Memoria sobre a cultura da Urumbeba e sobre criação da Cochonilha

Part 2

Chapter 23,389 wordsPublic domain

A Cochonilha silvestre, pousada huma vez em a Urumbeba, se perpetuaría nella, sem que houvesse mister outro cuidado, e nella se multiplicaria até cansar, e esvair a planta, cujas articulações se apodrentarião e cahirião successivamente, humas depois de outras, no caso de que senão tivesse o cuidado de as tirarem, ou colherem de dous em dous mezes.

Para se embaraçar a degeneração do insecto, que aconteceria, deixando-o estar amontoado em qualquer Urumbeba esvaida; e pelo contrario: para se manter huma bella qualidade; e ainda, para se aperfeiçoar ou melhorar a sua raça, e precaver a ruina e estrago da planta, se faz preciso proporcionar sempre a sua força e vigor com a quantidade da Cochonilha, que nella se cria, e habita. He mister apanhalla radicalmente todos os dous mezes, e alimpar a planta do algodão, que ellas deixão, esfregando a toda com hum pano molhado, que o tire. Por este meio fica livre assim dos ovos, como das chrysalidas dos insectos destruidores, que podem muito bem estar apegados, e occultos no algodão da Cochonilha.

Sería impossivel recolher a Cochonilha silvestre, que existe sobre a Opuncia espinhosa com proveito; os obreiros, que tem maior arte, e mestria, não pódem colher por dia huma tal quantidade dellas, que lhes haja de dar, ao depois de seccas, duas onças; pela difficuldade de as tirar d'entre os espinhos: e com tudo hum só obreiro póde colher quantidade, que lhe renda, ao depois de seccas, tres arrateis por dia, quando as tirar a Urumbeba das hortas. Tambem he sabido que se melhora, e aperfeiçôa sobre a Urumbeba por meio da multiplicidade de colheitas, e semeaduras; e pela bondade da planta, em que ella pérde muito da sua quantidade, e da tenacidade do seu algodão, e constantemente se faz mais grossa outro tanto, quanto se não encontra nas que vivem sobre as Opuncias espinhosas, assim nos matos, como nos campos. He por tanto mister, para se poder conseguir a melhor Cochonilha silvestre, semealla de dous em dous mezes, tanto quanto consentir a constituição das estações, ou quadras do anno, sobre a Urumbeba das hortas, e desprezando se todas as outras especies de Opuncias. Porém, quando se não tem huma grande quantidade da sobredita Urumbeba, neste caso se semeará, e creará na Opuncia de Campeche, e tambem na Raqueta Hespanhola.

Dizem, semear a Cochonilha (como se ella fosse algum grão) quando espalhão os pequenos insectos, pela planta, que a deve criar, e sustentar.

O Urumbebal põe-se em estado de poder acceitar os insectos, para os manter ao decimo outavo mez depois de plantado. Semeão-se, como dizem, as Cochonilhas em ninhos feitos da parenchyma das folhas da palmeira: em cada ninho se põe de 4 até 6 mães, quando estiverem proximas ao seu parto, proporcionando se o número dos ninhos, e o das mães ao das articulações da Urumbebeira: fixão-se os ninhos nas axillas dos ramos, tendo-se o cuidado, de que fiquem expostas ao Sol de nascente.

Passados dous mezes, depois que as Cochonilhas forão semeadas, e precisamente hum mez, depois das mães serem fecundadas, se vem sahir algumas pequenas Cochonilhas do seio de suas mães: este he o momento, em que se devem escolher para fazer a colheita. Passa se o ferro, ou folha de huma faca, que tenha o fio embotado, e arredondado entre a casca da Urumbeba, e as pinhas da Cochonilha, que a cobre: fazem se cahir em hum panno de linho, ou em alguma vasilha prompta a recebella. Quando a colheita estiver feita, se mergulha a Cochonilha, mettida em dous pannos, dentro da agua fervendo, por dous ou tres minutos: estendem-se ao depois em taboas, ou taboleiros: ou, o que he muito melhor, em bacias de arame: expõe-se ao ardor do Sol, para se assegurarem melhor da sua dessecação, e se repete por segurança ainda outra vez no outro dia. Este methodo he muito melhor, e preferivel ao do forno, e ferro quente, pelo inconveniente de huma dessecação desigual, e de calcinar, ou torrar as partes, que immediatamente o tocão. Mr. Thiery de Menonville assegura que, na sua viagem, não víra praticar outro methodo fóra do d'agua fervente em ambas as especies de Cochonilhas.

