Marilia de Dirceo

Part 3

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Quem vive no regaço da ventura, Nada obra em te adorar, que assombro faça: Mostra mais ternura Quem te estima, e morre Nas mãos da desgraça.

Nesta cruel masmorra tenebrosa Ainda vendo estou teus olhos bellos, A testa formosa, Os dentes nevados, Os negros cabellos.

Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda A chusma dos Cupidos, que pendentes Dessa bôcca linda, Nos ares espalhão Suspiros ardentes.

Se alguem me perguntar onde eu te vejo, Responderei--no peito--que huns Amores De casto desejo Aqui te pintárão, E são bons Pintores.

Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora Teu Retrato fizerão, e tão forte, Que entendo, que agora Só póde apagallo O pulso da Morte.

Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo! Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro. Ah! dá-lhes hum beijo, E diz-me que valem Mais que letras de oiro.

LYRA II.

Esprema a vil calumnia muito embora Entre as mãos denegridas, e insolentes Os venenos das plantas, E das bravas serpentes.

Chovão raios e raios, no meu rosto Não has-de ver, Marilia, o modo escrito; O medo perturbado, Que infunde o vil delicto.

Pódem muito conheço, pódem muito, As Furias infernaes, que Pluto move; Mas póde mais que todas Hum dedo só de Jove.

Este Deos convertêo em flor mimosa; A quem seu nome derão, a Narciso, Fêz d' muitos os Astros, Qu' inda no Ceo diviso.

Elle póde livrar-me das injurias Do nescio, do atrevido ingrato povo; Em nova flor mudar me, Mudar-me em Astro novo.

Porém se os justos Céos por fins occultos Em tão tyranno mal me não soccorrem, Verás então, que os sabios, Bem como vivem, morrem.

Eu tenho hum coração maior que o mundo. Tu, formosa Marilia, bem o sabes: Hum coração, e basta, Onde tu mesma cabes.

LYRA III.

Succede, Marilia bella, Á medonha noite o dia: A estação chuvosa e fria, Á quente secca estação. Muda-se a sorte dos tempos; Só a rainha sorte não?

Os troncos, nas Primaveras, Brotão em flores viçosos; Nos Invernos escabrosos Largão as folhas no chão. Muda-se a sorte dos troncos; Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marilia, cortão Armadas redes os passos; Rompem depois os seus laços, Fogem da dura prisão. Muda-se a sorte dos brutos; Só a minha sorte não?

Nenhum dos homens conserva Alegre sempre o seu rosto; Depois das penas vem gosto, Depois do gosto afflicção. Muda-se a sorte dos homens; Só a minha sorte não?

Aos altos Deoses movêrão Soberbos Gigantes guerra; No mais tempo o Ceo, e a Terra Lhes tributa adoração. Muda-se a sorte dos Deoses; Só a minha sorte não?

Hade, Marilia, mudar-se Do destino a inclemencia: Tenho por mim a innocencia, Tenho por mim a razão. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

O tempo, ó bella, que gasta Os troncos, pedras, e o cobre, O véo rompe, com que encobre Á verdade a vil traição. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

Qual eu sou verá o mundo, Mais me dará do que eu tinha, Tornarei a ver-te minha. Que feliz consolação! Não ha de tudo mudar-se, Só a minha sorte não.

LYRA IV.

Já, já me vai, Marilia, branquejando Loiro cabello, que circúla a testa. Este mesmo, que alveja, vai cahindo, E pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas côres, E vão-se sobre os ossos enrugando, Vai fugindo a viveza dos meus olhos; Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergão; As forças dos meus membros já se gastão, Vou a dar pela casa huns curtos passos, Pesão-me os pés, e arrastão.

Se algum dia me vires desta sorte, Vê que assim me não pôz a mão dos annos: Os trabalhos, Marilia, os sentimentos, Fazem os meus danos.

Mal te vir me dará em poucos dias, A minha mocidade o doce gosto; Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se, Voltar a côr ao rosto.

No calmoso Verão as plantas seccão, Na Primavera, que aos mortaes encanta, Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho, Verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece; Mas logo que a doença fez seu termo, Torna, Marilia, a ser quem era d'antes, O definhado enfermo.

Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta, No meio da desgraça, que me altera: Eu tambem te supponho qual saude, Ou qual a Primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores; Que effeitos não farão, em quem por elles Sempre morrêo de amores?

LYRA V.

Os mares, minha bella, não se movem; O brando Norte assopra, nem diviso Huma nuvem sequer na Esfera toda, O destro Nauta aqui não he preciso; Eu só conduzo a náo, eu só modéro Do seu governo a roda.

Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla, Rasga-se a véla, o mastaréo se parte! Qualquer varão prudente aqui já teme Não tenho a necessaria força, e arte. Corra o sabio Piloto, corra, e venha Reger o duro leme.

Como succede á náo no mar, succede Aos homens na ventura, e na desgraça: Basta ao feliz não ter total demencia, Mas quem de venturoso a triste passa, Deve entregar o leme do discurso Nas mãos da sã prudencia.

Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem; E esta alma, em tanta pena consternada, Nem sabe aonde possa achar conforto. Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada, Toma o leme da náo, marêa o panno, Vai-a salvar no porto.

Mas ouço já de Amor as sabias vozes: Elle me diz que soffra se não morro; E perco então se morro huns doces laços. Não quero já, Marilia, mais soccorro, Oh ditoso soffrer, que lucrar póde A gloria dos teus braços.

LYRA VI.

De que te queixas, Lingua importuna? De que a Fortuna Roubar-te queira, O que te deu? Este foi sempre O genio seu.

Levou, Marilia, A impia sorte Catoens á morte; Nem sepultura Lhes concedeu. Este foi sempre O genio seu.

A outros muitos, Que vís nascêrão, Nem merecêrão, A grandes thronos A impia ergueu. Este foi sempre O genio seu.

Espalha a cega Sobre os humanos Os bens, e os damnos; E a quem se devão Nunca escolheu. Este foi sempre O genio seu.

A quanto he justo, Já mais se dobra; Nem igual obra C'os mesmos Deoses Do cáro Ceo. Este foi sempre O genio seu.

Sóbe ao Ceo Venus N'hum carro ufano; E cahe Vulcano Da pura esfera, Em que nasceu. Este foi sempre O genio seu.

Mas não me rouba, Bem que se mude, Honra, e virtude: Que o mais he della, Mas isto he meu. Este foi sempre O genio seu.

LYRA VII.

Meu prezado Glauceste, Se fazes o conceito, Que bem que réo abrigo A candida virtude no meu peito. Se julgas, digo, que mereço ainda Da tua mão soccorro; Ah! vem dar-m'o agora, Agora sim que morro.

Não quero, que montado No Pegaso fogoso, Venhas com dura lança Ao monstro infame traspassar raivoso. Deixa que viva a perfida calumnia, E forge o meu tormento: Com menos, meu Glauceste, Com menos me contento.

Toma a lyra doirada, E toca hum pouco nella: Levanta a vóz celeste Em parte que te escute a minha bella; Enche todo o contorno de alegria; Não soffras, que o desgosto Affogue em pranto amargo O seu divino rosto.

Eu sei, eu sei, Glauceste, Que hum bom Cantor havia, Que os brutos amansava; Que os troncos, e os penedos attrahia. De outro destro Cantor tambem affirma; A sábia Antiguidade, Que as muralhas erguêra De huma grande Cidade.

Orfeo as cordas fere; O som delgado, e terno Ao Rei Plutão abranda, E o deixa que penetre o fundo Averno. Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste; Na lyra, e mais no canto: Podes fazer prodigios; Obrar ou mais, ou tanto.

Levanta pois as vozes: Que mais, que mais esperas? Consola hum peito afflito; Que he menos inda, que domar as féras. Com isto me darás no meu tormento Hum doce lenitivo, Que em quanto a bella vive, Tambem, Glauceste, vivo.

LYRA VIII.

Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen, A quem o nome derão de Fortuna, Pega-me pelo braço, E com voz importuna Me diz que mova o passo; Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra, Quanto o destino manda, Que ella obre sobre a terra.

Que coizas portentosas nelle encontro! Eu vejo a pobre fundação de Roma, Vejo-a queimar Carthago; Vejo que as gentes doma; E vejo o seu estrago. Lá florece o poder do Assyrio Povo: Aqui os Medos crescem E os perde hum braço novo.

