Marilia de Dirceo

Part 6

Chapter 6 429 words Public domain Markdown

Ah! E quem de teus laços Deve ao pezo gemer, ó mundo cego? Rotos em mil pedaços Os teus grilhões a pendurar já chego; Não mais os teus encantos me deleitem, Estes miseros restos se aproveitem.

Que differentes climas Já me finjo habitar! Os brandos ares, Que tu Zefiro, animas Que prazeres me inspirão! Dos pezares, Das magoas, do desgosto, e do tormento Aqui não sôa o tragico lamento.

Sôlto do mortal manto Cuido que o centro dos Elysios piso! Oh quanto he bella, quanto A margem deste Lago! Em fresco riso Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora, Aqui saudão a perpetua Aurora.

Adoravel sciencia, Que encheste as noites, e esgotaste os dias, Da humana intelligencia, Agora sei quam longe te desvias! Este o seio da luz, aonde tudo Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

O número, a distancia Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro: Noto a eterna constancia Do Planeta da Luz; observo o giro Da Terra, que regula a varia face Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

Certa, e firme a carreira Já marco de Saturno, Marte, ou Jove, Da esfera derradeira Contemplo a força, que os mais Orbes move; A harmonia me encanta acorde, e rara, Que de Samos o Sabio já notára.

Aqui se patentêa Dos errados systemas o conceito; E longe a minha idéa De vacilar, já firma o mais perfeito. Quem senão tu, ó Genio, sobre humano Libertar me podéra deste engano!

De Massinissa o Paço De Carthago ao Heróe tal scena pinta: Ao soberbo ameaço Da Fortuna, elle vê clara, e distincta, Qual o meu Genio me retrata agora, A bella Patria, onde o descanço mora.

He este, ó Licio, he este Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno, Aonde em paz celeste Não respira da inveja o atroz veneno: E aonde livres da infeliz mudança Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

Que doce companhia Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse O momento que hum dia Tão gostosa união nos lavra, e tece! Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas, Que enchem de gloria as immortais Moradas.

Em praticas suaves Alli as breves horas gastaremos; Nem já nos serão graves Na lembrança os trabalhos que aqui temos; Nem da pezada humanidade nossa Pena haverá, que atormentar-nos possa.

Mas tu, que dos humanos Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte; Tu, que a meta dos annos Firmas, descendo de teu mando a morte, Dilata os dias do meu Licio, em quanto, Douto me instrue, e me entertem seu canto.

FIM

End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga