Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Chapter 10
Cumpria portanto a Dom João IVº praticar na sua administração interior uma tal moderação, que não augmentasse a somma de difficuldades e perigos que lhe surgião por toda a parte. Que valia a salvação de um noviço dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio, que exercia influencia nos animos populares, e ajudava até o seu governo nacional?
Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravão de pertencer á Inquisição, e de lhe servir de famulos. E não estremecia o povo todo diante dos seus actos e jurisdicção, reputando-a mais divina que humana?
Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da propria rainha Dona Luiza de Gusmão, que tomava o partido dos Jesuitas, apezar de quanta affeição e confiança tributava el-rei á sua extremosa consorte.
Sem a intervenção directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate que perdidos serião todos os esforços empregados. Esvoaçava por cima da sociedade portugueza da época o poder aterrorisador do Santo Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a não ser el-rei em pessoa, graças ao seu prestigio pessoal, e á necessidade que reconhecião os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir ás forças de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia.
Espalhavão-se por toda a parte espias da Inquisição, adivinhando acções, gestos, palavras, pensamentos, para os denunciarem ao tribunal execrando. Dir-se-hia que as paredes tinhão ouvidos, olhos os trastes das casas, e lia a propria atmosphera no fundo d'alma os mais reconditos segredos, porque chegavão todos ao conhecimento do Santo Officio, que não tardava em expedir mandados de prisão, ordenar castigos, applicar torturas, formar processos, lavrar sentenças rigorosas, preparar forcas e fogueiras, espantando a multidão supersticiosa com os espectaculos horriveis dos autos de fé, acreditados como sacramentos da Igreja.
Não escapavão á sua jurisdicção condições, nem classes da sociedade. Era o unico tribunal judiciario diante do qual desapparecião fóros e privilegios, e que curvava á sua autoridade velhos, moços, crianças, mulheres, aldeões, populares, obreiros, commerciantes, padres, frades, fidalgos, grandes officiaes da Igreja, titulares e validos do soberano.
Não desanimou todavia o padre Monserrate, e quantas mais difficuldades surgião adiante dos seus passos, quanto mais seus projectos se nullificavão, mais tratos dava ao espirito para lembrar-lhe novos meios a empregar, no intuito de conseguir o triumpho. Ardia-lhe no peito o amor-proprio de Jesuita, que não queria consentir na affronta de arrancar a Inquisição ao Instituto um seu noviço e membro, para o julgar e condemnar livremente. Movia-lhe igualmente os affectos a sympathia que lhe ganhára Moraes desde os seus mais verdes annos. Accrescia a essas duas razões poderosas outra ainda de grande importancia para o padre. Não fôra sincero o arrependimento de Moraes? Não estava prompto a commetter todas as penitencias e sacificios que lhe exigissem? Não podia prestar serviços relevantes á religião, á companhia, ao Estado e aos gentios do Brazil? Não o perdoára Deos quando espontaneamente lhe infiltrára no animo a idéa de abandonar riquezas e posições honrosas em Hollanda, trajar de novo o habito da companhia, dedicar-se á vida trabalhosa e miseravel do missionario, volver á sua antiga fé e crenças religiosas, como a ovelha desgarrada que regressa para o rebanho, ou o filho perdido que reganha a casa paterna? Quando Deos se mostrára tão misericordioso, haveria justiça nos homens em condemna-lo?
Proseguíra no entanto o tribunal no julgamento de Moraes. Revendo o antigo processo instaurado na sua ausencia, e annexando-o a novo summario, passou aos interrogatorios necessarios do réo, que por mais de seis dias seguidos fôra tirado do seu aposento e conduzido á sala dos juizes. Perguntas insinuantes a principio, argucias preparadas adrede e geitosamente, lhe forão dirigidas para o apanharem em contradicções, e confissões do que lhes convinha. Mas o preso se conservou inalteravel, sereno, sincero, igual e verdadeiro. Expôz com franqueza toda a sua vida, todos os seus erros e hallucinações, todos os seus peccados e crimes, e os seus remorsos e arrependimento espontaneo, que a propria alma gerára, robustecêra, e lográra verificar particular e publicamente.
Persuadidos os juizes de que conseguirião maiores esclarecimentos, ou factos que mais correspondessem aos seus intentos, com a applicação dos tormentos usados contra as suas victimas, passárão das declarações voluntarias ás arrancadas por meio das dôres resultantes dos instrumentos de tortura.