A Cochonilha fina não se encontra nos campos, ou matos do Mexico, e só sim nas casas, e hortas dos Indios, que a colhem.

As femeas pequenas desta especie tem as costas listradas com rugas transversaes, que terminão na aba dobrada do ventre, e sobre a qual se vêm doze pequenas sedas, que desapparecem nos adultos. Dez dias, ao depois do nascimento, as femeas se despem destas roupas franjadas, e bordadas de pequenas sedas, e se cobrem de hum pó branco muito fino, que as preserva da humidade; 20, ou 25 dias, depois do seu nascimento, se despojão das suas segundas roupas, operação que muitas vezes lhe causa a morte, então ellas apparecem de huma côr parda clara; mas no dia seguinte se achão já cobertas de pó: 3, ou 4 dias depois, estão habeis a serem fecundadas. Ellas se engrossão ao dobro quasi da Cochonilha silvestre.

O macho da Cochonilha fina he perfeitamente semelhante ao macho da Cochonilha silvestre, menos em ser a sua grossura dobrada.

O Author discute a questão: se a Cochonilha fina he da mesma especie da silvestre, aperfeiçoada porém por hum sustento melhor, e pelos cuidados da cultura? ou se ellas fórmão duas especies essencialmente distinctas? A grossura, que adquire a Cochonilha silvestre, quando se cria, e a diminuição, que experimenta o seu frouxel, ou pluma algodoada: assim como a pequenhez, a que se reduz a Cochonilha fina, quando lhe falta o sustento conveniente, parece que dão muito pezo á primeira opinião; com tudo, o Author acha que estas razões não bastão para a solução deste problema interessante, requer para a qual novas observações.

Devem observar-se tres circumstancias essenciaes na creação da Cochonilha fina.

I. Convém, quando as semeão, escolher para cada huma das novas gérações, as mães mais bellas, e mais grossas.

II. Precisa que sejão semeadas em os melhores Urumbebaes.

III. Cumpre que sejão recolhidas na estação das chuvas, para hum lugar coberto, e multiplicallas nelle, até que voltem as seccas, para semeallas em o ar livre. Deve se tambem acautellar, que a Cochonilha silvestre se misture, e se confunda com a fina, e para isto se faz indispensavel, que estejão humas das outras distantes cem varas, dando a vantagem do lugar do nascente á Cochonilha fina. A temperatura do ar, que melhor lhe convém, he a de 12 até 20 gráos do termometro. No Mexico se fazem tres colheitas no bom tempo.

Mr. Thiery de Menonville não póde conseguir huma instrucção certa do methodo, que se emprega no Mexico, para conservar a Cochonilha pelo inverno: com tudo convenceo-se por algumas razões, que lhe parecêrão fortes, que se conservão nas mesmas Urumbebas, cobrindo-as com esteiras. Elle aconselha hum methodo excogitado por elle, e tambem experimentado. Prescreve a construcção de huma alpendrada, coberta de caixilhos, que se desção no tempo das aguas, e que se levantem quando o tempo estiver bom; e de se plantar debaixo desta alpendrada Urumbebeiras, cuja terça parte seja destinada successivamente em manter a Cochonilha os seis mezes das aguas.

O preço da Cochonilha fina excede em hum terço ao da Cochonilha silvestre. Além disso: duas Urumbebeiras de igual grandeza, carregadas ambas, huma da Cochonilha fina, outra da bravia: esta dará hum terço menos em pezo, que aquella, que o dará mais forte.

O Author compára as despezas da cultura, que a Cochonilha requer no Mexico, com o preço da mão d'obra ordinaria em S. Domingos, e conclue da facilidade, em que vivem alguns Indios, aos quaes pertence principalmente esta producção, que esta grangearia, ou cultura se poderia estabelecer com muita vantagem em S. Domingos; e tanto mais, quanto os Indios do Mexico tem pouca actividade, e que os multiplicados monopolios os privão de huma grande parte da producção da venda da Cochonilha na Europa.

