Manuel da Maya e os engenheiros militares portugueses no Terramoto de 1755

Part 2

Chapter 24,333 wordsPublic domain

Por Aviso de 11 de dezembro de 1755 foi ordenado ao Engenheiro-mor Manuel da Maya que «chamando á sua presença os officiaes de Infantaria com exercicio de engenheiros, que lhe parecessem mais habeis e expeditos, os mandasse passar os liveis necessarios para se conhecer e calcular com clareza os declivios que ha dos Mosteiros da Boa Hora, do da Annunciada, do de Corpos Christi, da Igreja da Magdalena, e S. Sebastião da Padaria, até ás cortinas do Terreiro do Paço e da Ribeira»; tinha isto por fim acommodar os entulhos em logares mais baixos.

Por Aviso de 22 do mesmo mês e anno foi ordenado a Manuel da Maya que «na conformidade das reaes ordens fizesse apalpar e abalizar pelos officiaes, que achasse mais expeditos e exactos, os terrenos de que se tratava, em forma que ficassem distinctamente demarcados os logares que se houvessem de entulhar e as alturas dos entulhos que nelles se haviam de lançar, para que fossem lançados com a devida proporção, onde mais conviesse e sem o perigo de se tornarem a mover, etc.».

Outro Aviso da mesma data ao Duque Regedor das Justiças (Duque de Lafões) para se nivelar a parte da cidade que ia entre a rua Nova do Almada e a Padaria, e para se pôrem marcos e balizas nas covas e declives, afim de se encherem com os desentulhos e ficar nivelado o Terreiro do Paço com as mesmas duas ruas em beneficio da reedificação da cidade, ordenava ao mesmo Engenheiro mor «que, pelos officiaes que achasse mais expeditos, fizesse pôr as sobreditas balizas com a brevidade que requeria a urgencia[12]».

São estas umas simples amostras do grande trabalho e da missão importante que aos engenheiros militares coube na reedificação da cidade, como lhes continua a caber no decurso dos tempos; pois que nomes de engenheiros do exercito muito distinctos estão ligados, não só a obras militares, mas civis, na historia do nosso país.

* * * * *

E melhor do que o poderiamos dizer, falará agora do grande papel que Manuel da Maia teve nesse grave momento da nossa existencia social a memoria (dissertação) que em seguida publicamos, por elle apresentada sobre a reedificação da capital, e que pela primeira vez damos á estampa. É dividida em tres partes: as duas primeiras conservam-se nos papeis de José Baptista de Castro na Biblioteca Publica de Evora; a terceira encontra-se, remettida do Archivo Militar, na Torre do Tombo. Devia ter uma quarta parte, que o auctor deixou de escrever[13]. Damos aqui publicidade ás tres partes que pudemos felizmente reunir, na certeza de que encontrarão o apreço e a estimação do leitor.

Ao Duque de Lafões, na sua qualidade de Regedor das Justiças, era dirigida essa _dissertação_, e do conceito e apreço em que foi tida reza o seguinte officio, cuja copia guarda a Biblioteca de Evora:

Ex.^{mo} Sr.

