Part 5
Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado enviou a participação seguinte ao mandarim de Hiang-san. A dez de Setembro surgiram em frente desta cidade, uma náo, uma fragata, e um brigue da nação ingleza, sendo chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma carta de Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado do nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma invasão franceza. O Almirante assegura não exceder os limites de defesa; porém como o seu desembarque nesta cidade, quebra os tractados deste governo com a celestial dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim de o levares ao Suntó, em virtude dos mesmos tractados.
O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as relações politicas e commerciaes, que tem ligado esta cidade com os Chinezes, e varias nações da Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer na opinião das nações, propria e extrangeiras, a consideração de leal e honrado, titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer ao publico a succinta e franca exposição dos factos acontecidos desde a chegada do Almirante Drury a este porto até hoje, no protesto seguinte.
A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto, onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e China; e que sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia ser guarnecida com as suas tropas. Para esse fim mandava um destacamento a esta cidade, e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a sua admissão e necessario arranjo.
No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida não deviam obrar de modo, que destruissem a independencia, que deviam querer segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que não devo.
Esperava desta resposta alguma moderação, e mais por saberem, que os chinezes não admittem novidades com que possam julgar menos segura a sua independencia. Com tudo reagiram, mandando intimar pelo chefe da companhia, que se não fossem admittidas as tropas, seria differente o seu procedimento.
Firme nos meus principios, e na minha primeira resolução, assegurei-lhe a immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por uma nação, que se dizia alliada: porém que a ter logar aquella intimação ameaçadora, eu me defenderia conforme o direito natural, e os limites desta praça, que sempre fora respeitada por todas as nações costumadas a descançar á sombra da bandeira portugueza.
Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os esforços da mais estudada prudencia; querendo salvar a honra, e a paz constrangida pelo nosso mais antigo alliado; não devo demorar por mais tempo a necessaria participação ao governo chinez. Este como protector da cidade fundada por sua concessão em seus dominios, da qual recebe foro a seu contento; prestará com brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a participar-lhe todas as circunstancias, não obstante saber quão tristes se tornarão as suas providencias, se o almirante não cessar da sua contumacia.
O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim desembarcar tropas inglezas nesta cidade; declara que se defenderá até o ultimo extremo. Protesta contra taes procedimentos: a responsabilidade recaírá sobre os aggressores. A razão anima os habitantes desta cidade, que tanta honra e gloria tem dado á nação portugueza em sua não interrompida posse.
[Nota: Setembro 16]
Quem não esperaria moderação nos britannicos, pela leitura daquelle protesto? Retorquiram!--Sendo os offerecimentos liberaes de Lord Minto rejeitados pela desleal conducta do governo macaense[36], e os esforços da nossa parte a fim de livrar esta cidade da invasão franceza, e querendo nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a nação britannica: somos arrastados pela inexperada conducta dos macaenses a tomar medidas, que podem offender os chinezes; mas o senado responderá por tudo.
Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve os soldados inglezes occuparão Maçáo. A nossa tenção, quando chegar esse momento, é desembarcar tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á ponta de bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como rebelião directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos, deve o Senado admittir já as tropas britannicas.
[Nota: Setembro 19]
Foi recebida esta intimação, quando chegava outra dos mandarins do destricto, para não deixar o Senado, desembarcar as tropas inglezas. O governador remetteu-a por copia ao almirante, com a seguinte carta.
Agora me foi presente a vossa intimação! Com pesar vejo nella, tratada de infiel a conducta do governo desta cidade por não admittir, contra o seu dever, guarnição ingleza! E que tomareis como acto hostil qualquer resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a tantos males, introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as rasões que vos expuz; extranho caracterisares este governo de mal intencionado no cumprimento dos seus deveres. Confesso que da minha parte os tenho modificado, julgando continuar assim a distincta amizade dos respectivos monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa intimação: sendo bem examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso rigor, admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis isso sem nos dar motivo para desconfiar das intenções britannicas; e sem que os chinezes se offendam de tão escandaloso procedimento. Posso assegurar-vos, que elle não só ha de ser prejudicial a Macáo: a companhia ingleza soffrerá tambem os seus effeitos.
No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.--O protesto de Vossa Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a intimação dos mandarins. Nós sabemos o que elles são: o almirante não fará caso delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o Suntó.
