher andam a inventar ocasiões e maneiras de viver com os dous e com alguns amigos, entre os quaes parece que me contam. Jantam, passeiam, e se não projetam bailes é porque os não amam de si mesmos, mas se Fidelia e Trintão os quizessem, estou que elles os dariam. A verdade, porém, é que os dous hospedes não chegaram a tal ponto, mormente Fidelia que se contenta de conversar e sorrir; não vae a teatros, nem a festas publicas.

Os passeios são recatados pela hora e pelos logares. Ou vão as duas sós, ou se elles vão tambem, trocam-se ás vezes, dando Aguiar o braço a Fidelia, e D. Carmo aceitando o de Tristão. Assim os encontrei ha dias na rua de Ipiranga, eram cinco horas da tarde. Os dous velhos pareciam ter certo orgulho na felicidade. Ella dizia com os olhos e um riso bom que lhe fazia luzir a pontinha dos dentes toda a gloria daquelle filho que o não era, aquelle filho morto e redivivo, e o rapaz era atenção e gosto tambem. Quanto ao velho não ostentava menos a sua delicia. Fidelia é que não publicava nada; sorria, é certo, mas pouco e cabisbaixa. E lá foram andando, sem darem por mim, que vinha pela calçada oposta.

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31 de Agosto.

Como eu ainda gosto de musica! A noite passada, em casa do Aguiar, eramos algumas pessoas... Treze! Só agora, ao contar de memoria os presentes, vejo que eramos treze; ninguem deu então por este numero, nem na sala, nem á meza do chá de familia. Conversámos de cousas varias, até que Tristão tocou um pouco de Mozart, ao piano, a pedido da madrinha.

A execução veiu por que faiamos tambem de musica, assunto em que a viuva acompanhou o recem-chegado com tal gosto e discrição, que elle acabou pedindo-lhe que tocasse tambem. Fidelia recusou modestamente, elle insistiu, D. Carmo reforçou o pedido do afilhado, e assim o marido; Fidelia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho, uma reminiscencia de Schumann. Todos gostámos muito. Tristão voltou ainda uma vez ao piano, e pareceram apreciar os talentos um do outro. Eu saí encantado de ambos. A musica veiu commigo, não querendo que eu dormisse. Cheguei cedo a caza, onze horas, e só perto de uma comecei a conciliar o somno; todo o tempo da rua, da caza e da cama foi consumido em repetir trechos e trechos que ouvira na minha vida.

A musica foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer o poetico e acaso o patetico, diria que é hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não me quiz dar a ella, por causa do oficio diplomatico, e foi um erro. A diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que outra cousa; não fiz tratados de comercio nem de limites, não celebrei alianças de guerra; podia acomodar-me ás melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouço aos outros.

Ha dous ou tres mezes ouvi dizer a Fidelia que nunca mais tocaria, tendo desde muito suspendido o exercicio da musica. Repliquei-lhe então que um dia, a sós comsigo, tocaria para recordar, e a recordação traria o exercicio outra vez. Hontem bastaram as instancias da gente Aguiar para mover uma vontade já disposta, ao que parece. O exemplo de Tristão ajudou-a a sair do silencio. Repito que saí de lá encantado de ambos.

Quem sabe se a esta hora (dez e meia da manhã) não estará ella em caza, com espanto da familia e da visinhança, deante do piano aberto, a começar alguma cousa que não toca ha muito?

--Não é possível!

--Nhanhã Fidelia!

--A viuva Noronha!

--Hade ser alguma amiga.

E as mãos della irão falando, pensando, vivendo aquellas notas que a memoria humana guarda impressas. Provavelmente tocará como hontem, sem musica, de cór, na ponta dos dedos...

Seis horas da tarde.

Antes de ir para a meza, escrevo a confirmação de que conjeturei de manhã; Fidelia efectivamente acordou os ecos da casa e da rua. Contou-m'o ha pouco o proprio desembargador Campos. A diferença é que não foi ás dez horas e meia, mas ás sete. Campos estava ainda na cama, quando ouviu os primeiros acordes de uma composição conhecida, parece que italiana. Não chegou a crer que fosse ella, mas não podia ser outra pessoa. Um creado, chamado por elle, veiu dizer-lhe que sim, que era ella mesma. Tocou algum tempo. Quando elle entrou na sala, tinha acabado, mas estava ainda ao piano, ante um folheto de musicas aberto, a soletrar para si.

--Que é isto? perguntou-lhe.

--Ouviu tocar? disse ella fazendo rodar o banco.

--Ouvi.

--Creio que desaprendi alguma cousa; sinto os dedos um pouco tolhidos, já os senti assim hontem, a composição é que me não esqueceu.

--Mas que resurreição é esta?

--Cousas de defunta, respondeu ella querendo sorrir.