Agradeço muito a V. Ex.^a a atenção de partecipar-me a segunda parte da Disertação que tem escrito sobre a renovação da cidade de Lisboa destruida, e agora repito a V. Ex.^a o que a respeito destes papeis tenho representado a ElRey meu Snr., porque achei que V. Ex.^a comprehendeo com vastidão, discorreo com profundidade, e escolheo, a meu entender, com acerto, o modo que deve seguir-se. S. Mg.^e vai mostrando que segue o parecer de V. Ex.^a; ainda que a sua modesta escrupulosidade o duvide, e verdadeiramente só nesta parte me não parecem solidos os fundamentos da desconfiança de V. Ex.^a. V. Ex.^a he um vasalo tão util, como bom compatriota, e asim se percebe no zelo com que vigia sobre a saude publica, lembrando-se de que se deve dar correnteza ás aguas estagnadas na Praça do Rocio e na Rua Nova dos ferros. ElRey meu Snr. foi servido encarregarme de evitar aquele perigo, e pela medeação dos Ministros da justiça Inspectores dos Bairros desta Cidade, com bem ordenado trabalho, se vencerão muitas defficuldades, e entre grandes perigos não sucedeo a menor disgraça, achando-se desde a somana pasada esgotados completamente hum e outro lugar. Tenho entrado a recear nos possão agora prejudicar as muitas lamas que a cada paso se encontrão pelas ruas e o descuido que ha, e ouve sempre, em extrahir da superficie da terra quantidade de animaes mortos que se achão expostos: porem como esta incumbencia me não foi recomendada poupo-me ao maior pezar que seria o que me resultase de se poder acuzar a minha omição, o que para mim só era sensibilisimo. D.^s G.^e a Pesoa de V. Ex.^a m.^{tos} an.^s. Cerca das Necessidades a 5 de Março de 1756.

Ex.^{mo} Snr. Manoel da Maya.

Mais attento serv.^{or} de V. E.

_Duque de Lafões[14]_.

Eis agora o trabalho apresentado por Manuel da Maia, e que, embora pouco nitido sob o ponto de vista litterario, honra e justifica a alta reputação do engenheiro, pois representa todo um complexo plano de obras de aterramento, de esgotos, de hygiene, de alinhamento de ruas e travessas nas partes da cidade a reconstituir ou a construir de novo, de construcção de edificios publicos, entre elles os Paços Reaes, a Biblioteca e as Alfandegas, e tambem particulares, nas devidas condições de segurança contra tremores de terra e de isolamento do fogo; da forma dos predios, sem passagens cobertas para evitar attentados nocturnos; da salvaguarda dos terrenos destinados a servidões militares junto ás fortificações da cidade, e de tantos outros assuntos importantes que curioso é seguir entre o emmaranhado da prosa do illustre militar, e que, como vimos já, lhe vem dar a primazia de muitas iniciativas que lhe não eram attribuidas.

A parte 3.^a da dissertação é muito interessante, porque trata dos serviços de limpeza da cidade, esgotos, abastecimento de agua, bocas de incendio, reconstrucção dos edificios do Terreiro do Paço, largura e estructura das ruas, á laia das de Inglaterra, com as respectivas plantas traçadas por Manuel da Maia, e que é pena se não saiba onde param, para ver se foram realmente seguidas, quando taes edificios e ruas se fizeram.

Debaixo de muitos pontos de vista ha de esta memoria interessar aos estudiosos. Diz o seguinte:

*1.^a Dissertação sobre a renovação da Cidade de Lisboa por Manoel da Maya, Engenhr.^o mor do R.^{no}*

1.--Reconhecida, e observada a destruição da cid.^e de Lix.^a (no 1.^o de Nov. de 1755)[15] he precizo intentar-se a sua renovação, e como esta se pode executar por diversos modos, parece tambem precizo que estes se preponderem p.^a entre elles se fazer eleição do [~q] se conhecer com mais ventagens, e menos inconvenientes. Os modos que me occorrem são os seguintes.

2.--O primr.^o restituila ao seu antigo estado, levantando os edificios nas suas antigas alturas, e as ruas nas suas mesmas larguras. Este 1.^o modo suppoem, [~q] o terremoto passado não he pronostico de outro; e que assim como em m.^{tos} annos ant.^{es} senão experimentou outro sem.^e assim se não pode esperar subsequente; e [~q] por esta forma se restituirá Lix.^a promptissimam.^{te} ao seu antigo estado, e com edif.^{os} melhorados por novos; recebendo e acomodando o mesmo n.^o de gente, e obtendo os proprietarios os seus antigos rendim.^{tos} ficando Lix.^a deste modo com alg[~u]a melhora do [~q] dantes era; servindo os mesmos destroços, e ruinas p.^a a erecção dos edif.^{os} evitando o trab.^o e despeza dos dezentulhos; cuja acomodação se faz mui dificil, e talvez de prejuizo, onde os quizerem acomodar, ou seja no mar ou na terra.

