Part 4
Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem. Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela força a escrevela. Não: assignei-a por minha vontade. Se ainda o duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos, que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem, ou o do mal. Todos desejamos seguir o do bem, mas somos muitas vezes lançados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a seguirdes o meu partido; mas então ainda eu não havia encetado o caminho do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do erro, afastado da vontade do maior numero. O imperio tem povoação summamente grande; e o nosso partido a seu respeito é summamente pequeno. Não podeis negar-me, que é preciso haver desmedida ambição nos poucos, que pertendem apossar-se do que é de muitos. Não é conforme ás leis do imperio, nem ás do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua desgraça[25]. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não duvideis abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro, experimentareis pela primeira vez o meu rigor.
Os rebeldes não attenderam ás rasões de Cam-pau-sai: julgando-se superiores em força, cresceu, a sua audacia; responderam com despreso. Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em poucas horas os que não se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com elles para Macáo; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os macaenses, a verdade do que lhe havia dito.
Entrou alli a divisão rebelde em estado tão deploravel pelo estrago soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Cantão. Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se á _bocca do tygre_. Alli encontrou o mar cheio de embarcações, que tinham vindo para o levar em triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella cidade teve nessa occasião. O Suntó obsequiou Cam-pau-sai de modo, que se o imperador viesse a Cantão, não haveria mais nada a fazer-lhe para honra-lo. Dirigio á côrte tão grandes recommendações ácerca do novo Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto de velo.
Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o chefe dos piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversação: depois houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros. Emprego superior aos ministros de Estado.
Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo Chinez. Já não tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, não só para cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus conhecimentos e qualidades relevantes.[26] É provavel, que em quanto elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares da China. Tem adquerido tão grande reputação na côrte, que não só os particulares mas tambem o Imperador o tracta com singular distincção.
Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende: ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo é funesta. A estatua do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta guerra foi differente. Obrigados os macaenses por _Ladrões_ a defenderem as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do que pelo numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lançaram todos os mais ao seio da patria, nos braços de seus irmãos. Em logar de pranto de vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais á humanidade, do que á vingança: fóra do conflicto das batalhas, não houveram crueldades.
Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulação, a melhor parte das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao Senhor D. João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu projecto no Senado que de boa vontade assentio.
Já em 1642 o senado de Macáo mandára a El-Rei D. João IV, as bombardas tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. João VI, a artilheria tomada aos piratas da China, não só para mostrar-lhe a grande força do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges de Bonaparte.
A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em beneficio de seus maiores, já começavam a ver os portuguezes com a mesma indifferença, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de factos brilhantes, paraticados no espaço de cinco annos, fizeram reviver a nossa antiga reputação naquelle imperio.
[Figura]
_Nota_ (1.^a)
Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da viagem de La-Perouse, as falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, não posso deixar de as repelir. Começa dizendo não ter espressões para louvar o Governador de Macáo. A paginas 255 rompe:--De grande importancia seria Macáo a uma nação justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez, injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Macáo éra optimo, aqui o Governo Portuguez não é digno, nem justo; e o Governo Chinez, é reputado por elle o peior do mundo!
Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação a Macáo, tambem não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que segundo o juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se pela honra da nação? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos os europeos liberdade para irem á China quebrar as leis do Imperio como elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer que o Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se poderão avaliar os costumes e o caracter das nações pelo juizo de taes escriptores? A Nação Chineza é independente; não quer ter communicação com os Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo socego do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quão falsas e injustas são as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses.
_Nota_ (2.^a)
Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros, tomo por base a justiça e as suas virtudes. Jámais escreveria este opusculo, se a guerra feita aos piratas não tivesse por fundamento a defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade.
Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu louvo só os Portuguezes que em épocas mais felizes, para nós, se conduziram com valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e pela justiça, que praticava, do que pelo extremado valor.
_Nota_ (3.^a)
Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não lhe escapou de enredar os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afiançaram o bom resultado da empreza, lançou mão desses instrumentos do erro, que degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode na maior embarcação, e deu o commando della ao Capitão mais experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos.
Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos bonzos, e reputado seu chefe.
Deram passos tão agigantados na estrada da superstituição, que já não faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos os commandantes de seus Taós para irem áquelle onde se achava o pagode incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto é o que o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos.
Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos.
_Nota_ (4.^a)
Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo de Mr. Arago, dá bem a conhecer o caracter do nosso heroe.[27] Eis como elle o pinta.
--Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.[28] Dir-te-hei o modo porque fomos hospedados. Ás protestações de amisade cheias de franqueza, a maneiras honestas e frequente agrado, é difficil ajuntar mais polidez, nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade do Governador, mandou á nossa meza, com profusão, os manjares mais delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os patricios dos maiores sabios do mundo.
Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do paiz, cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do prazer.
O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua generosa affeição: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para Timor, pelo que nos deu a entender, procedeu de causas politicas.[29] Ocupou-se com desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administração é doce. Os Rajaz não são aviltados pelo despotismo como succede em Coupang. Pelo contratrio são tratados com amor.--
Já, em outras éras, menores virtudes de outro Souza foram assim cantadas.
_Le généreux Souza, qui sut domter l'amour Dans ces climats ardens oú son feu nous dévore, Et q'aprés Scipion la vertu nomme encore._
_Nota_ (5.^a)
No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidadão José Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo seguinte:
Á sombra de frondifera oliveira, Por ti, ha tanto tempo, desejada, (Graças ao creador Omnipotente.) Te vejo, cara patria[N1] reclinada. No pelago espaçoso, que te cerca, Ja não vês tremular hostis pendões[N2]. Não ouves rebombar os horisontes[N3] Com horrorosos tiros de canhões[N4]. De salitroso pó[N5] que antes servia Para ao longe mandar lethaes pelouros Se ferreos tubos hoje tu carregas[N6], É só por festejar c'os seus estouros. Centenares de Taós[N7] prenhes de tygres, Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[N8] Meninas e donzelas delicadas A teu Pai sujeitou[N9] o Eterno Ente. Teu benefico Pai, o Arriaga[N10] Estes tygres de Hyrcania domou E a frondente oliveira, que te cobre, Cortando mil obstaculos, plantou. Jámais pois riscarão da fantasia[N11] O nome deste Heroe da lusa gente: E agora, que celebras seu triumfo, De verde palma vai cingir-lhe a frente. Da victoria este emblema para ornares, Lindas flores procura designantes D'aquelles predicados appreciaveis, Neste filho de Lisia mui brilhantes. O louro girasol, que sempre segue O planeta, que os outros illumina[N12] Designa a bem notoria lealdade Do nosso Heroe á prole Bragantina. Os rubros amaranthos, que resistem Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisam A intrepida constancia nas empresas[N13], Que o nome de Arriaga immortalizam. A candida açucena, que dispende Liberalmente o corceo, de que gosa É symbolo do seu singello peito[N14], Emblema da sua alma generosa. O Lirio, que nascendo d'alta vara, Sendo rei da florida monarquia Para baixo a sublime frente inclina, Sua clemencia designa, e cortezia[N15]. Das mais virtudes symbolos procura N'outros lindos matizes dos jardins; Não te esqueças das rosas rubicundas, Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins. De ti receba agora esta corôa Bem que inferior ao seu merecimento; Em quanto outra melhor se lhe prepara No reino superior ao firmamento.
_Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo._
[N1] 1.^a A patria é a cidade de Macáo.
[N2] 2.^a As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas.
[N3] ?
[N4] 4.^a Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.
[N5] 5.^a Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Macáo em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.
[N6] 6.^a Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus contornos, a melhor parte do povo da cidade.
[N7] 7.^a Embarcações de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens, Apautai 2000.
[N8] 8.^a Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas.
[N9] 9.^a Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel de Arriaga, seu medianeiro para com o imperador da China.
[N10] 10.^a Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macáo.
[N11] 11.^a O nome de Miguel de Arriaga será lembrado não só na ilha de Macáo mas tambem no imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em seus annaes para haver delle eterna memoria.
[N12] 12.^a Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes não arrebatarem esta cidade á nação portugueza.
[N13] 13.^a Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria.
[N14] 14.^a A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles desavindos.
[N15] 15.^a Despresando difficuldades tratou sempre em Macáo os máos, com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da sua nobreza de coração e das altas e perfeitas virtudes que possuia.
Em recompensa de tão relevantes serviços o conservou El-Rei D. João VI, na ouvidoria de Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus imfortunios, e sua morte prematura.
_Nota_ (6.^a)
Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais subida era a do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capitão de artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas não são precisos gráos elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados por homens, que sabiam honrar-se com o gráo do seu nome!
Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que fizeram acções extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra os piratas, obraram cousas uteis, faria mui grosso o volume; porque muitos foram elles, e todos merecem elogio.
_Nota_ (7.^a)
Quando os governos não excitam os homens á gloria, os concidadãos tem em pouco a estimação publica. A maior parte dos homens são como o negociante avaro: se armam não é com esperança de immortalisar seu nome. Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho já sulcado; por este sabem elles não haverem novas terras para descobrir. Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a explore nem reconheça os habitantes: tome agoa e largue as velas ao seu destino sem lhe importar descobertas[30]. Já não ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens embarcam a fim de explorar a naturesa[31]. Todavia o governo de Macáo provou o muito que tinha excitado os seus concidadãos á gloria. Estes para merecela, não receberam pensões, arriscaram a vida e prestaram a fazenda. Graças aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.
