Part 1
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MARILIA DE DIRCEO.
MARILIA DE DIRCEO.
POR T.A.G.
PRIMEIRA PARTE.
LISBOA:
Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.
MARILIA DE DIRCEO.
LYRA I.
Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado, De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóes queimado. Tenho proprio casal, e nelle assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite, Das brancas ovelhinas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
Eu vi o meu semblante n'uma fonte, Dos annos inda não está cortado: Os Pastores, que habitão este monte, Respeitão o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o proprio Alceste: Ao som della concerto a voz celeste; Nem canto letra que não seja minha. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
Mas tendo tantos dotes da ventura, Só aprêço lhes dou, gentil Pastora, Depois que o teu affecto me segura, Que queres do que tenho ser Senhora. He bom, minha Marilia, he bom ser dono De hum rebanho, que cubra monte, e prado Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
Os teus olhos espalhão luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve: Papoila, ou rosa delicada, e fina, Te cobre as faces, que são côr da neve. Os teus cabellos são huns fios d'ouro; Teu lindo corpo balsamos vapora. Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora, Para gloria de Amor igual Thesouro. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
Leve-me a sementeira muito embora O rio sobre os campos levantado: Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar huma rez, o nedeo gado. Já destes bens, Marilia, não preciso: Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta, Para viver feliz, Marilia, basta Que os olhos movas, e me dês hum riso. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
Hirás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marilia, no meu braço; Aqui descançarei a quente sésta, Dormindo num leve somno em teu regaço: Era quanto a luta jogão os Pastores, E emparelhados correm nas campinas, Toucarei teus cabellos de boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
Depois que nos ferir a mão da Morte Ou seja neste monte, ou n'outra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dous a mesma terra. Na campa, rodeada de cyprestes, Leráõ estas palavras os Pastores: "Quem quizer ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos que nos derão estes" Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!
LYRA II.
Pintão, Marilia, os Poetas A hum menino vendado, Com huma aljava de settas, Arco empunhado na mão: Ligeiras azas nos hombros, O tenro corpo despido; E de Amor, ou de Cupido São os nomes que lhe dão.
Porém eu, Marilia, nego, Que assim seja Amor; pois elle Nem he moço, nem he cégo, Nem settas, nem azas tem, Ora pois, eu vou formar-lhe Hum retrato mais perfeito, Que elle já ferio meu peito; Por isso o conheço bem.
Os seus compridos cabellos; Que sobre as costas ondeão, São que os de Apollo mais bellos; Mas de loura côr não são. Tem a côr da negra noite; E com o branco do rosto Fazem, Marilia, hum composto Da mais formosa união.
Tem redonda, e lisa testa; Arqueadas sobrancelhas; A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são huns sóes, Aqui vence Amor ao Ceo, Que no dia luminoso O Ceo tem hum Sol formoso, E o travesso Amor tem dous.
Na sua face mimosa, Marilia, estão misturadas Purpureas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim. Dos rubins mais preciosos Os seus beiços são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim.
Mal vi seu rosto perfeito Dei logo hum suspiro, e elle Conheceo haver-me feito Estrago no coração. Punha em mim os olhos, quando Entendia eu não olhava: Vendo que o via, baixava A modesta vista ao chão.
Chamei-lhe hum dia formoso; Elle ouvindo os seus louvores Com hum modo desdenhoso, Se surrio, e não fallou. Pintei-lhe outra vez o estado, Em que estava esta alma posta; Não me deo tambem resposta, Constrangeo-se, e suspirou.
Conheço os signaes, e logo Animado da esperança, Busco dar hum desaffogo Ao cansado coração. Pégo em seus dedos nevados, E querendo dar-lhe hum beijo, Cubrio-se todo de pejo, E fugio-me com a mão.
Tu, Marilia, agora vendo De Amor o lindo retrato, Comtigo estarás dizendo, Que he este o retrato teu. Sim, Marilia, a copia he tua, Que Cupido he Deos supposto: Se ha Cupido he só teu rosto, Que elle foi quem me venceo.
LYRA III.
De amar, minha Marilia, a formosura Não se podem livrar humanos peitos. Adorão os Heróes, e os mesmos brutos Aos grilhões de Cupido estão sujeitos. Quem, Marilia, despreza huma belleza, A luz da razão precisa, E se tem discurso, pisa A Lei, que lhe ditou a Natureza.