3.--O 2.^o modo, levantando os edificios nas suas antigas alturas, e mudando as ruas estreitas em ruas largas. Este 2.^o modo tambem despreza a precaução do terremoto, e attende em pr.^o logar a melhor serventia do publico pela largura das ruas, e conservando nas alturas das cazas abundantes commodos p.^a os habitadores, [~q] restarão livres do horrivel flagello, e p.^a os proprietarios a mayor p.^{te} dos rendim.^{tos}, ficando a cid.^e mais formosa do [~q] d'antes era, com boas entradas, [~q] p.^a ella se poderão fazer no terr.^o do Paço, evitandose passagens cobertas, e melhorandose alguns edificios mayores arruinados; ficando deste modo Lix.^a com conhecidas ventagens, e conservandose em m.^{ta} p.^{te} os interesses dos prejudicados nas ruinas, o [~q] não deixa de merecer attenção.

4.--O 3.^o modo, diminuindo as alturas a dous pavim.^{tos} sobre o terreo, e mudando as ruas estreitas em largas.

5.--Este 3.^o modo se acautela contra sem.^{es} assaltos, diminuindo as alturas dos edif.^{os} por se temerem nos mais altos as ruinas mais certas, e de mayores prejuizos: como p.^{lo} contr.^o nas ruas mais largas mayor facilid.^e p.^a se escapar dos destroços, [~q] nas estreitas serv[~e] de grande impedim.^{to} ao retiro.

6.--O 4.^o modo, arrazando toda a cid.^e baixa, levantandoa com os entulhos, suavizando assim as subidas p.^a as p.^{tes} altas, e fazendo descenso p.^a o mar com melhor correnteza das aguas, formando novas ruas com liberd.^e competente, tanto na largura, como na altura dos edif.^{os} [~q] nunca poderá exceder a largura das ruas. Este 4.^o modo não só attende, como o terceiro, a prevenção de sem.^e flagello, assim na observação da altura das cazas, como na largura das ruas, mas a facilitar a difficil acomodação dos dezentulhos, servindose delles p.^a suavizar a aspereza das serventias da cid.^e baixa p.^a a alta, e expelindo tambem as aguas com melhor exito p.^a o mar, livrando Lix.^a baixa das inundaçoens [~q] padece em occasioens de maré chea.

