# Marilia de Dirceo

## Part 5

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Oh golpes tyrannos! Oh mãos homicidas! São tiros da Morte De Amor as feridas.

De hum sonho, que pinto, Marilia conhece, Se amor, ou se morte Este alma padece.

LYRA V.

Eu não sou, minha Nize, pegureiro, Que viva de guardar alhêo gado; Nem sou pastor grosseiro Dos frios gêlos, e do Sol queimado, Que veste as pardas lãs do seu cordeiro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

A Cresso não igualo no thesouro: Mas deo-me a Sorte com que honrado viva. Não cinjo corôa d'ouro; Mas Póvos mando, e na testa altiva Verdeja a Corôa do Sagrado Louro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

Maldito seja aquelle, que só trata De contar escondido a vil riqueza! Que cego se arrebata Em buscar nos Avós a vã nobreza, Com que aos mais homens seus iguaes abata. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

As fortunas que em torno de mim vejo, Por falsos bens que enganão não reputo; Mas antes mais desejo, Não para me voltar soberbo em bruto Por vêr-me grande quando a mão te beijo. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

Pela Ninfa que jaz vertida em Louro, O grande Deos Apollo não delira? Jove mudado em Touro, E já mudado em Velha não suspira? Seguir aos Deoses nunca foi desdouro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella.

Pertendão Hanibaes honrar a Historia, E cinjão com a mão de sangue chêa Os louros da victoria. Eu revolvo os teus dons na minha idéa: Só dons que vem do Ceo são minha gloria. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

LYRA VI.

_Traducção_.

Amor que seus passos Ligeiro movia, Por mil embaraços Que hum bosque tecia.

Nos hombros me acena Com brando raminho; E logo me ordena Que siga o caminho.

Por entre a espessura Do bosque me avanço: E a traz da ventura Incauto me lanço.

Já tinha calcado Os montes mais duros: C'o peito rasgado Os rios escuros.

Eis que huma serpente A lingua vibrando, Me crava o seu dente, Me deixa espirando.

Então surprendida Da dôr que a traspassa, Minha alma ferida Aos beiços se passa.

As iras detesta Amor isto vendo, E as azas na testa Me bate dizendo:

_Tu choras, tu gemes Da Serpe tocado, E o braço não temes De hum Numen irado_?

LYRA VII.

Tu, formosa Marilia, já fizeste Com teus olhos ditosas as campinas, Do turvo Ribeirão em que nasceste: Deixa, Marilia, agora As já lavradas terras; Anda affoita romper os grossos mares, Anda encher de alegria estranhas terras. Ah! que por ti suspírão Os meus saudosos lares.

Não corres como Sapho sem ventura Em seguimento de hum cruel ingrato, Que não sede aos encantos da ternura: Segues a hum fino amante, Que a perder-te morria. Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella; Tu já foste no Sul a minha guia. Ah! deves ser no Norte Também a minha Estrella.

Verás ao Deos Neptuno socegado Aplainar co' tridente as crespas ondas; Ficar como dormindo o mar salgado. Verás, verás d' alheta Soprar o brando vento, Mover-se o léme, disrinzar-se o linho, Seguirem os Delfins o movimento, Que leva na carreira O empavezado pinho.

Verás como o Leão na prôa arfando Converte em branca espuma as negras ondas E as talha, e corta com murmurio brando. Verás, verás Marilia Da janella dourada, Que huma comprida estrada representa A linfa cristalina, que pizada Pela poupa que foge Em borbotões rebenta.

Bruto peixe verás de corpo immenso, Tornar ao torto anzol depois de o terem Pela rasgada boca ao ar suspenso: Os pequenos peixinhos Quaes passaros voarem: De toninhas verás o mar coalhado, Ora surgirem, ora mergulharem, Fingindo ao longe as ondas Que fórma o vento irado.

Verás que o grande monstro se apresenta Hum repuxo formando com as aguas, Que ao ar espalha da robusta venta. Verás em fim, Marilia, As nuvens levantadas Humas de côr azul, ou mais escuras, Outras de côr de rosa, ou prateadas Fazerem no Orizonte Mil diversas figuras.

Mal chegares á foz do claro Téjo, Apenas elle vir o teu semblante Dará no léme do baixel hum beijo. Eu lhe direi vaidoso: Não trago, não comigo Nem pedras de valor, nem montes d'ouro, Roubei as aureas Minas, e consigo Trazer para os teus cofres Este maior Thesouro.

LYRA VIII.