Então me diz a Deosa: _E que pertendes? Todas estas Medalhas vêr agora? Ah! não, não sejas louco! Espaço de annos fôra Para isto ainda pouco. Deixo estranhos successos; vem comigo, Verás quanto inda deve Acontecer comtigo_.

Levou-me aonde estava a minha historia, Que toda me explicou com medo, e arte. _Tirei-te libras de oiro_ Me diz, _e quero dar-te Todo aquelle thesoiro. Não suspira por bens hum peito nobre_: Sevéro lhe respondo. _Vivo affeito a ser pobre_.

Aqui me enruga a Deosa irada a testa; E fica sem fallar hum breve espaço. _Alegra, alegra o rosto_, Prosegue, _alli te faço Restituir o posto_. Respondo com ar de mofa, e tom sereno. _Conheço-te, Fortuna, Posso morrer pequeno_.

_Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_. Então me banho todo de alegria _Cuidei_, me torna a cega, _Que essa alma não queria Nem esta mesma entrega. He esse o bem_, respondo, _que me move; Mas este bem he santo, Vem só da mão de Jove_.

Queria mais fallar; eu insoffrido Desta maneira rompo os seus accentos: _Basta, Fortuna, basta; Estes breves momentos Lá noutras coizas gasta; Da minha sorte nada mais contemplo_. E chamando Marilia Suspiro, e deixo o Templo.

LYRA IX.

A estas horas Eu procurava Os meus Amores; Tinhão-me inveja Os mais Pastores.

A porta abria, Inda esfregando Os olhos bellos, Sem flor, nem fitta Nos seus cabellos:

Ah! que assim mesmo Sem compostura, He mais formosa, Que a estrella d'alva; Que a fresca rosa.

Mal eu a via, Hum ar mais leve, (Que doce effeito!) Já respirava Meu terno peito.

Do cerco apenas Soltava o gado, Eu lhe amimava Aquella ovelha Que mais amava.

Dava-lhe sempre No rio, e fonte, No prado, e selva, Agua mais clara, Mais branda relva.

No cóllo a punha, Então brincando A mim a unia; Mil coizas ternas Aqui dizia.

Marilia vendo Que eu só com ella He que fallava; Ria-se a furto, E disfarçava.

Desta maneira Nos castos peitos, De dia, em dia A nossa chamma Mais se accendia.

Ah! quantas vezes No chão sentado, Eu lhe lavrava As finas rócas, Em que fiava?

Da mesma sorte Que á sua amada, Que está no ninho, Fronteiro canta O passarinho.

Na quente sésta, Della defronte, Eu me entretinha Movendo o ferro Da sanfoninha.

Ella por dar-me De ouvir o gosto, Mais se chegava: Então vaidoso Assim cantava:

Não ha Pastora, Que chegar possa Á minha bella; Nem quem me iguale Tambem na estrella:

Se Amor concede Que eu me recline No branco peito, Eu não invejo De Jove o leito:

Ornão seu peito As sãs virtudes, Que nos namorão; No seu semblante As Graças morão.

Assim vivia: Hoje em suspiros O canto mudo: Assim, Marilia, Se acaba tudo.

LYRA X.

Arde o velho barril, arde a cabeça, Em honra de João na larga rua; O credulo Mortal agora indaga, Qual seja a sorte sua?

Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue, E nella orvalhe o Ceo de madrugada, Para ver se rebentão novas folhas, Aonde foi queimada.

Tambem não tenho hum ovo, que despeje Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella Fingir Palacios grandes, altas Torres, E huma Náo á véla.

Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido Que na boca hum bochecho d'agoa tome, E atráz de qualquer porta attento esteja, Até ouvir hum nome.

Que o nome, que primeiro ouvir, he esse O nome, que ha de ter a minha amada: Pode verdade ser, se fôr mentira, Tambem não custa nada.

Vou tudo executar, e de repente Ouvi dizer o nome de Filena: Despejo logo a boca: ah! não sei como Não morro alli de pena!