7.--O 5.^o modo, desprezando Lix.^a arruinada, e formando outra de novo desde Alcantara até Pedrouços; com permissão porem de [~q] os donos das cazas de Lix.^a arruinada as podess[~e] levantar como quizessem. Este 5.^o modo se facilita mais [~q] todos; por[~q] em pr.^o lugar não tem [~q] vencer dificuld.^{es} de dezentulhos, e suas acomodaçõens: offerece campo docil, e livre das emin.^{as} de Lix.^a antiga, sem necessid.^e de averiguar o estado das cazas [~q] se devam conservar ou derribar, nem ouvir clamores dos donos das [~q] inteiram.^{te} se desprezarem, e sobre tudo a grande despeza, [~q] na compensação destes prejuizos se fará por qualquer modo [~q] se pretenda fazer. Edificarse com mais gosto pelas melhoras que geralm.^{te} se reconhecem no terreno e prayas do sitio de Bellem, e suas vizinhanças, livrando os habitadores do horror [~q] conceberão na destruição da cid.^e arruinada; e com incomparavel brevid.^e e boa organização de ruas e de edif.^{os} [~q] formarã h[~u]a Lix.^a nova, sem [~q] os dominantes dos edif.^{os} de Lix.^a destruida tenhão de [~q] se queixar, pois se lhe não faz viol.^a alg[~u]a, nem se lhes impede a reedificação dos seus edif.^{os} p.^a se valerem delles á sua vontade. Acrece mais, [~q] ainda [~q] se lanse mão de qualquer dos ant.^{es} modos, 2.^o, 3.^o e 4.^o em [~q] as ruas se alargão, sempre hade ser precizo estenderse Lix.^a até Bellem, ou ainda a mayor dist.^a p.^a acomodação da m.^{ta} gente [~q] ficará necessitada de commodo por causa da diminuição das cazas; pois [~q] as de quatro e sinco pavim.^{tos} ficarão convertidas som.^{te} em dous; e em h[~u] sitio em [~q] havia quatro ou 5 ruas, ou mais, se converterão em duas ou 3 ao m.^{to}: e se depois de vencer m.^{tas} dificuld.^{es} com grandissimo trabalho, dispendio, e dilação de tempo, se hade procurar o asylo de Bellem, melhor parecia buscarse logo p.^a mayor facilid.^e satisfação do publico, e escuza de despeza. Tambem a sumersão do novo caes da Alfandega do tabaco, parece estar aconselhando [~q] se não avezinhem a hum lugar [~q] mostra estar combalido de contr.^o fortissimo, [~q] poderá continuar em o perseguir, e a tudo [~q] o acompanhar. Tambem parece favorecer esta opinião o acharemse em Portugal alg[~u]as cid.^{es} e povoaçoens [~q] conservão os nomes de outras destruidas, cujas ruinas se percebem ainda em dist.^{as} proximas, sem se especificar a razão daquella repitição de nomes, e de lugares; mas discorrendo qual poderia ser, nenh[~u]a razão me occorre mais propria e competente p.^a este efeito do [~q] outra sem.^e a [~q] temos diante dos olhos, fazendo antes eleição de formar h[~u]a cid.^e e povoação nova em sitio mais favoravel, do [~q] renovar h[~u]a destruida por sem.^e accidente. Tambem pode fazer pezo nesta eleição a observação de ser mais violento e eficaz o efeito do terremoto na p.^{te} mais repleta de habitantes cujos excretos, penetrando e permeando mais os poros da terra, possão concorrer com mayor adjutorio p.^a a formatura do terremoto, ou atrair a si os seus efeitos com mais sem.^e e abund.^e simili. O [~q] podendo ser assim tambem aviza, [~q] se evite q.^{to} for possivel a continuação de hum tal atractivo. Persuado-me ter lido [~q] já Lix.^a padeceo perseguição de terremotos por tempo de um anno; e como o fogo me consumiu todo o adjutorio de [~q] me valia p.^a narrar com segurança, não poderei determinar o tempo nem o vigor de seu principio, nem alg[~u]as mais especialid.^{es} que occorrerão; mas sempre pode servir de exemplo, de [~q] a communicação dos taes excretos possa servir de alim.^{to} p.^a sem.^e destroço. A multiplicidade de terremotos, que tem padecido Constantinopla cid.^e populosissima parece corroborar esta supposição: _quae sola non profunt, multa collecta juvant_.

8.--Atéqui o [~q] me occorreo dizer a favor de cada hum dos sinco modos possiveis p.^a a renovação de Lix.^a; resta-me declarar o [~q] se poderá dizer em contr.^o p.^a ver se com estas ponderaçoens me poderei determinar a tomar algum partido em forma [~q] se não possa dizer [~q] o fiz sem estas antecedencias.