Em cima dos viventes fatigados As verdes dormideiras espremia, Os mentirosos sonhos me cercavão. Na vaga fantasia Ao vivo me pintavão As glorias, que disperto Meu coração pedia.

Eu vou, eu vou subindo a Náo possante Nos braços conduzindo a minha bella; Voltêa a grande roda, e a grossa amarra Se enlêa em torno della: Já ponho a prôa á barra, Já cáhe ao som do apito Ora huma, ora outra véla.

Os arvoredos já se não distinguem: A longa praia ao longe não branqueija; E já se vão sumindo os altos montes. Já não ha que se veja Nos claros Orizontes, Que não sejão vapores, Que Ceo, e mar não seja.

Parece vão correndo as negras ondas, E o pinho qual rochedo estar parado: Ergue-se a onda, vem á Náo direita E quebra no costado: O Navio se deita, E ella finge a ladeira Sahindo do outro lado.

Vejo nadarem os brilhantes peixes; Cahir do Láes a linha, que os engana: Hum dourado no anzol está pendente, Soffre morte tyranna; Entre tanto que a sente Ao tombadilho açoita A cauda, e a barbatana.

Sobre as ondas descubro huma Carroça De formosas conchinhas enfeitada; Delfins a movem, e vem Thetis nella: Na popa está parada: Nem póde a Deosa bella Tirar os brandos olhos Da minha doce amada.

Nas costas dos Golfinhos vem montados Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia Co' rouco som dos buzios retorcidos. Recrêa, sim recrêa Meus attentos ouvidos O canto sonoroso Da musica Serêa.

Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro; Descobre arrumação, e grita terra: Á murada caminha alegre a gente; Alguns entendem que erra: Pelo immovel sómente Conheço não ser nuvem, Sim o cume de alta serra.

De Mafra já descubro as grandes torres; (E que nova alegria me arrebata!) De Cascaes a muleta já vem perto, Já de abordar-nos trata: Já o piloro esperto Inda debaixo manda Soltar mezena, e gata.

Eu vou entrando na espaçosa barra: A grossa artilheria já me atrôa. Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira. Já corre pela prôa Huma amarra ligeira; E a Náo já fica surta Diante da grã Lisboa.

Agora, agora sim, agora espero Renovar da amizade antigos laços: Eu vejo ao velho Pai, que lentamente Arrasta a mim os passos: Ah como vem contente! De longe mal me avista Já vem abrindo os braços.

Dóbro os joelhos pelos pés o aperto, E manda que dos pés ao peito passe: Marilia quanto eu fiz fazer intenta; Antes que os pés lhe abrace Nos braços a sustenta; Dá-lhe de filha o nome, Beija-lhe a branca face.

Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo, Conheço não estar no claro Tejo. Abro os olhos, procuro a minha amada, E nem se quer a vejo. Venha a hora affortunada, Em que não fique em sonhos Tão ardente desejo.

_A huma despedida_.

Chegou-se o dia mais triste, Que o dia da morte fêa: Cahi do throno Dircéa, Do throno dos braços teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Impio Fado, que não pôde Os doces laços quebrar-me, Por vingança quer levar-me Distante dos olhos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Parto em fim, e vou sem vêr-te, Que neste fatal instante, Ha de ser o teu semblante Mui funesto aos olhos meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

E crês, Dircéa, que devem Vêr meus olhos penduradas Tristes lagrimas salgadas Correrem dos olhos teus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

De teus olhos engraçados, Que podérão piedosos, De tristes em venturosos Converter os dias meus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Desses teus olhos divinos, Que ternos, e socegados, Enchem de flores os prados, Enchem de luzes os Ceos? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Desses teus olhos em fim, Que domão Tigres valentes? Que nem rigidas Serpentes Resistem aos tiros seus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Da maneira que serião Em não vêr-te criminosos Em quanto forão ditosos, Agora serião réos. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Parto em fim, Dircéa bella, Rasgando os ares cinzentos; Virão nas azas dos ventos Buscar-te os suspiros meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Talvez, Dircéa adorada, Que os duros Fados me neguem A gloria de que elles cheguem Aos ternos ouvidos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

Mas se ditosos chegarem, Pois os sólto a teu respeito; Dá-lhes abrigo no peito, Junta-os c'os suspiros teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

E quando tornar a vêr-te Ajuntando rosto, a rosto, Entre os que dérmos de gosto; Restitue-me então os meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

CANÇÃO.

