# Manuel da Maya e os engenheiros militares portugueses no Terramoto de 1755

## Part 5

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Mais adeante diz:--«Declaro que o fogo que se seguiu ao terramoto do primeiro de Novembro de mil sete centos sincoenta e sinco me queimou o edificio em que morava na travessa do Salema, freguezia do Santissimo Sacramento desta corte e me destruhio quanto nelle tinha em que entravam todas as minhas memorias conseguidas em largos annos com documentos, plantas e instrumentos da minha principal profissam e da minha fabrica, e noticias procedidas de diversos empregos do Real Serviço assim diurnas como nocturnas, e que ao depois fiz algumas nouas dissertaçoens, discursos e reparos e principalmente pertencentes ao lugar de Enginheiro mor do Reyno e ao de Guarda mor da Torre do Tombo conducentes ao Real serviço e bem publico, dos quaes alguns tem sido por mim propostos ainda que nem todos attendidos e que os primeiros se acharão na minha casa de visitas e os segundos na casa em que tenho os liuros, e pesso ao Reverendo Beneficiado Pedro do Valle Maya meu testamenteiro primeiro que com os dous destes Reverendissimos Padres Frey Antonio de Santa Anna e Frey Anastacio dos Santos os revejão e observem com attenção (pois que eu com a diminuição de potencias e sentidos e de mais de outenta e seis de idade me não acho em termos de o fazer), separando o que lhe parecerem util para se entregarem da minha parte aos meus dous successores que lhe darão a prouidencia que melhor lhes parecer...»

Na carta regia de 9 de dezembro de 1758 em que a Manuel da Maya se faz mercê de doze mil reis de tença annual, vem os seguintes dados biographicos:

«Faço saber aos que esta minha carta de Padrão virem que tendo respeito aos serviços de Manoel da Maya filho de Francisco da Maya natural desta cidade feitos pello espaço de vinte e hum annos quatro mezes e hum dia nos postos de Apontador das fortificaçoens, Ajudante de Ingeneiro, Capp.^{am}, Sargento Mayor, e no de coronel de Infantaria com o mesmo exercicio de Ingineiro desde vinte e sete de Mayo de seiscentos noventa e oito até vinte e sete de Mayo deste anno de mil setecentos e dezanove; no de mil setecentos e hum assistir ás obras da marinha e das batarias da banda de Alem, tomando as alturas e examinando os materiaes e fazer os riscos das plantas das ditas obras com muito acerto e ajudando em todas ellas ao Lente das fortificações, Francisco Pimentel, com o qual foy a Extremós para examinar o que faltava á fortificação da Praça; no de mil sete centos e quatro conduzir p.^a Abrantes hum Regimento de Olandezes, e despois voltar, tornar para a dita Villa á obra da fortificação fazendo a medição á planta do armazem e a informação doque convinha para a de Tancos na Campanha do ditto anno; acompanhar ao Conde Apozentador mor que foy aquartelar a munto alto e munto poderoso Rey Dom Pedro segundo de boa memoria, meu Rey e Senhor que Deus foy servido levar para sy, servindo de quartel Mestre da Corte; no de mil sette centos e sinco, ser mandado para Elvas, e sahindo no exercito assistir á obra de huns reductos que se fizerão a (?) da da Godianha para guarda da ponte das barcas, hindo muitas vezes vizitar os ataques e batarias por ordem do mesmo senhor; traduzir dous livros Francezes que tratão da fortificação, que forão recebidos com geral acceitação pello estillo e fé da tradução e pello seu bom prestimo e intelligencia ter sido muntas vezes occupado em varias diligencias do Real serv.^o e por ordem expecial fazer a planta de ambas as cidades de Lisboa, occidental e oriental, com toda a individuação de Praças, Palacios, Templos, Mosteiros, Freguezias, Irmidas, ruas e travessas com os nomes de todas estas couzas em tão boa forma e tão ajuizado ao Terreno que accreditou o seu estudo e trabalho de sinco annos...»

Por este documento se vê que Manuel da Maya entrou nos serviços da engenharia em 8 de setembro de 1737, como apontador; nelle vemos tambem as diversas datas das suas variadas occupações como engenheiro, tanto em tempo de paz como na guerra.

