Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Chapter 9
Não quiz esquivar-se á obrigação de dizer o ultimo adeos áquella que lhe dominára em vida o coração e o espirito, e o hallucinára a ponto de perder a sua razão e comprometter a sua alma. Seguio para Amsterdam, que lhe recordava acontecimentos que lhe parecêrão felizes a principio, e se lhe tornárão depois tão dolorosos e infaustos. Dirigio-se para o cemiterio, aonde parava a sepultura querida. Ornava-a uma columna de marmore, cercada por uma grande cadeia de ferro. Em grandes lettras douradas se esculpira o nome de Beatriz de Moraes, com a data do seu nascimento e da sua morte. Pallidas roseiras lhe vicejavão em torno, e um cypreste sombrio lhe deitava por cima os galhos dispersos e desordenados. Rodeiavão a grade pequenos arbustos, brotando flôres merencorias nas estações competentes.
Impressionárão-lhe profundamente o aspecto do tumulo, o silencio que reinava, e as reminiscencias que lhe assaltárão o animo. Approximou-se com respeito, e rebentárão-lhe dos olhos prantos amargurados. Ajoelhou-se, dirigio suas preces a Deos, e atirando-lhe em cima ramos de flôres saudosas, exclamou enternecido:
--Mulher adorada! uma fatalidade inesperada nos reunio, uma louca paixão nos enlaçou, um crime nasceu do nosso amor! Fomos mutua causa das nossas desditas e calamidades. Assim nos perdôe Deos no mundo da eternidade, para o qual já te passaste, e aonde não tardarei a seguir-te! Só Deos é grande!
Lançou-lhe um derradeiro olhar. Tinha cumprido com os seus deveres. Affrontára a provança cruel, e a dominára com força.
Embarcou-se em Rotterdam para Lisboa.
Atirárão os mares por vezes o miseravel baixel sobre as costas de França e de Inglaterra, ao atravessar o canal perigoso que as separa, e aonde os ventos se encrespão com tanta furia, e se desencadeião com espantosa e repetida violencia.
Dobrado o cabo de Finisterra, não o poupou o golpho da Gasconha, celebrisado pelas suas constantes tormentas. Ondas precipitadas, correntes de agua, e furacões desordenados, parecião pretender devorar o galeão e os seus hospedes imprudentes.
Vencêrão os nautas todos os perigos. Ao entrarem porém no Oceano, dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellião, enviando-lhes ventos impetuosos de leste, que os arrastavão para o largo. Mais de quarenta dias despendêrão até que lograssem avistar as montanhas de Cintra. Aproárão á barra do Tejo, com os mastros do galeão partidos, velas rasgadas, cortado em pedaços, e falta quasi completa de alimentos e aguada. Dobrárão felizmente o cabo, e penetrárão dentro das aguas mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigião.
Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos e minuciosos interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao tomar conhecimento das recommendações do padre Antonio Vieira, o acolheu com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto.
Não terião decorrido duas horas depois que se abrigára ao Instituto de santo Ignacio, quando soldados armados, e fâmulos cobertos com as insignias do Santo Officio da Inquisição, se apresentárão á porta da casa santa, exigindo fallar ao provincial, e derramando espanto no claustro e em todo o povo da vizinhança.
Levados á presença do veneravel sacerdote, intimárão-lhe uma ordem do tribunal, reclamando a entrega de Manuel de Moraes, chegado de Hollanda, e asylado na companhia, réo dos crimes de abjuração e apostasia, e sujeito á jurisdicção do Santo Officio.
Conferenciou o provincial com varios padres respeitaveis e illustrados sobre o que lhe convinha praticar em honra do Instituto e em defesa dos seus direitos. Concordárão todos unanimemente, que offendia os fóros e privilegios da companhia a ordem inaudita do tribunal da Inquisição, mas lhe não podia o provincial oppôr resistencia, cumprindo-lhe apenas entregar o preso, e dirigir os seus protestos ao governo e ao soberano, afim de reinvindica-lo como membro do Instituto, e julga-lo segundo os seus regulamentos, quando se lhe imputassem crimes dignos de punição e castigo.
Executou-se a ordem do Santo Officio. Sahio Manuel de Moraes da casa da companhia de Jesus, e se passou para o poder da Inquisição. Corria então o anno de 1645.
CAPITULO XII
Estava então o edificio da Inquisição no largo do Rocio, assoberbando a praça com os seus muros tristes de pedra, e suas portas robustas de ferro. Formava uma massa disforme, mas grandiosa, sem bellezas architecturaes, mas de aspecto imponente e fortificado.
Destacado no fundo do Rocio, rodeiado de soldados e guardas, que velavão noite e dia, contendo as salas do tribunal, os carceres, as cellas dos presos, os quartos dos tormentos e torturas, e os aposentos das penitencias, afugentava o palacio de perto de si e dos seus arredores as massas tranquillas do povo, que o não avistava sem benzer-se devotamente e tirar-lhe o chapéo com respeitoso acatamento, temendo suspeitas e castigo.
Nem pedras restão hoje do barbaro edificio. Uma por uma forão pela população exasperada de Lisboa distrahidas do seu lugar, arrancadas á força, e dispersas em desordem, quando as côrtes constituintes de 1821 abolírão a instituição do Santo Officio, e extinguírão para sempre o tribunal execrando.
Por cima do palacio da Inquisição levanta-se actualmente o lindo theatro de Maria II, fazendo substituir o riso, os prazeres e os divertimentos alegres, ás scenas de dôres e de sangue commettidas outr'ora dentro d'aquelles muros enfumaçados, e que nodoárão as paginas da historia portugueza.
Foi Manuel de Moraes para alli conduzido. Ao penetrar os umbraes da porta principal por entre fileiras de guardas armados, ao avistar a enorme estatua de pedra da Fé, que resplandecia no topo da grande escada, sentio coar-lhe pelo sangue um frio intenso, e anuviar-lhe o espirito cogitações tenebrosas.
Atravessou varios páteos escusos e sombrios. Desceu e subio diversas escadas allumiadas apenas pelo frouxo clarão de lampadas pregadas no tecto. Ouvio ranger gonzos pesados de portas, que se abrião e fechavão. Respirava-se dentro um odor infecto, que parecia exhalação de cadaveres. Dir-se-hia que as paredes gottejavão sangue humano, e gemidos de infelizes creaturas echoavão pelos longos corredores abobadados. Trajavão os empregados vestes iguaes, resplandecendo-lhes ao peito uma grande cruz pintada de côr amarella, e cobrindo-lhes as cabeças um capuz que lhes escondia as faces.
Reinava uma lugubre tristeza, um horror extraordinario, que se entornava por todos os sitios e reconditos do edificio, e amedrontava os sentidos dos entes malfadados que alli penetravão.
Depois de muitas voltas, e palavras baixas trocadas entre os guardas e empregados, achou-se em um negro corredor, aonde se não adivinharia caminho se o não aclareasse opacamente uma lampada acesa, collocada no centro. Abrio-se a um dos lados uma porta de ferro, e foi Moraes introduzido em um quarto pequeno, baixo, despido de ar e sombrio, que se reputaria antes um sepulcro, cavado como que em rocha viva e humida. Trancou-se-lhe a porta, apenas elle entrou para esta prisão solitaria, que com difficuldade agazalharia duas pessoas juntas. Não havia um leito, e nem-um traste. A unica cousa que se apercebia era um pucaro de barro, que parecia cheio de agua, a um canto da cella. O chão de tijollo servia de assento e uma porção de palhas espalhadas formavão a cama. Negra escuridão o rodeiava, vasando-lhe ás vezes por uma fresta aberta na parte superior da muralha um ou outro raio da lampada do corredor contiguo, que descobria o preso aos guardas, que alli vigiavão todas as acções e gestos dos presos, e lhes ouvião os ais e palavras, por maiores cautelas que as victimas empregassem em abafa-los.