SEGUNDA PARTE.
INVASÃO DAS TROPAS INGLEZAS EM MACÁO E SUA RETIRADA.
PROLOGO DA SEGUNDA PARTE.
A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer mal; não privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um o que é devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem só merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da sociedade.
A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode considerar-se o centro comum de todas as outras. Ella dá aos entes da especie humana direitos sobre o nosso coração. Sim ella tem por base a sensibilidade, e esse sentimento dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as nossas faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, a beneficencia, a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.
Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor da patria; isto é, produz a necessaria affeição nacional.
A força deve só respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e moderação. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes sociaes; as quaes tem por objecto o bem da sociedade devem ser efficazes e não inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela impostura, ou fanatismo. A sociedade só agradece acções proveitosas: só essas merecem a sua estimação e reconhecimento.
A justiça é o vinculo da união social; sustenta a balança em equilibrio entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da differença que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma desigualdade ao bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e sábia distribuição do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e chama á ordem os que são tentados a obrar contra os entes da sua especie.
Taes são as disposições que a sociedade deve exigir dos seus membros; tudo nos mostra a sua utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem por fundamento a natureza e as precisões constantes da especie humana. Faltando a justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o estado social torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. É melhor viver só do que rodeado de homens injustos.
A temprança é igualmente necessaria: a prudencia nasce da razão ou da experiencia das cousas. A razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a razão compara os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do preterito, e do futuro para não saír da meta conveniente na occasião opportuna.
Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os cidadãos, em paz e socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios internos, e das invasões externas. O Senado de Macáo firme nestes principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam esbulha-lo da sua pósse, ou perturbar o socego publico.
Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda que elles diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.
Assim firme em sua resolução, sustentou entre os Chinezes e os britanicos a seguinte correspondencia.
SEGUNDA PARTE
Assim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma intimação de Lord Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)[32] e mandou Robert, (primeiro sobrecarga da companhia) em deputação ao Governador. Robert fallou neste espirito.[33]
--Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu intento é empregar as forças do seu commando na defeza de Macáo, contra os francezes! A explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord Minto dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico assim procede.
O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do desembarque das tropas: com tudo é preciso que o Senado esteja tambem disposto a cooperar com os inglezes para a segurança desta cidade e do commercio; se o plano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o Almirante, a seu pesar; terá conducta opposta.
[Nota: Setembro 11]
É para notar o ameaço que faz o sobre carga na primeira entre vista!
É grato ao meu coração, tornou Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais em defender as possessões lusitanas: com tudo pela intima alliança dos nossos monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no desembarque das vossas tropas, sem ordem superior.
[Nota: Septembro 12.]
Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da convicção em que estais da intimidade dos nossos monarcas: sou sensivel á situação em que vos achaes: comtudo previno-vos, que pela grande distancia do logar donde podeis receber ordem superior, não a tereis tão cêdo, como é de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord Minto. Para a conclusão deste negocio desejo ter uma conferencia com vosco.
[Nota: Septembro 13.]
Não só na primeira participação, mas tambem na primeira replica teve o Senado motivo bastante para desconfiar das intenções britannicas; por tanto officiou ao Almirante pelo modo seguinte:[34]
Suppondo-vos certo da razão que me assiste para não alterar as ordens que tenho; devo lisongiarme da vossa persuasão tanto da lealdade no desempenho dos meus deveres, como da certeza em que estou da intima alliança dos nossos monarcas: assim espero que modifiqueis as instruções de Lord Minto, em quanto não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu tambem demorarei a participação das vossas intenções ao Governo Chinez: intenções de dificil compreensão a povos altivos e desconfiados.
Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a satisfação de aprender com vosco o modo de tirar a estes povos o receio, que lhe ficou em 1802, e agora renovado pela vossa pretenção.[35] O Imperio da China é o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais é preciso para sua defeza. Sendo a coacção origem de disturbios e conhecendo vós a nossa razão, espero que se houver máo resultado na vossa empreza, não o imputareis ao governo de Macáo.
[Nota: Setembro 14]
Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o Senado intimou um protesto aos sobrecargas, e disse mais: Será infalivel a complicação dos negocios britanicos, se o vosso Almirante tentar contra os ajustes feitos em 1802 pelo Senado com o Governo Chinez, para não admittir auxilio extrangeiro.
Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte nesta empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso não esperado, de continuarem as mesmas instancias para a admissão das vossas tropas nesta cidade, farei pôr em execução o que no protesto junto declaro. É repugnante o vosso procedimento contra povos fieis e amigos da Caza de Bragança desde a sua restauração. Exijo que o protesto junto com a copia desta carta seja remettido ao Almirante.