Apparece Cupido: então soltando Em ar de zombaria huma risada. E que tal, me pergunta, esteve a peça? Não foi bem pregada?

Eu já te disse, que Marilia he tua: Tu fazes do meu dito tanta conta, Que vais acreditar, o que te ensina Velha mulher já tonta.

Humilde lhe respondo: quem debaixo Do açoite da Fortuna afflito geme, Nas mesmas coisas, que só são brinquedos, Se agoirão males, teme.

LYRA XI.

Se acaso não estou no fundo Averno Padece, ó minha bella, sim padece O peito amante, e terno, As afflições tyrannas, que os Preceitos Arbîtra Rhadamantho em justa pena Dos barbaros delictos.

As Furias infernaes, rangendo os dentes Com a mão descarnada não me applicão As raivosas serpentes. Mas cercão-me outros monstros mais irados: Mordem-me sem cessar as bravas serpes De mil, e mil cuidados.

Eu não gasto, Marilia, a vida toda Em lançar o penedo da montanha; Ou em mover a roda. Mas tenho ainda mais cruel tormento: Por coisas que me affligem, roda, e gyra Cançado pensamento.

Com retorcidas unhas agarrado Ás tepidas entranhas não me come Hum abutre esfaimado. Mas sinto de outro monstro a crueldade: Devora o coração, que mal palpita, O abutre da saudade.

Não vejo os pomos, nem as aguas vejo, Que de mim se retirão, quando busco Fartar o meu desejo; Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato, Que lograr-te não possa, estando vendo Nesta alma o teu retrato.

Estou no Inferno, estou, Marilia bella; E n'huma coisa só he mais humana A minha dura estrella: Huns não podem mover do Inferno os passos; Eu pertendo vôar, e vôar cedo Á gloria dos teus braços.

LYRA XII.

Ah, Marilia, que tormento Não tens de sentir saudosa! Não podem ver os teus olhos A campina deleitosa, Nem a tua mesma Aldêa, Que tyrannos não proponhão Á inda inquieta idéa Huma imagem de afflição. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

Quando levares, Marilia, Teu ledo rebanho ao prado Tu dirás: aqui trazia Dirceo tambem o seu gado. Verás os sitios ditosos Onde, Marilia, te dava, Doces beijos amorosos Nos dedos da branca mão. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

Quando á janella sahires Sem quereres, descuidada, Tu verás, Marilia, a minha E minha pobre morada. Tu dirás então comtigo: Alli Dirceo esperava Para me levar comsigo: E alli soffreo a prisão. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

Quando vires igualmente Do caro Glauceste a choça, Onde alegre se juntavão Os pouco da escolha nossa, Pondo os olhos na varanda Tu dirás, de mágoa chêa: Todo o congresso alli anda, Só o meu Amado não. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

Quando passar pela rua O meu companheiro honrado, Sem que me vejas com elle Caminhar emparelhado, Tu dirás: não foi tyranna Sómente comigo a sorte; Tambem cortou deshumana A mais fiel união. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

N'uma masmorra mettido Eu não vejo imagens destas, Imagens, que são por certo A quem adora funestas. Mas se existem separadas Dos inchados rôxos olhos, Estão, que he mais, retratadas No fundo do coração. Tambem mando aos surdos Deoses Tristes suspiros em vão.

LYRA XIII.

Ves, Marilia, hum cordeiro De flores enramado, Como alegre caminha A ser sacrificado? O Povo para o Templo já concorre: A Pyra sacro-santa já se accende: O Ministro o fere, elle bala, e morre.

Vês agora o novilho, A quem segura o laço: No chão as mãos especa: Nem quer mover hum passo: Não conhece que sahe de hum máo terreno; Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, O conduz a viver n'um campo ameno.

Ignora o bruto, como Lhe dispomos a sorte: Hum vai forçado á vida, Vai outro alegre á morte, Nós temos, minha bella, igual demencia: Não sabemos os fins, com que nos move A sábia, occulta Mão da Providencia.

De Jacob ao bom filho Os máos matar quizerão: De conselho mudárão, Como escravo o vendêrão: José não corre a ser hum servo afflito: Vai subindo os degráos, por onde chega A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

Quem sabe se o Destino Hoje, ó bella, me prende, Só porque nisto de outros Mais damnos me defende? Póde inda raiar hum claro dia. Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro; E beijo a santa mão, que assim me guia.

