Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Chapter 6
Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario. Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que os compellio a recuar. Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens, quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos, senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos Portuguezes.
Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo, Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos Estados Geraes, e que governára militarmente Pernambuco antes que se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau. Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em seus territorios de Pernambuco.
Aproveitando-se da derrota soffrida pélas armas hollandezas diante da Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.
Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.
Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia. Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.
Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com communicações francas á Companhia a respeito dos motivos que os levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.
Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação, e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau. Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.
Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a Amsterdam com a sua familia. Communicou á sua filha os seus intentos para que se preparasse a seguir na primeira frota que para Hollanda se fizesse de vela.
Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas não oppôz duvidas á resolução de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos.
Não escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jámais declarado, elle não deixára de perceber? Que causas lhe teria dado? Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem?
Atormentava-se Moraes com serias cogitações, sem que pudesse rasgar o véo que encobria a dôr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o seu procedimento reservado. Corrêrão alguns dias nebulosos e enlutados após tantos dias alegres, felizes, perfumados de amores, de estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos.
Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. Não podia conservar-se n'aquella situação miseranda depois da anterior e aventurada posição. Sentio que a franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado. Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma declaração leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais eloquencia havião os olhos propalado, já que uma nuvem se interpuzera á linguagem muda com que mutuamente até então se correspondião.
Não lhe faltavão occasiões para se achar a sós com a donzella. Tomou forças para a acção, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraça lhe houvera acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz esconder-lhe a verdade. Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse ser satisfeito, arrancou do coração um grito de dôr, e disse-lhe estremecidamente:
--Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. Não sabeis já, com que força vos amo e adoro!
Não espantou a confissão á donzella. Conheceu porém que após ella feita tão solemnemente, melhor fôra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz se lhe embargava ás vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre os tremulos labios que a desprendião.
Declarou-lhe que seu pai lhe annunciára que pela primeira frota, que do Recife seguisse para a Hollanda, deverião ambos partir, deixando por uma vez as terras de Pernambuco.
--Partir! partir!--exclamou elle attonito;--E eu que fico aqui fazendo? que vida posso esperar?
Subírão-lhe ao espirito todos os impetos da paixão. Fallou mais alto o sentimento do peito que a reflexão, o respeito e a conveniencia.
--Para que me apparecestes?--continuou desasocegadamente.--Para que mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era amor, que elles nunca tinhão conhecido.
Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixão nos gestos, no trato, nos olhos, no fogo, e no enthusiasmo. Não escapa a mulher nem-uma o mysterio de um coração apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a força e vehemencia com que elle fallava. Fingíra a principio que o não comprehendêra. Empregára esforços para divergir do assumpto do colloquio. Não conseguindo porém que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado enternecimento:
--Razão maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. Não vos quero enganar. Amo-vos tambem, e não menos profundamente do que me asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaços. Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a minha lembrança... Poderá talvez o tempo abafar idéas que a loucura nos creou, e que a razão condemna...
--Não vos entendo,--interrompeu-a Manuel de Moraes.--Porque condemnará a razão o que lhe não é contrario?
--Não o pensastes, e nem eu ao principio--repetio-lhe Beatriz, pegando-lhe na mão, erguendo humedecidos os olhos para o céo, e empregando um tom de ineffavel ternura.--Deixámos imprudentemente que a paixão se infiltrasse pelos nossos corações, sem que pressentissemos a impossibilidade de uma união legitima. Sois catholico, eu protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. Não podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrêrão. Gottejão feridas profundas entre os dous cultos...
--Impossivel! impossivel!--prorompeu Moraes.--Emquanto me não convencia de ser correspondido, poderia realisar-se a separação. Tragaria eu só a minha dôr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o céo diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallão os anjos no paraiso--é impossivel.--Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com a vossa vida, e exhalará o ultimo suspiro da existencia por vós, ou comvosco!
--De que serve tudo isso,--replicou-lhe Beatriz agitada igualmente, posto esforçando-se em parecer serena,--se jámais podemos unir-nos, se nos separão para sempre os homens, os cultos, as tradições e os costumes? Eu não posso tornar-me catholica. Não poderieis renegar a vossa religião, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razão, e vos coagisse a renegar, não vos atormentaria eternamente o perjurio, não ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? Não se murcharia com elle o amor que exigio sacrificios superiores á alma e á fé? Não o quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous viajores que se encontrárão no deserto, repousárão ambos á sombra do mesmo oásis, refrescárão os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se despedírão depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle de lagrimas em que andamos errantes não é eterno. Transpomo-lo apenas. Mais tarde nos encontraremos. Como o filho de Abrahão atravessastes a Mesopotamia. Não vos seguirá porém a filha de Labão.
--Quereis que eu morra?--perguntou-lhe Manuel assombrado por essas palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a donzella.--Melhor fôra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos cuidados e carinhos me não tivessem salvado!
