Part 4
Despois que represento Por largo espaço a imagem de hum defunto, Movo os membros, suspiro, E onde estou pergunto. Conheço então que Amor me tem comsigo; Ergo a cabeça, que inda mal sustento, E com doente voz assim lhe digo.
Se queres ser piedoso, Procura o sitio em que Marilia móra, Pinta-lhe o meu estrago, E vê, Amor, se chora. Se as lagrimas verter a dôr a arrasta, Huma dellas me traze sobre as pennas, E para allivio meu só isto basta.
LYRA XX.
E me visses com teus olhos Nesta masmorra mettido; De mil idéas funestas, E cuidados combatido: Qual seria, ó minha bella, Qual seria o teu pezar?
Á força da dôr cedêra; E nem estaria vivo, Se o menino Deos vendado, Extremoso, e compassivo, Com o nome de Marilia Não me viesse animar.
Deixo a cama ao romper d'alva; O meio dia tem dado, E o cabello inda flutua Pelas costas desgrenhado. Não tenho valor, não tenho; Nem para de mim cuidar.
Diz-me Cupido: E Marilia; Não estima esse cabello? Se o deixas perder de todo Não se ha de enfadar ao vêllo? Suspiro pego no pente, Vou logo o cabello atar.
Vem hum taboleiro entrando De varios manjares cheio, Põe-se na meza a toalha, E eu pensativo passeio: De todo o comer esfria, Sem nelle poder tocar.
Eu entendo que matar-te, Diz Amor, te tens proposto; Fazes bem: terá Marilia Desgosto sobre desgosto. Qual enfermo c'o remedio Me afflijo, mas vou jantar.
Chegão as horas Marilia, Em que o Sol já se tem posto, Vem-me á memoria que nellas Via á janella o teu rosto: Reclino na mão a face E entro de novo a chorar.
Diz-me Cupido: Já basta, Já basta, Dirceo, de pranto; Em obsequio de Marilia Vai erguer teu doce canto. Pendem as fontes dos olhos, Mas eu sempre vou cantar.
Vem o Forçado accender-me A velha çuja candêa; Fica, Marilia, a masmorra Inda mais triste, e mais fêa. Nem mais canto, nem mais posso Huma só palavra dar.
Diz-me Cupido: São horas De escrever-se o que está feito; Do azeite, e da fumaça Huma nova tinta ageito, Tomo o páo, que penna finge, Vou as Lyras copiar.
Sem que chegue o leve sono Canta o Gallo a vez terceira; Eu digo ao Amor; que fico Sem deitar-me a noite inteira: Faço mimos, e promessas Para elle me acompanhar.
Elle diz que em dormir cuide, Que hei-de ver Marilia em sonho; Não respondo huma palavra, A dura cama componho, Apago a triste candêa, E vou-me logo deitar.
Como póde a taes cuidados Risistir, ó minha Bella, Quem não tem de Amor a graça? Se eu que vivo á sombra della Inda vivo desta sorte, Sempre triste a suspirar?
LYRA XXI.
Que diversas que são, Marilia, as horas Que passo na masmorra immunda, e fêa, Dessas horas felizes, já passadas Na tua patria Aldêa.
Então eu me ajuntava com Glauceste; E á sombra de alto Cédro na Campina Eu versos te compunha, e elle os compunha Á sua cara Eulina.
Cada qual o seu canto aos Astros leva; De exceder hum ao outro qualquer trata O ecco agora diz: _Marilia terna_; E logo: _Eulina ingrata_.
Deixão os mesmos Sátyros as grutas: Hum para nós ligeiro move os passos; Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta C'os pés em mil pedaços.
Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece Da ternissima Marilia a formosura. E aonde, clama o outro, quer Eulina Achar maior ventura?
Nenhum Pastor cuidava do rebanho, Em quanto em nós durava esta porfia. E ella, ó minha amada, só findava Depois de acabar-se o dia.
Á noite te escrevia na cabana Os versos, que de tarde havia feito; Mal tos dava, e os lias, os guardavas No casto, e branco peito.
Beijando os dedos dessa mão formosa, Banhados com as lagrimas do gosto, Jurava não cantar mais outras graças Que as graças do teu rosto.
Ainda não quebrei o juramento. Eu agora, Marilia, não as canto; Mas inda vale mais que os doces versos A voz do triste pranto.
LYRA XXII.
Por morto, Marilia, Aqui me reputo: Mil vezes escuto O som do arrastado, E duro grilhão. Mas, ah! que não treme, Não treme de susto O meu coração.