9---No 1.^o modo encontro a falta de atenção ao melhoram.^{to} de hua cid.^e que se edifica de novo conservandolhe as ruas estreitas, o [~q] as fas de aborrecivel uzo, e as cazas m.^{to} altas com o horror que das suas alturas se tem concebido; não obstante poderse dizer, [~q] este horror hade ser de pouca duração, por[~q] em fazendo alg[~u]a pessoa veneranda edif.^o de mayor altura de dous pav.^{tos} logo outras de qualquer veneração a irão imitando, e consequentem.^{te} todas as [~q] tiverem com [~q] o fazer; por[~q] ao mesmo passo [~q] vai esquecendo o horror do terremoto, se irá esquecendo o da ley dos dous pavim.^{tos}. Sirva de exemplo a ley do alinham.^{to} p.^a [~q] as cazas [~q] se renovassem, se recolhessem até [~q] as ruas ficassem em certa largura, como a da rua dir.^{ta} das portas de S. C.^{na} onde se executou athé certo tempo, e se não continuou em alg[~u]a das cazas [~q] depois se renovarão ou se edificarão de novo.

10.--O 2.^o modo, ainda [~q] attende á formosura da cid.^e p.^{lo} [~q] toca a largura das ruas, tem o defeito de se não acautelar contra o flagello dos terremotos nas alturas dos edificios; e posto [~q] favorece aos donos dos edif.^{os} restantes em lhes conservar o n.^o dos moradores, e consequentem.^e os rendimentos, e tambem possão dizer [~q] a ley dos dous pavim.^{tos} terá o mesmo efeito [~q] a ley do alinham.^{to}, não são razoens subsistentes por dependerem do futuro.

11.--O 3.^o modo [~q] parece mais admissivel, por[~q] attende assim a formosura da cid.^e no espaçozo das ruas, e precaução dos terremotos nos dous pavim.^{tos} só permitidos, tem contra si os clamores dos donos dos edif.^{os} extinctos, e outros diminutos de rendim.^{tos} pela diminuição dos inquilinos, entre cujos clamores, serão m.^{to} distintos os dos Morgados, Eccles.^{os} e Irm.^{des} que costumão ser m.^{to} attendidos; como tambem tem contra si a acomodação dos dezentulhos, por[~q] alem dos [~q] se achão já occupando as ruas largas e estreitas, hade acrecer o de todas as casas [~q] se hão de extinguir inteiram.^{te} e mais [~q] tudo a gravissima despeza com [~q] se hade substituir a diminuição dos edificios extinctos ou em p.^{te} ou em todo.

12.--O 4.^o modo, posto [~q] vence ao 3.^o em evitar o embaraço dos duzentulhos, e em dar melhor serventia á cid.^e, sempre fica com o grave pezo de dar a cada hum a justa satisfação do [~q] lhe pertencer.

13.--O 5.^o modo, [~q] parece o mais facilitado, não deixará de ter contra si o interesse dos donos das casas edificadas nas ruas principaes de Lix.^a, receando [~q] se lhes diminuão o rendimento dos seus alugueis, aumentandose m.^{to} o n.^o das habitaçoens em p.^{tes} de differente eleição.

14.--O [~q] assim ponderado, resta fazer escolha de algum dos sinco modos de [~q] se não possa seguir arrependim.^{to}, no [~q] encontro grande dificuldade, e p.^a poder sair della, me tem occorrido, [~q] só a eleição [~q] S. Mag.^e fizer do sitio p.^a o seu Real Palacio poderá fazer pezar a opinião [~q] lhe for mais apropriada; por[~q] se S. Mg.^e for servido querer o seu novo e real Palacio no sitio de Bellem, fica o modo n.^o 5.^o infalivelmente adoptado e preferido a todos os outros; porem se S. Mag.^e fôr servido querer lançar mão de hum sitio salutifero, e superior apropriado p.^a cabeça de Corte com boas 4 communicações p.^a a cid.^e e p.^a o campo, aproveitando-se primr.^{a}m.^{te} do beneficio da agua livre de Bellas, e terreno firme e solido com bom livelam.^{to} e capacidade p.^a edificar com grandeza, he este o sitio entre S. João dos Bemcasados e o conv.^{to} de N. Sr.^a da Estrella com 4 communicaçoens de bom uso; a 1.^a p.^a o campo, interior do paiz por Campolide, e Sete rios: a 2.^a pelo Rato, Noviciado da Cotovia etc. a 3.^a p.^{la} rua nova de S. Bento, ou nova colonia; a 4 p.^{lo} cam.^o do S.^r da boa Morte, Fonte Santa, N. Sr.^a das Necessidades etc. até o mar, caminhos todos de bom livelam.^{to} e correntezas de aguas p.^a limpeza dos edif.^{os} e ruas depois de terem servido nas fontes e tanques do Real Palacio, e de hum Hospital na quebrada da cerca de S. Bento p.^a a p.^{te} do nascente, cuja pozição já escolhi q.^{do} se tratou do sitio p.^a o Hospital real de todos os Santos, por o reconhecer melhor no prez.^{te} tempo do [~q] o de junto a S. D.^{os} no rocio. Tambem não posso deixar de lembrar [~q] no tal novo e real Palacio se poderá formar hua Biblioteca publica por evitar o justo reparo de a não haver na Corte de Portugal, e junto a ella a casa do Real Archivo, [~q] ainda [~q] o terremoto o não destruisse, sempre necessitava de h[~u]a tal acomodação á imitação do Archivo Romano, pera o qual se entra pela Biblioteca do Vaticano. E p.^a o duplicado, de [~q] tambem ha grande precisão, se escolherá sitio separado.