Posto não seja grande apreciador de musica, o desembargador parece satisfeito daquella resurreição, como lhe chama. Tudo é viver com mais ou menos barulho, disse elle. Confessou-me que a tristeza da sobrinha o aflige muita vez, e a não leval-a a bailes ou teatros, contentava-se de a ver tocar em caza, e até cantar se quizesse; Fidelia tambem sabe cantar, tem muita arte e linda voz. Mas até agora não queria uma cousa nem outra.

Não é que não encha a caza comsigo mesma, sem musica; a musica, porém, era uma das suas ocupações de outrora, e a abstenção datada viuvez.

Quiz ponderar ao desembargador que o exercicio da musica podia conciliar-se muito bem com o estado, uma vez que a arte é tambem lingua, mas tudo isso me passou rapido pela cabeça. Era acaso poetico para um magistrado, sem contar que podia ser indiscreto tambem. Contentei-me de aceitar o convite que elle me fez de ir ouvil-a, em casa delle, hoje, amanhã, depois, quando queira.

--Uma destas noites, concordei.

Por emquanto, vou jantar. Creio que não saio mais hoje; mas que heide fazer com estes pobres olhos? Ler é peoral-os; ah! se eu soubesse musica! Pegava do violino, trancava bem as portas para não ser ouvido da visinhança, e deixava-me ir atraz do arco. Talvez saia a passeio...

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2 de Setembro.

Anniversario da batalha de Sedan. Talvez vá á casa do desembargador pedir a Fidelia que, em comemoração da victoria prussiana, nos dê um pedaço de Wagner.

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3 de Setembro.

Nem Wagner, nem outro. Tristão estava lá e deu-nos um trecho de _Tannhauser_, mas a viuva Noronha recusou o pedido. Supondo que fosse luto pela lembrança da derrota franceza, pedi-lhe um autor francez qualquer, antigo ou moderno, posto que a arte,-disse-lhe com alguma afectação,-naturaliza a todos na mesma patria superior. Sorriu e não tocou; tinha um pouco de dor de cabeça. Aguiar e Carmo, que lá estavam tambem, não me acompanharam no pedido, como «se lhes doesse a cabeça da amiga.» Outra preciosidade de estilo, esta renovada de Sevigné. Emenda essa lingua, velho diplomata!

A razão verdadeira da recusa pode não ser dor de cabeça nem de outra qualquer parte. Quer-me parecer que Fidelia vae um tanto commigo, e tocaria para si, caso estivesse só. Naquella outra noite, em casa do Aguiar, deixou-se arrastar e tocar para as doze pessoas que lá estavam, levada do sobresalto, de um acordar do gosto antigo; agora abana a cabeça, não quer divertir os outros. Tocará para o tio, de manhã, e para si durante as horas de desembargo. Quando muito satisfará os dous paes postiços, alguma vez. Signal de que não tinha dor de cabeça é que ouviu a Tristão com evidente prazer, e aplaudiu sorrindo. Não digo que a musica não tenha o dom de fazer esquecer um mal fisico, mas desconfio que não foi assim neste caso.

Os dous conversaram de Wagner e de outros autores, com interesse, e provavelmente com acerto. Eu falei tambem o meu pouco; depois atendi ao que me disse Aguiar, ácerca de Tristão.

--Parece que vem liquidar tambem alguns negocios do pae; soube hoje por elle mesmo. Deus queira que não acabe tão cedo.

--Deus tambem ama a chicana, quem sabe?

--Não são negocios do foro; e se algum chegar lá, provavelmente elle deixa procurador aqui. Sabe já que elle vae entrar na camara?

--Sei; disse-me que aceitou de alguns chefes de Lisboa elegel-o deputado.

--Carmo, que queria prendel-o por um anno ou mais, ficou aborrecida e triste, e eu com ella. Trocámos os nossos aborrecimentos, quero dizer que os somámos, e ficamos com o dobro cada um...

Gostei desta palavra de Aguiar, e decorei-a bem para me não esquecer e escrevel-a aqui. Aquelle gerente de banco não perdeu o vicio poetico. É bom homem; creio que já o escrevi alguma vez, mas lá vae ainda agora. Não perco nada em repetil-o.

Falavamos a um canto da sala, onde Campos e Tristão foram ter comnosco, deixando as duas damas entregues uma á outra. E eu cá de longe fiquei a miral-as, encantadoras naquella expressão de si mesmas. A harmonia dos cabellos brancos de uma e dos cabellos pretos de outra, as vozes que trocavam baixo sorrindo, com os olhos brandos e amigos, tudo isso me faria perguntar a mim mesmo, porque não eram realmente mãe e filha, esta cazada com algum rapaz que a merecesse, e aquella cazada ou viuva, não importa; consolar-se-ia do marido perdido com a filha eterna. Toda filha moça é eterna para as mães envelhecidas. Mas ainda uma vez notei que pareciam antes irmãs, tal a arte de D. Carmo em se fazer moça com as moças. A materia da conversação não sei qual fosse, nem vale a pena cogital-a; não daria mais interesse ao grupo. De uma vez, demorando-se Fidelia em concertar a posição do broche, D. Carmo substituiu-lhe os dedos pelos seus, e concertou-lh'a de todo.