Os seus vencimentos em 1764 constam do seguinte decreto:

«A Junta da Caza e Estado de Bragança manda fazer novo assentamento a Manuel da Maya M.^e de Campo General de meus exercitos e guardamor da Torre do Tombo de hum conto duzentos oitenta e oito mil reis, que deve haver em cada h[~u] anno pelo Thesoureiro da mesma Caza, que são de sinco parcellas, que levava na folha d'ella, a saber quatrocentos e oito mil reis, que antecedentem.^{te} lhe erão concedidos de ordinaria sem abatimento de quatro e meyo por cento; duzentos mil reis de tença com o encargo de pagar quatro e meyo por cento; sento e sessenta mil reis de ordenado como chronista; cento e vinte mil reis para aluguer de casa, por aviso de 18 de Dezembro de 1754, e quatrocentos mil reis mais de ordinaria, que lhe mandei continuar por Alvará do d.^o dia 18 de Dezembro de 1754. Belem 30 de Julho de 1756. _Rubrica del Rey N. S._--Reg.^{da} a fl. 56.»

Manoel da Maya foi nomeado mestre de campo general por carta patente de 24 de janeiro de 1758, e sargento mor de batalha pela carta patente de 12 de janeiro de 1760.

Entre os trabalhos que ao distincto engenheiro foram confiados, estão os do hospital das Caldas da Rainha. D'isso dá noticia esta carta que se conserva na propria lettra de Manuel da Maya.

Senhor

No anno de 1706 se entregarão no Tribunal da Meza da Consciencia que tem o governo do Hospital das Caldas da Raynha, quarenta mil cruzados em fazendas p.^a do seu producto se formar a convalecenca p.^a os doentes pobres, que se vão curar ao d.^o hospital, e com effeito chegou a haver dous mil cruzados de renda por anno produzidos da redução que se fez das taes fazendas; mas no anno de 1750 ultimo em que a Mag.^{de} Fidelissima S.^{or} Rey D. João Quinto quiz continuar aquelle remedio, senão achava fabricada a convalecença, o que o Mesmo Senhor determinou se executasse; e com esta firmeza principiei a mandar conduzir alguns materiaes p.^a a tal obra; e por q o dito Tribunal mandou ao seu Architecto fizesse planta p.^a a tal convalecença, e este a fizesse, e se formasse consulta pella Mesa da Conciencia, desta consulta se me deo vista p.^a eu responder o que me parecesse; e por[~q] achei [~q] se devia regeitar huma janela que se queria abrir em huma casa pertencente ao commodo das Religiosas, e o haver que nas janelas de tal convalecença se intentara fazer de mais despesa e feitio [~q] o da Frontaria do Hospital, o declarei assim na minha resposta declarando os inconvenientes que havia nas ditas duas couzas: e entendo [~q] esta consulta se acha detida na Secretaria do Estado, de que foi secretario Diogo Mendonça Corte Real, que hoje habita em Mazagão, na qual secretaria se pode procurar esta consulta p.^a se lhe dar a providencia necessaria, assim p.^a bem dos pobres convalecentes, como p.^a o d.^o Tribunal dar cumprimento a obra de que se encarregou. V. Mag.^{de} mandará o que for servido. Lisboa 2 de 9.^{bro} de 1761.

_Manoel da Maya_.

Autographo.

Importantes foram os serviços prestados por Manuel da Maya á Torre do Tombo como guarda-mor, não só no que respeita á ordenação e catalogação dos documentos, mas por occasião do terremoto de 1755 em que, em vez de acudir á sua casa, que deixou arder, procurou no que poude salvar os thesouros do Archivo.

Falleceu em 17 de setembro de 1768, e foi, conforme a sua vontade, sepultado na casa de capitulo do convento de S. Pedro de Alcantara. Passava dos noventa e um annos; e toda a vida manteve severamente um voto de castidade que fizera aos doze.

A sua exagerada devoção levou-o a ser denunciante do Santo Officio, o que nesse tempo era tido como virtude. Denunciou em 8 de julho de 1755 um allemão das relações do P.^e Cardone por transmudar o azongue em prata, reputando-o um illuminado, e denunciou um cunhado de Mangin, abridor de cunhos da Casa da Moeda, como mação[33].