Cupido entrou no Ceo. O grande Jove Huma vez se mudou em chuva de ouro: Outras vezes tomou as varias fórmas De General de Thebas, velha, e touro, O proprio Deos da Guerra deshumano Não viveo de amor illeso; Quiz a Venus, e foi prezo Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.
Se amar huma belleza se desculpa Em quem ao proprio Ceo, e terra move; Qual he a minha gloria, pois igualo, Ou excedo no amor ao mesmo Jove? Amou o Pai dos Deoses Soberano Hum semblante peregrino: Eu adoro o teu divino, O teu divino rosto, e sou humano.
LYRA IV.
Marilia, teus olhos São réos, e culpados, Que soffra, e que beije Os ferros pezados De injusto Senhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Mal vi o teu rosto, O sangue gelou-se, A lingoa prendeo-se, Tremi, e mudou-se Das faces a côr. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
A vista furtiva, O risco imperfeito, Fizerão a chaga, Que abriste no peito Mais funda, e maior. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Dispuz-me a servir-te; Levava o teu gado Á fonte mais clara, Á vargem, e prado De relva melhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Se vinha da herdade, Trazia nos ninhos As aves nascidas, Abrindo os biquinhos De fome ou temor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Se alguem te louvava De gosto me enchia; Mas sempre o ciume No rosto accendia Hum vivo calor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Se estavas alegre, Dirceo se alegrava; Se estavas sentida, Dirceo suspirava Á força da dor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Fallando com Laura, Marilia dizia; Surria-se aquella, E eu conhecia O erro de amor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Movida, Marilia, De tanta ternura, Nos braços me déste, Da tua fé pura Hum doce penhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Tu mesma disseste Que tudo podia Mudar de figura; Mas nunca seria Teu peito traidor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Tu já te mudaste; E a Olaia frondoza, Aonde escreveste A jura horrorosa, Tem todo o vigor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
Mas eu te desculpo, Que o fado tyranno Te obriga a deixar-me; Pois busca o meu damno Da sorte, que for. Marilia, escuta Hum triste Pastor.
LYRA V.
A caso são estes Os sitios formosos, Aonde passava Os annos gostosos? São estes os prados, Aonde brincava, Em quanto pastava O manso rebanho, Que Alceo me deixou? São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.
Daquelle penhasco Hum rio cahia, Ao som do sussurro Que vezes dormia! Agora não cobrem Espumas nevadas As pedras quebradas: Parece que o rio O curso voltou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.
Meus versos alegre Aqui repetia: O Eco as palavras Tres vezes dizia. Se chamo por elle Já não me responde; Parece se esconde, Cansado de dar-me Os ais que lhe dou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou. Aqui hum regato Corria sereno, Por marg[~e]s cobertas De flores, e feno: Á esquerda se erguia Hum bosque fechado; E o tempo apressado, Que nada respeita, Já tudo mudou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.
Mas como discorro? Acaso podia Já tudo mudar-se No espaço de hum dia? Existem as fontes, E os freixos copados; Dão flores os prados, E corre a cascata, Que nunca seccou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.
Minha alma, que tinha Liberta a vontade, Agora já sente Amor, e saudade. Os sitios formosos, Que já me agradárão, Ah! não se mudárão! Mudárão-se os olhos, De triste que estou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.
LYRA VI.
Oh! quanto póde em nós a varia Estrella! Que diversos que são os genios nossos! Qual solta a branca vélla, E affronta sobre o pinho os mares grossos. Qual cinge com a malha o peito duro; E marchando na frente das cohortes, Faz a toare voar, cahir o muro.
O sordido avarento em vão trabalha, Que possa o filho entrar no seu Thesouro. Aqui fechado estende Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro. Sacode o jogador da copo os dados; E n'uma noite só, que ao somno rouba, Perde o resto dos bens do pai herdados.
O que da voráz gulla o vicio adora Da lauta meza os prazeres fia. E o terno Alceste chora Ao som dos versos a que o genio o guia. O sabio Gallileo toma o compasso, E sem voar ao Ceo, calcula, e mede Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.
Em quanto pois, Marilia, a varia gente, Se deixa conduzir do proprio gosto; Passo as horas contente Notando as graças do teu lindo rosto. Sem cansar-me a saber se o Sol se móve, Ou se a terra voltea, assim conheço. Aonde chega a mão do grande Jove.
Noto, gentil Marilia, os teus cabellos; E noto as faces de Jasmins, e rosas: Noto os teus olhos bellos; Os brancos dentes, e as feições mimosas. Quem fez huma obra tão perfeita, e linda, Minha bella Marilia, tambem póde Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.