* * * * *

4 de Setembro.

Relendo o dia de hontem fiz commigo uma reflexão que escrevo aqui para me lembrar mais tarde. Quem sabe se aquella afeição de D. Carmo, tão meticulosa e tão serviçal, não acabará fazendo damno á bella Fidelia? A carreira desta, apezar de viuva, é o cazamento; está na idade de cazar, e pode aparecer alguem que realmente a queira por espoza. Não falo de mim, Deus meu, que apenas tive veleidades sexagenarias; digo alguem de verdade, pessoa que possa e deva amar como a dona merece. Ella, entregue a si mesma, poderia acabar de receber o noivo, e iriam ambos para o altar; mas entregue a D. Carmo, amigas uma da outra, não dará pelo pretendente, e lá se vae embora um destino. Em vez de mãe de familia, ficará viuva solitaria, porque a amiga velha hade morrer, e a amiga moça acabará de morrer um dia, depois de muitos dias...

A reflexão é verdadeira, por mais que se lhe possa dizer em contrario. Não afirmo que as cousas se passem exactamente assim, e que os tres,-os quatro, contando o velho Aguiar,-os cinco e seis, juntando o tio e o primo,-não façam com o noivo adventicio, uma só familia de afeição e de sangue; mas a reflexão é verdadeira. A afeição, o costume, o feitiço crescente, e por fim o tempo, complice de attentados, negarão a bella viuva a qualquer namorado trazido pela natureza e pela sociedade. Assim chegará ella aos trinta annos, depois aos trinta e cinco e quarenta. Quando a espoza Aguiar morrer não se contentará de a chorar, lembrar-se-ha della, e as saudades irão crescendo com o tempo. O pretendente terá desaparecido ou passado a outras alegrias.

Reli tambem este dia de hoje, e temo haver-lhe posto (principalmente no fim) alguma nota poetica ou romanesca, mas não ha disso; antes é tudo prosa, como a realidade possivel. Esqueceu-me trazer um elemento para a viuvez definitiva da moça, a propria lembrança do marido. Daqui a cinco annos, ella mandará transferir os ossos do pae para a cova do marido, e os conciliará na terra uma vez que a eternidade os conciliou já. Aqui e alli toda a politica se resume em viverem uns com outros, no mesmo que eram, e será para nunca mais.

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5 de Setembro.

Os dous filhos postiços do cazal Aguiar não têm ciumes um do outro, não se sentem diminuidos pela afeição que recebem dos velhos. Ao contrario, parecem achar que a porção de cada um cresce com a que o outro recebe tambem. Eis ahi uma boa divisão de amigos; ha casos em que os filhos de verdade não se mostram tão cordatos.

Mana Rita, a quem comuniquei esta impressão, acha tambem que é assim. Acrescenta, porém, uma reflexão mais fina que essa, e não tenho duvida em a escrever aqui ao pé da minha, tanto mais que lhe repliquei com outra, não menos fina que a sua. Vá este elogio a nós ambos. Sempre hade haver quem nos desgabe um pouco, e ahi fica já a compensação. Nem custa muito elogiar-se a gente a si mesma. Eis o que me disse a mana:

--Esse sentimento hade custar pouco ao Tristão, estando aqui de passagem.

Ao que eu repliquei:

--Tambem não lhe custará muito a Fidelia, sabendo que elle se vae embora daqui a pouco.

Escritas as palavras de ambos nós, entro a duvidar da finura della e minha. Por mais rapida que fosse a passagem do rapaz, elle gostaria de se ver exclusivamente querido, e ella tambem a si. Penso outra vez que a qualidade do afecto filial é que os faz assim generosos e abertos. Repito o que lá disse acima: casos ha em que não vivem com tanto acordo filhos verdadeiros.

Rita deu-me outras noticias da caza Aguiar, onde não piso ha mais de uma semana, creio. Todas confirmam a communhão de boa vontade da parte de moços e velhos. Os quatro passam os dias em conversa, e hontem a viuva Noronha tocou piano, um pouquinho, é verdade, mas tocou. Parece que já uma vez jogaram cartas. Rita disse mais:

--Fidelia, que desde que saiu do colegio nunca mais fez trabalhos de agulha, começa agora a imitar a amiga, e já hontem trabalharam juntas. Quando eu lá cheguei ás duas horas da tarde e dei com ellas, defronte uma da outra, movendo agulhas, você não imagina a alegria com que me receberam; D. Carmo mostrava um pouco de orgulho tambem, ou cousa parecida. Faziam um par de sapatinhos de creança. O trabalho de Fidelia não tinha a perfeição do da outra, e não estava tão adeantado, mas tambem o de D. Carmo podia ir mais depressa; talvez fosse intenção della não deixar a moça muito atraz, e por isso iria demorando os dedos. Quiz rir, perguntando a qual dellas destinavam taes sapatos, mas não tive tempo; Fidelia disse-me que eram para o filho de uma creada de D. Carmo que fora dar á luz em casa do marido. D. Carmo ia começar o crochet quando Fidelia lhe apareceu, e quiz acompanhal-a. Consentiu para não sair trabalho de velha.