Que ominosos tempos aquelles em que até os espiritos mais lucidos enfermavam d'estas aberrações moraes!

* * * * *

A titulo de curiosidade daremos noticia da oração congratulatoria que os engenheiros militares e assistentes da Torre do Tombo, e o «superior de uns e outros, Manoel da Maya», offereceram a El-Rei D. José I por haver escapado ao attentado contra elle havido, e foi recitada em S. Antonio de Lisboa pelo P.^e Fr. Manoel de Sam Boaventura, religioso carmelita descalço. Conserva-se inedita, e noutro lugar a publicaremos, por não ter cabimento neste estudo de natureza militar. Mas não resistimos a dar uma amostra na parte em que explica como especialmente a congratulação pertence aos engenheiros militares e aos empregados do Archivo:

«Todas as gerarquias de pessoas sam obrigadas a este gratulatorio obsequio; mas com muita especialidade pertence esta acçam de graças aos nobilissimos congressos dos Engenheiros militares, e ao dos guardas assistentes ao Archivo da Torre do Tombo. Unem se estas duas gerarchias em hua mesma potencia motrix, que os governa: e he identico em ambos estes nobilissimos congreços, a obrigação, e por isso he simultaneo o seu agradecimento que patenteão neste solemne _Te-Deum Laudamus_.

Occorre especial obrigação aos Engenheiros militares e aos assistentes do arquivo da torre do Tombo, por huma identica congruencia das suas proprias ocupaçoens. Aos Engenheiros militares pertence a fortificação das praças; assim como aos assistentes do arquivo a conservação das memorias q nelle se depositão: e como o arquivo em que melhor se guarda a memoria dos beneficios recebidos seja a acçam de graças, sendo como he este agradecimento huma fortaleza ou hum lugar bem disposto á recepção de mayores petrechos para a defensa, a quem pertence a delimitação d'esse lugar ou fortaleza? A quem se hade recommendar a guarda d'esta memoria tão importante? Não ha duvida que aos assistentes do arquivo, e aos Engenheiros militares do Reino. A estes pois he obrigatorio com especialidade o obsequio do Louvor, que dedicam á Majestade Divina; com este agradecimento desempenham dos seus officios. Uns, guardando no arquivo da gratidão a insistencia do beneficio; outros ampliando a praça, em que hade entrar multiplicidade de socorros Divinos. E assim será todo o meo empenho mostrar que as vozes do _Te-Deum Laudamus_ que a Deus se offerecem, são huma maquina de ingenho militar, com que se agradecem ao mesmo Deos os beneficios feitos na pessoa do nosso Fidelissimo Rey, a todo o Reyno; maquina de industria tam artificioza, que he o arquivo em que melhor se conservão os padroens da recessão e continuação dos favores Divinos»[34].

Pode-se chamar a isto rhetorica engenheira!

Notas:

[1] Refere-se a Goethe, que tambem se impressionou com o terremoto, contando então seis annos.

[2] Reinaldo Manoel de Sousa.

[3] _Recordações_ de Jacome Ratton. § 65.

[4] Em alguns documentos Eugenio dos Santos de Carvalho.

[5] Deste ponto, entre outros muito interessantes, tratou o nosso estimavel camarada, capitão de engenharia, Francisco Luis Pereira de Sousa numa conferencia que realizou na Associação dos Engenheiros Civis, e que está imprimindo, tendo tido a extrema amabilidade de nos mostrar as provas relativas a esta parte, pelo que lhe deixamos aqui os nossos agradecimentos e o nosso apreço pelo seu valioso trabalho.--É muito interessante a apreciação das razões que justificam a construcção da gaiola para a maior estabilidade dos edificios relativamente aos abalos sismicos, o que é apoiado com argumentos tirados da experiencia dentro e fora do país. O titulo da obra que, desenvolvendo a sua conferencia, traz no prelo o nosso illustre camarada e distincto engenheiro é: _Effeitos do terremoto de 1755 nas construcções de Lisboa_.

[6] _Annuario da Sociedade dos Architectos_, 1908.

[7] _Providencias sobre o terremoto de Lisboa_, p. 200 e anteriores.