Só e n'esta penosa posição, se entregou Moraes a um exame minucioso do sitio em que se achava. Percorreu com os olhos o chão, o tecto, as paredes. Deslumbrou aqui e alli dispersas manchas vermelhas que se dirião de sangue borrifado no meio do colorido enfumaçado e sujo, e hieroglyphicos sensiveis que se afiguravão traçados por mãos humanas. Subírão-lhe á mente assombrada pensamentos amargos e tristonhos. Seria sangue dos réos do Santo Officio que salpicava aquellas paredes? Serião adeoses ao mundo que elles alli escrevêrão, e que já nem erão decifraveis? Appareceria algum nome, alguma data, algum signal, por onde se descobrisse o segredo que pretendessem legar aos posteriores?
Não logrou comprehender nem-um d'esses mysterios. Arripiou-se-lhe porém todo o corpo com o seu aspecto merencorio, e assomou-lhe ao espirito a historia tenebrosa do tribunal da Inquisição, que lançava o susto por toda a parte, e sobre todo o povo, e era tão geralmente execrado pelos seus crimes monstruosos.
Trouxe-lhe o cansaço o somno, porque a consciencia repousava tranquilla, desde que abandonára o calvinismo, e volvêra á religião dos seus maiores. O tempo que dormio não apreciou exactamente. As noites se confundirão com os dias, sem que um signal de maior ou menor luz ou claridade as deixasse verificar, no seio das trevas constantes que inundavão monotonamente a cella solitaria.
Imaginava comsigo que raiava o dia quando, sem lhe abrir a porta da prisão, rolava pelas paredes arranjadas adrede um novo pucaro de agua, e uns pães seccos e duros, avisando-o uma voz cavernosa de fóra para os receber, tira-los do lugar, e substitui-los pelo pucaro da vespera, que se sumia logo com as mesmas mysteriosas cautelas, não ouvindo resposta alguma á pergunta que dirigisse.
Lembrou-se de contar as vezes em que se verificava esta operação, e pensou encontrar no seu numero a quantia dos dias de prisão. Mais de quarenta erão já decorridos, quando sentio rumor mais sensivel de passos e palavras baixas trocadas fóra da cella.
--A mim,--disse comsigo,--ou a outra victima vizinha procurão e buscão para os tormentos e torturas.
Percebeu minutos depois abrir-se a sua porta. Ergueu-se, e vio apparecer um vulto coberto de manto longo e escuro. Tornou a porta a fechar-se, e achárão-se os dous cerrados um junto ao outro, quasi sem poderem fazer livremente um gesto, pela estreiteza do aposento.
--Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada.
Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe dirigíra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narrações de imaginarios crimes.
Deliberado porém a dizer a verdade inteira, fosse qual fosse o resultado, e a se não deixar enganar com promessas fascinadoras, respondeu ao vulto em tom resoluto.
--Não ha duvida que me chamo Manuel de Moraes.
--É vossa patria a povoação de São Paulo na capitania de São Vicente dos Brazis?--continuou o vulto a perguntar-lhe.
--É verdade,--repetio Moraes.
--Fostes noviço na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o habito?--continuou o vulto.
--Não posso, não devo, e nem quero nega-lo,--proseguio Moraes.
--E me não reconheceis?--disse-lhe o vulto, approximando-se do espaço atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabeça despida inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido.
Encarou-o Moraes em vão. Não lhe recordárão os seus olhos o homem que tinhão diante de si. Traçou chamar em seu auxilio reminiscencias passadas. Nem-uma idéa o coadjuvou nos seus intentos.
--Não me é possivel,--respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:--Sem duvida querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos envião para interrogar-me?
