Part 2
Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o commercio maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde passava. Sendo a Cidade de Cantão a mais rica e a mais commerciante, quiz embaraçar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postar suas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da China com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa.
Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de immensa força inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes; mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da artilheria das nossas fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que todos os dias entram na Cidade.
Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em que se lançou a quilha no Estaleiro, até sair da barra fóra, só mediaram vinte e oito dias! Quando chegou a Macáo estavam os piratas tam destemidos, que o Governo julgou ser insufficiente tão pequena força, para os afastar da Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta.
Assim que estas duas embarcações começaram a bater os piratas, estes não ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio; porque os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque; mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrança de o acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos separados, e em parte onde não se podessem soccorrer; no entanto iam devastando a provincia de Cantão.
Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posição para atacalo. Mandou uma divisão commandada por um de seus Capitães mais experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o valente e destemido _Pereira Barreto_. Já nesse tempo havia adquirido tam grande credito entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do mar.[5] O impavido _Barreto_ tinha valor para investir com toda a esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divisões. Assim que a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo tão vivo, e estrago tão grande, que todos fugiram deixando a Capitanía ás mãos com o brigue. Vendo o forte _Barreto_, que a artilheria inimiga éra de maior calibre, resolveu abordar o Taó[6]. Deve imaginar-se uma grande lancha dando abordagem a uma Náo. Assim parecia o brigue junto ao Taó, e apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte _Barreto_ dirige a sua embarcação á pôpa do Taó. Quando se lhe botavam os arpéos lançaram os piratas uma balça de fogo dentro da prôa do brigue, que decerto o abrazaria, se o previdente _Barreto_ não corresse a lançala ao mar. A este tempo unem se as embarcações; _Barreto_ é o primeiro que trépa pelo Taó acima, e tão depressa pôde firmar os pés sobre a tolda inimiga, cantou victoria:
_Saltando a fará só com lança e espada De quatro centos mouros despejada_[7]
_Barreto_ usava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe tão porfiada resistencia, que todos foram mortos porém nenhum vencido, ou aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado, lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu á camara, pegou em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabeça com o alfange, e sepultou-se no mar com ella.[8]
Este combate foi dado perto de Macáo; _Barreto_ conduzio immediatamente a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o parabem a tão valente Capitão, e ver o navio inimigo. Ficaram horrorisados da carnagem, porque os piratas só se rendiam com a morte. Haviam seculos, que já se não faziam d'estas proezas; e até nos parecia impossivel, que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida fosse bastante para debellar em uma Náo da Méca quatro centos mouros. Mas ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez só com seu braço é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300 Chinezes.
Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada pelos habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias nações. Já o nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo é que tão divino estro sirva para immortalisar os dois.
_Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoria Com argivo buril padrão sagrado: Morda-se o tempo irado, Que ella eterna fará a clara historia Alma que atraz da fama immenso espaço Corre, veja em meus hymnos Que em vão não sua bellicoso braço._[9]
Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. Os piratas retiraram-se para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiam vencer. A esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de Cantão e aproximar-se de Macáo, cruzeiro que ella já não ousava fazer com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto _Barreto_ fez desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas embarcações.
Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado Portugal para reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei dos Lusos nas suas possessões do polo antarctico. Apromptaram o navio Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidadão Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcação ao denodado _Barreto_. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas viagens, eram recebidos pelos antigos reis portuguezes. O Sr. D. João VI o elevou de primeiro Tenente a Capitão de Fragata: Premiou os macaenses: deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por bons costumes.
Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, não esfriou em sua empreza. Começou então a proclamar a todos os do seu partido a tyrannica oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quão facil éra depôr aquella, restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio. Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que já os seus não duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria.
Andavam assim de animo affeito á guerra, quando tiveram a feliz noticia, de já não existir em Macáo o _tygre do mar_. Voaram como bando de Açores famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de Macáo. Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro, cruzava afoito na bocca do Tyre. Assim que foi descoberto por Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de 15 a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe frente, ficou prisioneira. Soberbo com essa victoria, começou de novo a investir as embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas.
Recolhendo-se de Goa o brigue do _Botelho_, Capitão Manoel José Vianna, foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam tão grande resistencia naquelle esforçado Capitão, que restando apenas seis homens da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o fogo abrandou, pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, tomou em sua alma o espirito de Duarte Pacheco; e á imitação dos nossos _Barretos_, quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcação, tantos a sua espada lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já não o julgavam homem, mas sim algum ente superior á especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo morreu no combate. Mas como? Cançado de matar piratas.
_Cem paráos torreados, Donde por boccas mil brota Mavorte; Entre horrorosos brados_
_Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam._[10]
Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de Macáo. A sensação que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade é inexplicavel. Juraram não só retomar a sua embarcação, mas tambem dar aos piratas o castigo merecido. Os navios que então se achavam no porto capazes de tal empreza, eram o brigue do _Senado_, e o navio Belisario. O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario.
Seriam nove horas da manhã, quando se avistou o navio apresado; e antes de anoitecer já os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi possivel obrar tanto em tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este digno Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, não se limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as forças sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braços dar exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na promptificação dos navios.
Era este varão entre os macaenses bem similhante á alma dos estoicos, espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso eloquencia extremada e presencear todos os seus illustres feitos, para elogiar as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso não é possivel apparecerem tão brilhantes como foram praticados.