A chave lá sôa Na porta segura: Abre-se a escura, Infame masmorra Da minha prizão. Mas, ah! que não treme; Não treme de susto O meu coração.
Eu vejo, Marilia, A mil innocentes Nas Cruzes pendentes, Por falsos delictos, Que os homens lhes dão. Mas, ah! que não treme, Não treme de susto O meu coração.
Se penso que posso Perder o gozar-te A gloria de dar-te Abraços honestos, E beijos na mão. Marilia, já treme, Já treme de susto O meu coração.
Repára, Marilia, O quanto he mais forte Ainda que a morte, N'um peito esforçado De amor a paixão. Marilia, já treme, Já treme de susto O meu coração.
LYRA XXIII.
Não praguejes, Marilia, não praguejes A justiceira mão que lança os ferros: Não traz de balde a vingadora espada; Deve punir os erros.
Virtudes de Juiz, virtudes de homem As mãos se derão, e em seu peito morão. Mandão prender ao Réo austera a boca, Porém seus olhos chorão.
Se á innocencia denigre a vil calumnia Que culpa aquelle tem que applica a penna. Não he o Julgador, he o processo, E a lei quem nos condemna.
Só no Averno os Juizes não recebem Accusação, nem prova de outro humano; Aqui todos confessão suas culpas, Não póde haver engano.
Eu vejo as Furias affligindo aos tristes: Huma o fogo chega, outra as serpes move; Todos maldizem sim a sua estrella, Nenhum accusa a Jove.
Eu tambem inda adoro ao grande Chefe, Bem que a prizão me dá que eu não mereço. Qual eu sou, minha bella, não me trata, Trata-me qual pareço.
Quem suspira, Marilia, quando pune Ao vassallo que julga delinquente; Que gosto não terá podendo dar-lhe As honras de innocente?
LYRA XXIV.
Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras: Huma soltárão, eu lhe sinto os passos, Aqui aqui a espero Nestes despidos braços. He hum malhado tigre; a mim já corre, Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas, Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.
Vem agora hum Leão: sacode a grenha, Com faminta paixão a mim se lança; Venha embora, que o pulso Ainda não se cança. Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira, O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão, Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.
Mas que vejo, Marilia! tu te assustas? Entendes que os destinos inhumanos Expoem a minha vida No cêrco dos Romanos? Com ursos, e com onças eu não luto. Luto c'o bravo monstro que me accusa; Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.
Embora contra mim raivoso esgrima Da vil calumnia a cortadora espada; Huma alma, qual eu tenho, Não se recêa a nada. Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia, Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito Co' as armas invenciveis da innocencia.
Ah, quando imaginar, que vingativo Mando que desça ao Tartaro profundo Hei-de com mão honrada Erguer-lhe o corpo immundo. Eu então lhe direi: Infame, indîno, Obras como costuma o vil humano; Faço o que faz hum coraçao divino.
LYRA XXV.
Minha Marilia, O passarinho, A quem roubárão Ovos, e ninho, Mil vezes pousa No seu raminho, Piando finge Que anda a chorar. Mas logo vôa Pela espessura, Nem mais procura Este lugar.
Se acaso a vacca Perde a vitéla, Tambem nos mostra, Que se desvéla, O pasto deixa, Muge por ella, Até na estrada A vem buscar. Em poucos dias, Ao que parece, Della se esquece, E vai pastar.
O voraz Tempo, Que o ferro come, Que aos mesmos Reinos Devora o nome, Tambem, Marilia, Tambem consome Dentro do peito Qualquer pezar. Ah só não póde Ao meu tormento Por hum momento Allivio dar.
Tambem, ó bella, Não ha quem viva Instantes breves Na chamma activa; Derrete ao bronze Sendo excessiva Ao mesmo seixo Faz estalar. Mas do amianto A fêbra dura Na chamma atura Sem se queimar.
Tambem, Marilia, Não ha quem negue, Que bem que o fogo Nos oleos pegue, Que bem que em lingoas Ás nuvens chegue, Á força d'agoa Se ha de apagar. Se a negra pedra Nós accendemos, Com agoa a vemos Mais s'inflammar.
O meu discurso, Marilia, he resto: A pena iguala Ao meu affecto. O amor que nutro Ao teu aspecto, E o teu semblante He singular. Ah! nem o tempo, Nem inda a morte A dôr tão forte Pode acabar.
LYRA XXVI.
Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza, C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta; Ainda se despenha muitas vezes, E dois remedios junta.
De ser céga a Fortuna eu não me queixo; Sim me queixo de que má céga seja Céga que nem pergunta, nem apalpa, He porque errar deseja.
A quem gastar não sabe, nem se anima, Entrega as grossas chaves de hum thesoiro; E lança na miseria a quem conhece Para que serve o oiro.
A quem fere, a quem rouba, a infame deixa Que a traz do vicio em liberdade corra, Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime N'esta vil masmorra.
Mas ah! minha Marilia, que esta queixa Co' a sólida razão se não coaduna, Como me queixo da Fortuna tanto, Se sei não ha Fortuna?
Os Fados, os Destinos, essa Deosa Que os Sábios fingem que huma roda move He só a occulta mão da Providencia, A sábia mão de Jove.
Nós he que somos cegos, que não vemos; A que fins nos conduz por estes modos; Por torcidas estradas, ruins varedas Caminha ao bem de todos.
Alegre-se o perverso com as ditas; C'o seu merecimento o virtuoso; Parecer desgraçado, ó minha bella, He muito mais honroso.
LYRA XXVII.
A minha amada He mais formosa Que branco lyrio, Dobrada rosa, Que o cinnamomo, Quando matiza Co' a folha a flor. Venus não chega Ao meu Amor.
Vasta campina De trigo chêa, Quando na sésta C'o vento ondêa, Ao seu cabello Quando flutua Não he igual. Tem a côr negra: Mas quanto val!
Os astros, que andão Na esfera pura, Quando scintilão Na noite escura, Não são humanos, Tão lindos, como Seus olhos são. Que ao Sol excedem Na luz que dão.
Ás brancas faces, Ah! não se atreve Jasmis de Italia, Nem inda a neve, Quando a desata O Sol brilhante Com seu calôr. São neve, e causão No peito ardôr.
Na breve boca Vejo enlaçadas As finas per'las Com as granadas; A par dos beiços Rubins da India Tem preço vil. Nelles se agarrão Amores mil.
Se não lhe désse Compadecido Tanto soccorro O Deos Cupido; Se não vivêra Huma esperança No peito seu; Já morto estava O bom Dirceo.
Vê quanto póde Teu bello rosto; E de goza-lo O vivo gosto! Que sobmergido Em hum tormento Quasi infernal, Porqu' inda espero Resisto ao mal.
LYRA XXVIII.
Deten-te, vil humano, Não espremas cicutas Para fazer-me damno. O çumo que ellas dão he pouco forte, Procura outras bebidas, Que apressem mais a morte.
Desce ao Reino profundo, Ajunta ahi venenos, Que nunca visse o mundo; Traze o negro licôr, que tem nos dentes, Nos dentes retorcidos As raivosas serpentes.
Cachopo levantado, Que pôz a Natureza, Dentro no Mar salgado, Não se abala no meio da tormenta, Bem que huma onda, e outra onda Sobre elle em flor rebenta.
Arvore, que na terra Ás robustas raizes, Buscando o centro, afferra, Não teme ao furacão mais violento; E menos se se deixa Vergar do rijo vento.
Sou tronco, e rócha, ó bella, Que açoita o Sul que brama, E o Mar, que se encapella: Não temas que do rosto a côr se mude: Vence as róchas, e os troncos A sólida Virtude.
A maior desventura He sempre a que nos lança No horror da sepultura: O cobarde a morrer tambem caminha; Com que males não póde Huma alma como a minha?
LYRA XXIX.
Eu descubro procurar-me Gentil mancebo, e loiro, Trazia a testa adornada Com folhas de verde loiro. Vejo ser o Pai das Musas, E me entrega a lyra d'oiro.
Já basta, me diz, ó filho, Já basta de sentimento; O cançado peixe exige Hum breve contentamento. Louva a formosa Marilia Ao som do meu instrumento.
Firo as cordas; mas que importa? A dôr não socega em tanto. Ergo a voz, então reparo Que quanto mais corre o pranto He mais doce, e mais sonoro Meu terno, e saudoso canto.
Apollo fitou os olhos Na mão, que regía o braço; E depois de estar suspenso, De me houvir hum largo espaço; Assim diz: _o Deos Cupido Faz inda mais do que eu faço_.
_Eu te dou a minha lyra, Louva, louva a tua Bella; Porém vê que ta concedo Com condição, e cautella_... Eu lhe corto a voz, dizendo, Que só canto em honra della.