15.--E determinado e escolhido este lugar d'entre S. João dos Bem casados e o conv.^{to} de N. Sr.^a da Estrella p.^a o novo e real Palacio, me parece se deve principiar a renovação da cid.^e de Lix.^a pelos edificios publicos, que são fabricados por conta da real fazenda, por serem os pr.^{os} fundam.^{tos} dos reaes subsidios quasi todos na marinha, p.^a o [~q] largará S. Mag.^e o seu Palacio antigo, assim como os Sr.^{es} Reys seus antecessores havião largado os em [~q] habitavão, [~q] se achão hoje servindo de outros uzos: e poderá tambem formarse a caza da bolça do neg.^o e tudo com as direcçoens, e formalid.^{es} não só segundo as not.^{as} das outras Cortes, mas com as melhoras [~q] occorrerem, e o bom discurso alcançar.

16.--As communicaçoens da 1.^a praça do terr.^o do Paço p.^a dentro da cid.^e se devem abrir as 1.^{as} em correspond.^a ás duas ruas dos ourives do ouro e da prata, evitando todas as pasagens cubertas [~q] são incidiosas de noite.

17.--As ruas de cazas [~q] de novo se fabricarão p.^a a communicação do novo Palacio com a cid.^e antiga se emprenderão depois das d.^{as} reaes obras; mas ou sejão edificadas de madr.^a ou de pedra e cal, nunca a altura das cazas excederá a largura das ruas, e q.^{do} as ruas forem mais largas [~q] a altura dos dous pavim.^{tos} sobre as logeas, nem por isso as cazas poderão subir a terceiro pavimento.

18.--E pelo [~q] pertence a renovação da cid.^e arruinada me acomodo ao 4.^o modo já assinado, valendome de conservar os entulhos p.^a dar mayor altura ao pav.^{to} da cid.^e baixa, principiando a alteala do adro do conv.^{to} da Annunciada, do adro do conv.^{to} de N. Sr.^a da Boa Hora, do adro da Ermida de N. Sr.^a da Assumpção da rua dos ourives da prata, e a esta imitação todas as mais ruas [~q] estiverem no mesmo livelam.^{to} formandose h[~u]a tal descida p.^a o mar [~q] vá fenecer pela porta da Alfandega do tabaco.

19.--P.^a se poderem dirigir as ruas na forma mais regular se sinalarão primr.^o com bandeirolas firmes todas as ruas destruidas p.^a se reconhecer por este modo o terreno [~q] occupavão as cazas e ruas, e poderse emmendar com clareza, o [~q] se julgar necessr.^o evitando-se deste modo o perigo [~q] pode haver q.^{do} unicam.^{te} se guiarem por plantas, como já tem sucedido, e poderse sobre esta not.^a pratica e palpavel tomar a rezolução de como se hão de suprir as diminuiçoens [~q] houverem nas propried.^{es}, o [~q] necessita de m.^{to} especial attenção.