LYRA VII.
Vou retratar a Marilia, A Marilia meus amores; Porém como, se eu não vejo Quem me empreste as finas cores! Dar-mas a terra não póde; Não que a sua côr mimosa Vence o lyrio, vence a rosa: O jasmim, e as outras flores. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traze-me as tintas do Ceo.
Mas não se esmoreça logo; Busquemos hum pouco mais; Nos mares talvez se encontrem Cores que sejão iguaes. Porém não, que em parallelo Da minha Ninfa adorada Perolas não valem nada, Não valem nada os coraes. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traze-me as tintas do Ceo.
Só no Ceo achar se podem Taes bellezas, como aquellas, Que Marilia tem nos olhos, E que tem nas faces bellas. Mas ás faces graciosas, Aos negros olhos, que matão, Não imitão, não retratão Nem Auroras, nem Estrellas. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traz-me as tintas do Ceo.
Entremos, Amor, entremos, Entremos na mesma Esfera. Venha Pallas, Venha Juno, Venha a Deosa de Cithera. Porém não, que se Marilia No certame antigo entrasse, Bem que a Paris não peitasse, A todas as tres vencera. Vai-te, Amor, em vão soccorres Ao mais grato empenho meu: Para formar-lhe o retrato Não bastão tintas do Ceo.
LYRA VIII.
Marilia, de que te queixas? De que te roube Dirceo O sincero coração? Não te deo tambem o seu? E tu, Marilia, primeiro Não lhe lançaste o grilhão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?
Em torno das castas pombas Não rulão ternos pombinhos? E rulão, Marilia, em vão? Não se afagão c'os biquinhos? E a provas de mais ternura Não os arrasta a paixão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria, ter izenção?
Já viste, minha Marilia, Avezinhas, que não fação Os seus ninhos no verão? Aquellas com quem se enlação Não vão cantar-lhe defronte Do molle pouzo em que estão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?
Se os peixes, Marilia, gerão Nos bravos mares, e rios, Tudo effeitos de Amor são. Amão os brutos impios, A serpente venenosa, A Onça, o Tigre, o Leão. Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?
As grandes Deosas do Ceo, Sentem a setta tyranna Da amorosa inclinação. Diana, com ser Diana, Não se abrasa, não suspira Pelo amor de Endymão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izençao?
Desiste, Marilia bella, De huma queixa sustentada Só na altiva opinião. Esta chamma he inspirada Pelo Ceo; pois nella assenta A nossa conservação. Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Não deve ter izenção.
LYRA IX.
Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo, Porém não me venceo a mão armada De ferro, e de furor: Huma alma sobre todas elevada Não cede a outra força que não seja Á tenra mão de Amor.
Arrastem pois os outros muito embora Cadêas nas bigornas trabalhadas Com pezados martellos: Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas Com duros ferros não, com fios d'ouro, Que são os teus cabellos.
Occulto nos teus meigos vivos olhos Cupido a tudo faz tyranna guerra: Sacode a setta ardente; E sendo despedida cá da terra, As nuvens rompe, chega ao alto Impirio, E chega ainda quente.
As abelhas nas azas suspendidas Tirão, Marilia, os succos saborosos Das orvalhadas flores: Pendentes dos teus beiços graciosos Ambrosias chupão, chupão mil feitiços Nunca fartos Amores.
O vento quando parte em largas fitas As folhas, que menêa com brandura; A fonte crystallina, Que sobre as pedras cáe de immensa altura; Não fórma hum som tão doce, como fórma A tua voz divina.
Em torno dos teus peitos, que palpitão; Exalão mil suspiros desvelados Enchames de desejos; Se encontrão os teus olhos descuidados, Por mais que se atropelem, voão, chegão, E dão furtivos beijos.
O Cisne, quando corta o manso lago, Erguendo as brancas azas, e o pescoço; A Náo que ao longe passa, Quando o vento lhe infuna o panno grosso; O teu garbo não tem, minha Marilia, Não tem a tua graça.
Estimem pois os mais a liberdade: Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo Á mão de Amor impia: Honro a virtude, e os teus dotes amo: Tambem o grande Achilles veste a saia Tambem Alcides fia.
LYRA X.
Se existe hum peito, Que izento viva Da chamma activa, Que accende Amor. Ah! não habite Neste montado; Fuja apressado Do vil traidor.
Corra, que o Impio Aqui se esconde: Não sei aonde; Mas sei o que vi. Traz novas settas, Arco robusto; Tremi de susto; Em vão fugi.