LYRA XXX.
O pai das Musas, O Pastor loiro Deo-me, Marilia, Para cantar-te A lyra de oiro.
As cordas firo, O brando vento Teus dotes leva Nas brancas azas Ao firmamento.
O teu cabello Vale hum thesoiro; Hum só me adorna A sabia frente Melhor que o loiro.
Nesses teus olhos Amor assiste; Delles faz guerra; Ninguem lhe foge; Ninguem resiste.
Algumas vezes Eu o diviso Tão bem occulto Nas lindas cóvas, Que faz teu riso.
Nesses teus peitos Tem os seus ninhos Destros Amores, Nelles se gerão Os Cupidinhos.
Vences a Venus, Quando com arte As armas toma, Porque mais prenda Ao fero Marte.
Eu produzia Estas idéas, Quando, Marilia; O som escuto Das vis cadêas.
Dou hum suspiro. Corre o meu pranto; E inda bebendo Lagrimas tristes, De novo canto.
Sou da constancia Hum vivo exemplo. E vós, ó ferros, Honrareis inda De Amor o Templo.
LYRA XXXI.
Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía, Quanto de meu gosava N'um só funesto dia.
Honras de maioral, manada grossa, Fertil, extensa herdade, Bem reparada chóça.
Metteo-me nesta infame sepultura, Que he sepulcro sem honras, Breve masmorra, escura.
Aqui, ó minha Amada, nem consigo, Venha outro desgraçado Sentir tambem comigo.
Mas se esta companhia não mereço; Os Deoses me dão outra, Inda de mais apreço.
Não he, não, illusão o que te digo; Tu mesma me acompanhas; Peno, mas he comtigo.
Não vejo as tuas faces graciosas, Os teus soltos cabellos, As tuas mãos mimosas.
Se eu as visse, infeliz me não dissera, Bem que subira ao Porto, Bem que na Cruz pendêra.
Não ouço as tuas vozes magoadas, Com ardentes suspiros Ás vezes mal formadas.
Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas; Huma por hum beijo, E choro então sobre ellas.
Tu me dizes que siga o meu destino; Que o teu amor na ausencia Será leal, e fino.
De novo a carta ao coração aperto, De novo a molha o pranto Que de ternura verto.
Ah! leve muito embora o duro Fado; A tudo quanto tenho Com meu suor ganhado.
Eu juro, que do roubo nem me queixe, Com tanto, ó minha cara, Que este só bem me deixe.
Que males voluntarios não subírão, Os que te amão, sómente Porque menos te ouvírão?
Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga; Que eu tenho aquella gloria, Que a mil felizes nega.
LYRA XXXII.
Se o vasto mar se encapella, E na rócha em flor rebenta, Grossa náo, q' não tem léme, Em vão sustentar-se intenta; Até que naufraga, e corre Á discrição da tormenta.
Quem não tem huma Belleza, Em que ponha o seu cuidado, Se o Ceo se cobre de nuvens, E se assopra o vento irado, Não tem forças que resistão Ao impulso do seu fado.
Nesta sombria masmorra, Aonde, Marilia, vivo, Encosto na mão o rosto, Fico ás vezes pensativo. Ah! que imagens tão funestas Me finge o pezar activo.
Parece que vejo a honra, Marilia, toda enlutada, A face de hum pai rugosa, N'um mar de pranto banhada, Os amigos mascilentos, E a familia consternada.
Quero voltar os meus olhos Para outro diverso lado, Vejo n'uã grande Praça Hum Theatro levantado. Vejo as Cruzes, vejo os Potros, Vejo o Alfanje afiado.
Hum frio suor me cobre, Lação-se os membros, suspiro, Busco allivio ás minhas ancias, Não o descubro, deliro. Já, meu Bem, já me parece, Que nas mãos da morte espiro.
Vem-me então ao pensamento A tua testa nevada, Os teus meigos, vivos olhos, A tua face rosada, Os teus dentes crystallinos, A tua boca engraçada.
Qual, Marilia, a estrella d'alva, Que a negra noite affugenta, Qual o Sol, que a nevoa espalha Apenas a terra aquenta, Ou qual Iris, que o Ceo limpa, Quando se vê na tormenta.
Assim, Marilia, desterro Triste illusão, e demencia; Faz de novo o seu officio, A razão, e a prudencia; E firmo esperanças doces Sobre a candida innocencia.