Á primeira vista a Cochonilha fina parece apresentar grandes vantajens ao Granjeiro sobre a Cochonilha silvestre: mas, attendendo-se que a criação da ultima requer muito menos trabalho; que o frouxel, que a cobre, a defende das chuvas, dos temporaes, os quaes muitas vezes causão grandes prejuizos á Cochonilha fina; e que ella póde ser colhida seis vezes no anno, e que neste comenos, na estação das chuvas, não ha producto algum da Cochonilha fina; e que a final sendo preciso muito menos despeza para o estabelecimento, que ella requer, se concluirá: que as vantajens de huma, e outra se compensão, e equivalem: e tambem, que os Colonos pobres devem dar preferencia á grangearia da Cochonilha silvestre; por que esta lhes póde apresentar hum precioso soccorro, ou recurso.

Ao depois da morte de M. Thiery de Menonville, pereceo a Cochonilha fina, que elle criava em o Jardim do Porto do Principe; mas M. Bruley, substituto do Procurador geral, cheio de zelo, não querendo que se perdessem todos os fructos das emprezas de M. Thiery de Menonville, formou hum Urumbebal, com os fragmentos do seu plano, e nelle criou a Cochonilha silvestre. Em 1788 escreveo que o seu Urumbebal já lhe podia dar huma colheita de cem libras de Cochonilha secca, se huma molestia o não embaraçasse de aproveitar a bella estação.

M. Bruley communicou o grão da Cochonilha silvestre ao circulo dos Philadelfos, que começou em 1785 a occupar-se na criação deste insecto precioso.

_Comparação da Cochonilha mesteca, da Cochonilha silvestre, e da que se cria em S. Domingos._

Fazendo-se digerir no alcohol o extracto, que a decocção da Cochonilha dá por evaporação, as partes colorantes se dissolvem, e deixão hum residuo, que retém unicamente a côr da borra, ou pé do vinho, a qual o novo alcohol não lhe póde tirar. Esta parte dá na analyse pelo fogo os productos das substancias animaes.

O alcohol da Cochonilha deixa por evaporação hum residuo transparente, que he de hum vermelho escuro, e que secco parece huma resina. Igualmente por distillação dá os productos das substancias animaes, o que confirma que esta parte colorante he huma producção animal.

Entretanto a decocção da Cochonilha entra difficultosamente em putrefacção: tenho-a conservado por mais de dous mezes ao ar livre, e em hum frasco fechado. A primeira, passado este espaço de tempo, não apresentou indicio algum de putrefacção; a segunda tinha hum leve cheiro putrido. A primeira se turvou nos primeiros dias; e deixou no filtro hum depósito arroxado pardo, devido á combinação do Oxigeno com as partes colorantes, conforme as observações de M. de Fourcroy; a segunda conservou por muito tempo a sua transparencia, e provavelmente a perdeo pelo effeito do principio de putrefacção, que experimentou. A cor de huma e outra se mudou para Carmesim; mas a da primeira era mais fraca; porque huma grande parte das moleculas colorantes se tinha precipitado.

Ao depois da morte de M. Thiery de Menonville, a Cochonilha mesteca, que tinha trazido, acabou, como acima se disse; mas, occupando-se M. Bruley com muito cuidado em criar a Cochonilha silvestre: e em 1787 enviou huma grande quantidade desta ao Ministro da Marinha com huma Memoria _Ensaios da Cultura do Nopal, criacão e preparação da Cochonilha_. A Academia das Sciencias encarregou a MM. Desmarest, Fougeroux, o Abbade Tessier, e a mim de examinarmos esta Cochonilha, e a Memoria, que a acompanhava.

Resultou dos ensaios da tinta, que fizemos em casa de M. Moneri, proprietario de huma manufactura de Escarlate nos Gobelins, que a Cochonilha, remettida por M. Bruley, dava ao panno a mesma côr, que a Cochonilha mesteca, com tanto porém que se lhe augmentasse a quantidade na proporção de 12 a 5.

M. Bruley fez huma segunda remessa da Cochonilha, colhida em 1788, e voltárão os mesmos commissarios a serem de novo incumbidos do seu exame. Por outro methodo vierão a obter com pouca differença os mesmos resultados, que tiverão com a primeira Cochonilha.

Por se terem repetido os ensaios, que se fizerão em commum, fazendo entrar em comparação a Cochonilha silvestre do commercio, contentar-me hei agora de fallar das minhas ultimas experiencias.

A decocção da Cochonilha silvestre tem o mesmo matiz que a Cochonilha de S. Domingos. Este matiz tira mais para o Carmesim que o da Cochonilha mesteca: mas os precipitados, que della se obtem, quer pela dissolução do estanho, quer pelo alume, são de huma côr perfeitamente igual á da Cochonilha mesteca, e estes precipitados são, os que colorão as substancias, que se tingem, combinando-se com ellas.

Já disse em a minha Memoria sobre a branqueação (_Ann. Chym. Tom. II._) que M. Wat se servira da decocção da Cochonilha, para determinar a força do Acido muriatico oxigenado pela quantidade desta decocção, que elle pode destruir: eu fiz ás avessas, e me servi do ácido muriatico oxigenado para determinar a proporção de partes colorantes, que as decocções de differentes Cochonilhas continhão. Fiz ferver por tanto, por huma hora, hum igual pezo de cada huma das tres Cochonilhas, fazendo-lhe todas as circumstancias tão iguaes, quanto me fosse possivel: lancei cada huma destas tres decocções filtradas em hum cylindro de vidro graduado, e lhe misturei o mesmo ácido muriatico oxigenado, até que todas as tres fossem levadas ao mesmo matiz amarello. As quantidades do ácido, que representão as partes colorantes, se acharão quasi o mesmo em razão dos números seguintes: 8 para a Cochonilha de S. Domingos, 11 para Cochonilha silvestre do commercio, 18 para Mesteca.

Disto se vê que a Cochonilha de S. Domingos he, não sómente muito inferior á Cochonilha mesteca, mas tambem á Cochonilha silvestre do Mexico, e effectivamente muito mais algodoada, e mais pequena; mas estas desavantagens não devem diminuir o zelo, dos que se occupão nesta criação.

As observações de M. Thiery de Menonville tinhão já mostrado que a Cochonilha silvestre perdia seu algodão, e se fazia mais grossa por huma successão de gérações cuidadosas: e nos princípios forão obrigados a empregar as urumbebas, que não tinhão chegado á sua grossura ordinaria. Ha por tanto lugar de esperar que a Cochonilha de S. Domingos poderá vir a ser, havendo hum cuidado effectivo, tão boa, como a Cochonilha silvestre do Mexico, e póde ser que ainda a exceda; mas sempre lhe será inferior em quanto a quantidade de partes colorantes: mas não sería huma razão bastante, para se desprezar o adiantamento de hum ingrediente tão precioso ás tinturarias.

Relativamente a qualidade da côr, se vio que a Cochonilha de S. Domingos não cedia em cousa alguma a Mesteca; mas se o algodão, de que ella se reveste, póde prejudicar nas operações em grande a belleza do escarlate, do qual a vivacidade se póde mui facilmente alterar, se acharia huma applicação vantajosa para elle assim nos meios escarlates, como nos carmezis, e em outros matizes, que são menos delicados, que as côres mais vivas.

Mr. Bruley indagou os meios de poder separar o algodão da Cochonilha de S. Domingos; porém ficavão-lhe muitas partes colorantes nos seus residuos, o que parece dever-se principalmente ás pequenas Cochonilhas, que ficaráõ adherentes ao algodão.

As opiniões, que Mr. Bruley expoz na sua Memoria, não concordão algumas vezes com as de Mr. Thiery de Menonville: e he natural que observações encontradas requeirão conhecimentos mais exactos ácerca de hum objecto, que para nós he tão novo, mas sobre isto se deve esperar que as diligencias do circulo dos Filadelfos, e as de Mr. Bruley nos hajão bem depressa de fazer, que nada tenhamos mais que desejar a este assumpto.

He muito difficultoso fazer huma idéa da utilidade, que nos póde dar esta Cochonilha de S. Domingos, que possue tão ricas producções. Mr. Thiery de Menonville a olhava, como hum soccorro precioso, para aquellas partes da Ilha, cujo terreno ingrato recusa outro genero de grangearias; e para aquelles pobres Colonos, que não podem fazer as despezas necessarias ás outras producções. Mr. Bruley ainda he mais favoravel as vantagens, que se póde esperar da Cochonilha; mas o circulo dos Filadelfos se absteve de proferir o seu parecer; e não julga que se deva dizer ainda cousa alguma.

As tentativas feitas merecem ser proseguidas, e favorecidas com tanto maior empenho, com quanto tem por seu objecto hum ramo de tanta importancia para o commercio, como este; e com quanto huma industria illuminada sabe tirar grandes proveitos sobre huma ignorante indolencia.

FIM.

