Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo

Part 1

Chapter 13,720 wordsPublic domain

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Rita Farinha (Maio 2011)

MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES CONTRA OS PIRATAS DA CHINA: E DA ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES NA CIDADE DE MACÁO:

AUCTOR

_JOSÉ IGNACIO ANDRADE_.

SEGUNDA EDIÇÃO.

[Figura]

LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835. Largo de S. Roque N. 12 _A C. Dias_.

_Rien ne peut arretêr dans leurs projets nouveaux Ces Portugais ardens qui volent sur les eaux, O' com bien de héros guiderent leur audace! Que de faits immortels ont signalé leur trace!_

Esmenarde, C. V. pg. 26.

PROEMIO.

Quanto é arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que ainda vivem! Não só os seus inimigos, mas tambem os feridos do orgulho, ou da inveja, saírão a vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais prudente calar as grandes acções dos heroes em sua vida. Mas porque se ha de recusar este premio ás pessoas, que o ganharam a risco da vida e fazenda?[1] Por se temer a mordacidade dos _zoilos_? Eis a fraqueza, que não tenho. Transmittindo a verdade aos vindouros, e dizendo o que fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se fôr censurado por alguns, louvarão outros o meu zelo.

INTRODUCÇÃO.

De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo nenhum mais admiravel do que a navegação. Entes fracos e mortaes filhos da terra ousaram transportar-se sobre elemento inestavel e perigoso, levantar edificios em cima das aguas, dominar os ventos, e voar ás extremidades do mundo por baixo de Ceos desconhecidos.

Mas qual é a sorte do homem? Dotado de coração tão perverso, quanto o espirito é grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De todas as invenções sublimes tem os homens abusado. Dos vegetaes extraíram venenos: do ouro a moeda que tudo corrompe. As artes serviram-lhe para multiplicarem os meios de se destruirem. A navegação é, sobre tudo, origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas foram ensanguentadas pela guerra.

As duas partes do globo oriente, e occidente, terra e mar, são igualmente o theatro das desgraças e crimes do homem: com a differença, que dilatando as vistas e passos ao longo do continente, descobrimos ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e ermos incultos; porém o mar sendo tumulo de grande parte da humanidade, nenhum vestigio offerece de tantos estragos. Todos os dias passa o navegador com despejo por cima das ondas, que tem engolido milhares de homens.

Quem não desejará voltar aos tempos felizes de ignorancia e parcimonia, em que nossos avós menos grandes, porém menos criminosos, sem industria, mas sem remorsos, viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os tinham visto nascer.[2]

Á custa das vidas portuguezas formaram os nossos antepassados um estabelecimento na China: os nossos contemporaneos foram de novo obrigados a ensanguentar as ondas para submetter Cam-pau-sai ás leis do imperio; e a usar prudencia consummada além do valor, a fim de livrar Macáo da invasão britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para adquirir prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella para despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da republica, nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo os homens foram sempre, não crêm nunca feitos, quem sahêm álém do seu engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de trivial esforço, e usada industria.==Todavia os feitos exarados nesta memoria jámais serão desmentidos; e podem despertar virtudes.

A China por nós ha muito tempo ignorada, depois inteiramente desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da Europa, é o imperio mais antigo, extenso, e florecente do globo. Pelo ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os seus habitantes em duzentos milhões de almas. O rendimento annual sobe a quinhentos milhões de cruzados. Sustenta oitocentos mil soldados, e trezentos mil cavallos, que emprega nas armas, e correios publicos.

Ha tempo immemoriavel são os imperadores tambem pontifices do imperio; para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem em conflicto. Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um campo lavrado, todos os annos em dia solemne, por suas proprias mãos. Alento exemplar á agricultura, primeira base da independencia e prosperidade nacional.

Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os bonzos de todas as religiões, e deixam-os espalhar os seus desvarios: mas se chegam a amutinar o povo, são logo enforcados. Assim os toleram e os reprimem. O imperador Cham-hi mandou gravar no frontispicio da sua capella:==O Chang-ti não tem principio nem fim: creou e governa tudo: é summamente bom e justo.==

Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador tem uma só mulher legitima, mas póde segundo as leis do Imperio ter grande numero de amasias. A sorte destas é triste, por viverem encerradas. Pagam com a privação em que vivem da sociedade, a honra de satisfazer ao imperante, a qual devem á formosura, e não ao nascimento, que os Chinezes desapreciam, quando não é accompanhado da virtude.

Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados no imperio do que os militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a côrte. O coláo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para todos os empregos superiores, e os manda punir se não cumprem com o seu dever; o segundo cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; o terceiro é o Ministro da Justiça; o quarto administra a fazenda; o quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando é preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas.

Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado. Além disso tem censores publicos de officio. Em cada uma provincia ha um Suntó (delegado imperial) com tres mandarins letrados debaixo das suas ordens. O primeiro conhece das causas civis e criminaes; o segundo recebe os tributos; o terceiro mantém a segurança publica. Para chegar a ser mandarim é preciso passar por tres gráos, como os nossos de Bacharel, Licenciado, e Doutor: destes são tirados os coláos.

O governo não é despotico como se pensa. Os mandarins oppõem-se aos seus decretos, quando são contrarios ás leis do Estado. Querendo certo Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo seguinte:--Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, mas devo preferir a morte á perda da honra: não posso deixar de vos advertir, que o máo exemplo dado por vós ao Imperio nos lança a todos no abysmo.--O Imperador foi generoso para não se agravar, mas não o foi para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião para lhe mostrar serem dos sentimentos do primeiro.