Começárão pelos anginhos, doce e mimoso nome dado por irrisão a ferros que se collocavão aos dedos dos pés e das mãos, e os apertavão tão cruelmente que causavão soffrimentos horrorosos. Exigírão-lhe confessasse que volvêra apparente e maliciosamente á religião catholica, no intuito de se passar para o Brazil, e servir aos interesses dos Hollandezes, com os quaes se unira, para coadjuva-los nas suas invasões e conquista da America. Resistio Moraes com estoica resignação á barbaridade dos castigos, arrasando-se-lhe os olhos de lagrimas, e escapando-lhe dos labios o nome santo do Christo, que pela salvação dos homens padecêra martyrios superiores.
Não alcançando os juizes o seu fim, adiárão para mais tarde a applicação de novos instrumentos, insinuando a Moraes que lhe era preferivel revelar a verdade espontaneamente a confessa-la á custa de soffrimentos agudos.
Não se apressava a Inquisição nos processos e julgamentos. Annos inteiros se demoravão em seus carceres presos innocentes ou culpados, accusados sem fundamento, suspeitos apenas, e ás vezes mesmo despidos do menor indicio de crime, sem que cuidasse o tribunal em adiantar-lhes as sentenças!
Não se contentando com factos materiaes, e procurando adivinhar intenções e pensamentos, carecia de ganhar tempo, rodeiando as suas victimas com uma espionagem vigilante, que visse e ouvisse o que ellas praticavão ou dizião. Aquelle por recusar-se a comer carne de porco em certos dias; este por soltar uma expressão de raiva ou despeito; um por commetter qualquer gesto que se interpretasse malignamente; outro por não se benzer, ou rezar em horas determinadas: tudo lhe servia de inducção e prova para descobrir crimes, que imaginava o Santo Officio.
Seguírão-se aos interrogatorios e primeiras torturas os depoimentos de testemunhas, que declarárão ser voz geral e constante que Moraes se convertêra ao calvinismo, praticára nos templos protestantes todos os officios religiosos que lhes erão proprios, e se casára com uma mulher schismatica.
Anciosos de confissões mais amplas do réo, applicárão-lhe novos tormentos para o obrigarem pela violencia ás revelações necessarias. Suspendêrão-lhe o pescoço a uma argola pregada no muro, chamada gonilha, que levantando o corpo por uma fórma perpendicular, produzia-lhe uma posição dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade média. Escalárão-lhe depois as costas e os peitos com azorragues de arame, que o ensanguentárão todo.
Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada á sua sorte. Repetia constantemente as mesmas declarações, e não offerecia elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos.
Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos agudos, á qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima. Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na cópia de sangue que lhe rebentava por todos os póros.
Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma esteira de palha mais macia, é tratado com mais cuidado para se lhe não esvair a vida antes da execução da sentença, e não escapar assim ao castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio.
Lavrou-se a sua sentença. Confirmava em todas as suas partes a do anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de fé, coberto com as insignias do fogo, e a ser garroteado na praça publica por apostata, profitente e obstinado.
Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da decisão. Intensa desesperação e despeito violento se apoderárão dos padres. Nem-um deixou de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecêrão proprios a nullificar a sentença do tribunal do Santo Officio. Applicárão-se os ultimos esforços para lograr d'el-rei uma ordem terminante em pró do infeliz noviço. Cartas do padre Antonio Vieira, conselhos e insinuações do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus secretarios de estado, e do seu escrivão da puridade, rogos e empenhos dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcançava todavia d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto.
Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate uma idéa aventurada. Conhecendo uma irmã de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnação, viuva de um Portuguez que de São Paulo mudára a sua residencia para Lisboa, e carregada de numerosa familia, preparou-a para se lançar aos pés do soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus filhos o perdão do noviço. Concertou com o confessor d'el-rei em facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom João IVº e Dona Luiza de Gusmão seguissem para o oratorio a receber a communhão sagrada.
Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os paços reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma porta particular, achárão-se na passagem dos soberanos no momento designado.
--Piedade! piedade!--gritou toda a familia, arrastando-se aos pés de Dom João IVº, e de sua augusta consorte, agarrando-os com força, e molhando-os com pranto acerbo e copioso.