Eu vou mostrar-vos, Tristes mortaes, Quantos signaes O Impio tem. Oh! como he justo, Que todo o humano Hum tal tyranno Conheça bem!
No corpo ainda Menino existe: Mas quem resiste Ao braço seu? Ao negro Inferno Levou a guerra: Vencêo a terra, Vencêo o Ceo.
Já mais se cobrem Seus membros bellos; E os seus cabellos Que lindos são! Vendados olhos, Que tudo alcanção, E já mais lanção A setta em vão.
As suas faces São côr da neve; E a bocca breve Só rizos tem. Mas, ah! respira Negros venenos, Que nem ao menos Os olhos vem.
Aljava grande Dependurada, Sempre atacada De bons farpões. Fere com estas Agudas lanças, Pombinhas mansas, Bravos leões.
Se a setta falta Tem outra prompta, Que a dura ponta Já mais torcêo. Ninguem resiste Aos golpes della: Marilia bella Foi quem lha dêo.
Ah! não sustente Dura peleija, O que deseja Ser vencedor. Fuja, e não olhe, Que só fugindo De hum rosto lindo, Se vence Amor.
LYRA XI.
Naõ toques, minha Musa, não, não toques Na sonorosa Lyra, Que ás almas, como a minha, namoradas Doces Canções inspira: Assopra no clarim, que apenas sôa Enche de assombro a terra; Naquelle, a cujo som cantou Homero, Cantou Virgilio a Guerra.
Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.
Eu já não vejo as graças, de que fórma Cupido o seu thesouro: Vivos olhos, e faces côr da neve, Com crespos fios de ouro; Meus olhos só vem gramas, e loureiros; Vem carvalhos, e palmas; Vem os ramos honrosos, que destinguem As vencedoras almas.
Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.
Cantemos o Heróe, que já no berço As Serpes despedaça; Que fere os Cácos, que destronca as Hidras, Mais os leões que abraça. Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra Dos Tritães, e Tyféos, Que arrancão as montanhas, e atrevidos Levão armas aos Ceos.
Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de amor.
Anima pois, ó Musa, o instrumento, Que a voz tambem levanto; Porém tu déste muito assima o ponto, Dirceo não póde tanto: Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste; Eu já, eu já te sigo. Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_, E só _Marilia_ digo.
Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.
Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora Meu canto já se afina; E a huma voz, parece que ao som dellas Se faz tambem divina. O mesmo que cercou de muro a Thebas Não canta assim tão terno; Nem póde competir comigo aquelle, Que desce ao negro Inferno.
Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.
Mal repito _Marilia_, as doces aves Mostrão signaes de espanto, Erguem os collos, voltão as cabeças, Parão o ledo canto; Move-se o tronco, o vento se suspende Pasma o gado, e não come: Quanto podem meus versos! Quanto póde Só de Marilia o nome!
Deixemos, ó Musa, Empreza maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.
LYRA XII.
Topei hum dia Ao Deos vendado, Que descuidado Não tinha as settas Na impia mão. Mal o conheço, Me sóbe logo Ao rosto o fogo, Que a raiva accende No coração.
_Morre, Tyranno, Morre, inimigo_! Mal isto digo, Raivoso o apérto Nos braços meus. Tanto que o moço Sente apertar-se, Para salvar-se Tambem me aperta Nos braços seus.
O leve corpo Ao ar levanto, Ah! e com quanto Impulso o trago Do ar ao chão! Poude suster-se A vez primeira; Mas á terceira Nos pés, que alarga, Se firma em vão.
Mal o derrubo, Ferro aguçado No já cançado Peito, que arqueja, Mil golpes deo. Suou seu corpo; Tremêo gemendo; E á côr perdendo, Batêo as azas; Em fim morreo.
Qual bravo Alcides, Que a hirsuta pelle Vestio daquelle Grenhoso bruto, A quem matou. Para que próve A empreza honrada, C'o a mão manchada Recolho as settas, Que me deixou.
Ouvio Marilia Que Amor gritava, E como estava Vizinha ao sitio Valer-lhe vem. Mas quando chega Espavorida, Nem já de vida O féro monstro Indicio tem.
Então Marilia, Que o vê de perto De pó cuberto, E todo involto No sangue seu; As mãos aperta No peito brando, E afflicta dando Hum ai, os olhos Levanta ao Ceo.
Chega-se a elle Compadecida; Lava a ferida C'o pranto amargo, Que deramou. Então o monstro Dando hum suspiro, Fazendo hum gyro C'o a baça vista, Resuscitou.