METHODO

DE PREPARAR

A

COCHONILHA

NO RIO DE JANEIRO,

SEGUNDO

STAUTON,

_Secretario, e Author da Relação da Embaixada á China do Lord Macartnei._

O Proveito que os Portuguezes tirão da Cochonilha no Rio de Janeiro he pouco consideravel, em consequencia de hum erro na sua preparação. Duas ou tres vezes cada semana, os escravos destinados a este objecto, buscão as plantas _Cactus_, e com huma varinha de Bambú, cortada de algum modo na figura de huma penna, tirão todo o insecto plenamente crescido com muitos outros, que ainda não tem chegado ao seu estado de perfeição: a consequencia disto he, que as plantas nunca tem a metade dos insectos, que podião sustentar, pois que muitas das femeas, morrem antes de terem feito os seus depositos. Os Naturaes do Mexico seguem hum methodo muito differente. Logo que passão as chuvas periodicas, e que o tempo he mais quente, e mais secco, fixão nos bicos das folhas do _Cactus_ pequenas porções do mais fino musgo, servindo como de ninhos, capaz cada hum de encerrar dez ou doze Insectos femeas, no seu estado de pleno crescimento. Estes Insectos no decurso de poucos dias, produzem huma innumeravel familia de pequeninos, que se espalhão pelas folhas, e ramos da Planta, até que se fixão naquelles pontos, que achão mais proprios a dar-lhe succo nutritivo; onde crescendo em pouco tempo o mais a que podem chegar, ficão immoveis, e então se tirão para uso; deixando sempre hum número sufficiente, para a producção de novas criações. Hum muito simples processo converte em pouco tempo os Insectos em Cochonilha; mas se, em soffrimento corporeo, o pobre Escaravelho sente tormento igual ao do Gigante, quando morre, este processo não he mais simples, do que he cruel. Apanhão-se os Insectos em huma taça de madeira, e daqui se estendem espessamente sobre hum prato chato de barro, e assim vivos se põem sobre fogo de carvão de lenha, onde se vão lentamente torrando, até desapparecer a coberta cheia de penugem, e que os succos aquosos do animal estejão totalmente evaporados. Em quanto dura esta operação, mechem-se continuamente com huma colher grande de estanho os Insectos, e algumas vezes se borrifão com agua, para prevenir que de todo se torrem, o que destruiría a côr, e reduziría o Insecto a carvão; mas pouco habito basta para ensinar, quando se devem tirar do lume. Ficão então na fórma de grãos redondos, escuros de alguma sorte, vermelhos, e tomão o nome de Cochonilha, conservando tão pouco a fórma original do Insecto, que esta preciosa tintura foi por muito tempo conhecida, e buscada na Europa antes dos Naturalistas decidirem, se era substancia animal, vegetal, ou mineral. O Jardim do Rio de Janeiro não produz annualmente mais do que trinta arrateis desta fazenda: com tudo, tendo bom trato, este mesmo número de plantas podia produzir dez vezes esta quantidade. Em Maricá, e Saquarema, ambos lugares contiguos ao Cabo Frio, ha plantações consideraveis do _Cactus_, que facilmente se augmentão com garfos da mesma, plantados na estação fria, e chuvosa, ainda que depois medrão menos, quando não expostas ao Sol. Os Insectos crião, e colhem-se em tempo secco desde Outubro até Março. Animou-se a preparação da Cochonilha, deixando livre este ramo de commercio, que antigamente era hum monopolio da Coroa[1].

FIM.

ADVERTENCIA.

Os Brasilianos dividião a familia dos Cactos, ou Cacteiros em duas, aos que tinhão a folha chata e espinhosa, a que os Botanicos dão geralmente o nome de Opuncias, chamavão _Ju-ro beba_, de _jú_ espinho, _oba_, folha ou vestido _beba_ chata, o qual por corrupção se diz Urumbeba; e aos que erão esquinados a que os Botanicos com Jussieu chamárão _Cirios_, pela configuração com as tochas quadradas, davão o nome de _Ju-macarú_, e hoje _Nanacurú_, e nesta familia ha huma que dá hum fructo delicioso. Na obra grande, que traduzimos de M. de Menonville, nos esforçaremos em fazer vêr todas as especies, que encontrámos no Brazil. Aqui sómente daremos a figura do Cacto Cochinilheiro, copiada da que traz Dillenio no Horto Elthamense, que he a cilanda por Linne, como tambem a da Cochonilha, e reservamos para a outra dar a Estampa de Menonville.

[Figura: CACTO _cochonilheiro_.]

*Notas:*

[1] _A Coroa nunca monopolisou este genero: só o comprava por hum maior preço, para animar os moradores á sua cultura._