Dês que vi, formosa Elvira, Os teus divinos cabellos, Esses vivos olhos bellos, Que invéja dos astros são, Foi-se, Elvira, foi-se embora Toda a paz do coração. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Em quanto, Elvira, se occulta A meus olhos teu semblante, Hum minuto, hum breve instante Parece que fim não tem. Se alcanço de vêr-te a gloria, Então vôa o tempo bem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando te ris por acaso Para outro qualquer sugeito, Estala dentro do peito De ciume o coração: Se me pões os olhos julgo Que zombas de mim então. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando ha brinco na floresta, E a divina Olaia canta, O mesmo gado levanta A cabeça para ouvir. Só por mais que Alceo forceje Não póde o prazer fingir. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando levo á clara fonte O rebanho do meu gado, Cáhe-me da mão o cajado, E com ella á testa vou: Fico pasmado, e ignoro O lugar aonde estou. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando vou segar o trigo, (Olha bem como ando cego.) N'uma parte nelle pego, Metto n'outra a fouce em vão; Dos que vem alguns se riem, Outros mostrão compaixão. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando me deito no colmo, Sempre sonho que te vejo, Que te fallo, e que te beijo A branca nevada mão. Acórdo, Pastora, e foges: Eu fico mais triste então. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando alguem meu mal pergunta, Bem que seja a vez primeira, Rompo ainda que não queira O segredo sem saber. O teu nome, Elvira, digo, Quando devo o seu dizer. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Fujo ao trato dos pastores, Para hum bosque me retiro; Com desafogo suspiro, E chamo por ti meu bem. Os valles que se enternecem Chamão-te ao longe tambem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Quando escuto o triste mocho A gemer no meu telhado, Qualquer mal excogitado Não me deve algum temor: Só receio que me agoure Máo successo ao meu amor. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

Os pastores que me avistão Com o dedo já me apontão, E á roda do fogo contão Da maneira que me vem. Sou o exemplo dos amantes Que esta nossa Aldêa tem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

SONETO I.

He gentil, he prendada a minha Altéa; As graças, a modestia do seu rosto Inspírão no meu peito maior gosto, Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

Mas vendo o lindo gesto de Dircéa A nova sugeição me vejo exposto; Ah! que he mais engraçado, mais composto, Que a pura Esfera de mil astros chêa.

Prender as duas com grilhões estreitos He huma acção (ó Deoses!) inconstante, Indigna de sinceros, nobres peitos.

Cupido, se tens dó de hum triste amante, Ou fórma de Lorino dous sugeitos, Ou fórma desses dous hum só semblante.

SONETO II.

N'um fertil campo do soberbo Douro, Dormindo sobre a relva descançava, Quando vi que a Fortuna me mostrava Com alegre semblante o seu Thesouro.

De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro Com pedras de valor o chão curvava; Aqui hum sceptro, alli hum trono estava, Pendião coroas mil de grama, e louro.

_Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura: De quantos bens te exponho qual te agrada, Pois benigna os concedo, vai, procura_.

Escolhi, acordei, e não vi nada: Commigo assentei logo que a ventura Nunca chega a passar de ser sonhada.

SONETO III.

Enganei-me, enganei-me, paciencia; Accreditei as vozes, cri, Ormia, Que a tua singeleza igualaria Á tua mais que angelica apparencia.

Enganei-me, enganei-me, paciencia; Ao menos conheci que não devia, Pôr nas mãos de huma externa galhardia O prazer, o socego, e a innocencia.

Enganei-me, Cruel, com teu semblante, E nada me admiro de faltares, Que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdestes mais em me enganares; Que tu não acharás hum firme amante, E eu posso de traidoras ter milhares.

SONETO IV.

Ainda que de Laura esteja ausente, Ha de a chama durar no peito amante; Que existe retratado o seu semblante, Se não nos olhos meus, na minha mente.

Mil vezes finjo vêla, e eternamente Abraço a sombra vã; só nesse instante Conheço que ella está de mim distante, Que tudo he illusão que esta alma sente.

Talvez que ao bem de a vêr Amor resista; Porque minha paixão, que aos Ceos he grata, Por innocente assim melhor persista:

Pois quando só na idéa ma retrata, Debuxa os dotes com que prende vista, Esconde as obras com que offende ingrata.

SONETO V.

Ao Templo do Destino fui levado: Sobre o Altar hum Cofre se firmava, Em cujo seio cada qual buscava Tremendo annuncio do futuro estado.

Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado! Com quanta causa o coração pulsava: Este duro Decreto escrito estava, Com negra tinta pela mão do Fado.

_Adore Polidoro a bella Ormia, Sem della conseguir a recompensa, Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença Tres vezes o levando á boca impía, Jurou comprir á risca a tal sentença.