O mais que a mana me disse não vae aqui para não encher papel nem tempo, mas era interessante. Vae só isto, que jantou lá e Fidelia tambem, a convite de D. Carmo. O velho Aguiar e Tristão tinham saido a passeio, depois do almoço, mas voltaram cedo, ás quatro horas. Não viram a parada do dia de hontem (sete) apenas viram passar um batalhão, que não deixou impressão no moço. Todos os batalhões se parecem, disse elle. O himno nacional, sim, é que acordou nelle algumas saudades do tempo de creança e de rapaz; assim o confessou, e dahi nasceu a conversação musical que levou Fidelia ao piano. A viuva não tocou mais de quatro ou cinco minutos, e fel-o a pedido de Tristão, que lhe citou um autor; Rita não se lembra que autor foi, mas achou bonita a musica. Tambem se falou em cousas da Europa, e os dous ajustaram bem os modos de ver.

Ouvi tudo isso em Andarahy, onde fui jantar hoje com Rita. Propuz-lhe vir commigo e irmos ao Flamengo, a mana recusou; estava com o somno atrazado, e queria dormir. Voltei só e fui á caza Aguiar, onde os quatro e o desembargador conversaram de festas religiosas, a proposito do dia santo de hoje. Ainda uma vez os dous deram impressões europeas, e realmente ajustaram as reminiscencias. As minhas, quando as pediram, ficaram naquelle acordo de cabeça, que é util, quando um assunto cança ou aborrece, como este a mim.

Quando o tio e a sobrinha se foram, eu fiquei ainda um quarto de hora com a gente Aguiar. O resto amanhã; tambem eu estou com somno.

* * * * *

9 de Setembro.

O resto é a noticia de ter chegado Osorio, o advogado do Banco do Sul, que foi ha tempos ao Recife, onde o pae estava doente e morreu.

--Voltou triste, e o luto ainda o faz mais triste, disse Aguiar.

--Será só a morte do pae? perguntei.

--Que mais pode ser?

--Não me disseram, ou eu adivinhei que elle andava meio apaixonado por D. Fidelia...?

--Andava, sim, e talvez mais que meio, explicou Aguiar, mas já lá vae naturalmente.

--Em todo caso não se lhe declarou?

--Com o gesto, é possível; ella tacitamente recusou, e foi pena; ambos se merecem.

Aguiar louvou as qualidades profissionaes do moço, a educação e as virtudes. Acreditei tudo, como era do meu dever, e aliás não tinha razão para duvidar de nada. D. Carmo confirmou as palavras do marido, sem afirmar que era pena não se terem casado. Calou esse ponto, e foi mais discreta que elle. Pode ser que nelle falasse tambem o gerente do banco. Tristão durante esse tempo folheava um livro de gravuras.

Digo que eram gravuras, porque me fui despedir delle, que se levantou logo, com grande cortezia; mas de longe pensei que fosse o album de retratos. Não era; o album estava ao pé, aberto justamente na pagina em que figuram as duas fotografias de Carmo e do marido. Tristão, deixou tambem aberto o livro das gravuras e veiu commigo á porta, acompanhando Aguiar, e ali me despedi de ambos.

* * * * *

9 de Setembro á tarde.

Parece que a gente Aguiar me vae pegando o gosto de filhos, ou a saudade delles, que é expressão mais engraçada. Vindo agora pela rua da Gloria, dei com sete creanças, meninos e meninas, de vario tamanho, que iam em linha, prezas pelas mãos. A idade, o riso e a viveza chamaram-me a atenção, e eu parei na calçada, a fital-as. Eram tão graciosas todas, e pareciam tão amigas que entrei a rir de gosto. Nisto ficaria a narração, caso chegasse a escrevel-a, se não fosse o dito de uma dellas, uma menina, que me viu rir parado, e disse ás suas companheiras:

--Olha aquelle moço que está rindo para nós.

Esta palavra me mostrou o que são olhos de creanças. A mim, com estes bigodes brancos e cabellos grisalhos, chamaram-me moço! Provavelmente dão este nome á estatura da pessoa, sem lhe pedir certidão de idade.

Deixei andar as creanças e vim fazendo commigo aquella reflexão. Ellas foram saltando, parando, puxando-se á direita e á esquerda, rompendo alguma vez a linha e recozendo-a logo. Não sei onde se dispersaram; sei que dahi a dez minutos não vi nenhuma dellas, mas outras, sós ou em grupos de duas. Algumas destas carregaram trouxas ou cestas, que lhes pezavam á cabeça ou ás costas, começando a trabalhar, ao tempo em que as outras não acabavam ainda de rir. Dar-se-ha que a não ter carregado nada na meninice devo eu o aspecto de «moço» que as primeiras me acharam agora? Não, não foi isso. A idade dá o mesmo aspecto ás cousas; a infancia vê naturalmente verde. Tambem estas, se eu risse, achariam que «aquelle moço ria para ellas», mas eu ia serio, pensando, acaso doendo-me de as sentir cançadas; ellas, não vendo que os meus cabelos brancos deviam ter-lhes o aspecto de pretos, não diziam cousa nenhuma, foram andando e eu tambem.

Ao chegar á porta de casa dei com o meu creado José, que disse estar ali á minha espera.

--Para quê?

--Para nada; vim esperar V. Ex. cá embaixo.

Era mentira; veiu distrair as pernas á rua, ou ver passar creadas visinhas, tambem necessitadas de distração; mas, como elle é habil, engenhoso, cortez, grave, amigo de seu dever,-todos os talentos e virtudes,-preferiu mentir nobremente a confessara verdade. Eu nobremente lh'o perdoei e fui dormir antes de jantar.

Dormi pouco, uns vinte minutos, apenas o bastante para sonhar que todas as creanças deste mundo, com carga ou sem ella, faziam um grande circulo em volta de mim, e dançavam uma dança tão alegre que quasi estourei de riso. Todas falavam «deste moço que ria tanto.» Acordei com fome, lavei-me, vesti-me e vim primeiro escrever isto. Agora vou jantar. Depois, irei provavelmente ao Flamengo.

* * * * *

9 de Setembro, á noite.

Fui ao Flamengo. A viuva não estava lá; estava o Osorio, e não o achei triste, como Aguiar havia dito, tambem não estava alegre; falava pouco. Tristão, que lhe fora apresentado hoje, falava mais que elle, sem falar muito. Noite sem interesse. Voltei cedo e vou dormir.

* * * * *

12 de Setembro.

Quando cheguei hoje á cidade, eram duas horas, e ia a sair do bonde, chegou-se a elle a bella Fidelia, com o seu gracioso e austero meio luto de viuva. Vinha de compras, naturalmente. Comprimentamo-nos, dei-lhe a mão para subir. Perguntou-me pela mana, eu pelo tio, ambos por nós, e ainda houve tempo de trocar esta meia duzia de palavras. Ella:

--Ainda agora?

--A minha preguiça de apozentado não me permitiu sair mais cedo, disse eu rindo, e afastei-me.

O bonde partiu. Na esquina estava não menos que o Dr. Osorio sem olhos, porque ella os levava arrastados no bonde em que ia; foi o que conclui da cegueira com que não me viu passar por elle... Ai, requinte de estilo!

Entrei nesta duvida,-se teriam estado juntos na rua ou no loja a que ella veiu, ou no banco, ou no inferno, que tambem é logar de namorados, é certo que de namorados viciosos, _del mal perverso._ Achei que não, e comprehendi que elle, se acaso a comprimentou na rua, não ousou falar-lhe, apenas a acompanhou de longe, até que a viu meter-se no bonde e partir.

Tambem achei outra cousa; é que a paixão antiga e recusada não estava morta nelle, ou revivia com a vista nova da pessoa. Não era por ser agora a dona rica, já antes era ella herdeira unica, e vivia de si mesma. Não, elle é bom, e o proprio Aguiar afirma que os dous se merecem.

Ia nessas conjecturas, em direção á Escola Politecnica, e vi-o passar por mim, cabisbaixo, não sei se triste ou alegre; não pude ver-lhe a cara. Mas parece que a tristeza é que é cabisbaixa, a alegria distribue os olhos felizes á direita e á esquerda; alguma vez ao ceu tambem. É suposição minha, e pode não ser verdade. A verdade certa é que, ás duas horas da tarde, aquelle advogado andava atraz das moças, em vez de estar no foro; ou mau advogado, ou feliz namorado.

* * * * *

14 de Setembro.

Nem uma cousa nem outra. Refiro-me ao que escrevi ante-hontem do Osorio, que não é namorado feliz, pelo que me disse Aguiar hoje, nem máu advogado, pelo que li nos jornaes. Li que venceu uma demanda do Banco do Sul, e Aguiar não lhe regateou louvores ao zelo com que a pleiteou antes do embarque e depois do desembarque. Eis ahi um homem que sabe cazar o zelo e a tristeza, e bem pode ser isto um simbolo, se elle é o zelo, e Fidelia a tristeza. Talvez acabem cazando. Mas ainda depois da recusa? Tudo é possivel debaixo do sol,-e a mesma cousa sucedará acima d'elle,-Deus sabe.

* * * * *

18 de Setembro.

Venho da gente Aguiar, e não me quero ir deitar sem escrever primeiro o que lá se passou. Cheguei cedo, estavam sós os dous velhos e receberam-me familiarmente.

--Venha o terceiro velho, disse Aguiar, venha fazer companhia aos dous que aqui ficaram abandonados.