Restauro as forças perdidas, Sóbe a viva côr ao rosto; Gyra o sangue pela vêa, E bate o pulso composto. Vê, Marilia, o quanto póde Contra os meus males teu rosto.
FIM.
MARILIA DE DIRCEO.
POR
F.A.G.
TERCEIRA PARTE.
LISBOA:
Na Impressão Regia. Anno 1812.
_Com licença_.
_Vende-se na loja da Gazeta_.
AO LEITOR.
A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos intelligente.
MARILIA DE DIRCEO.
LYRA I.
Convidou-me a vêr seu Templo O cego Cupido hum dia; Encheo-se de gosto o peito, Fiz deste Deos hum conceito Como delle não fazia.
Aqui vejo descorados Os ternissimos amantes Entre as cadêas gemerem; Vejo nas piras arderem As entranhas palpitantes.
_A quem ama quanto avista_, (Diz Cupido) _não aterra: Quem quer cingir o loureiro, Tambem vai soffrer primeiro Todo o trabalho da guerra_.
_Com tudo que te dilates Neste sitio não convenho; Deixa a estancia lastimosa, Vem vêr a Salla formosa, Aonde o meu Solio tenho_.
Entro n'outro grande Templo: Que perspectiva tão grata! Tudo quanto nelle vejo Passa além do meu desejo, E o discurso me arrebata.
He de marmore, e de jaspe O soberbo frontespicio: He todo por dentro d'ouro, E a hum tão rico tesouro Inda excede o artificio.
As janellas não se adornão De sedas de finas côres: Em lugar de cortinados Estão prezos, e enlaçados Fastões de mimosas flores.
Em torno da Salla Augusta Ardem dourados brazeiros; Queimão rezinas, que estalão, E postas em fumo exalão Da Panchaya os gratos cheiros.
Ao pé do Throno os seus Genios Alegres hymnos entoão: Danção as Graças formosas; E aqui as horas gostosas Em vêz de correrem, vôão.
Estão sobre o pavimento, Igualmente reclinados Nos collos de seus amores, Os grandes Reis, e Pastores De frescas rosas coroados.
Mal o acôrdo restauro, (Me diz, o Moço risonho:) _Como ainda não reparas Em tantas cousas tão raras, De que este Templo componho_?
_Sabes a historia de Jove? Aqui tens o manso Touro; Tens o Cisne decantado; A Velha em que foi mudado, Com a grossa chuva d'ouro_.
_Applica, Dirceo, agora Os olhos para esta parte: Aqui tens o verde Louro, Que inda estima o Pastor louro, E a Rede, que enlaça a Marte_.
_Vês este Arco destramente De branco marfim ornado? Á Casta Deosa servia, E o perdêo quando dormia Do gentil Pastor ao lado_.
_Vês esta Lyra? com ella Tira Orpheo ao bem querido Dos infernos aonde estava. Vês este Faról? guiava Ao meu nadador de Abydo_.
_Vês estas duas Espadas Ainda de sangue cheias? A Thysbe, e a Dido matárão; E os fortes pulsos armárão De Pyramo, e mais de Eneas_.
_Sabes quem vai no Navio, Que nesse mar se levanta? He Theseo. Vês esse Pomo? He de Cydippe, assim como São aquelles de Atalanta_.
_Vê agora estes retratos, Que destros pinceis fizerão: Ah! que pinturas divinas! Todos são das Heroinas, Que mais victorias me dérão_.
_Repara nesse semblante, He o semblante de Helena: Lá se avista a Grega Armada, E aqui de Troya abrazada Se mostra a funesta scena_.
_Vês est'outra_ formosura? _He a bella Deidamía_; _Lá_ tem Achilles ao lado, _De huma saia disfarçado Como com ella vivia_.
_Cleópatra he quem se segue: Alli tens lançando a linha Marco Antonio socegado, Ao tempo em que Augusto irado, Com armada mão caminha_.
_Aqui Hermes se figura: Vê hum Sabio dos maiores, Qual infame delinquente, Ir desterrado sómente Por contar os seus louvores_.
_Este he de Omphale o retrato: Aqui tens (quem o diria!) Ao grande Hercules sentado Com as mais damas no estrado, Onde em seu obsequio fia_.
_Anda agora a est'outra parte: Conheces, Dirceo, aquella_? Onde váes? (lhe digo:) explica, Que belleza aqui nos fica, Sem fazeres caso della?
Ergo os olhos ponho a vista Na imagem não explicada, Ó quanto he digna de appreço! Mal exclamo assim, conheço Ser a minha doce amada.