--Afastai do espirito,--replicou-lhe o Jesuita,--idéas tão erradas quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela persuasão e consciencia. Não dobra vontades com a força physica. Não castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou carceres. Deos todo poderoso é o unico juiz que reconhece para os delictos dos homens. Não estais preso por ordem do Instituto de santo Ignacio de Loyola. Sois réo do tribunal do Santo Officio da Inquisição. Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo as licenças necessarias para penetrar até esta prisão.
Profunda impressão produzírão sobre o desditoso Moraes essas palavras pausadas, e proferidas com uma uncção tão aprimorada, que lhe levárão certeza ao animo de robusta expressão de franqueza e verdade. Mas quem era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a idéa de não podê-lo descobrir e conhecer.
--Que quereis pois de mim?--disse-lhe meigamente.--Cheguei de Hollanda, trazendo cartas de recommendação do veneravel padre Antonio Vieira, que me protegeu e salvou do precipicio e da perdição eterna. Se sois Jesuita como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e documentos, que lá deixei quando os famulos da Inquisição me arrancárão da santa morada.
--Tomou o nosso provincial conta de tudo--proseguio o vulto com tristeza.--Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de affeiçoar vontades e dedicações em pró de vossa pessoa e defesa. Infelizmente porém não vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos os esforços!
--Tenho de morrer!--proseguio Moraes.--Sinto-o tão cedo porque não expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejára conservar-me no mundo o tempo só preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos ouve o meu sincero arrependimento, e será de certo misericordioso para comigo!
--Ignorais que já vos condemnárão?--retorquio o vulto.
--Condemnado sem ser ouvido?--perguntou-lhe.
--Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e apostata,--continuou o Jesuita.--Formou-se o processo, e lavrou-se a sentença. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado comtudo em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, e inscripto o vosso nome no livro dos condemnados á morte.
--Nada me resta portanto no mundo?--exclamou Moraes.--Deixai-me então rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobrão de vida, para que me conceda a sua graça infinita!
--Ereis assim um réo já, e sujeito ao tribunal da Inquisição--proseguio o velho--quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjuração, e na protecção do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio que vos havieis recolhido á nossa casa, e reclamou-vos com a sua justiça.
--E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?--murmurou Manuel com indicios visiveis de despeito.
--Que póde contra a Inquisição a companhia de Jesus?--repetio-lhe o padre.--São tão diversas as funcções respectivas das duas oppostas instituições! Aquella cura da purificação da fé, e da orthodoxia romana, constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes, guardas, empregados, força publica, instrumentos de tortura, fogueiras, processos e execuções. Limita-se esta ao espiritual, e ás cousas sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo. Quantos trabalhos lhe não tem custado salvar os Brazis da inquisição, que desejaria lá como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a Inquisição e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta, emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos sãos, que podem dar ainda viço e fructos.
--Mande-me ao menos--interrompeu Moraes--um padre, um amigo fiel para me ouvir de confissão, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia!
--E que vim eu aqui fazer?--perguntou-lhe o Jesuita em tom de queixa--para que penetraria por entre estes negros corredores, e chegaria até aqui, se não houvera recebido encargo particular do nosso provincial, e logrado licença do Santo Officio, para ver-vos, fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que não desampara os seus discipulos?
--Obrigado! obrigado!--proferio Moraes, deixando-se cahir aos pés do padre, e esforçando-se em abraça-los com fervor.
--Levantai-vos, filho--continuou o vulto, tentando erguer o desgraçado e apertando-o nos braços--não é tempo ainda de confissão e preparativos do ultimo instante. Sou por ora um amigo, que procura consolar-vos, e basta para que me presteis toda a vossa confiança recordar-vos de quem sou... lembrar-vos do passado...
Observou Manuel que sahírão estas palavras no meio de suffocados soluços, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e copioso.
Por mais tratos porém que désse á memoria, não lhe foi possivel ainda assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabeça, aquella voz doce e attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencião no entanto de que não o enganavão as expressões sinceras do seu respeitavel interlocutor.
Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse interrompê-lo, até que o desconhecido, encostando-lhe a face, e imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e sonora:
--Não me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o véo que o assombrava de todo.