Enternecêrão-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado profundamente, e não pôde proferir palavra. A rainha, banhada em lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial escripto, supplicando a graça de Manuel de Moraes. Representou-se a scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra não tinhão prerogativa mais bem aceita do céo e mais humana que o perdão, que os igualava quasi á Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados.
Não pôde então o monarcha recusar-se ás supplicas da sua consorte, e deixa-la faltar á sua palavra. Ordenou ao seu escrivão da puridade expedisse ao tribunal do Santo Officio uma ordem terminante, em que, declarando haver el-rei perdoado Manuel de Moraes, lhe determinasse a entrega do preso á companhia de Jesus, como membro que era do Instituto, afim de que esta com penas menores o castigasse conforme julgasse conveniente.
Lavrado e assignado, foi o aviso entregue immediatamente ao Inquisidor geral, afim de executa-lo com o seu zelo reconhecido em pró da religião e do soberano.
Tremia no entanto o padre Eusebio de Monserrate. Obedecer-lhe-hião os juizes do Santo Officio? Não se consideravão superiores a todas as autoridades temporaes, baseando a sua alçada nos breves e determinações do Summo Pontifice de Roma? Não responderião a el-rei memorando-lhe a necessidade de expurgar a fé catholica, e de salvar o dogma; e se resolveria o monarcha a sustentar e fazer cumprir a sua primeira deliberação, que mais ao sentimento intimo que á propria convicção lhe havia sido arrancada?
CAPITULO XIV
Fixou e annunciou no entanto o tribunal do Santo Officio de Lisboa um auto de fé para o dia 15 de Dezembro de 1647.
Oito condemnados devião ser queimados nas fogueiras; dez se destinávão ao supplicio do garrote; trinta e quatro ao acompanhamento da procissão, cobertos com as insignias do fogo; tres relaxados em estatua por ausentes e fugidos.
Agitou-se e alegrou-se a população de Lisboa com o aviso do espectaculo que se lhe preparava. Ninguem ousaria deixar de assistir a essa solemnidade religiosa e sagrada, que remia peccados, e valia perante Deos, abrindo aos crentes as portas do céo, e trazendo-lhes pelas indulgencias ganhas a salvação na vida eterna. Quem não tivesse fé no sacrificio divino não se arriscava a perseguições e tormentos iguaes aos das victimas condemnadas, no caso de faltar com a sua presença, e não apparentar jubilo?
Levantárão-se no campo de Santa Anna os cadafalsos e fogueiras. Prevenírão-se os réos que devião figurar na ceremonia. Concedeu-se a alguns a faculdade de chamar confessores particulares, e de receber uma ou outra pessoa da familia, com quem desejassem entreter-se uma vez ainda antes de abandonar o mundo. Transferírão-se todos os condemnados para prisões especiaes, aonde lhes cumpria passar o resto do tempo que lhes sobrava nos paços do Santo Officio.
Intimada a Moraes a sua sentença de garrote, e communicada a noticia de que lhe era licito escolher um confessor, e receber uma pessoa da sua familia, declarou desejar o padre Eusebio de Monserrate para o acompanhar nos ultimos momentos, e sua irmã Dona Clara da Incarnação para lhe dizer o adeos derradeiro.
Forão-lhe satisfeitos ambos os desejos. Impossivel é descrever a sua entrevista com Dona Clara. Quebrantado de forças physicas, martyrisado cruelmente pelas chagas que lhe deixárão no corpo os instrumentos terriveis que supportára, decomposta a physionomia pelas dôres profundas, brancos os cabellos da cabeça e do rosto antes que o tempo lhes mudasse o colorido natural, mais se assemelhava a um decrepito ancião que anciava por descer ao tumulo e não pertencer mais ao mundo.
O tempo, os trabalhos, as peregrinações e soffrimentos lhe havião por tal feitio transfigurado a physionomia, que o não conhecêra Dona Clara, e para o tratar como irmão necessitára de que lhe affirmassem estar em presença de Manuel de Moraes. Abraçando-se ternamente, entretiverão-se no meio de soluços repetidos e de lagrimas abundantes, ácerca dos pais já fallecidos, das irmãs, e parentes domiciliados em São Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das reminiscencias da mutua mocidade. Revivêrão saudades que pungião o coração, e o cortavão dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz passado lhes manifestava a profunda miseria presente.
