Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Chapter 2
Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força moral que lhe attrahia o respeito?
Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a cruz do seu rosario:--Em nome de Deos, cessai, peccadores!
Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente. Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.
Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.
--Que succedeu?--perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia affeiçoar a confiança.
--Padre!--disse-lhe o homem mais tranquillo--Sou um pobre carijó, e é minha filha esta menina. Moravamos ahi,--apontando para uma infima choupana--quando tres brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua, carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles, quando chegastes, e nos salvastes!
--E que sangue é este?--continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a cabeça, a face, e a camisa de algodão.
--Não é nada, meu salvador,--repetio o gentio, chegando os labios á mão do noviço.--Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora dos seus perseguidores.
--E os conhecestes?--interrogou-lhe o joven.
--São perros,--tornou-lhe o carijó.--Não lhes divisei bem os rostos, mas creio que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os padres sós nos amparão e protegem!
Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra. Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento. Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel. Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na cintura e com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro nem soalho de madeira.
Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles, deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em face uma da outra, e agradecendo a Deos por conservar ao menos a autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.
Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos, e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.
Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e nem uma porta ou janella das casas estava aberta.
Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.
Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade. Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno. Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.
--Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,--disse Manuel, benzendo-se ao entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.
--Novidades grandes trazeis-nos,--exclamou o velho, percebendo-o.--A taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?
Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina, e que o impressionou como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.
Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.
Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de Moraes com a sua conhecida repugnancia de passar na companhia do gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e profundamente o irritavão.
--Antes de responder-vos, meu querido pai--disse-lhe Manuel, ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto extremoso--Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!
A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:
--Que crime commettestes? Preciso sabê-lo primeiro, porque Deos me não permitte perdoar na ignorancia!
Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado. Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando estes pretendião dar passagem ás palavras.
Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.
Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:
--Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.
Levou o velho a mão á fronte despovoada quasi de cabellos. Ergueu-se com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.
--Expulsárão-te da companhia?--disse-lhe desesperadamente.
--Não, meu pai,--tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.--Foi sempre exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão todos, que não criei nem-um desaffecto.
--Mais criminoso foste então,--retorquio-lhe o velho--porque lançaste sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra, commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.
--Não, meu pai,--continuou Manuel mais tranquillamente.--Segui sempre o caminho da virtude, que me ensinastes.
--Não te entendo,--repetio-lhe José de Moraes, bastante alliviado já do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.
--Não commetti um crime, meu pai,--proseguio Manuel.--Não pratiquei uma acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as forças!
Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.
Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.
--Que fizeste pois?--disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.
--Perdoai-me antes, meu pai,--repetio-lhe Manuel.--Promettei-me o vosso perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.
--Confessa primeiro,--continuou o velho, arredando-se de novo do pé do filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.
Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois de ter dado provas patentes das suas exigencias.
Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e agradecido.
--Sahe d'ahi,--gritou para o cachorro estremoso o velho irritado, lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua, aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.
Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:
--Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto, e ajudar-vos nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!
--Nunca!--retorquio-lhe o velho com violencia.--Dediquei-te á vida dos missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da tua familia.
--Deixei-a já, meu pai!--respondeu o filho.--Esta roupeta me não pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios ao coração e ao espirito.
Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:
--Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para sempre fechada!
Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.
--Minha querida mãi!...--escapou-lhe dos labios uma voz dorida.
Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.
--Manuel!--pronunciou sempre a assustada mãi.--Obedece a teu pai, volta para os teus deveres.
--É impossivel já, exclamou o noviço.
--Calai-vos, senhora!--cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava ella pronunciar.--É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!
Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se revestem.
Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos. Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo. Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo para a tocar com os labios.
--Segue o teu destino, infeliz!--disse-lhe o velho.
Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a porta da rua, e abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes, mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade. Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.
CAPITULO III
Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas e descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.
De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto, apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.
Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais, até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com o qual entretinha a maior intimidade.
Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada, e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma refeição, para recobrar as forças perdidas.
Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e aborrida a sua existencia no mundo.
Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente, procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.
Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava. Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e ás vezes conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos, ou carapuças espessas.
Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e commettendo a maior algazarra.
--Não ha que fallar mais,--disse um com voz de estentor, dominando inteiramente o barulho...--Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas acclamado para nosso chefe.
Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:--Viva Matheus Chagas!
Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus destinos.
--Amigos!--disse-lhes emphaticamente.--Levar-vos-hei caminho direito ao Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e muito peixe nos rios para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e matárão com tanta barbaridade[1]. Não sabeis que o cacique Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar os bens aos gentios e assassinar-lhes os filhos e as mulheres[2]?
--Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento cada vez mais estridente e progressivo.
--Em ordem pois, e andar para adiante!--continuou o fogoso orador.--D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco. Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da refrega[3]. Marchemos, amigos!
Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior para os reduzirem ao captiveiro.
Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes, bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza a estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias. Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos, para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em terras, população e riquezas.
Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo, e disse-lhe:--Não pensas que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes homens nas suas explorações?
Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento repentino.--Vá feito,--respondeu,--e já!