20.--Parece porem preciso determinarse se nas ruas principaes deste bairro baixo e plano se devem formar columnatas como havia na rua nova dos ferros e confeitaria p.^a comodid.^e da passagem da gente em tempo de inverno, e chuvoso, não excedendo porem a altura das cazas os d.^{os} dous pavim.^{tos} hum dentro das columnatas, e outro sobre ellas.

21.--Declaro [~q] o reservar p.^a ultimo lugar esta operação he p.^a dar tempo a [~q] o grande n.^o de corpos immersos pelos entulhos não possão produzir alg[~u]a corrupção no ar, descobrindose, e pela mesma razão procuro tambem altear as ruas p.^a não haver tanta necessid.^e de os revolver; pertendendo tambem com esta dilação suspender o horror em [~q] o publico se acha contra os edif.^{os} [~q] não são de simples madr.^a alem de que por falta de meyos receyo m.^{to} que haja grande difficuld.^e em edificar de outro modo, por[~q] os incendios extinguirão quasi todos os cabedaes dos habitantes de Lix.^a.

22.--Nesta pr.^a parte da prez.^{te} Dissertação procurei expressar em generalid.^e o [~q] na imaginação embaraçada com hum tão raro caso me foi possivel revolver, sujeitandome de m.^{to} boa vont.^e a toda a correcção judiciosa, [~q] emmende melhor ou reprove o [~q] achar [~q] o merece, por[~q] do mesmo modo [~q] estimaria tivesse boa aceitação o que proponho, igualm.^{te} estimarei a justa reprovação antes [~q] a execução o embarace; com a differença som.^{te} que deixarei de me empregar em segunda e individual parte, se na pr.^a me tiver afastado do [~q] for mais conveniente ao Real serv.^o e bem do publico; pois [~q] nas individuaçoens periga m.^{to} mais o acerto q.^{do} a generalid.^e se tem afastado da rectidão. 4 de Dez.^o de 1755. Lix.^a M.^{el} da Maya[16].

*Segunda p.^{te} da Dissertação sobre a renovação da Cid.^e de Lisboa por Manoel da Maya Mestre de campo general, Engenheir.^o mor do R.^{no} e Guarda mor da Torre do Tombo*

1.--Visto parecer que vai tendo alg[~u]a aceitação a 1.^a p.^{te} da minha Dissertação sobre a renovação da Cid.^e de Lix.^a he precizo animarme a individuar a 2.^a, como prometi no ult.^o § da 1.^a, não obstante terlhe reconhecido m.^{to} mayor dificuld.^e. Valerme-hei porem do mesmo methodo [~q] segui na 1.^a, indagando por p.^{tes} a natureza de todas as que me propuzer p.^a fazer eleição, p.^a [~q] q.^{do} não chegue a determinarme inteiram.^{te}, ao menos mostre [~q] as ponderei até onde a minha possibilid.^e pode alcançar, ficando assim aberto o cam.^o p.^a q.^m com melhor vista possa reconhecer distintamente as ventagens e os defeitos [~q] eu não chegar a perceber.

2.--Procedo na suposição de S. Mag.^{de} fazer eleição do sitio medio entre S. João dos Bem casados e o Conv.^{to} de N. Sr.^a da Estrella p.^a o seu novo e real Palacio, ficando aquelle sitio cabeça e parte principal da Corte e Cid.^e de Lix.^a, ao [~q] precizam.^{te} se hade seguir a renovação do corpo da mesma cid.^e destruida, p.^a o [~q] se mostra m.^s apropriado o 4.^o modo da renovação da cid.^e expressado no § 6 da d.^{ta} 1.^a parte [~q] diz assim etc.