LYRA XIV.

Alma digna de mil Avós Augustos! Tu sentes, tu soluças Ao ver cahir os justos; Honras as santas leis da Humanidade: E aos teus exemplos deve Gravar com letras de oiro no seu Templo A candida Amizade.

Não he, não he de Heróe huma alma forte, Que vê com rosto enchuto No seu igual a morte. Não he tambem de Heróe hum peito duro, Que a sua gloria firma, Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo, Nem legião, nem muro.

Oh! quanto ousado Chefe me namora, Quando vê a cabeça Do bom Pompeo, e chora! He grande para mim, quem move os passos, E de Dario aos filhos, Que como escravos seus tratar podéra, Recebe nos seus braços.

Se alcança Eneas, Capitão piedoso, Entre os Heróes do Mundo Hum nome glorioso, Não he, porque levanta huma cidade; He sim, porque nos hombros Salvou do incendio ao Pai a quem detinha A mão da branca idade.

Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira; Eu mesmo, sim, da morte Aos hombros o remira: Inda por elle muito mais obrára: E se nada servisse, Fizera então, Amigo, o que fizeste, Gemêra, e suspirára.

Oh! quanto são duraveis as cadêas De huma amizade, quando Se dão iguaes idéas! Se a pezar dos estorvos se sustinha Nossa união sincera, Foi por ser a minha alma igual á tua, E a tua igual á minha.

Se, ó caro Amigo, te merece tanto, Lá lhe fica a sua alma, Limpa-lhe o terno pranto. De quem eu fallo, és tu, Marilia bella. Ah! sim, honrado Amigo, Se enxugar não poderes os seus olhos; Prantêa então com ella.

LYRA XV.

Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro; Fui honrado Pastor da tua Aldêa; Vestia finas lãns, e tinha sempre A minha chóça do preciso chêa. Tirarão-me o casal, e o manso gado, Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

Para ter, que te dar, he que eu queria De mór rebanho ainda ser o dono; Prezava o teu semblante, os teus cabellos Ainda muito mais que hum grande Throno. Agora que te offerte já não vejo Além de hum puro amor, de hum são desejo.

Se o rio levantado me causava Levando a sementeira prejuiso, Eu alegre ficava apenas via Na tua breve boca hum ar de riso. Tudo agora perdi; nem tenho o gosto De ver-te ao menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regaço As quentes horas da comprida sésta, Escrever teus louvores nos olmeiros, Toucar-te de papoilas na floresta. Julgou o justo Ceo, que não covinha Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

Ah, minha bella, se a Fortuna volta, Se o bem que já perdi alcanço, e provo; Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer hum homem novo; Romper a nuvem que os meus olhos cerra, Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas, Que pagarei dos poucos do meu ganho; E dentro em pouco tempo nos veremos Senhores outra vez de hum bom rebanho. Para o contagio lhe não dar sobeja Que as affague Marilia, ou só que as veja.

Se não tivermos lans, e pelles finas, Podem mui bem cobrir as carnes nossas As pelles dos cordeiros mal cortidas, E os pannos feitos com as lans mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

Nós iremos pescar na quente sésta Com canas, e com cêstos os peixinhos: Nós iremos caçar nas manhãs frias Com a vara envisgada os passarinhos; Para nos divertir faremos quanto Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos C'os filhos se os tivermos á fogueira; Entre as falsas historias, que contares, Lhes contarás a minha verdadeira: Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores, Dizendo huns para os outros: olha os nossos Exemplos da desgraça, e sãos amores. Contentes viviremos desta sorte, Até que chegue a hum dos dois a morte.

LYRA XVI.

Vejo, Marilia, Que o nédeo gado Anda disperso No monte, e prado; Que assim succede Ao desgraçado, Que a perder chega O seu Pastor. Mas inda soffro A viva dôr.

Tambem conheço, Que os Pegureiros, Que apascentavão Os meus cordeiros, Darão suspiros E verdadeiros; Porque perdêrão Hum pai no amor. Mas inda soffro A viva dôr.