Esta palavra, que podia ser de queixa, foi dita rindo, e percebi pelo tom que era alegre. Foi-me dita quasi á porta da sala, onde elle foi ter commigo, ficando ella em uma das duas cadeiras de balanço, unidas e trocadas, em forma de conversadeira, onde costumavam passar as horas solitarias. Respondi que trazia a minha velhice para sommar ás duas e formar com ellas uma só e verde mocidade, das que já não ha na terra. Sobre este tema gasto e vulgar disseram tambem algo de riso, e taes foram os primeiros minutos.

--Talvez não nos encontrasse, se eu não estivesse doente de um joelho, disse D. Carmo.

--Doente?

--Dóe-me um pouco este joelho, e o logar é melindroso para andar. Tristão foi sozinho á casa do desembargador, aonde vão hoje alguns amigos do fôro. Aguiar tambem queria ir, mas Tristão disse-lhe que era melhor ficar; elle se incumbiria de dar lá todas as desculpas, e foi sozinho.

--Quiz que eu ficasse fazendo companhia á madrinha, explicou Aguiar. Se eu teimo em ir elle era capaz de ficar para a não deixar sozinha.

--Pode ser, disse D. Carmo com os olhos.

Só com os olhos. De boca disse logo depois que talvez elle fosse tambem, á espera de ver lá moças. É provável que os velhos amigos levem as filhas.

--Mas então é alguma festa? perguntei.

--Não, conselheiro, acudiu Aguiar; os amigos são uns tres ou quatro que hontem ajustaram entre si lá ir hoje, e avizaram disso o desembargador. Foi o que Fidelia nos contou hontem mesmo, aqui em casa.

E D. Carmo continuou o que ia dizendo antes:

--Alguns levarão as filhas, e é natural a um rapaz o dezejo de ver moças. Tristão acha que as suas patricias são muito graciosas; mais de uma vez o tem dito. Tambem se não houver lá nenhuma é provavel que acabe a visita cedo e torne para caza. Tristão é cada vez mais amigo nosso.

Conhecia este outro tema, e acenei de cabeça que sim. Aguiar disse a mesma cousa. O que elle não disse, nem eu esperei, foi a nota melancolica que a mulher trouxe á conversação, e que eu cuidei de atenuar, como pude.

--Os dias vão correndo, disse ella, e os ultimos correrão mais depressa; brevemente o nosso Tristão volta para Lisboa e nunca mais virá cá, ou só virá para ver as nossas covas.

--Ora D. Carmo! deixe-se de ideias tristes.

--Carmo tem razão, interveiu o marido; o tempo acabará depressa para que elle se vá, e não ficará ás nossas ordens para que fiquemos eternamente na vida.

--Todos nós lá vamos, disse eu. A morte é outro desembargador, conta muitos amigos que lá passam as noites, e os que tem filhas levam as filhas. Isto é certo, mas o melhor é não pensar nella.

--Não é nella, é nelle, emendou D. Carmo; falo do nosso Tristão, que se irá brevemente.

Sorri e disse:

--_Elle_ se irá, creio, mas ficará _ella._

Acentuei bem os pronomes, e não seria preciso; Carmo entendeu-me logo e bem. O ar de riso que se lhe espraiou do rosto mostrou que entendera a alusão á bella Fidelia. Era uma consolação grande. Não obstante, a consolação só cabe ao que doe, e a dor da perda de um já não seria menor que o prazer da conservação da outra. Logo vi essas duas expressões no rosto da boa senhora, combinadas em uma só e unica, especie de meio luto. Aguiar tambem sentiria como a mulher, mas o oficio de banqueiro obriga e acostuma a dissimular. E talvez ainda não falassem entre si do proximo regresso do Tristão; felicidade rima com eternidade, e estes eram felizes.

Eram felizes, e foi o marido que primeiro arrolou as qualidades novas de Tristão. A mulher deixou-se ir no mesmo serviço, e eu tive de os ouvir com aquella complacencia, que é uma qualidade minha, e não das novas. Quasi que a trouxe da escola, se não foi do berço. Contava minha mãe que eu raro chorava por mama; apenas fazia uma cara teia e implorativa. Na escola não briguei com ninguem, ouvia o mestre, ouvia os companheiros, e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu fazia da minha alma um compasso, que abria as pontas aos dous extremos. Elles acabavam esmurrando-se e amando-me.

Não quero elogiar-me.... Onde estava eu? Ah! no ponto em que os dous velhos diziam das qualidades do moço. Não mentiam; quando muito, podiam exagerar alguma, mas as que citavam deviam ser verdadeiras, bom, carinhoso, attento, justo, puro de sentimentos, indole pacifica, maneiras educadas, capaz de sacrificios, se fosse necessario. Não o tinham achado máu nem falho, quando elle chegou; agora porém, ás qualidades antigas estavam apuradas, e algumas novas appareciam. Ainda que eu discordasse d'elles não diria nada para os não aborrecer, mas que sabia eu que pudesse contrariar essa opinião de amigos? Nada; concordei com ambos.