[8] _Catalogo da Cartographia Nacional_, p. 108.

[9] Decreto de 11 de setembro de 1750, que nomeou Ludovice architecto-mor do reino.

[10] _Providencias sobre o terremoto de Lisboa_, p. 131.

[11] Collecção Trigoso, tomo 16, p. 116.--Vide _Doc._ E.

[12] _Mem. das principaes providencias que se derão no Terremoto que padeceo a Corte de Lisboa no anno de 1755_, por Amador Patricio de Lisboa. Pag. 318.

[13] Entre os papeis de João Baptista de Castro, e pela letra d'este, conserva a Biblioteca de Evora as copias completas da primeira e segunda d'estas dissertações, e do principio da terceira até § 6.^o--No tomo XIX do supplemento do _Diccionario Bibliographico_ informa o Sr. Brito Aranha que os herdeiros de Antonio Ferreira Simas possuiam copia d'estas _Dissertações_, tendo no fim a seguinte nota:--«Deixou o autor de fazer a quarta parte não se sabe porque».

[14] Cod. C/{2-20} N^o 13.--Bibl. d'Evora.

[15] Entrelinha do Padre João Baptista de Castro.

[16] Nota de João Baptista de Castro:

«Sobre o dezenho de renovar a cid.^e de Lix.^a se pode accomodar o epigramma daq.^{le} Poeta, fallando de Roma destruida e depois reedificada, em q disse q se Roma não se tivesse arruinado, ficaria menos grandiosa.

_Et tanti cecidissi tuum, Roma inclyta tanti! Si stares, esses, Roma superba, minor_.

Igual a este pensam.^{to} he o q disse Cicero _lib 4 in Verrem_ fallando do incendio do capitolio depois da morte de Sylla, e diz q aquellas chamas parecião vir do ceo, não p.^a destruir o templo de Jupiter mas p.^a lhe pedir outro melhor, e mais magnifico. _Et illa flamma divinitus extitisse videatur non quae deleret Jovis optimi maximi templum sed quae praeclarius, magnificentius que deposceret_. V.^e _Pensées ingenieuses_ pag. 208 e o pigr. de Oven 12. Liv. 2. Ex cinere ut Phoenix Phenicis nascitur alter, Lisbon et Troyae prodiit ex cinere. Vid. Ruinas de J. H. de Mattos, pag. 126.

[17] _Peculio 9 do P.^e Joam Baut.^a de Castro_ Cl., Beneficiado da S. Basilica Patriarchal de Lisboa. An. de 1760. Cod. CXII/2-9, fl. 666 a 680, da Bibl. de Evora. Segue-se a «Terceira P.^{te}» que está copiada apenas até ao § 6, incompleto, fl. 681 a 683.

[18] Na Biblioteca de Evora, em continuação das duas partes anteriores, vem esta 3.^a parte, até principio do n.^o 7, com variantes. D'ellas daremos em notas as mais importantes. Ha ainda a notar que, decerto por lapso do copista, não existem na copia de Evora algumas palavras que estão na da Torre do Tombo.

[19] A copia de Evora não traz as palavras «comprimento da».

[20] Na copia de Evora «até» em vez de «sendo».

[21] As palavras entre parentheses, que completam o sentido, são da copia de Evora.

[22] «Apropriados», na copia de Evora.

[23] Estas palavras entre parentheses são da copia de Evora.

[24] «Alg[~u]» em vez de «grande» na copia de Evora.

[25] «Carretas», na copia de Evora.

[26] Da copia de Evora as palavras entre parentheses.

[27] Idem.

[28] Idem.

[29] Na copia de Evora está «nos canos e cloacas», em vez de «nas suas situações».

[30] T. do Tombo. M.^o da Guerra--Maço n.^o 270 da remessa de 26 de dezembro de 1891.

[31] _Theatro_ de Manuel de Figueiredo, tomo XIV, p. 630.

[32] Biblioteca Nacional--Col. Pombalina, mss. 457, fl. 340 v.

[33] T. do Tombo. Cad. 114 dos promotores da Inquisição de Lx.^a fl. 210.--Communicação do Sr. Pedro de Azevedo.

[34] No Archivo particular do digno par Simões Margiochi.