Eu mais alcanço; Que a minha herdade Estando eu prezo, Soffrer não ha-de Nem a charrua, E nem a grade; Que a mão lhe falta Do Lavrador. Mas inda soffro A viva dôr.

Mas quando sobe Á minha idéa, Que tu ficaste Lá nessa Aldêa. De mil cuidados E mágoa cheia; Das paixões minhas Não sou senhor. Eu já não soffro A viva dôr.

A quanto chega A pena forte! Peza-me a vida, Desejo a morte, A Jove accuso, Maldigo a sorte, Trato a Cupido Por hum traidor. Eu já não soffro A viva dôr.

Mas este excesso Perdão merece, E delle Jove Se compadece; Que Jove, ó bella, Mui bem conhece, Aonde chega Paixão de amor. Eu já não soffro A viva dôr.

LYRA XVII.

Dirceo te deixa, ó bella, De padecer cançado: Frio suor já banha Seu rosto descórado; O sangue já não gyra pela vêa, Seus pulsos já não batem; E a clara luz dos olhos se bacêa: A lagrima sentida já lhe corre; Já pára a convulsão, suspira, e morre.

Seu espirito chega Onde se pune o erro: Late o cão, e se lhe abrem Grossos portões de ferro. Aos severos Juizes se apresenta; E com sentidas vozes Toda a sua tragedia representa: Enche-se de ternura, e novo espanto O mesmo inexoravel Rhadamantho.

Abre hum pasmado a boca, E a pedra não despede; Outro já não se lembra Da fome, e mais da sede: Descança o curvo bico, e a garra impia Negro abutre esfaimado: Nem a roca medonha a Parca fia, Até as mesmas Furias inclementes Deixão cahir das unhas as serpentes.

Já votão os Juizes; E o Rei Plutão lhe ordena Deixe o sitio, em que ficão Almas dignas de pena. Já sahe do escuro Reino, e da memoria Lhe passa tudo quanto Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria. Só, bem que o gosto as turvas agoas tome, Inda, Marilia, inda diz teu nome.

Entra já nos Elysios Campinas venturosas, Que mansos rios cortão, Que cobrem sempre as rosas. Escuta o canto das sonoras aves, E bebe as agoas puras, Que o mel, e de que o leite mais suaves. Aqui, diz elle, espero a minha bella, Aqui contente viverei com ella.

Aqui... porém aonde Me leva a dôr activa? He illusão desta alma. Jove inda quer que eu viva. Eu devo sim gosar teus doces laços; E em paga dos meus males Devo morrer, Marilia, nos teus braços. Então eu passarei ao Reino amigo; E tu irás despois lá ter comigo.

LYRA XVIII.

Não mólho, Marilia, De pranto a masmorra Que o terno Cupido Não vôe, e não corra, A hilo apanhar. Estende-o nas azas Sobre elle suspira, Por fim se retira, E vai-to levar.

Se o moço não mente, Aos tristes gemidos, Aos ais lastimosos Não guardes unidos, Marilia, c'os teus: As lagrimas nossas No seio amontôa Fórma azas, e vôa, Vai pô-las nos Ceos.

A Deosa formosa, Que amava aos Troianos, Livra-los querendo De riscos, e damnos A Jove buscou. As aguas, que o rosto Da Deosa banhárão, A Jove abrandárão, E assim os salvou.

Confia-te, ó bella, Confia-te em Jove; Ainda se abranda, Ainda se move Com ancias de amor. O pranto de Venus, Que obrou no Pai tanto, Não tem que o teu pranto Apreço maior.

LYRA XIX.

Nesta triste masmorra, De hum semivivo corpo sepultura, Inda, Marilia, adoro A tua formosura. Amor na minha idéa te retrata, Busca extremoso, que eu assim resista Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

Quando em meu mal pondero, Então mais vivamente te diviso: Vejo o teu rosto, e escuto A tua voz, e riso. Movo ligeiro para o vulto os passos: Eu beijo a tibia luz em vez de face; E aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a illusão minha; A violencia da mágoa não supporto; Foge-me a vista, e caio Não sei se vivo, ou morto. Enternece-se Amor de estrago tanto; Reclina-me no peito, e com mão terna Me limpa os olhos do salgado pranto.