Não tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do Estado devem ser chamados á successão do Imperio os bastardos, preferindo sempre o primogenito. O Imperador tinha grande affeição a um dos outros: pretendeu que o reconhecessem, com perjuizo do mais velho. Os mandarins representaram ao Imperador a injustiça que pretendia fazer: este por isso privou alguns dos empregos. Aquelles publicaram um aviso dirigido a todos os mandarins anexos á côrte para se acharem um dia aprazado no logar ordinario. Ahi decidiram em junta que visto o Imperador desprezar as leis do Estado, deviam elles desistir dos seus empregos e ir para suas casas viver como particulares: assim o executaram.

O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim obedeceram todos á lei. Os mandarins ganharam nesta occasião honra por sua firmeza, e o Imperador por sua prudencia.

O tribunal da historia, para tudo ser conforme, é surdo ás supplicas, ou ameaços dos imperantes. Na sala do tribunal ha um cofre, onde cada historiador lança suas memorias sem as communicar a pessoa alguma. No fim de cada reinado abre-se o deposito, e dos escriptos alli achados formam os annaes do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal basta o caso seguinte:

Tai-te-song, Imperador da dynastia de Tang, rogou ao presidente do tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se consentissimos no que exigis--O Imperador tornou:--Pois vós que me sois tão obrigado, pretendeis levar á posteridade os meus defeitos?--Com summa dôr os escreverei, mas é tal o dever do meu emprego, que me obriga a levar á posteridade a pretenção, que hoje tivestes de mim.--

Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais premeiam a virtude. A noticia de uma acção generosa, de uma virtude extremada, assim que se divulga em qualquer provincia, é obrigado o mandarim de policia a participala ao Imperador: este manda logo áquelle subdito um signal, que o distingue no caminho da virtude.

O certo é, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da sua legislação: esse conhecimento deu talvez motivo a esta boa lei dos Chinezes.--Para fecundar o germen da virtude, os mandarins participam da gloria, ou da vergonha das acções virtuosas ou injustas commettidas em seu governo.

A moral, a obediencia ás leis, e o culto ao ente supremo, formam a religião do Estado. O Imperador não é só pontifice, mas tambem o primeiro orador do Imperio. Seus decretos são quasi sempre lições de moral. Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de governo, as mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das letras.

Com tudo o povo é idolatra; os letrados deistas, sem acreditarem em revelação alguma, nem na vida eterna. Dados ao estudo das leis, desprezam por ellas os dogmas e ritos de seus bonzos. Em verdade estes são ignorantes, supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A maior parte dos Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio.

Lembra-te que és homem, a tua natureza é fraca, podes succumbir. Afasta de ti os obstaculos que te embaracem o caminho da virtude.

O homem bom occupa-se de suas virtudes: o máo de suas riquezas. Aquelle trata do interesse da patria: este só no seu cuida.

Faze aos outros o que desejas te façam: eis a unica lei que te é precisa.

O silencio é indispensavel ao sabio; este despreza sempre os rasgos da eloquencia por inuteis; explica-se por suas acções. O ceo falla, mas por que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as cousas? O seu movimento é a sua linguagem: creou e deu impulso á natureza, e esta como filha sua obedece-lhe e produz.

Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida.

O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica.

Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita idéa da moral Chineza.

Por morte de Afonso de Albuquerque, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarcações commandadas por Fernão Peres de Andrade, levar ao Imperador dos Chinezes o Embaixador Thomé Pires, como El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado.

Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte.

Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.

_Do meu arco possante Hoje o famoso Andrade Alvo será: seu nome triunfante No porto surgirá da Eternidade._[3]

Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros.

Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a memoria do immoral Simão, para serem outra vez recebidos em seus portos.

Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; mas fizeram delle uma cidade a que deram o nome da ilha.

Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do pirata Chang-Silau.

Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo.

Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos foros se confirmaram em 1709.

Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.

Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a ambição dos inglezes.

De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado, que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella cidade. Com esses governadores teve prosperidade.

Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas dos cidadãos. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a fim de se verem livres de tão horrendo monstro.

Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV: os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e mandaram grande donativo á capital do Rei legitimo.

Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em suas prepotencias.

Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada.

Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto de perder-se.

Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de nossas victorias, é situada na latitude de 22-1/4 gráos ao Nórte do Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossos periecios; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco mais de uma legua. Do lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.^a da Guia, fora dos muros da cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas. Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil individuos, a maior parte Chinezes. O Governo é o Senado composto de dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.

Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para entrar e sair.

Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo:--Tributamos tão grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu costume; e presamos tanto a V. S.^a, que para não o ferir a vara da Justiça mandamo-la segurar.

Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos são os direitos da Alfandega.

As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.[4] Apenas dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão dignos eram de memoria eterna.

Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam[Nota 1^a]. Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta época mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores? Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós. Julgo de obrigação referilas a nossos nétos.

Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande consideração naquelle imperio.

Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadra ingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de 1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do final resultado.

Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu não tenho os mesmos talentos, e tenho juizes não menos temiveis. Mas em objecto desta natureza a eloquencia consiste em ser sincero.

PRIMEIRA PARTE.

Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria anniquilavam as aguias do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram seu numero e força de modo, que em 1805 estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira e mais possante coube ao celebre _Apócha_, que depois se chamou _Cam-pau-sai_, e onde sempre residio a viuva. _Apau-tai_ foi commandar a segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta.