Memorandum ácerca das expedições realizadas na Zambesia septentrional durante os annos de 1885 a 1891

Part 2

Chapter 21,747 wordsPublic domain

Quiz tambem verificar a navigabilidade do Aroangoa Grande, para o que desci o seu curso desde a aringa de Chipore até á povoação de Chamboméla, n'uma extensão de 70 kilometros, achando sempre uma profundidade de agua de 2 a 4 metros; mas soube que era navegavel muito mais para montante, pois encontrei duas embarcações de caçadores do Zumbo, que desciam da embocadura do Locusi. Podemos pois contar com a completa navigabilidade do grande rio, para lanchas de pouco calado de agua, até ao Locusi, por isso que os rapidos que ficam perto da embocadura do Lussemfoa têem sido já transpostos, mesmo na estação secca.

Estavam terminados os trabalhos que eu podia realisar nas condições em que o tratado de 20 de agosto collocára a expedição; resolvi pois voltar ao Mpesene para me despedir d'aquelle chefe, assegurando-o do meu futuro regresso ás suas terras, e retirei para Tete acompanhado pelo sr. tenente Solla.

Deixei, porém, os meus caçadores nas terras do chefe zulo, sob o commando de um dos seus capitães; e o estabelecimento ficou sem alteração, confiado á guarda do regulo, que durante tantos annos me tem dado constantes provas da sua inalteravel fidelidade.

Procurarei agora resumir em breves palavras a enumeração dos resultados praticos alcançados, tanto por mim, antes de me ser confiada a missão official com que o governador geral de Moçambique me honrou, como pela propria expedição de que eu fui chefe.

1.º Tornaram-se conhecidos vastissimos terrenos que eram completamente ignorados e nem mesmo se achavam representados nas cartas mais modernas; taes são os que marginam o Aroangoa entre a embocadura do Lucusi (por 12°,40' de latitude sul) e as proximidades da foz do Lussemfoa (perto de 15° de latitude sul), e para alem a noroeste até aos montes Muchinga.

Áquem do Aroangoa estenderam-se as explorações para norte e nordeste até ao monte Casengo, terras do Muassa, por 13° latitude sul, e já na vertente do Nyassa.

Póde dizer-se que nos terrenos limitados pelo Aroangoa, o parallelo de 12°,30', e a linha divisoria que separa as aguas do Nyassa e Chire das do Zambeze, apenas a expedição deixou de visitar a Macanga e alguns dos terrenos marginaes d'este ultimo rio, que, por serem prazos da corôa demasiadamente conhecidos, não exigiam nova exploração.

2.º N'esta vastissima extensão de territorio reconheceram e acceitaram a influencia portugueza todos os grandes chefes; quer sejam zulus, como Mpesene; maraves, como Muassa, Chanquaniquire e Undi; sengas, como Chirupe, Lundo, Sopa e Massengo; ocundas, como Sandué e Marrama; uizas, como Chipore, Pandica, Iumba e Cacumbe; e vambomgumias, como Saïd-Niendûa e Chamboméla. Numerosos documentos, tratados de soberania, ou simples contratos de concessão, attestam a natureza das relações estabelecidas; d'elles foram em tempo opportuno enviadas copias ao governador de Moçambique e de certo tambem ao ministerio da marinha e ultramar.

3.º Nem só esses documentos attestam a influencia e prestigio que o nome portuguez adquiriu recentemente na Zambezia septentrional; podem servir-lhe de contraprova numerosas cartas que recebi e conservo em meu poder, com valiosos offerecimentos, para o caso em que eu quizesse usar da influencia adquirida sobre os regulos em beneficio, quer da _African Lakes Company_, hoje absorvida pela _South Africa_, quer de uma empreza rival, embora da mesma nacionalidade, a _Central African Company_.

4.º Lograram os trabalhos da expedição evitar que diversas expedições inglezas, dirigidas por Alfred Sharpe e Thomson, conseguissem attrahir aos seus interesses tanto o chefe zulu Mpesene, como o marave Muassa; pois tanto um como o outro provaram reconhecer o dominio portuguez, fazendo tratados e enviando embaixadas a Tete. O mesmo succedeu nas margens do Aroangoa.

Era tão evidente o prestigio portuguez n'aquellas regiões que os mais insuspeitos testemunhos o attestam, do que tenho em meu poder documentos inequivocos.

5.º Talvez ainda não fosse impossivel alcançar do governo britannico uma rectificação de fronteiras ao norte do Zambeze, de modo que ficassem para Portugal os territorios onde esta nação exerce tanta influencia, e onde só com gravissimas difficuldades poderá estabelecer-se a companhia cujos interesses a Inglaterra protege. Seria este mais um resultado altamente proficuo da expedição que dirigi, e não duvido de que elle podesse alcançar-se agora, que já se conhecem na Europa as circumstancias em que se encontra a Zambezia septentrional.

6.º Não deixou tambem a expedição de ter consequencias politicas immediatas, pois conseguiu que o Mpesene cessasse as suas incursões continuadas no paiz Marave, e alcançou d'aquelle, como dos outros chefes, a formal promessa de que protegeriam os subditos portuguezes, que, só nas terras do Mpesene, attingem um numero superior a 2:000.

7.º No terreno commercial obteve a expedição que algumas caravanas arabes viessem vender o seu marfim a Tete (talvez no valor de 18:000$000 réis até á minha partida), em vez de atravessarem o lago Nyassa e o irem levar a Zanzibar; e não será difficil continuar a dirigil-as por aquelle novo caminho, se for possivel conserval-o aberto, e sobretudo se se melhorarem as communicações, como se prova pelo facto de ter já vindo uma caravana, sem ser acompanhada, depois que eu deixei o Mpesene.