É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de 1808. Achavam-se ás mãos com os piratas da China, e ameaçados, pelo almirante inglez, de serem atacados á bayoneta. Mas quanto maiores eram as adversidades, mais se engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se publicou no Senado a injusta, cruel, e atroz intimação da força ingleza, gritaram todos:--Só depois de morrermos na defesa destes muros levantados por nossos maiores, poderão entrar esses barbaros, que não podendo tomar nossas casas pela hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O capitão mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas de amor patriotico, disse para o governador;--Irei para o logar mais arriscado, lá darei a vida na defesa do meu posto--Bernardo Aleixo, consummado em prudencia, não soffreu ser vencido em valor. Dirigio-se ao Ministro Arriaga, dizendo:--Honrado collega, com taes companheiros não serão arrebatados os lares macaenses. Devemos acabar de ter contemplação com homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do monte, confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; e fiquem todos na intelligencia, que ella não se renderá em quanto eu existir.
Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo, desenvolvidos pelo magnanimo Arriaga neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que tinha accendido nos peitos macaenses, e persuadilos, que não se offendia em cousa alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com permissão do Senado; e talvez isso desse novo realce á gloria dos portuguezes; afiançou não ser longa a demora dos inglezes em Macáo. Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto estava ao seu alcance para livrar a cidade da invasão ingleza; mas que em todo esse andamento haviam chegado os negocios a tal extremo, que a julgava necessaria para ensinar os britanicos, pela experiencia, que os macaenses não toleram invasores.
Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de confiança. O Governador foi para a do monte: e o Capitão mór para a de S. Francisco. Commandava então a guarnição da praça, o Senhor José Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu elogios do Governo por saber conciliar as qualidades militares com as virtudes civicas.
No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães Robertson, e Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o Governo de Macáo, ácerca do desembarque da tropa; e levaram a Bernardo Aleixo a carta seguinte.
Tive a honra de receber a vossa participação, diz o Almirante, em que me informais da sabia e leal determinação do Senado, em adimittir um destacamento inglez na defesa desta cidade. É grande o meu prazer entrar em Macáo como sincero amigo, e sem quebrar-se a antiga amizade dos nossos monarcas. Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas, obediencia e respeito.
Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em quanto os macaenses não cederam á tenacidade britanica, éram infieis; agora que pareciam afrouxar na defesa dos seus direitos, são leaes e sabios! Ver-se-ha mudarem de linguagem em pouco tempo.
No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo Aleixo, e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.
1.^o As leis do paiz regerão com toda a sua plenitude.
2.^o Os crimes contra os Chinezes, seguirão o julgado estabelecido.
3.^o O destacamento inglez será subordinado ao governo desta cidade, combinando com o Capitão Robertson, em casos extraordinarios.
4.^o Nenhuma outra bandeira será arvorada em Macáo, além da portugueza.
5.^o As munições do destacamento entrarão nos armazens publicos, ás ordens do governo desta cidade. Os inglezes terão permissão para beneficialas.
6.^o Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste porto não serão interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios inglezes ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta convenção.
Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar complicação com o governo chinez. O governo de S. M. Britanica fica responsavel ao Sr. D. João VI, pelas consequencias deste tractado.
Desembarcaram as tropas sem tumulto; aquartelaram-se na feitoria de Bernardo Gomes de Lemos, e nas fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O Almirante requereu estes dois ultimos quarteis, para não haverem disturbios.
Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de lingoagem: temeu logo que os britanicos insultassem os Chinezes. A intenção dos sobrecargas e do Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa da amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que o Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo aquillo procedia da intima alliança entre as duas Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha.
No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença para enviar ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes de entrarem as tropas inglezas em Macáo. Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo quanto se tinha feito em Macáo.
No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir queixas ao governador, pelos insultos, que faziam os chinezes aos britannicos; e dirigiram-lhe a participação seguinte.--Somos obrigados, com pezar nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso destacamento na fortaleza de monte, a fim de evitar a communicação com os chinezes; por quanto já espancaram alguns officiaes, e esta manhãa insultaram outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do quartel, haveria grande desordem. Se o destacamento se estabelecer na fortaleza do monte, acabar-se-ha a idéa de perigo. Asseguramos-vos a repugnancia com que fazemos esta applicação, mas somos a isso obrigados para evitar males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, de quem temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos de guerra. Seria bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para receber o nosso destacamento, fizesseis o mesmo á proclamação do vice-rei de Goa.
Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo Aleixo não possuia o talento e virtudes exaradas por aquelle celebre navegador nas paginas da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão em que estavam.
Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a fortalesa do monte: sendo necessaria para defeza contra os francezes, está nos termos da ordem que recebi de Goa[37]: porém sendo o motivo dessa exigencia evitar a communicação e disputa com os chinezes, estou certo de que na feitoria, onde se acha aquartelada, observada a disciplina que hade usar na fortaleza, conseguirá o mesmo fim sem dar logar a ciumes da parte dos chinezes; causa sem duvida de males maiores do que pretendeis evitar: e de mais, isso não é conforme com o tractado, que fizemos.
--A desconfiança do governo chinez tem augmentado pela occupação das fortalezas da Guia, e Bom-parto com tropas britanicas. Assim acrescerá mais em prejuizo do commercio das duas nações, que na união, com os chinezes tem igual parte nesta cidade. A nação britanica não consentirá em plano algum, que destrua esta união: e a mim não é permittido admittir defeza opposta á lealdade, que este governo tem á constituição do imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama parte do mesmo imperio.
Ainda que é forte a razão que me assiste, maior será o meu pesar, quando pareça falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer os serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João VI. Elles exigem, que espereis a resposta do governo chinez, aos artigos da nossa convenção, que não pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer outra participação. Sería agora passo arriscado, pelo escrupulo dos Chinezes ácerca das intenções britanicas. O Senado já mais deixará de cooperar no que for util á nação britanica. Agora mesmo acaba de pedir aos mandarins do districto, providencias para evitar, que os chinezes insultem os vossos officiaes.
Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de Goa. Tambem fiz publicar a proclamação segundo o costume deste governo. Vivei na intelligencia, que não esconderei o que vos possa interessar, não offendendo o decóro desta cidade.
De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros, respondeu neste espirito.--Eu o procurador da Cidade de Macáo, mandarim de Hao-king, remetto-vos toda a nossa correspondencia com os inglezes, a fim de conheceres a verdade. O Senado remetteu ao Almirante todas as vossas chapas, (avisos) nestas circunstancias é o que podemos fazer.--
O mandarim respondeu:--Pelo que respeita ás cartas do Almirante, ainda que as tenho feito interpretar, não posso entender o seu verdadeiro sentido: espero que o declarareis ao portador desta para minha intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa não prevalece contra os tractados existentes do Governo celestial com o vosso Rei. Em quanto ao desasocego dos moradores chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com que os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em perfeita quietação.--
[Nota: Outubro.]
No dia 16 remetteu outro aviso.
--Sei que fôra apresentada a minha carta aos inglezes para saírem de Macáo, e que responderam terem vindo para defenderem Macáo dos francezes, visto não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para saírem precisam que venham soldados portuguezes!
É inegavel ser Macáo territorio da China, assim como ter-vo-lo concedido a celestial dynastia, attendendo a virdes de tão longe, e quererdes repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, não só vos tracta sem differença de seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de beneficios.[38] Os francezes não costumam insultar as terras deste imperio: quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que embarquem o seu destacamento sem demora.--
No dia 17 sabendo o mesmo mandarim, que os Chinezes emigravam de Macáo assustados pelo ameaço da guerra, mandou outra chapa ao procurador, offerecendo-lhe tropas para auxiliar os portuguezes, e animar os Chinezes a fazerem o trato do costume, para não soffrerem os habitantes da cidade por falta de alimentos.
(18 de Outubro.)--Mostrei a vossa chapa de hontem ao Almirante (tornou o procurador ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento para com elle, visto ir encarregado de negocio tão importante.
No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos sobrecargas).--Capacitesse V. Exc.^a da grande importancia, que é para as duas nações Portugueza e ingleza, accommodar em breve a desintelligencia, que reina entre nós e os Chinezes. A viagem do Almirante a Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que os seus intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó. Só o padre Rodrigo o pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. faculdade para elle acompanhar o Almirante. O Governador concedeu a licença pedida.
Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as calamidades, augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta seguinte: basta meditala com reflexão para se conhecerem as intenções britanicas.
--Soubemos esta manhãa--ter chegado de Bombaim outro destacamento. O Almirante ordena que desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que mande fazer os arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas mandadas pelo vosso Rei; e que desembarcadas estas embarcarão as que se acham em terra. Para dar mais força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar os navios com bandeira portugueza. As objecções dos chinezes são de pouca entidade. Para este segundo desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos licença para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos mandarins representações desfavoraveis aos britanicos. Da sua má conducta nascem os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não dá remedio a tam grande mal, o Almirante enviará para o Brazil as pessoas suspeitas.[39] Esta carta demonstra bem a protecção levada pelos inglezes a Macáo. 1.^o soberba, 2.^o falsidades, 3.^o arrogancia fraudulenta, 4^o calumnias, 5.^o despotismo horrivel. Bernardo Aleixo usando da sua consumada prudencia, respondeu nestes termos.
