Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Chapter 5

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Conseguírão as lanchas hollandezas salvar bastantes desgraçados, posto crescido numero de Hespanhóes perecesse nos arrancos da dôr, e no jogo sorvedor das ondas. Contou-se entre os escapos Manuel de Moraes, mas nem presa pôde ficar dos Hollandezes o galeão _Santo Ambrosio_, que as labaredas do fogo e os ultrages das vagas destruírão totalmente em pouco tempo. Lográrão todavia os Batavos audaciosos colher ás mãos dez dos outros vasos do comboio, que não tiverão a fortuna de evadir-se, e com que applaudírão estrondosamente o seu feito e triumpho.

Chamava-se Henrique Long o chefe da frota hollandeza que aprisionára as embarcações referidas. Era um famoso marinheiro, que desde 1630, succedendo a Willekens, Pict Heyne e Padrid, limpava os mares de navios hespanhóes e portuguezes, mercantes e de guerra, causava destroços inauditos no oceano, apoderava-se de cópia numerosissima de galeões adversos, e espalhava os sustos e terrores por toda a immensidade dos mares.

Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos dos navios hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.

Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista hollandeza.

Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua marcha debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella desventurada.

CAPITULO VI

Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os Hollandezes, inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe inteiramente o commercio maritimo.

Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas, que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo. Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar de 1624, com a obrigação de entregal-os no fim do prazo ao governo, e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem, estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe restassem.

Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções, espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.

Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e Frisa. Competião á administração superior as attribuições politicas e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.

Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de 1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D. Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.

Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em 1630, lográra fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda, capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto, para que não pudessem servir ao inimigo.

Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco, em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque, e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente dirigia.

Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de São Jorge, arrasára-se o heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes activos e bravos.

Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se unicamente aos Portuguezes o cultivo das terras, e os trabalhos da industria agricola.

Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio, fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe. Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife. Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente estabelecido nos seus regulamentos e annuncios.

Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas, alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o notavel bairro da Boa Vista.

Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou nova vida á colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio, guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos levantar as suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda. Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo, com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe, que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do paiz, que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se até um dos agentes financeiros da Companhia.

Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda, e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém mais o ginete da dama que vinha adiante, percebeu Manuel com susto que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira, que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.

Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las, vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus intentos.

Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado, agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o ginete de raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar, tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome, officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de viva voz o seu reconhecimento.

Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a dama, e a transportou para a sua casa, emquanto Manuel tratou de recolher-se ao seu mesquinho alvergue.

Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservára sobre o corpo, lhe não deixára conciliar o repouso. Com o correr da noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as forças, agitou os membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno.

Horas tormentosas se passárão para Moraes até que o dia raiou, e linhas quentes do sol lhe rasgárão as frestas da janella do seu alvergue, sem que uma mão amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto como só e isolado residia.

Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de forças, quando ouvio bater á porta, e fallar uma voz meiga posto desconhecida. Pôde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito.

Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvára na vespera. Com difficuldade pôde responder-lhe Moraes ás perguntas, reconhecendo-se extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e instrucções no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse.

Regressado o velho á sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia.

Não sabia Brodechevius recusar-se á vontade de sua filha Beatriz. Era o fructo unico que lhe restava da sua finada e querida esposa, e dominava-lhe o animo e o coração com poder extraordinario. Desesperado com a morte da companheira, abandonára Amsterdam, aceitára um emprego no conselho director da Companhia das Indias, passára-se para o Recife, e ahi se estabelecêra, vivendo só para Beatriz, e cercando-lhe a vida com todas as delicias, que sóem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno.

Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde um facultativo se incumbio de trata-lo.

Tomou a febre um caracter maligno e proporções assustadoras. Visitava a miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o ás vezes a tomar os medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao enfermeiro, animando-o com maneiras gentis e expressões doces e sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava á cabeceira, e lhe dirigia a vontade.

Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e louros cabellos ondeavão-lhe por sobre a cabeça altiva, denunciando a sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e expressiva, olhos grandes e feições regulares, lhe davão ares de magestade mais que de delicadeza e doçura. Impunha o respeito pela seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertêra o catholicismo em santas da sua Igreja, tão graciosas na sua dignidade quanto imponentes na sua attitude.

Faltavão a doçura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das imagens traçadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porém uma d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a imaginação. Não resplandecião os seus olhos voluptuosamente, inundando-se de paixões deleitosas. Mas dizião admiravelmente que se um dia sentissem os assaltos do amor, não serião estes transitorios e mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hião á altura de dedicação firme e permanente.

Acostumava-se Moraes á direcção que lhe dava Beatriz, descobrindo pela primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos. Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavão os seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella queria que elle não morresse. Fallava-lhe já o coração que era Beatriz indispensavel á sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixão lhe tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito.

Não deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moço, as suas maneiras nobres, que lhe não parecião coadunar com a condição em que o achára, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que manifestavão uma educação superior á sua profissão, e os pensamentos moraes e religiosos, que soía exprimir, e que abonavão uma alma pura e honesta, e um animo primoroso.

O que foi n'elle desde o principio paixão amorosa, iniciou-se em Beatriz como sympathia razoavel. Borbulhavão no peito de Manuel sentimentos fogosos e delirantes, que lhe assoberbárão o espirito. Deixou-se arrastar a donzella por uma affeição moral, que lhe descrevia as qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da razão para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o coração, como gottas d'agua, que esbroão a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo razoavelmente, tomou a affeição o caracter de amizade, e este o gráo de amor, acompanhando as phases da reflexão em luta com os sentimentos naturaes, até que estes conseguírão sobre aquella um triumpho decidido.

Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e diminuindo alternativamente até que entrou em plena convalescença. Bastou esse tempo para criar e firmar nos corações de ambos os jovens o sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre.

Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento, e que o só destino cego conservava em trabalhos inferiores á sua educação e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego conveniente na administração da Companhia, em cujo exercicio entrou, sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que suspeitasse o velho os mysterios que lhe escondia o coração, abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais evidentes de verdadeira estima.

Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeiçoava as vontades da donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da paixão, ganhou Moraes relações com personagens importantes da Companhia, e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto calvinista, e arreigados profundamente ás virtudes domesticas, e á vida intima e pura do lar e da familia.

Resistíra sempre o seu espirito altivo e independente á disciplina imposta e forçada. A instrucção que adquiríra dos dogmas da religião catholica não lhe havião ganho a razão, como elle proprio o desejára, para que com a razão lhe sorrisse a fé que lhe cumpria ter na orthodoxia de Roma. Conservava já o seu culto mais por habito e instincto que por convicção, porque se impregnára de duvidas o seu animo, não distinguindo nas religiões senão as idéas moraes e as virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe parecião em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de São Paulo.

A cogitações tão fataes lhe ia seguindo a indifferença espiritual e o scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da alma. Concorreria o amor para esta phase desgraçada, que o desprendia da religião pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da creatura diante do supremo autor do mundo?

CAPITULO VII

Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes. Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em prazer e delicias ineffaveis.

Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma, e nas conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella, porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus impetos.

Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que percebessem as differenças que os arredarião mais tarde.

Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta d'esta praça importante.