8.º Foram novamente descobertas e visitadas as antigas minas de oiro do Missale; obtiveram-se tambem noticias das do Mano, e conseguiu-se por este modo verificar quanto são ainda valiosos os terrenos, que foram tão largamente explorados n'outras eras. Perto do Chincoco encontrou a expedição outras minas de oiro, como tambem teve noticias das de Chindundo, ao sul do Mano. D'entre estas registei nove no governo de Tete, em meu nome, ha mais de um anno porém, não me consta que fossem até hoje estabelecidos os campos de lavra respectivos. De outros metaes, de que trago amostras, tambem a expedição reconheceu existirem abundantes minas, taes são: estanho e zinco, perto do Zambeze; rubis, na terra dos sengas; e prata, tambem junto ao Zambeze; e finalmente mais uma vez viu confirmada a existencia do carvão em larguissimos tractos do terreno percorrido.

9.º Pelo que respeita aos resultados scientificos da expedição que dirigi, mencionarei em primeiro logar a carta dos territorios explorados, cujos elementos colligi e apenas esperam ordem do governo para serem aproveitados.

Sobre a historia, a lingua e os costumes dos differentes povos com quem a expedição esteve em contacto, encontram-se no seu diario numerosissimas informações, que eu procurarei reunir n'uma publicação especial logo que tiver para isso a necessaria auctorisação.

Terminarei esta curta memoria transcrevendo para aqui as palavras com que fechei a decima quinta e ultima parte do meu relatorio official; assim confirmo hoje, tendo regressado á Europa, o que escrevia ao chegar a Tete, na volta da minha ultima visita ao Mpesene:

«Ao terminar o honroso serviço que foi commettido a esta expedição, eu creio que ella, no limitado campo que lhe permittiam as suas forças, cumpriu o seu dever, esforçando-se sempre em tornar respeitada a nação que representava, e em fazer desejar as suas boas relações e o seu protectorado.

«Posso asseverar, em minha consciencia, que entre o grande Aroangoa e o Luya, uma parte do Zambeze e o parallelo de 12° latitude sul tinhamos, ao retirar, deixado a influencia portugueza estabelecida de uma tal maneira, que, se uma outra qualquer nação a quizer supplantar e estabelecer a sua, só tardiamente o conseguirá e á custa de enormes sacrificios de todo o genero.

«A expedição, porém, attingiu o seu fim não obstante os entraves, as difficuldades e a opposição que, partindo já de particulares, já mesmo de auctoridades, pareciam a cada momento embargar-lhe o passo. A minha propria qualidade de estrangeiro assustava a muitos, e vibravam esses sobre mim todos os ataques que se lhes suggeriam.

«Perdôo-lhes, porque, se lhes não faltasse instrucção, e os mais rudimentares conhecimentos da historia patria, teriam encontrado exemplos nos tempos mais gloriosos de Portugal em que estrangeiros se achavam ao seu serviço, e eram altamente considerados. Citarei antes de todos um allemão como eu Martim Behaim, o companheiro de Diogo Cão...

«No proprio exercito não é desconhecido o nome do conde de Schomberg, que se batia nas suas fileiras pela liberdade de Portugal. E, se me quizesse entregar agora a mais investigações, estou certo de que poderia mencionar nomes de outros compatriotas meus que exerceram elevados cargos nas colonias portuguezas ao tempo da sua maior florescencia.

«É com a maior magua que eu vejo perdidos todos os trabalhos, todo o zêlo e dedicacão com que esta expedição se houve para assegurar a Portugal a posse de uma tão rica e vasta região. Mas talvez ainda, se as indicações urgentes que tenho feito ultimamente e que me devem ter precedido, chegarem a tempo de em Portugal se poder insistir pela posse d'essas terras, a Inglaterra esteja hoje mais disposta a cedêl-as em vista das lições praticas que tem tido ensejo de ir ali aprender.

«No caso de Portugal conseguir tão favoravel desenlace para as suas pretensões justissimas, ha ainda a vencer o mais importante--a falta do capital.

«Exhausta de dinheiro como hoje se acha a nação pelos enormes sacrificios a que tem sido forçada, ver-se-ha de futuro na impossibilidade de dar ás colonias o impulso exigido pelo rapido caminhar da civilisação. A sua posição será difficil, vendo-as ameaçadas de ficar estacionarias, ao passo que as colonias vizinhas progridem, e expostas assim a novos perigos.

«Na minha humilissima opinião, só vejo um meio de conjurar o perigo. É fazer o que fazem os inglezes hoje em Africa e o que têem feito n'outras partes em identicas circumstancias: crear o capital preciso, sem onerar os cofres do estado, por intermedio de poderosas companhias á similhança da _East Indian Company_. É só d'essa fórma que Portugal poderá dar á provincia de Moçambique o colossal impulso de que ella agora carece, para caminhar na vanguarda do progreso colonial. A nação libertar-se-ha assim das muitas despezas com que lucta, e terá encontrado até uma importante fonte de receita.

«Póde ser que eu me engane, mas creio que só d'esta fórma se poderá luctar com vantagem.

«Oxalá que eu veja ainda dias mais prosperos para a provincia de Moçambique, e em especial para esta parte da Africa portugueza onde sempre fui bem acolhido e que, como se fosse uma segunda patria, eu tanto amo.»

Eis o que eu escrevia em Tete em 21 de maio de 1891, hoje só me resta fazer votos por que se estenda á Zambezia septentrional a rasgada e intelligente iniciativa graças á qual se concedeu a outras companhias o direito de explorar os territorios ao sul do Zambeze, que de certo não são nem mais ferteis, nem mais ricos, nem mais colonisaveis do que os percorridos pela expedição que eu tive a honra de dirigir.

Lisboa, 15 de setembro de 1891.