Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo

Part 6

Chapter 63,734 wordsPublic domain

Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo seguinte:--A vossa carta encheu de magoa os nossos corações pelas circunstancias em que se acham os habitantes de Macáo; tudo nasceu da conducta do Senado: se adoptasse o nosso systema, não teria agora de vêr essas lastimas. Os macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa expedição; e fizeram repetidas instancias ao governo chinez, pedindo soccorro contra os hostis procedimentos britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o manejo do Senado motivaram todos os males.--Em verdade dissemos, que o almirante removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria se o governo de Macáo se unisse cordialmente com o almirante.

Os esforços que V. Ex.^a promette fazer em suas applicações ao governo chinez, são para nós de grande importancia. Sabemos que hão-de produzir bom affeito. Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo pode remover as presentes difficuldades e miserias.

Grande documento é este para augmentar, se é possivel, a honra dos macaenses, pelo valimento que tem com os chinezes. No principio da carta, invectivam os sobrecargas aos macaenses; no fim pedem-lhe misericordia! Era tal a ambição, ou a impudencia daquelles bretões, que diziam em face ao governo de Macáo serem motivadas as calamidades daquella cidade pela ignorancia dos chinezes, e manejo do Senado! Quem não vê provir tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se daquelle nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser aquelle empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos portuguezes? Em pouco sairá o almirante da illusão em que o tinham os sobrecargas.

O ultimo paragrafo desta carta merece particular attenção: O governador despresou as argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.--Vejo a necessidade que tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O Senado já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas desconfianças.

Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até agora equivoco) farei novas representações ao governo chinez sempre que me indiqueis a forma de applacar a tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos mandarins superiores.

Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem não esperaria moderação nos sobrecargas? A carta seguinte mostra o contrario!

[Nota: (Novembro 3.)]

--Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e descarregando navios britannicos em Macáo.--Em virtude de ordens do almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.^a que mande apromptar armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas embarcações. Esta medida nasce da oppoção que os chinezes fazem ao auxilio dado por nós a esta cidade. Esperamos que V. Ex.^a não recuse os seus extremosos esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do governo de Macáo são bagatela em comparação dos que temos soffrido pelo embargo do commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a generosidade de querermos dar segurança a esta cidade: Assim esperamos a ordem para a descarga, sem dilação.

Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia á vontade do almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo sou forçado a dizer o que sendo publico, admira ser por vós ignorado. As leis deste paiz só admittem navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o direito das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de Cantão, até poderem seguir o seu destino. Achando-se em iguaes circunstancias, qualquer navio da companhia, não haverá duvida na sua admissão; porém se a descarga, que se pertende fazer em Macáo provem da opposição dos chinezes ao commercio britannico, tenho grande embaraço no cumprimento do meu desejo.

Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem só carregações neste porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se o commercio inglez está prohibido em Cantão, como o poderei admittir em Macáo, sendo dominio chinez, sómente aforado aos portuguezes debaixo de certas condições, que vós, dizendo auxiliar, pretendeis romper?

Accresce não haver logar para tão grandes carregações: por falta de gyro, acham-se todos os armazens cheios de generos vindos na monção ultima. Dizeis que são grandes os vossos sacrificios, e os nossos bagatela! Os sacrificios, neste sentido, não devem considerar-se pelo valor das riquezas: por perderes muito não se segue, que não sejam maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. Lançais as culpas das vossas perdas sobre nós, e que faremos a vosso respeito? O tempo fará justiça ao nosso procedimento[40].

Agora (apezar de tudo) é tal o meu desvelo em vos servir, que se algum navio se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, terá os soccorros necessarios como se pratica entre povos civilisados; sem offensa dos laços domicilarios e privativos, sustentados pelo esforço e gloria da Nação Portugueza.

Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os britannicos: aquelles não só maltractavam estes, encontrando-os nas ruas, mas tambem lhe apedrejavam as janallas. Por mais que o procurador do Senado exigisse providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a mesma.--Sáiam os britannicos da cidade, e tudo ficará em socego.--Quando os inglezes estavam mais teimosos em descarregar os seus navios em Macáo, baixou a seguinte admoestação do Suntó aos sobre-cargas.

Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo: considerando elle que os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito tempo, obedientes e politicos, concedeu aos europeos licença para negociar em Cantão; reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes na China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados, nem desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo é cidade edificada em terreno chinez: a dynastia passada concedeu aos portuguezes estabelecerem-se alli; a presente, em virtude da sua antiga posse, deixou-os ficar como d'antes; porém debaixo de certas condições. A nenhuns outros europeos se concedeu privilegio semilhante! Como pertendeis vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear venham os francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a pertubar as terras deste imperio: e quando venham com muito socego os esperaremos; vindo desfalecidos, e sendo poucos contra muitos, sem batalha ficarão vencidos. Terão a sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser amigos dos Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes! Porque não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou porque não os esperais fora das ilhas da china para os baterdes quando cheguem? Não é justo estares em Macáo quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo a união mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo perdeis o direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura não sabeis o que vos é interessante? Podereis existir sem commercio? Por certo não: pois quanto mais depressa embarcardes os soldados, mais cedo se vos abrirão as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis communicação com a terra. Ponderai bem o que vos proponho, e não me incommodeis com mais peditorios.--

Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do districto, que o ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, nas leis do imperio, a fim de não se irritar contra elles o Suntó, chegou outra chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, em que dizia:--

Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi, faço saber ao mandarin de Hiang-san, que da entrada dos soldados inglezes em Macáo, são culpados os seus moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas examinando o seu antigo, e moderno procedimento, achei serem sempre gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo toléro o erro commettido.

Ácerca dos navios inglezes, já consultei o Kuam-pu, a fim de lhes permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que pertence aos soldados, dei parte ao Imperador; eis a sua resposta:--Se os inglezes tiverem a ousadia de presistirem em sua teima, lançaios fora com o nosso exercito.--Em poucos dias elle marchará sobre Macáo: no entanto recommendai aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti ao Procurador, que não se fie desses inglezes.

Como estes não fossem promptos na execução das ordens do Suntó, augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que julgaram tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes. Desembarcarem estes as tropas já não éra a maior offensa: o que mais ferio o orgulho chinez, foi não obedecerem logo ao mando do Imperador. Tomaram os mandarins calor tão ardente, que não deixavam passar um dia sem repetirem intimações para que os inglezes saíssem de Macáo: eis o seu espirito.

Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo apossaram-se das igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão vossas cazas possuidas ha seculos; depois tirar-vos-hão mulheres e filhos: não podemos soffrer tam grande offensa. Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa. (proximos á cidade de Macáo) afim de os anniquilar. Despresaram a graça feita pelo Suntó; soffrerão o peso da força, que marcha contra elles. Esses inglezes sendo homens não tem coração humano; conhecem os males que tem feito, e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só inglez escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e perguntai-lhe se ainda querem teimar contra a justiça, que os ameaça.--O procurador respondeu:--

--Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos sobrecargas inglezes; não despresam as graças do Suntó; acham-se promptos para retirar-se; mas não o podem fazer de repente. Os inglezes vieram com designio de nos auxiliar assim julgo ser mal fundada a vossa desconfiança. Não precisamos do vosso exercito; viria fazer maior damno á cidade. Sabeis quaes são as leis que regem este nosso estabelecimento: não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás muralhas desta cidade tropa chineza, sem que a pessa, e é cousa, que ainda me não veio á lembrança. Não é justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos auxiliar; trouxeram-nos incommodos e perdas.--

É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense para com os inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas! Ao mesmo tempo enviaram os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta seguinte.

--A situação em que nos achamos é triste: temos recommendação do Almirante para evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa reconciliar-nos com os chinezes. Se esta recommendação for confirmada aos manderins, por V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os inglezes.

Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os mandarins, sobre a retirada da espedição britanica sem efusão de sangue, donde resultou o tratado seguinte.

Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da selecta companhia, desejando retirar o destacamento inglez, decorosamente, ajustaram:

1.^o O Ministro Arriaga tractará com os mandarins ácerca da retirada das forças britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se achava, antes da sua entrada nesta cidade.

2.^o Exigindo este negocio a cooperação do Almirante, Miguel de Arriaga irá a Wampo-o, para se concluir alli do modo mais vantajoso ao vinculo das tres nações.