--Olha--proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de avivar-lhe a memoria--olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos tortuosos, que trepão e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras, jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabiás e pintados gaturamos saudão a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e a grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre abaixo da cerca, que povoa o outeiro até a sua base, esse riacho, que alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo flôres sylvestres, que lhe brotão das margens alegres e festivas. Lança para mais longe os olhos, e lá pairão a planicie com suas mattas poderosas; o grande rio Tieté, que lhe rasga as entranhas; os morros da Penha, que em distancia arrebatão os sentidos, e terminão em soberbo amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e balouçadas pelo brando zephyro, e que se não escapão jámais dos galhos das arvores carinhosas, e nem jorrão murchas pelo chão como succede na Europa durante a estação do outono. Nota esses gentios, côr de cobre, que enchem os templos em multidão, orão devotamente, respeitão e obedecem aos padres da companhia, e formão procissões religiosas. Não avistas a povoação de São Paulo pelas lembranças, já que a não vêem mais os teus olhos? Não me reconheces ainda?
--Meu Deos, meu Senhor!--gritou Moraes.--Que feridas me rasga este padre, e não posso recordar-me d'elle!
--Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma casinha branca, de telhas vermelhas,--continnou o vulto.--Morava n'ella José de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue.
--Morto é já meu pai!--desgraçado!--Basta, basta!--interrompeu-o Moraes.--Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixão!
--Não descobriste ainda?--repetio o padre.--Conto está obsecado o teu espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!... Lembra-te, filho, do padre que te disse: Desgraçado serás, porque a Igreja calholica é a razão divina, a unica salvação da creatura humana. Não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias!
--Eusebio de Monserrate!--prorompeu em ancias afflictas Manuel de Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os sentidos, e cahindo sobre o chão frio do carcere.
CAPITULO XIII
Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paços da Inquisição, encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial.
Expôz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era sua opinião que a sua conversão ao catholicismo se baseava em sinceridade e espontaneidade d'alma, e fôra o seu arrependimento verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo de santo Ignacio, e prestar relevantes serviços á religião e ao Estado.
Em relação no entanto ás suas pesquizas ácerca dos intentos do tribunal do Santo Officio, perseverava em desconfiança de que confirmaria a primeira sentença proferida em ausencia do réo, e não seria poupado o infeliz no primeiro auto de fé que a Inquisição designasse.
Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforços e empenhos afim de salvar o noviço, avocando-o a companhia como sujeito á sua jurisdicção, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais: Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a cooperação e a autoridade d'el-rei e da rainha.
Concordárão em procurar todos os seus amigos, e aquelles individuos para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira, summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do proprio soberano o perdão do noviço por uma missiva sua directa, empenhando todo o seu valimento.
Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de poucos dias em movimento, e trabalhando em pró de Manuel de Moraes. O confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leão, desembargador da casa da Supplicação, João Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha, e varios individuos mais de influencia. Não pôde infelizmente Dom Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o roubara á liberdade, e o arrastára aos carceres. Ninguem valêra mais que elle á sua chegada a Lisboa. Considerado pelos seus escriptos primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e expondo-se a perseguições do governo de Castella, de cujas prisões lográra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavão, e recolhendo-se a Portugal, travára por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeão Francisco Cardoso, e o matára exasperado. Estava por esse motivo processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvação que do beneficio alheio.
Virão-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porém Dom João IVº em intrometter a sua autoridade, ainda não solidamente estabelecida em Portugal, em questões inherentes ao tribunal do Santo Officio.
Saltára a sua corôa do meio de uma revolução. Sahíra o seu throno de um movimento popular, que fôra unisono no povo, e em maioria apenas na nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reacções e levantamentos dos que lhe não adherião ao governo, e perseveravão em obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade fidalgos e bispos, que se lhe oppunhão, e tramavão contra a sua autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, não alcançavão victorias assignaladas.