D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia ser enfadonho a extranhos, e trocou as mãos á conversa. Não totalmente, é verdade; falou da casa do desembargador Campos e do que iria por lá. Eu (habilmente, confesso) querendo saber o estado do coração de Osorio, perguntei se elle não estaria lá tambem, elle, que tambem é do fôro. Aguiar disse logo que podia ser que sim; conforme. Sobre isto falámos um pouco, e as qualidades do advogado foram ainda honradas, mas não eram tantas, nem tamanhas como as de Tristão. Falavam com simpatia, Aguiar mais que D. Carmo; eram relações propriamente do banco e do foro.

--Mas não haverá ainda nelle alguma faisca antiga? perguntei.

--Pode ser, e será mais uma razão para fugir, concluiu elle.

Não quiz dizer o que vira na rua, e aliás a conclusão delle não era errada. D. Carmo escutava agora sem falar, embora com interesse. A discrição daquella senhora é das mais completas que tenho achado na vida. Não quiz ella entrar em tal assunto, e o marido não tardou muito que o deixasse. Eu não retive a um nem a outro.

Assim é o destino dos namorados sem ventura; os proprios amigos, como Aguiar parece que é de Osorio, tratam logo de outra cousa. Elles que se fiquem comsigo. Nós passámos a tratar de algumas noticias de sociedade e das ultimas noticias novellescas de Paris. Neste capitulo D. Carmo sabe mais que eu, e muito mais que o marido, que não sabe nada; mas Aguiar acompanhou a conversação como se soubesse alguma cousa. Elle compra-lhe os livros, que ella lê e resume para elle ouvir. Como a memoria delle é grande, cita tambem as narrações escritas, com a diferença que ella, tendo impressão direta, a analise que faz é mais viva e interessante. Ouvi-lhe dizer de alguns nomes contemporaneos muita cousa fina e propria. É claro que, se o marido escrevesse tambem, achal-o-hia melhor que ninguem,, porque ella o ama devéras, tanto ou mais que no primeiro dia; é a impressão que ainda hoje me deixou.

Eu, para lhes ser agradavel,-e um pouco a mim mesmo, porque os queria gozar tambem,-voltei ao assunto principal para ambos, que não seria Fidelia só, nem só Tristão, mas os dous juntos.

--Digam-me, se elles fossem irmãos e seus filhos, não seria melhor que apenas amigos e extranhos um ao outro?

Era a primeira vez que lhes dizia uma cousa d'estas, e o interesse foi tamanho que elles pegaram do assunto para dizer cousas interessantissimas. Não as escrevo por ser tarde, mas cá me ficam de memoria. Digo só que, quando saí, D. Carmo, apezar do joelho doente, e por mais que eu quizesse detel-a, veiu commigo á porta da sala. Aguiar acompanhou-me até á porta do jardim, emquanto ella veiu á janela, donde se despedia ainda uma vez.

--Olhe o sereno, boa noite, disse-lhe eu cá debaixo.

--Boa noite

D. Carmo entrou. Aguiar e eu apertámos a mão um do outro. Indo a sair, lembrou-me falar do cão ali sepultado. Não lhe falei logo, dei tres ou quatro investidas, mas tão rapidas que, se gastei um minuto, foi o mais; nem tanto. Aguiar ouviu-me espantado e constrangido.

--Quem lhe contou isso?

--O Dr. Tristão.

Não lhe quiz citar o Campos, que tambem me falou do animal. Aguiar confessou calando, depois falando, mas não falou muito. Confirmou que tiveram muita amizade ao bicho, e referiu-me os padecimentos que a doença e a morte deste produziram na mulher. Não disse os seus, mas tambem os tivera; olhou uma vez para o lado da parede, e depois de uma pausa:

--Tristão riu-se naturalmente do nosso carinho?

--Ao contrario, falou-me com muito louvor; tem bom coração aquelle rapaz.

--Muito bom.

Apezar de não ser dado a melancolias, nem achar que oficio de banqueiro vá com taes lastimas, separei-me delle com simpatia. Vim pela rua da Princeza, pensando nelle e nella, sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chacara. Não faltam cães atraz da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da rua do Cattete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: «Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é oficio de cães, e o cão do cazal Aguiar latia tambem outrora; agora esquece, que é oficio de defunto.»

Pareceu-me este dizer tão subtil e tão espevitado que preferi attribuil-o a algum cão que latisse dentro do meu proprio cerebro. Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que era um elefante que engulira um rouxinol. Creio que falavam da Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um cão filosofo, e o merito do discurso será todo delle. Quem sabe lá o que me haverá dado algum dia o meu cozinheiro? Nem era novo para mim este comparar de vozes vivas com vozes defuntas.

* * * * *

20 de Setembro.

Aquelle dia 18 de Setembro (ante-hontem) ha de ficar-me na memoria, mais fixo e mais claro que outros, por causa da noite que passámos os tres velhos. Talvez não escrevesse tudo nem tão bem; mas bastou-me relel-o hontem e hoje para sentir que o escrito me acordou lembranças vivas e interessantes, a boa velha, o bom velho, a lembrança dos dous filhos postiços... Continuo a dar-lhes este nome, por não achar melhor... Principalmente aquella felicidade média ou turva de pessoas que vão perder um de dous bens do ceu, essa expressão que vi em D. Carmo mais forte ainda que no Aguiar...