O coração pelos olhos Em terno pranto sahia, E no meu peito saltava: Disfarçado Amor, olhava Para mim a furto, e ria.
Depois de passado tempo, A mim se chega, e me aballa; Desperto de tanto assombro: Elle bate no meu hombro, E assim affavel me falla.
_Sim, caro Dirceo, he esta A divina formosura, Que te destina Cupido; Aqui tens o laço urdido Da tua immortal ventura_.
_O Numen, Dirceo, o Numen Que aos trabalhos de hum humano Desta sorte felicita, Não he, como se accredita, Não he hum Numen tyranno_.
_Olha se a cega Fortuna De tudo quanto se cria, Ou nos mares, ou na terra, Em o seu thesouro encerra Outro bem de mais valia_?
_Lizas faces côr de rosa, Brancos dentes, olhos bellos, Grossos beiços encarnados, Pescoço, e peitos nevados, Negros e finos cabellos_;
_Não vale mais, que cingires Co' braço de sangue immundo Na cabeça o verde louro? Do que teres montes d'ouro? Do que dares leis ao mundo_?
_Ah! ensina, sim ensina Ao vil mortal atrevido, E ao peito que adora terno, Que tem para hum Inferno, Para o outro hum Ceo, Cupido_.
Ao resto Amor me convida; Eu chorando a mão lhe beijo: E lhe digo, Amor, perdôa Não seguir-te; pois não vôa A vêr mais o meu dezejo.
LYRA II.
Em vão do amado Filho que foge, Venus quer hoje Noticias ter.
Sagaz, e astuto Elle se esconde Em parte aonde Ninguem o vê.
Dos signaes dados Bem se conhece, Que elle aborrece A Mãi que tem.
Se os seus defeitos Ella publíca, Razão lhe fica De se offender.
Foge o Menino, E disfarçado Vive abrigado N'uma cruel.
Com mil caricias A impia o trata; Nem o desata Do peito seu.
Se a semelhança Sempre amor gera, Deve huma fera Outra accolher.
Ah! se o teu nome, Marilia, calo, Que de ti fallo Bem pódes crer.
LYRA III.
Tu não verás, Marilia, cem captivos Tirarem o cascalho, e a rica terra, Ou dos cercos dos rios caudelosos, Ou da minada Serra.
Não verás separar ao habil negro Do pezado esmeril a grossa arêa; E já brilharem os granetes de ouro, No fundo da batêa.
Não verás derrubar os virgens matos, Queimar as capoeiras inda novas, Servir de adubo á terra a fertil cinza, Lançar os grãos nas cóvas.
Não verás enrolar negros pacotes Das secas folhas do cheiroso fumo; Nem espremer entre as dentadas rodas Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa meza Altos volumes de enredados feitos; Ver-me-has folhear os grandes livros, E decidir os pleitos.
Em quanto revolver os meus Consultos, Tu me farás gostosa companhia Lendo os fastos da sabia, mestra Historia, Os Cantos da Poesia.
Lerás em alta Voz a imagem bella; Eu vendo que lhe dás o justo appreço; Gostoso tornarei a lêr de novo O cansado processo.
Se encontrares louvada huma belleza, Marilia, não lhe envejes a ventura, Que tens quem leve á mais remota idade A tua formosura.
LYRA IV.
Amor por acaso A hum pouso chegava, Aonde accolhida A Morte se achava.
Risonhos, e alegres Os braços se dérão, E as armas unidas N'um sitio pozerão.
De emprezas tamanhas Cansados já vinhão, E em larga conversa A noite entretinhão.
Hum conta que ha pouco A seta aguçada Em huma belleza Deixára empregada.
Diz outro que as flexas Cravára no peito De hum grande, que teve O Mundo sujeito.
Em quanto das forças Cada hum persumia, Seus membros já laços O somno rendia.
Dormindo tranquillos A noite passárão, E inda antes da Aurora Com ancia acordárão.
_He tempo que o leito Deixemos, ó Morte_; Amor, já erguido Fallou desta sorte.
_He tempo_, em resposta A morte repete, _Que á nossa fadiga Dormir não compete_.
_As armas colhamos, Voltemos ao giro: Cada hum a seu gosto Empregue o seu tiro_.
Vão inda c'os olhos Em somno turbados, Ao sitio em que os ferros Estão pendurados.
Amor para as setas Da morte se enclina: De amor logo a Morte C'o as flexas atina.