Por não haver então em Macáo Official de mar, que se julgasse dextro na politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em chefe ao Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa. Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capitão Lusitano, que aportou naquelle imperio.[Nota 2^a] Theotonio da Silva Braga, commandava o navio Belisario. Caío tão grande tufão na noite seguinte ao dia em que saíram os navios, que se julgava telos submergido.
Ao amanhecer subirão os montes, sobranceiros á cidade, anciosos por ver seus campeões; avistaram o brigue do _Botelho_, que tendo surgido em Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande pericia de seus officiaes tinha escapado á furia do tufão.
Havia tambem uma lorcha armada em guerra[11] commandada por Antonio José Gonçalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil desempenho; por ser a embarcação conductora dos viveres para os nossos, levados por entre os inimigos em frequentes combates. A força da lorcha constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de tripulação. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios, quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas.
Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo os nossos, para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o novo _Aquilles Lusitano_ chegou ao passo, que bem pode nomear-se Cabalão[12]. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o desempenho da sua commissão, tentou abrir caminho. Ainda que a sua tripolação era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso bastava.
Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou mãos ao obuz, e como o reparo era de pião, jogava para todos os lados. Aos que se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver a maior parte da tripolação morta, não esfriava no empenho de vencer. Não usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia desembaraçar o passo. Mas os restantes da tripolação vendo passar-lhe as ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus companheiros; por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram lançar-se a elle, e amarralo de pés e mãos. Segurando assim o homem, que lhes parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram cheios de espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito que apreciavam a existencia do seu commandante.
Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimação digna dos importantes serviços, que lhes fazia, e do valor com que se immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. Tinha maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a todos cobiça de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasião um abraço dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste Lusitano de modo, que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas.
Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade é livre: e os homens serão livres em toda a parte, que houver governo justo como era então o de Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as vantagens, grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las. Não só deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade; bem precioso ao homem, e necessario á sua ventura; tão distante da licença perigosa, como da humiliação servil. O governo providente apenas liga as mãos aos homens para não se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia não só deslumbra os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a liberdade melhoram o coração e os faz virtuosos e resolutos.
Arriaga sabia que a justa destribuição dos premios e das penas é a melhor acção do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas do coração humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o interesse particular a promover o interesse publico. O certo é que a virtude desapparece, quando o vicio é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu que os favores dados á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; e as recompensas dadas a quem bem serve a patria são dividas, que o governo paga por ella. Fui testimunha das bençãos, que lhe lançavam os macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.--Fazia do merecimento dos homens estimação tão justa, que nem á conveniencia, nem ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos ministros rara[13].
Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do serviço portuguez. Tomou nova tripolação e continuou a destruir os piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias fez para o tomar.
Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do inimigo. Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes de Wam-poo, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles. Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores navios: mas o fogo violento das nossas embarcações fazia-lhe tal estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem uns não se tinham retirado, já outros tomavam o logar vago. Não sendo o Belisario construido para guerra tão violenta, abrio com o impulso da artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito Alcoforado não podendo vencer força tão superior tambem se retirou, mas deixou em cinzas muitas embarcações inimigas.
É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de seus moradores, e vexação dos macaenses. É evidente, que o conquistador, não é só inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da justiça.[14]
Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar quão forte éra o inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios portuguezes.
Apezar da perda que sofreu, ficou mais altivo, e mais assolador. Exaltou o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Cantão partidos de descontentes. O Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, tratou com o Governo de Macáo para reforçar a esquadra portugueza, e junta com a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham feito em guerra tão dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes, por ser a empreza mui dispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de Cantão, e fez-se a convenção seguinte:[15]
O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:
1.^o Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.
2.^o O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.
3.^o O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.
4.^o Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.
5.^o As presas seram repartidas entre os dois Governos.
6.^o Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.
7.^o As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Macáo 23 de Novembro de 1809.
Shou-Key-chi.--Arriaga.
Pom.--Chu--Barros.
O governo de Macáo observou logo o 3.^o artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o seu credito: então era valor de sobejo para os negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam[16].
Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não suprissem os prodigios obrados pela gente portugueza.
_.....Tornando frio De espanto o ardor immenso do oriente, Que verá tanto obrar tão pouca gente._
Mojatecão, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu, exclamou:--São dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do mundo está em serem poucos.--Em verdade com cem portuguezes, e sete centos manillas e cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias depois da convenção) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto José da Silva o Indiano, Antonio José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado, José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José Alves o Belisario. Nesse mesmo dia attacáram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais longe de Macáo.
O governo de Cantão, não foi activo como o dos macaenses; além disso a esquadra chineza nem uma só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam acommettelo. O governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só o grande poder de Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse á obediencia do imperador, promettendo-lhe perdão, e gráo superior na classe mandarina.
Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que viesse a Macáo para tractarem de convenção amigavel: declarando-lhe, que se não conviesse com elle, poria em acção todos os recursos da guerra, e não descançaria sem exterminalo.
Campau-sai, respondeu:--Tenho presente a vossa carta: não me assusta. Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que não entendam comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jámais o farei, ainda que me assegureis e digais o que quizerdes. Sô não terei duvida no que tenho acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Macáo, e mandai-mo dizer para não entender com os vasos portuguezes. Esta resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi moderada em razão de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do mesmo mez.
Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou com os principaes da sua divisão: rendeu-se com cento e trinta embarcações bem equipadas de homens e de armas.
Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas relações de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo, que nenhuma desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.