(Outubro 21.)--Dizeis ter ordem do Almirante para desambarcar tropas novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender aos chinezes, virem da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma duvida teria no seu desembarque, se as circunstancias decorridas depois que desembarcaram as primeiras não tivessem de dia em dia complicado mais este negocio com os mandarins. Effeituando-se este segundo desembarque antes de conferir o Almirante com o Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao commercio, já suspenso em Cantão. Accresce ter eu agora recebido, ácerca dessa tropa, protesto, que devo tomar em muita consideração. Esta cidade tem soffrido muito com a vossa expedição; e a meu cargo está vigiar por seus interesses. Não me consta haver aqui morador algum infiel á Caza de Bragança, apesar de ser dever meu cuidar nessa indagação.
(Outubro 21.)--No mesmo dia, escreveu o mandarin de Hiang-san, ao procurador de Macáo, neste espirito.--Consta-me chegarem ahi mais tropas inglezas; jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito dos seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó, de que faltais ao vosso dever.
(Outubro.)--De 21 a 28 houveram disturbios entre os inglezes e os chinezes. O procurador representou aos mandarins, que não tinha leis por onde castigasse os chinezes em casos taes; e que para isso exigia providencias.--Aquelles tornaram. Não são precisas leis para castigar crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os inglezes, tudo fica remediado.--Não davam resposta, á exigencia de providencias.
(Outubro.)--Em 29 escreveram os sobrecargas ao Governador:--Sabemos com certeza não serem as partecipações de V. Exc. (ácerca do auxilio britanico) expostas ao Suntó como deviam; antes sim pelo contrario. Rogamos a V. Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico, e que esta declaração seja remettida ao Almirante para elle mesmo a entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V. Exc. em seguir o exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar os portuguezes contra os nossos inimigos. Se os moradores desta cidade fossem assim admoestados, desejariam o nosso auxilio em logar de o aborrecer.--
(Outubro 30.)--Entre as difficuldades, que vos apresentei, tornou Bernardo Aleixo, foi uma a complicação com os chinezes. Tenho conhecimento do systema do seu governo por longa experiencia adquirida na pratica; sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ o máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao exercicio do meu emprego) ser qual quer opposição do governo chinez, desembaraçada pelo Almirante com o Suntó; agora vejo depender deste governo a ultimação do negocio.
O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da vossa expedição: se tem havido desconfiança nos mandarins, não é motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua correspondencia entre vós e os chinezes.
Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um só deixa de respeitar a caza de Bragança, costumada a encher esta cidade de beneficios em honra do seu governo, e gloria de seus moradores. Porém como não lhe seja vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não deve extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar da causa, aborrece os effeitos.
Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das amas chinezas--que se retiram. Os infelizes que tem na labutação diaria o seu recurso, lastimam-se pela escacez e carestia dos generos alimentares. Os mais abastados lastimam-se por ver chegar o tempo de fazerem suas negociações, e terem ainda as mercadorias empatadas por falta de gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão ainda por fabricar á mingua de artifices, que tambem fugiram. Os empregados publicos vendo parar o commercio, lastimam-se por saberem, que delle tira o estado rendimento para pagar-lhes. Os mesmos habitantes chinezes, dados ao commercio, tem emigrado e levado até o mais inferior dos seus trastes. Isto era de esperar de homens pacificos ao verem apparatos de guerra. Além disso ameaçados pelos mandarins, que julgam a constituição do imperio atacada pela vossa imprudencia.
Á vista do exposto não admira haverem descontentes, que deplorem a sua desgraça, e aspirem ao socego deste fiel estabelecimento, que ha 252 annos tem sempre respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este quadro se um tal povo necessita de proclamações para ser fiel ao Rei a quem adora?
Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o que fez pelo modo seguinte.--O chefe da companhia ingleza accusa-vos de não teres enviado as minhas chapas ao Suntó, ou que mandando-as lhes viciastes o texto. Não posso crer teres procedimento alheio do vosso emprego e caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes ao Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferir com elle, e ficar desse modo illesa a vossa reputação.