Respira a Deosa; E vem o gosto Fazer no rosto O mesmo effeito, Que fez a dôr. Que louca idéa Foi a que tive! Em quanto vive Marilia bella, Não morre Amor.
LYRA XIII.
Oh! quantos riscos, Marilia bella, Não atropella Quem cégo arrasta Grilhões de Amor! Hum peito forte, De acordo falto, Zomba do assalto Do vil traidor.
O amante de Hero Da luz guiado, C'o peito ousado Na escura noite Rompia o mar, Se o Helesponto Se encapellava, Ah! não deixava De lhe ir fallar.
Do cantor Thracio A heroicidade Esta verdade, Minha Marilia, Prova tambem. Cheio de esfôrço Vai ao Cocyto Buscar afflito Seu doce bem.
Que acção tão grande Nunca intentada! Ao pé da entrada Já tudo assusta O coração! Pendentes rochas, Campos adustos, Que nem arbustos Nem hervas dão.
Na funda fralda De calvo monte, Corre Acheronte, Rio de ardente Mortal licor. Tem o barqueiro Testa enrugada, Vista inflammada, Que mete horror.
Que seguranças! Que fechaduras! As portas duras Não são de lenhos; De ferro são. Por tres gargantas, Quando alguem bate, Raivoso late O negro cão.
Dentro da cova Soão lamentos; E que tormentos Não mostra aos olhos A escassa luz! Minos a pena Manda se intime Igual ao crime, Que alli conduz.
Grande penedo Este carrega; E apenas chega Do monte ao cume, O faz rolar. A pedra sempre Ao valle desce, Sem que elle cesse De a ir buscar.
Nas limpas aguas Habita aquelle: Por cima delle Verdejão ramos, Que pomos dão. Debalde a bocca Molhar pertende; De balde estende Faminta mão.
Tem outro o peito Despedaçado: Monstro esfaimado Já mais descança De lho roêr. A rôxa carne, Que o abutre come, Não se consome, Torna a crescer.
Mas bem que tudo Pavor inspira, Tocando a lyra Desce ao Averno O bom Cantor. Não se entorpece A lingua, e braço; Não treme o passo, Não perde a côr.
Ah! tambem quanto Dirceo obrára, Se precisára, Marilia bella, Do esforço seu! Rompêra os mares C'o peito terno, Fôra ao Inferno, Subíra ao Ceo.
Aos dois amantes De Thracia, e Abydo Não deo Cupido Do que aos mais todos Maior valor. Por seus vassallos Forças reparte, Como lhes parte Os gráos de Amor.
LYRA XIV.
Minha bella Marilia, tudo passa; A sorte deste mundo he mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deoses Sujeitos ao poder do impio Fado: Apollo já fugio do Ceo brilhante, Já foi Pastor de gado.
A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulchro, Que seus a vós erguêrão, descançando: Qual no campo, e lhe arranca os frios casos Ferro do torto arado.
Ah! em quanto os Destinos impiedosos Não voltão contra nós a face irada, Façamos, sim façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Hum coração que frouxo A grata posse de seu bem difere, A si, Marilia, a si proprio rouba, E a si proprio fere.
Ornemos nossas testas com as flores, E façamos de feno hum brando leito, Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possão deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Tambem, Marilia, morre.
Com os annos, Marilia, o gôsto falta, E se entorpece o corpo já cançado; Triste o velho cordeiro está deitado, E o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura He dote, que só goza a mocidade: Rugão-se as faces, o cabello alveja, Mal chega a longa idade.
Que havemos d'esperar, Marilia bella? Que vão passando os florecentes dias? As glorias, que vem tarde, já vem frias; E póde em fim mudar-se a nossa estrella. Ah! não, minha Marilia, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça.
LYRA XV.
A minha bella Marilia Tem de seu hum bom thesouro, Não he, doce Alceo, formado Do buscado Metal louro. He feito de huns alvos dentes, He feito de huns olhos bellos, De humas faces graciosas, De crespos, finos cabellos; E de outras graças maiores, Que a natureza lhe dêo: Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.
Eu posso romper os montes, Dar ás correntes desvios, Pôr cercados espaçosos Nos caudosos Turvos rios. Posso emendar a ventura Ganhando astuto a riqueza; Mas, ah! charo Alceo, quem póde Ganhar huma só belleza Das bellezas, que Marilia No seu thesouro metêo? Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.