Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo

Part 3

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Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e diminuidas assim as suas forças seria obrigado a entregar-se prisioneiro: que era melhor capitular já, alcançando honra e interesse, como lhe tinha promettido e affiançado. A esta segunda instancia respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte.

Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o desejo que tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido por tão singular obsequio e estimação.

Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o sceptro do poder, e governança para todos os que me obedecem, vivo muito occupado. Não é simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por que não cumpro o vosso desejo.

Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras deste orbe: assim ficarão completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este é o fim a que me proponho. Tenho muitas embarcações, e mantimentos para longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a conhecer o meu projecto.

Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja quando vos convier.

Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um tartaro! São exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforços para restaurar o imperio. Já mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a communicar-vos, porém agora não o posso fazer. Basta o conteudo desta, para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de 1809.

Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos piratas sem fusão de sangue, começou de novo a batelos. Os nossos estavam já tão praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos não podiam entrar. Cam-pau-sai usou entreter as embarcações portuguezas com alguns Taós, em quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado.

Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a frota macaense. Pairava esta junto á ilha de Lantáo, quando entraram a levantar do oriente os piratas alinhados em divisões. Nesta occasião obrou o invicto Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam ser cantados antes, pelo nosso Diniz.

_A fiel ave, que arma vigilante O grão furor a Jove. Quando sobre os mortaes os raios chove A dextra coruscante, Tão rapida ao rebanho temeroso Não cala, a garra abrindo, das estrellas, Como o varão famoso Sobre as immensas velas Cahe de grande ira armado Treçando denodado A féra espada, e torna em seu estrago O azul oceano em roxo lago._[17]

Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peças de artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e quinhentas peças de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos, commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso Alcoforado, treçando denodado a féra espada mandou atacar. Foi sentelha electrica lançada no coração dos seus companheiros. Dirigiram-se os nossos á vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades até chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos; manobra que estes concertavam para lançar-lhes a morte por todos os lados. O fumo mal lhes dixava vêr as embarcações portuguezas, cercadas pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro levavam á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus mesmos companheiros. Todos os Commandantes portuguezes adqueriram fama neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos do que outros. O navio commandado por _Luiz Carlos de Miranda_, na maior força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda, vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou não saír com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperação (ultimo sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:--Creio não haver entre nós quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe destina: assim faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem, fez tão grande estrago no inimigo, que já este não tinha animo para acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o navio do escôlho.

O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Taó do pagode.[Nota 3^a] Logo que assomou o deposito do erro, virou sobre elle; e emquanto não o lançou no abismo, não descançou. O templo, os bonzos, os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa lançou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos seus deuses espedaçados, e levados, á discrição das aguas, tirou-lhes de todo o animo: apenas ousaram largar as velas todas, e por entre syrtes foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos vazos não podiam entrar.

Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua confusão na fugida. Cam-pau-sai medío então as forças macaenses ainda mais pelo valor, do que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incançaveis na destruição do inimigo, não deixaram de perseguilo até á bocca do rio. Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só o deixou saír para entregar-se.

Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condições éra de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de capitulação; e que só trataria com os imperiaes, estando elle presente. Logo que o Governo de Macáo recebeu esta participação do chefe Alcoforado, remetteo-a ao Suntó, e este dirigio-a ao Imperador.

Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz á memoria do generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a Macáo, um novo _Ouvidor_, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o Governo de Macáo, não poderem entrar naquella negociação com o Ouvidor novo, mas sim com o antigo; já por saber este melhor daquelle negocio, já porque só com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os macaenses desejavam o mesmo; pois éra publica a grande reputação, que Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e é só em táes occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto começou no exercicio das suas funções: mas o famoso Arriaga continuou a tractar deste importante negocio.

Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a capitulação com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Macáo, e tractar alli da sua capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas forças respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer o que então recusou, pedio ao nosso Alcoforado a mercê de honralo com uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente.

Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata. Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcações, communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia tomado. Todos acordaram com os Officiaes do seu navio, menos elle, que fallou da maneira seguinte.--Grande é meu contentamento por ver o empenho, que fazeis para não me arriscar nesta visita; seja por estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mim algum prestimo. Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, quanto mais firme se torna a minha resolução: já porque recusando este convite ficará mui cerceada a nossa reputação já porque seria o primeiro signal de fraqueza da esquadra Macaense: se for traída a minha boa fé, tereis novo incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração socegado e alma firme, tremerá de vós--Todos o escutavam com attenção: e ás ultimas palavras cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela honra da Patria, e pela humanidade, só a ella pertencia, naquella occasião. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou a primeira embarcação da vanguada[Nota 4^a]:

_Sonorosas trombetas incitavam Os animos alegres resonando: Dos_ Chinas _os bateis o mar coalhavam, Os toldos pelas aguas arrojando. As bombardas horrisonas bramavam Com as nuves de fumo o sol toldando._[18]

Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao portaló, e o conduzio pela mão á camara. Alli trocáram as mais apuradas civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe, não achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com demonstrações proprias de captivar o offerente pelas cadêas da amizade. Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser então o seu maior empenho não o ter por inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes.

Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de saír do bloqueio com as embarcações mais veleiras, para onde não podessemos incommodalo; porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto conceito, e a quem de boa vontade se rendia.

Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em não depender só delle a capitulação para em tudo a fazer a contento de Cam-pau-sai. Disse mais:--como chefe da esquadra macaense, tenho ordem para destruir a vossa, se tentardes saír daqui: e serei obrigado a fazelo por ser usança portugueza romper as linhas da amizade, quando assim o urgem as precisões do estado. Espero de vós não ter occasião para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado, levantou-se:

Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso V;[19] ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da separação destes guerreiros; não querendo ceder um ao outro a primasia em affectos delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio para a sua frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros subiram ás vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras.

Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se em Macáo; no ponto, onde se faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de Alvarenga, governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia só de ouvir fallar das façanhas portuguezas[20]. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este importante negocio fóra de Macáo.

Avisou os mondarins, _Chu_, e _Pom_, que viessem ao pagode[21]: ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte, e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distincção.

Já o congresso deliberava sobre a capitulação, quando chegou de Macáo a relação do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia do atrevido Alcoforado não só penhorou Cam-pau-sai, mas tambem os mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades.

Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a José Pinto Alcoforado, pelo governador de Macáo: homem pouco experiente dos costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver desintelligencia: ordenou á sua frota, que amainasse e surgisse. Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se Arriaga a Macáo para animalo, e os delegados do imperador tomaram a resolução de ir á esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha tractado com o ministro.

Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcação dois chinezes de cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não compromettesse a palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado, que o deixasse saír; que a inexperiencia do governador, não devia embaraçar a execução dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga.

Alcoforado respondeu:--aprecío muito a honra, que me fazeis--e desejo, ainda mais, ser-vos util: porém as leis militares entre nós executam-se sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga, se tentar saír, em quanto não houver outra em contrario, não posso deixar de fazelo.

Os mandarins tornaram-lhe:--Homem recto e valoroso, conhecemos os serviços que tens feito ao imperio, e á tua nação: não offusques essa gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas. Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: não o irrites. Grande parte da provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que é povoada de homens marcantes, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra para obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai não desconfiar da nossa palavra.--Nesta occasião chegou a ordem de Macáo, por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir Cam-pau-sai para Chumpin. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram satisfeitos para o logar do congresso, onde já acharam o nosso Arriaga. Mandou-se nova ordem a Cam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar aprazado.

Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulação. Promptamente chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira.

Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulação, para entrar na classe dos Coláos, como mo promettestes pelo imperador. Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca destruidora do meu poder. Já vos vi: estou satisfeito. Devo muito á natureza, e á minha assidua applicação; mas em tudo me acho vencido por vós.--E virando-se para os mandarins:--Tendes por experiencia de 14 annos, quão poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em vossa presença: espero que me trateis como a homem livre, e destemido--E tomou assento.

Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar alguns dos seus, que fossem mais criminosos.--Para satisfazer a esse requisito, darei os nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas cabeças as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.--Sendo este o unico embaraço que havia, concluio-se o negocio.

Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 embarcações, que antes de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se.

Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia repartir a preza; visto são ser o artigo 1.^o da convenção preenchido pelo Governo Chinez; e ter só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a capitular.

Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quão valoroso e sensivel éra o seu coração; mas então quiz mostrar-lhe quanto éra liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a melhor parte das bombardas: tudo o mais deixou á disposição do Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes; elle Coláo do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas pelo tempo.

Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro Arriaga:--Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Macáo, se me concederes licença, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores--O Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus membros cheios de alegria e admiração: Arriaga, da inexplicavel civilidade e sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! Cam-pau-sai, da pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! de Cam-pau-sai, e de Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos.

Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes macaenses, que éra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varão tinha para elles a mesma consideração, que o Capitolio para os romanos. Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de D. João de Castro em Goa. Mas os corações de todos os habitantes de Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto nem sentido.[Nota 5^a]

Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer entregar-se a divisão rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da palavra dada no acto da capitulação. Respondeu:--Rebellada a divisão a primeira vez contra a minha ordem não devo mandar-lhe outra. Tenho recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcações das que foram minhas, deixai-mas tripolar com os que já me obedeceram; e se não trouxer os rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis desconfiar da minha palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor.

O Suntó: apezar das demonstrações de firmesa e honrada conducta de Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcações, e bem equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de Cam-pau-sai. Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em pouco tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela divisão rebelde. Chegando esta noticia a Cantão, o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro Arriaga, o que deveria fazer ácerca do offerecimento de Cam-pau-sai.--Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha aceitado os serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de honralo, e de utilisar ao imperio.--

O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta embarcações, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Cantão deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo prompto para recebelo. Em dia assignalado foram os commandantes da nossa esquadra[Nota 6^a] com os bons moradores da cidade a caza do Ministro Arriaga. Ainda bem o não tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de Cam-pau-sai. Foi conduzido á Sala. Acabadas as civilidades requintadas, segundo o costume Chinez disse:--Deus immortal, estão completos os meus ultimos desejos, vendo e abraçando heroes tão sublimados--Brilhava o jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presença.--Acha-se neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo conhecelo--Aqui me tendes respondeu o _Caroxa_. Cam-pau-sai caminhou para elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro disse:--Este homem fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vós, ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como venço a outra gente.

--Tenho conhecido em vossas acções, disse Arriaga, que sois varão assignalado. Agradeço-vos por todos o alto conceito, que de nós fazeis: affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á ordem dos Coláos, onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida pela restauração da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as acções que lhes vistes praticar:[Nota 7^a]

_E julgareis qual é mais excellente, Se ser do mundo rei, se de tal gente._[22]

Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são as unicas linhas, que prendem os homens á terra onde habitam, e ao rei; senão ha amor de patria, onde não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. João VI. Paga o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppôr barreiras fortes, e dar remedio ás paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas proprias paixões.[23]

_Do vosso nome um grão Rei Neste reino Lusitano Se poz esta mesma lei: Que diz o seu Pelicano Pela lei, e pela grei_[24]

Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, foi surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro Arriaga: mas foi obrigado a saír de Macáo para em breve desempenhar a sua commissão. Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:

_Procclamão_.