--Meu respeitavel pai! minha querida mãi e verdadeira santa,--exclamava a miudo Moraes.--Estais ambos já no seio da eternidade, e em presença de Deos. Breve vos irá ahi encontrar o vosso filho desgraçado. Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu sem duvida para os vossos males na terra, mas que padeceu tambem muito!
Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel prostrar mais as forças do infeliz noviço, que só deixou a irmã quando os empregados do Santo Officio a coagírão a abandona-lo, e sahir dos paços terriveis da Inquisição.
Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto lhe não occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a desattendesse, quanto até aquelle momento lhe não constára haverem os juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal designado para o auto de fé e execução da sua sentença, preferivel era que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a sua alma inteira, e recebendo a sua absolvição para se passar á eternidade tranquillo e sacramentado.
Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com franqueza os desejos e aspirações mundanas que lhe havião assoberbado o espirito, os crimes que praticára no seu desvairamento, e as idéas e pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento solemne. Orárão ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lançou-lhe o padre a benção consoladora, e recommendou-o á misericordia do Omnipotente.
Estava-se já em vesperas do auto de fé annunciado, e nem-uma deliberação tomára ainda o tribunal do Santo Officio ácerca do aviso expedido pelo escrivão da puridade d'el-rei em pró de Moraes, posto o provincial dos Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento.
No dia porém anterior ao designado para a horrenda ceremonia, quando os aprestos todos se havião já concluido, correu voz emfim que não ousára o tribunal do Santo Officio affrontar o perdão que Dom João IVº concedêra, bem que singular e desusado. Assentárão os juizes que darião execução ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto de fé como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir ao cumprimento das sentenças relativas aos demais accusados.
Raiou o dia fatal. Cobrírão-se desde a madrugada as casas dos habitantes de Lisboa sitas nas ruas e praças que devia atravessar a procissão, e ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas acesas. Guarneceu-se o chão, que nem calçado era n'aquelle tempo, com folhas viçosas de arvores. Brilhárão com velas e lampadas, e ornárão-se com flôres odoriferas os oratorios, que se semeavão pelos cantos das ruas. Derão signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos templos, que saudavão o triumpho da Igreja catholica, que salvava a fé e o dogma, castigando os máos, e amedrontando os tibios e descrentes. Desfilárão soldados, occupando varios pontos proximos á praça de Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afóra as pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado ás execuções das sentenças.
Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os condemnados ás chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devião supportar o supplicio do garrote, aterrorisavão as vistas. Vultos cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com grandes cruzes, que se lhes gravárão nos peitos, os rodeiavão em copiosa quantidade.
Á hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios e conselheiros de estado, e a côrte toda, tomárão os seus lugares, occupando um edificio levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da época. Por toda a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma multidão de gente miuda, que não falta a quaesquer espectaculos de dôr ou de alegria.
Ouvírão-se tiros multiplicados da artilharia dos arsenaes, fortalezas e navios de guerra. Repicárão de novo os sinos das igrejas, e girandolas pittorescas de fogos artificiaes subírão aos ares, e os partírão com mil riscos refulgentes, e ribombos repetidos. Era o signal de que partia dos paços do largo do Rocio o auto de fé e se encaminhava para o seu destino, segundo as formulas da mais rigorosa etiqueta. Marchavão adiante empregados do Santo Officio, montados a cavallo, armados, e segurando bandeiras negras com chammas de fogo, emblemas do tribunal sanguinolento. Seguião-nos padres e frades de diversas ordens, recitando orações lugubres, com a cabeça descoberta. Guardas a pé com clavinotes, espadas e terçados, e vultos mascarados, e com os habitos da Inquisição, rodeiavão as numerosas victimas, amarradas umas ás outras, de pés no chão, e ornadas as cabeças com capuzes negros manchados de flammas luminosas, que lhes cobrião as faces, permittindo-lhes apenas a vista por dous buracos rasgados.
Ião depois os membros do Santo Officio, cercando o Inquisidor geral, que caminhava sob um pallio, e acompanhados por mais de duzentos famulos da Inquisição, que no dizer das tradições se compunhão de fidalgos das primeiras casas do reino, magistrados, altos funccionarios, capitalistas, industriosos, e gente de todas as condições e classes da sociedade.