SONETO VI.

Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria, Que os muros banha a Lusitana Athenas, Mostra-me as desmaiadas assucenas Do rosto que me occupa a fantasia.

Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia Ceder de amor ás lastimosas scenas; Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas Renove a saudosa idolatria.

Solto do véo mortal, oh Feliz Astro, Une ao cadaver a truncada testa, Levanta o bello cólo de alabastro:

Huma alma grande junto a ti protesta Fazer a gloria da defunta Castro; A illustre Neta vez: Maria he esta.

_Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D. Maria José de Eça e Bourbon_.

SONETO VII.

Quantas vezes Lidora me dizia, Ao terno peito minha mão levando, Conjurem-se em meu mal os Astros, quando Achares no meu peito aleivosia.

Então que não chorasse lhe pedia, Por firme seu amor acreditando; Ah! que em movendo os olhos suspirando Ao mais acautellado enganaria.

Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora Mostrou que era mulher: a natureza Só por não se mudar a fez traidora.

Não, não darei mais cultos á belleza, Que depois de faltar á fé, Lidora, Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

SONETO VIII.

O Numen Tutelar da Monarquia, Que fez do grande Henrique a invicta espada, Procurou dos Destinos a morada, Por consultar a idade que viria.

A mil, e mil heróes descriptos via, Que exaltão de Furtado a estirpe honrada, E na serie, que adora dilatada, O nome de Francisco descobria.

Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro, Este penhor, que o tempo não consome, Promette ao Reino seu maior thesouro.

Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome De lhe buscar sequer mais outro agoiro, O sitio beija, e lhe mostra o nome.

_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena, Francisco Furtado de Mendonça_.

SONETO IX.

Nascer no berço da maior grandeza, De palmas, e de louros rodeado, Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado, Que illusrra desde longe a natureza.

Se porém muito mais se adora, e preza O dom que o nobre sangue trás herdado Pela propria virtude sustentado, Feliz o objecto da presente empreza.

De mil Heróes no Téjo vencedores Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria Faz immortal de seus Progenitores.

Eu leio em vaticinio a sua historia; Une Francisco a par de seus maiores Ao herdado explendor a propria gloria.

_Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

SONETO X.

Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora Por quem mil vezes fé me foi jurada; Que vos detem (ó Ceos!) que castigada Ainda não deixais tão vil traidora?

Não haja piedade: sinta agora A dita sem remedio em mal trocada; Pois se assim não succede, fica ousada Para ser outra vez enganadora.

Vingai, ó justos Ceos..., mas ah! [~q] digo? Que maltrateis Lidora? o sentimento Privou-me do discurso, eu me desdigo.

Não, não vibreis o raio violento; Pois sei que a compaixão do seu castigo, Hade augmentar depois o meu tormento.

SONETO XI.

A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado, Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo: A Deos doce rabil, neste alto freixo Te fica ao meu destino consagrado.

Se te for meu successo perguntado, Não declares rabil de quem me queixo; Não quero que se saiba vive Aleixo Por causa de huma infame desterrado.

Se vires a Pastor desconhecido, Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora, Atalha os damnos, que outros tem sentido.

Habita nesta Aldêa huma Pastora De rosto bello, coração fingido, Humas vezes cruel, e as mais traidora.

SONETO XII.

Com pezadas cadeias maniatado, Ás vozes da razão insurdecido, Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido Me vi de amor nas trévas sepultado.

Alli aliviava o meu cuidado Cõ dar de quando em quando algum gemido: Ah tempo! que sómente reflectido Me fazes entre as ditas desgraçado.

Assim vivia, quando a falsidade De Laura me tornou n'um breve dia Quanto a razão não pôde em longa idade.

Quebrei o vil grilhão que me opprimia: Ó feliz de quem gosa a liberdade! Bem que venha por mãos da aleivosia.

SONETO XIII.

Obrei quanto o discurso me guiava; Ouvi os Sabios quando errar temia: Aos bons no gabinete o peito abria; Na rua a todos como iguaes honrava.

Julgando os crimes nunca voto dava Mais duro, ou pio do que a Lei pedia; Mas podendo salvar o justo ria, E devendo punir ao réo chorava.

Nem forão, Villa Rica, os meus intentos Metter em ferreo cofre copia d'ouro, Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

Outras são as venturas que me agouro: Ganhei saudades, adquiri affectos, Vou fazer destes bens melhor thesouro.

_Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi despaçhado para Desembargador da Bahia_.

SONETO XIV.