* * * * *

21 de Setembro.

Ao sair hoje de casa, vi passar na rua, do lado oposto, a irmã do corretor Miranda, D. Cesaria, tão risonha que parecia falar mal de mim, mas não falava, ia só,-ou falava de mim comsigo; mas só comsigo não teria tanto prazer. Comprimentámo-nos e seguimos.

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22 de Setembro.

... encantadora Fidelia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta creatura de Deus, encontrando-se commigo de manhã, veiu agradecer-me a companhia que fiz aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?

--Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.

--Isso mesmo. D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor teve o dom de nos fazer esquecer.

Sorri incredulamente, depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz esquecer, foi por serem elles o proprio assunto da conversação...

--Isso é que ella não me disse, interrompeu Fidelia espantada.

--Nem dirá; nem lh'o pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus cabelos brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que podem dizer tres velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram alguma cousa.

--Sei, sei, já tenho visto e ouvido os tres.

--Mas nessas ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva á conversação.

Era verdade e era comprimento; Fidelia sorriu agradecida e despediu-se. Eu-aqui o digo ante Deus e o Diabo, se tambem este senhor me vê a encher o meu caderno de lembranças,-eu deixei-me ir atraz della. Não era curiosidade, menos ainda outra cousa, era puro gosto estetico. Tinha graça andando; era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia crer que o sabia, mas devia sabel-o. Ainda não encontrei encantadora que o não soubesse. A simples suposição de o ser tenta persuadir que o é.

No largo de S. Francisco estava um carro della, perto da egreja. Iamos da rua do Ouvidor, a dez passos de distancia ou pouco mais. Parei na esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo. Quando ia a voltar dei com o moço Tristão, que ainda olhava para o carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar. Elle vinha agora para a rua do Ouvidor, e tambem me viu; detive-me á espera. Tristão trazia os olhos deslumbrados, e esta palavra na boca:

--Grande talento!

Percebi que se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos espantado; quasi me esqueceu concordar com elle. Concordei de gesto e de palavra, sem entender nada. Tambem eu gosto de musica, e sinto não tocar alguma cousa para me aliviar da solidão; entretanto, se fosse elle, e apezar de todos os Schumanns e seus emulos, ao vel-a parar no largo de S. Francisco e entrar no carro, não soltaria a mesma exclamação, antes outra, igualmente estetica, é verdade, mas de uma estetica visual, não auditiva. Não entendi logo.

Depois, quando nos separámos na esquina da rua da Quitanda, entrei a cogitar se elle ao dar commigo, com pôz aquella palavra para o fim de mostrar que, mais que tudo, admira nella arte musical. Pode ser isto; ha nelle muita compostura e alguma dissimulação. Não quiz parecer admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos habeis. Tudo vinha a dar na mesma pessoa.

* * * * *

30 de Setembro.

Se eu estivesse a escrever uma novela, riscaria as paginas do dia 12 e do dia 22 deste mez. Uma novela não permitiria aquella paridade de sucessos. Em ambos esses dias,-que então chamaria capitulos,-encontrei na rua a viuva Noronha, trocámos algumas palavras, vi-a entrar no bonde ou no carro, e partir; logo dei com dous sujeitos que pareciam admiral-a. Piscaria os dous capitulos, ou os faria mui diversos um de outro; em todo caso diminuiria a verdade exata, que aqui me parece mais util que na obra de imaginação.

Já lá vão muitas paginas falei das simetrias que ha na vida, citando os casos de Osorio e de Fidelia, ambos com os paes doentes fora daqui, e daqui saindo para elles, cada um por sua parte. Tudo isso repugna ás composições imaginadas, que pedem variedade e até contradição nos termos. A vida, entretanto, é assim mesmo, uma repetição de actos e meneios, como nas recepções, comidas, visitas e outros folgares; nos trabalhos é a mesma cousa. Os sucessos, por mais que o acaso os teça e devolva, saem muita vez iguaes no tempo e nas circumstancias; assim a historia, assim o resto.

Dou estas satisfações a mim mesmo, afim de mencionar o meu joelho doente, tal qual o de D. Carmo. Outra paridade de situações... Ha duas diferenças. A primeira é que nella o mal é puro e confessado reumatismo. Em mim tambem, mas o meu criado José chama-lhe nevralgia, ou por mais elegante ou por menos doloroso; é um dos seus modos de amar o patrão. A segunda diferença...

A segunda diferença,-ai, Deus! a segunda diferença é que, ainda que lhe dôa muito o joelho, D. Carmo lá tem o marido e os dous filhos postiços. Eu tenho a mulher embaixo do chão de Vienna e nenhum dos meus filhos saiu do berço do Nada. Estou só, totalmente só. Os rumores de fóra, carros, bestas, gentes, campainhas e assobios, nada disto vive para