--Deos--repetio-lhe Beatriz--nos concedeu um coração para amar, mas acima do coração collocou o espirito, que é a sua emanação divina, e a razão que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudeça a paixão diante da reflexão. Não nos é permittido unir-nos honestamente. Ficai em Pernambuco. Eu parto. Assim devia sê-lo, logo que nos descobrímos mutuamente os sentimentos.
--Não, não,--gritou Manuel.--Mato-me antes. O que é a vida? o que vale para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence igualmente ao mundo, e á sociedade humana?
Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.
--Mudança de culto,--disse-lhe ella,--exige convicção firme, e não subito hallucinamento. Deve ser obra da razão, não do coração. O espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...
--Não a temais,--retorquio-lhe Manuel.--Permitti que eu vos acompanhe para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas palavras.
Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior agitação do espirito.
Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes. Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes. Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade, considerando-os como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.
Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no espirito, e o apouquentou bastante.
Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.
Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos, que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança. Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.
Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno de 1639.
Embarcárão-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se Manuel de Moraes da America, na intenção firme de nunca mais revê-la.
CAPITULO VIII
Não decorrêra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havião retirado Brodechevius e sua filha, e já havia Manuel de Moraes abjurado a religião catholica, abraçado o protestantismo com o consentimento do velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado emfim a sua residencia na nova patria que adoptára.
Venturosos dias se passárão a principio no seio d'essa familia tranquilla e socegada. Posto nem-uma convicção arrastasse Moraes para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactidão, e cumpria escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava. Não lhe pesavão no espirito, porque não era ainda chegada a hora do arrependimento e dos remorsos, e o prendião com doces e agradaveis laços os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicação admiravel e extremosa.
Frequentavão-lhes a casa familias distinctas, affeiçoavão-lhes a amizade pessoas selectas, attrahião-lhes os cuidados relações agradaveis.
Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judêos portuguezes, evadidos de Portugal diante das perseguições do governo e do Santo Officio da Inquisição. Numerosas familias d'essa raça condemnada por injustos preconceitos e prejuizos loucos da opinião publica da época, abandonárão as terras luzitanas, e achárão abrigo, e liberdade para os seus cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua industria e fortunas.
Primavão entre os judêos portuguezes homens de merito notavel. Havião muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religião pela catholica, afim de se lhes consentir a residencia na patria, que não admittia o culto israelita. Bastava porém a mais pequena suspeita, a menor denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrárão alguns para as ordens monasticas, tomárão habitos de sacerdotes, empregárão-se no proprio tribunal da Inquisição, como seus famulos e servidores. Não lhes valêra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditára na sinceridade da sua abjuração. Após os que, por não quererem renegar as suas crenças religiosas, forão compellidos a expatriar-se, seguírão aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente, adoptárão o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de sinceridade e dedicação aos dogmas e disciplina da Igreja romana.
Bastava ser judêo, tê-lo sido, ou descender de sangue judêo, para que se lhe não poupassem insultos, prisões, miserias, violencias, assassinatos juridicos e barbaros. Não os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu Portugal com a sua emigração um povo rico, industrioso, trabalhador, activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas.
Figuravão entre os judêos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixárão fama nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fôra medico notavel em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio graças a um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da communhão israelita da Hollanda[4]. Manassé ben Israel, oriundo de Arabes e judêos, naturalista distincto[5]. Uriel da Costa, que exercêra cargos civis em Lisboa, convertendo-se á religião de Roma, e que nem por isso fôra poupado pelo cruento tribunal, que anciava por purificar a fé religiosa nas fogueiras que levantava para queimar vivas as victimas da sua atrocidade supersticiosa[6].
Perseveravão as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus costumes, e a lingua portugueza, formando uma communhão livre e levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos, solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes.
Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel arrependimento.
Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha. Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional, com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado para Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado[7].
Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.
Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na terra?
Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava viço e vida.
Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a menor confidencia de Manuel, posto o interrogasse por todas as fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia operando no seu animo.
Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do espirito.
Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino; adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma contra esse amor e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior que era á razão e á vida.
Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca, aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.
Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem reciprocamente.
--Sou eu causa,--disse-lhe Beatriz um dia,--dos tormentos do teu espirito?
--Tu?--respondeu-lhe Moraes.--Enganas-te. És antes o unico anjo que me ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado; paralysava-me porém a inercia do somno--chegaste,--fugio o monstro,--salvaste-me!
--Sacrificaste por mim tua vida,--continuou ella.--Sei que isso te não peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o espirito!
--Ama-me sempre,--replicou-lhe Moraes,--e tudo isso é nada, porque só vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas, precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua presença, como a do anjo tutelar e da guarda.
--Moraes,--tornou-lhe ella,--conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua, em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie incolor das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e do firmamento.
Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo sentimento forte da dôr e da amargura.