3.^o Concluido este negocio cessará a prohibição de mantimentos para sustento dos inglezes.

4.^o Os mandarins farão suspender immediatamente a marcha das tropas chinezas dirigidas a esta cidade.

[Nota: (Dezembro 11.)]

A presente convenção mostra a confiança, que o Ministro Arriaga tinha em domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, que só a politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de um homem pudesse conter a justiça chineza, sustentada por 80 mil homens! A carta seguinte dirigida a Bernardo Aleixo, dá bem a conhecer o dominio que Arriaga tinha na vontade dos mandarins.

(Dezembro 11)--Depois que assignámos a convenção esta manhã, fui ao pagode, onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com elles a fim de soltar difficuldades proprias a uma nação escrupulosa e desconfiada; todavia consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso capaciteios das boas intenções britannicas (apezar de terem sido más para nós); naquella intelligencia asseguraram-me ficar o commercio inglez no mesmo pé e systema antigo--Despedidos os mandarins; tornou Arriaga á cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por meios tão honrosos para a nação portugueza, como lisongeiros para o negociador.

Sabendo o mandarin de Hiang-san, que o novo governador Lucas José de Alvarenga, instava pela posse do seu emprego, remetteu ao procurador a chapa seguinte.

--Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo governador dirigido bem este negocio; agora constame, que o successor insta para tomar posse e que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende fazer: não é conveniente: os inglezes entraram no tempo do seu governo, nelle devem saír. Sabemos que o novo governador veio em navio inglez; quem nos assegura não ter elle correspondencia com esses homens? Não é justo nem conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos extraordinarios nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando os inglezes saírem de Macáo e ficarem todos em socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os costumes.

[Nota: (Dezembro 11 de 1808.)]

No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da náo se avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. Em 14 de Dezembro, já de volta fez Arriaga, a participação seguinte a Bernardo Aleixo.--Assim que cheguei á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual era a minha commissão: respondeu ter já ordenado o embarque das tropas, e que desejava ser grato ás officiosas declarações anteriormente feitas pelo governo de Macáo; pois eram veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a civilidade propria de sua pessoa: disse que esperava do governo de Mocáo o bom serviço de remover qualquer difficuldade, que de novo apparecesse. Despedi-mo-nos com as mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle ceder veio acompanhar-me ao portaló.

Logo que o ministro Arriaga concluio a sua negociação com o almirante, dirigio-lhe o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta seguinte.

(Dezembro de 1808.)--Os officios de V. S., de 11 e 14, manifestam o grande trabalho, que teve na conferencia com os mandarins: Pelo contexto dos mesmos se conhece a excessiva applicação e desvelo com que V. S., além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com heroico patriotismo, a cruel revolução que ameaçava esta cidade.

Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais importante serviço á patria. Á força de tão efficazes e singulares deligencias _devem os inglezes_ fazer a sua retirada sem effusão de sangue, e os macaenses o socego da cidade.

(Dezembro de 1808.)--No dia 16 começou a retirar-se o destacamento britannico; depois de se effeituar o embarque de tudo quanto lhe pertencia, cuidaram logo os sobrecargas em obter licença para desembarcar as suas mercadorias em Cantão. No 1.^o de Janeiro expedio o Suntó a chapa seguinte.

--Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de Cantão, faz saber a todos os europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em Macáo jámais se lhes devia permittir commerciar neste imperio. Com tudo lembrando-nos que o seu rei offerecera tributo ao nosso imperador, relevamos a offensa, que nos fizeram pela sua entrada em Macáo. Agora depois de enviarem os soldados ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos, perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir commerciar neste imperio. Conhecendo a misericordía do nosso imperador, cedi ás suas repetidas supplicas, deixando que desembarquem as mercadorias, e possam vendelas nesta cidade. Devem receber esta graça como um beneficio extraordinario. Assim mostramos, que as leis chinezas tem enfraquecido com o tempo: no futuro haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante se algum europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será lançado fora para sempre.

Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam antes de tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia enormes sommas dispendidas naquella empreza.

Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram della, farei ver agora o motivo porque atentaram.

A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. João VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez julgar aos bretões, que Bonaparte se apossaria de Portugal, assim como o tinha feito da maior parte da Europa.

Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, seu inimigo, seu inimigo, como havia sido o antigo, praticaram a lição tomada dos hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda tinhamos no Oriente.

Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes, não lhes convém possuilos outra nação, que não seja a portugueza, já pela sua antiga alliança, já por não a temerem. Avisaram os agentes da companhia, para guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte do mundo, a fim de não serem tomadas pelos francezes; na esperança de que voltando Portugal á sua independencia, tudo ficaria como dantes; e se não podesse livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos ainda no Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez.

Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos espalharam dinheiro na feira de Cantão, esperando que havendo alguma desintelligencia entre os portuguezes e os chinezes, estes os preferissem.

Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os inglezes; por quanto estes não são menos violentos em seculo mais illustrado. Veja-se no quadro seguinte a differença de ambição e despotismo das duas nações.

--Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 milhões de homens de castas, côres, e raças differentes: é a India ingleza. A Soberania não pertence á nação; exemplo unico na historia do mundo; é propriedade de uma companhia de negociantes! Viram-se os cartiginezes enriquecidos pelo commercio, conquistaram a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o corpo inteiro da nação, foi quem adquerio pelas armas importantes possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza adquirio grande esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da Asia, eram armações fortificadas, e não colonias.

A companhia ingleza sem perder o commercio dos portos de mar, estendeu o seu dominio a mais de trezentas leguas pelo interior das terras. As regiões mais ferteis e mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de fazenda amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, ostentam luxo asiatico, e reinam com orgulho.

Especulações mercantis elevaram este thesouro de nova especie, que subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria dos Principes, respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra e consagra nefandas usurpações.

As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e comprando acções da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas, náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande Lama[41]!

Os portuguezes combateram na India os sectarios de Mafoma livrando desse modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal fadados bramas.

Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os lusitanos obraram prodigios na India, vingando sobre os turcos os males que lhe haviam soffrido em nossa terra, hoje não desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por quanto o Suntó disse:--Nenhuns outros europeos alcançarão (por merito) os privilegios concedidos aos portuguezes.--Os sobrecargas confessaram, que só o Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias (que elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem disse:--Estou muito obrigado ao governo de Macáo pelas suas declarações anteriores; por quanto eram veridicas e justas.--Taes declarações confirmam a dignidade do caracter Luzitano, em todos os tempos e logares.

Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado alli em 1808, e fallaram do que viram praticar em 1809, pelo modo seguinte.--As patrioticas applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram a esta cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas as nações commerciantes a liberdade dos mares da China[42]. Os povos chinezes congratulam-se com a extincção do inimigo que por mais de 20 annos os havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio insufficientes para destruilo.--

Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever: não foi menor a vantagem de Macáo e a gloria da nação portugueza, lançar fora daquella cidade as tropas inglezas, que della se pertendiam apossar.

Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador que fôra de Macáo, sou obrigado a contestala para desagravar os macaenses das offensas que alli lhes derige aquella triste e miseravel jactancioso.

Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera motivo a isso outra impressa em Lisboa em 1824; por se achar nella o seu nome inglorio. Sendo eu quem a escreveu, devo mostrar a razão de não fallar em louvor do Sr. Lucas.

Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e o Sr. Lucas entrou naquella cidade em Setembro do mesmo anno. Tornei a Macáo em Novembro de 1810, já elle tinha saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher factos sobre a extincção dos piratas, a fim de completar o meu opusculo, tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas daquella cidade. Haviam em tão pouca conta este cavalheiro, que não se atreveram a confiar-lhe o governo das armas senão depois de fazerem retirar as tropas inglezas, como fica demonstrado, no officio do mandarim de Hiang-san.

O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é, 1.^o O zelo e a actividade do Ministro Arriaga; 2.^o o valor das pessoas empregadas na esquadra; 3.^o a existencia dos tractados; 4.^o a entrega dos piratas 5.^o a invasão e a retirada das tropas inglezas; mas offende-se do silencio guardado a seu respeito; e julga haver nesse procedimento algum misterio.

Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta memoria por não fallar na sua entrada em Macáo, no dia da sua saída, e talvez naquelle em que fôra encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso não ter fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um escripto consagrado ás virtudes Luso-Macaenses, com a irregular conducta de tal governador.