Fechava o prestito um corpo de cavallaria, com a sua musica e tambores tangendo constantemente.
Parava o auto de fé diante de todos os oratorios e imagens levantadas na sua passagem, e demoradamente chegou assim ao largo de Santa-Anna.
Levantárão-se as bandeiras, e rufárão os tambores. Occupára cada pessoa do cortejo o seu lugar competente. Leu o pregoeiro a lista dos condemnados ao fogo e ao garrote, e a dos penitentes que devião assistir á execução das sentenças. Figurava entre estes ultimos o nome do desditoso Manuel de Moraes, perdoado da pena capital por graça particular de Dom João IVº. Dirigio um sacerdote uma oração a Deos, ajoelhárão-se todos os circumstantes, e manifestárão a piedade dos seus sentimentos.
Derão-se as ordens derradeiras. Subírão ás fogueiras por meio de escadas preparadas as victimas reservadas ás chammas. Forão amarradas a um poste de páo que se erguia no centro d'ellas. Incendiou-se a palha e o madeiro. Uma nuvem escura e ardentes labaredas brotárão immediatamente, e logo depois se ouvírão gritos doridos, e gemidos pungentes dos desgraçados, que se queimavão e desapparecião nas flammas.
Succedeu-lhe a operação do garrote, e algozes impedernidos cortárão os fios de vida, por meio da suffocação instantanea, aos desventurados réos, cujos restos se lançárão nas fogueiras ainda abrazadoras para o fim de se confundirem todos, que se havião condemnado.
Organisou-se por fim em torno das fogueiras e cadafalsos a procissão dos penitentes, sustidos a maior parte por famulos e empregados do Santo Officio, visto como lhes faltavão forças para se sustentarem por seus proprios pés.
Terminada a ceremonia, volveu o cortejo para os paços da Inquisição.
Logo que passou os umbraes da entrada principal do edificio, deu ordens o Inquisidor geral para se tirar Manuel de Moraes d'entre os penitentes, e restitui-lo aos Jesuitas, que já alli se havião reunido, no intuito de recebê-lo, e recolhê-lo á sua casa.
Procedeu-se á entrega solemne, e lavrou-se termo, que assignárão as autoridades competentes. Não se podendo ter em pé o paciente, foi depositado em um assento de pedra, emquanto se cumprião as formalidades do acto.
Quando o padre Eusebio de Monserrate se approximou d'elle para lhe dar o braço, levanta-lo, e ajuda-lo a sahir dos paços do Santo Officio, escapou-lhe Moraes das mãos, resvalou do assento, e rolou pelo chão.
Tratou subito o Jesuita de rasgar-lhe a mascara e as vestes. Descobrio um cadaver. Já não pertencia ao mundo.
Ajoelhou-se Eusebio de Monserrate, e disse enternecidamente:
--Senhor! Senhor! recebe no teu seio piedoso o peccador contrito, e perdôa com a tua infinita misericordia a quem tanto soffreu na terra!
FIM
[1] O padre Techo na sua obra sobre o Paraguay, e a _Historia Argentina_, L. Iº, Capº. 5º narrão o facto de Aleixo Garcia mandado ao sertão por Martim Affonso, e morto por Gaboto, que se apoderou da prata que elle encontrára.
[2] Nos citados autores se falla do convite do cacique Taubixi para se defender contra os Castelhanos.
[3] O padre Techo conta a historia de Sedenho, que fôra em soccorro de Aleixo Garcia com 60 homens, dos quaes a maior parte pereceu com o chefe.
[4] Historico--V. René Saint Taillandier, _les juifs portugais en Hollande_.
[5] Barlius, _de rebus variis_.
[6] Taillandier acima citado.
[7] Publicada em Leyde, e na lingua castelhana, no anno de 1641, com o titulo de _Prognostico y respuesta a una pergunta de un cabalero muy ilustre sobre las cosas de Portugal_.
INDICE
DUAS PALAVRAS AO LEITOR CAPITULO PRIMEIRO 1 CAPITULO II 21 CAPITULO III 46 CAPITULO IV 75 CAPITULO V 97 CAPITULO VI 116 CAPITULO VII 138 CAPITULO VIII 158 CAPITULO IX 177 CAPITULO X 198 CAPITULO XI 217 CAPITULO XII 235 CAPITULO XIII 255 CAPITULO XIV 272
PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.
PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.
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