Quando o torcido buço derramava Terror no aspecto ao Portuguez sisudo, Quando sem pó, nem oleo o pente agudo Duro intonso o cabello em laço atava.

Quando contra os Irmãos o braço armava O forte Nuno oppondo escudo, a escudo; Quando a palavra que perfere a tudo Com a barba arrancada João firmava.

Quando a mulher á sombra do marido Tremer se via: quando a Lei prudente Zelava o sexo do civil ruido;

Feliz então, então só innocente Era de Luso o Reino: oh bem perdido! Ditosa condição, ditosa gente!

SONETO XV.

Sombras illustres dos varões famosos, Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia; Vós que do Elysio na região sombria Respiraes entre os Zefiros mimosos.

Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos Louros cingis, que egregia companhia Fazeis aos Mazzarinos, eu queria Adorar vossos vultos magestosos.

Vós fizesteis da vossa Patria a gloria; Por vós hoje he feliz a humanidade: Que dignos sois de huma immortal historia!

Cesce, cesse porém vossa vaidade; Que basta a escurecer vossa memoria Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando a Universidade de Coimbra_.

SONETO XVI.

As molles azas a bater começa Entre as palhas o tenro passarinho, E largos dias por deixar o ninho Se cança, se fadiga, se arremeça.

H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa, Já se firma no pé, já no biquinho, Nas folhas se tem, passa ao raminho Té que a penna se esforce, e se endureça.

Quando emfim he capaz de movimento Deixa os arbustos vaga pelos ares, E sobre as altas faias toma assento:

Estes sejão, Salicio, os exemplares Em que a vossa virtude anime o alento, Porque hum dia da Fama honre os Altares.

_Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

ODE.

Se entre as louras arêas Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido Ás Regiões alheas Manda que em doce metro reppetido Hoje o teu Nome leve, Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

Vejo a sordida inveja De ira morder-se, e as serpes sacudindo Por se tragar forceja: De pejo, e de vergonha em vão cobrindo Co' as frias mãos o rosto, Geme a calumnia no mortal desgosto.

Vós, Genios fortunados, Que do Templo da Gloria honrais a estancia, Os meritos sagrados Cantai do bom Ministro: He a constancia, A sabia fortaleza He quem o guia na maior empreza.

Se os rigidos palmares Da Idumeya consulto; o bravo Noto Os tormentosos ares Não podem mais dobralos: zomba immoto, Nem ás ondas tem medo Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

Tal a constancia tua Em meio foi dos perfidos rumores; A verdade, que nua Derramava em teu rosto as vivas côres, Sobre as aras decentes Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

A vigilancia, o zelo, A rectidão do espirito; elevada Ao gráo mais rico, e bello, Essa virtude, que nos traz provada Em meio dos Thesouros A sã virtude, que enobrece os Louros:

Tudo, tudo apparece Sabio Ministro da victoria ao lado; Athenas, que me offerece No seu público Erario accreditado Aristides, o Justo, Em ti acena o seu modelo augusto.

Mil vezes orgulhosa Negra calumnia o seu desterro tenta; A virtude preciosa Contra o fero Themistocles sustenta. Não ha força que baste, Não ha poder que o peito lhe contraste.

Feliz o Rei, o Povo, Feliz tambem de Themis a ballança; De hum modo raro, e novo Nas tuas mãos eu vejo, que descança: Aos premios, ao castigo Se reparte sem queixa o braço amigo.

Ah! sinta a nossa idade De hum sangue illustre, de hum talento raro A próvida igualdade! Melhor do que nos marmores de Pharo, Em memoria nos vindouros T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

_Imitando o sonho de Scipião_.

ODE.

Já vou tocando, ó Licio, De Lustros dez o fatigado termo; E já meu corpo enfermo Se avisinha da morte ao duro officio: Que cedo o meu destino me promette Calcar as sombras do medonho Lethe!

Eu descerei contente A ver os Manes dos Avós amados; Que bem aventurados, Se outro mundo tratarão, se outra gente! Não virão elles, como eu triste vejo, O velho mando peiorar sem pejo.

Passárão da innocencia Pela candida estrada os pés levando; Inda a fera violencia Não corrompia da Justiça o mando; Praticava-se a próvida igualdade Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

A pura fé do Amigo, Renovava de Orestes a memoria: Commum era o perigo, Reciproca tambem a pena, a gloria: Que traições, e que enganos tem disposto Em nossos dias hum fingido rosto!

Tudo se vê mudado Nesta idade fatal em que de ferro O Idolo adorado Torpemente protege o crime, o erro: Como de susto, e de vergonha cheia Se retira de nós a bella Astrea!

