Manhãs de Cascaes

Part 9

Chapter 93,916 wordsPublic domain

Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita similhança, vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz pintar uma tela ainda melhor. No seu quadro havia um cortinado que enganou o proprio Zeuxis.

--Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa observar a tela.

Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu enganei os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!»

A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte do paiz, de _enforcado_ lhe chamam; ou pequena e redonda como nas provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade dos tons.

É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma provincia não nasceu, descrevesse na _ilha dos Amores_, não a vinha do sul, mas a de _enforcado_, a alta e pendurada, que vegeta no norte:

Entre os braços do ulmeiro está a jucunda Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.

Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as _nuances_ da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as uvas, segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis, primeiro esmeraldas.»

Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da rapoza e das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar.

--Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada!

E do lado algum malicioso observa a meia voz:

--Estão verdes, não prestam...

Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum cacho guardado como um mimo.

Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da phylloxera. Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso, porque a vindima representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a vindima corre triste e silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das uvas.

Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no inverno;--porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.

XXIII

Pessoas conhecidas de vossas excellencias

Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos _habitués_ de S. Carlos.

Por que não começaremos pelas testas coroadas? O seu _dilettantismo_ é tão humano como o dos outros _habitués_. Primeiro el-rei D. Fernando, um espectador certo, mesmo já quando a voracidade lethifera de um cancro lhe ia roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia para S. Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em plena mocidade feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura elevada de S. Carlos, apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D. Luiz, que tinha pela musica a paixão nativa de todos os Braganças. Já doente, pallida e flaccida a face, n'um esphacelamento lento que o rosto denunciava, ia uma vez por outra a S. Carlos como para se despedir da musica, que sempre adorára.

Cá em baixo, nas cadeiras, desapparecêra primeiro o dr. Alvarenga, que passára a vida a tratar o coração dos outros, embora, para o atormentar, lhe bastasse o seu, de que soffria muito.

Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos escuros, e um crescente mais _dilettante_ do que cathedratico. Lembram decerto.

Depois o José Carlos _Poeta_, grande peitilho lustroso, casaca de amplas lapellas, calva ostentosa e lusidia.

Tinha conhecido a avó de cada cantora que ia apparecendo, e decerto gosava, ouvindo a neta, mais do que nós, porque vivia da saudade deleitosa que as suas recordações lhe avivavam.

Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim.

Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de gravata preta--querendo assim mostrar que já se não tinha na conta de moço, comquanto se tivesse ainda na conta de _dilettante_--foi, como uma estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava pelo azul fóra a alma do filho, que era a estrella querida do seu coração affectuoso.

Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma só pessoa, que fornecêra a S. Carlos dois _habitués_: o conde de Mesquitella e o duque de Albuquerque.

O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que a pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais moço cada vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno.

E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que vae passando...

Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e tambem raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.

Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente vive principalmente de recordações.

O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes, visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros saíam.

Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem, para ver os outros.

* * * * *

José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em occupações que profundamente contrastavam uma com outra: a prosa dos tribunaes e a poesia da opera. De per meio, e de passagem, plantára o seu loureirosinho no jardim das Musas, era escrivão do civel na Boa Hora, _dilettante_ em S. Carlos, e poeta por desfastio nas horas em que da prosa dos autos ascendia á região da harmonia. Fôra bastante escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora, esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de escriptor.

Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. Nunca perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, os seus habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque mal se chega a comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem em vida na solidão da misantropia.

Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr.

Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a lapella da casaca.

E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca.

Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar de um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal, adorava a musica italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um licor esquisito, divino.

Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o embriagava docemente.

Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do prazer de um tokay generoso, unico.

E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse apagar os nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora boreal, Mozart, uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos os palcos do mundo, mas, sem embargo, as partituras italianas hão de illuminar-se sempre d'esse doce luar de sentimentalismo, que faz a delicia do coração.

N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, da musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo de Garrett no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. Não podia nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, mas, no que podia ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se litterariamente com Castilho, mas versejou a exemplo d'elle em honra das divas do Olympo lyrico, porque Castilho, com ser cego, glorificou na lyra o feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. Admirador de Herculano, uma das tres entidades gloriosas da trimurti romantica, não o imitou nos processos de vida rustica e meditativa: para solitario não tinha geito Freitas Jacome.

Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é e que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu chapeu, pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não ousou atacal-o de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.

Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, n'um esforço de coragem.

Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo passeio de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida exterior attraira-o. Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu jantar d'aquelle dia, saiu, recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o ruido da grande cidade, que fremia em torno d'elle.

E todavia Freitas Jacome era provinciano!

Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas naturaes recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto se interessava por elle, o mar de lona de S. Carlos era mil vezes preferivel á corrente authentica do rio Nabão.

* * * * *

Fallava-se muito dos irmãos Andrades, que já tinham cantado no Porto com a Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para uma certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio.

Todos nós nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pôr pela primeira vez chapeu alto.

Foi outro dia, ainda.

E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma voz judiciosa que ponderasse:

--Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto!

Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu.

Por que será isto assim?

É porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria dos homens é não tanto o seu merecimento como a sua lenda.

Desde o momento que a gente apenas conheça, nua e crua, em toda a sua exactidão, a biographia de qualquer homem, vê-o unicamente pelo que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e julga que tudo o que constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar, vulgarissimo, tambem.

Mas, quando se dá exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se conheceu a lenda do que a biographia, então principiamos a vêr o semi-deus no homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginação e da dos outros, porque a lenda não é outra coisa senão o que a imaginação de muitos sonha a respeito de um só...

Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi cantar sobre o seu berço, como para prophetisar-lhe que ella seria a rainha do canto, acreditamos facilmente.

Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo! acreditamos que o rouxinol cantasse.

Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como já estamos habituados á lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir cantar um rouxinol no inverno.

Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos não foi a lenda, foi a biographia. Tanto peior para elles.

Viessem dizer-nos que quando os dois irmãos nasceram, seu pae, o tabellião José Justino, viu e ouviu um rouxinol começar a cantar sobre o berço de um e outro, como se o rouxinol viesse milagrosamente a vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco havia de ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!--diriamos nós--rouxinoes! quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria talvez seriam os pintasilgos da casa de jantar... Sempre o José Justino tem coisas!

Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos os tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote de familia.

Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do Taborda. E todos haviamos verificado que elles riam como as outras pessoas,--um pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade.

Onde estava n'isto a lenda?

Voz podiam elles ter; lenda é que não tinham.

Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois Andrades appareceram no palco do theatro de S. Carlos.

Receiava-se...

Suspeitava-se...

Tremia-se!...

Que falta faz uma lenda!

Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a todas as considerações pelas reticencias e pelas reservas dos seus conterraneos.

E, uma vez resolvidos a cantar,--cantaram.

E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar.

XXIV

Comer a dois carrilhos

Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar uma migalha aos mendigos que lhe batiam á porta.

Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino, matutou na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote de camellão para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle o frio sem o capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das coisas.

--Uma esmolinha, _tio_ Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto frio! dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do tendeiro.

--Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.

--Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!

--Que te leve o diabo e mais o frio.

No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado ia conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o enxotasse já com tanta dureza.

De uma vez o Ambrosio precisou um recado.

--Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali chamar o José da Azenha.

E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo que o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado ao balcão da loja, olhando vagamente para os seus dominios.

Ao outro dia o rapaz voltou.

--_Tio_ Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje algum mandado?

O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas. Em vez de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz vinha pedir que lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço.

--Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me chamar o Joaquim da Rita, que preciso fallar-lhe por causa d'uma coisa.

Essa coisa, eram uns juros em atraso.

E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o tendeiro, embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que sempre estava muito frio.

O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o mais diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que tocava a soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas fôra a pouco e pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que primeiro o deixou sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja.

Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola as cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as cascas dos ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e lavar os copos... uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!...

O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que de mais a mais não era pedinchão.

O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto pareceria escandaloso que uma vez por outra o Venancio não recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado pão e azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado.

Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio, um mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao tendeiro, entrando na loja:

--Ó _tio_ Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas duas libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.

--Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!

--Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da Michaela, que foi para o Brazil.

--Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum dia?!

--Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas guardar por ser um homem de bem...

--Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar!

--E o _tio_ Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o Venancio.

--Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz de tirar nada a ninguem.

--Menos a um pobre... como eu. Duas libras! que eu guardava para uma precisão! exclamou o Venancio, e começou a chorar.

Então, a natural bizarria do morgado não lhe permittiu tolerar aquella scena por mais tempo. Fosse verdade ou não fosse, era preciso acabar com aquillo,--uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por tão pouco!... Não podia ser.

--Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situação, não foi ao sr. Ambrosio que deste a guardar as duas libras. Não te lembras bem. Foi a mim...

Então o Venancio, serenamente, humildemente observou:

--Essas foram outras, sr. morgado.

XXV

O ultimo puritano

Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na repartição, porque tinha uma excellente mão de cursivo para tirar copias.

Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle não desse ao manifesto mais de sessenta.

--Sessenta--dizia elle--sessenta já cá estão!

E suspirava.

Não se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque, deitando as contas á sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle...

Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha de novo o surprehendia. Batera-se no Alto do Viso, trabalhára em varias eleições, e havia quarenta annos que saboreava, como premio de seus trabalhos e serviços, um pingue logar de amanuense cristalisado em seiscentos réis por dia.

Conhecêra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a collaboração d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por mais de uma vez lhe haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor.

Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito, cumprimentava-os muito reverente:

--Sr. conselheiro, criado de v. ex.ª

Era um praxista. Não cumprimentava ninguem sem ter descalçado primeiro a luva da mão direita, nem saía da repartição sem ir perguntar ao chefe, entreabrindo a porta do gabinete:

--V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?

E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o ouvia.

Mas elle, insistindo, reperguntava:

--V. ex.ª, sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?

E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia:

--Adeus, Seabra, até ámanhã.

Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o.

E o Seabra dizia-me:

--É dos novos; mas boa pessoa.

Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: _é dos novos_. Não era praxista, não respeitava as tradições e os regulamentos da burocracia, mas o Seabra reputava-o boa pessoa.

Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe, que o tratava simplesmente por _Seabra_, não ousava dizer d'elle senão que _era dos novos_... mas boa pessoa.

Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, não entreabria a porta do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle lhe respondesse com um «adeus, Seabra», pespegava-lhe uma tarea nas gazetas.

Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava.

Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre, antes de sair da repartição, o seu espelhinho d'algibeira.

Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas ao longo da cabeça. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado e attenção. Vendo-se ao espelhinho, passava a mão por cima das farripas, brunia-as com os dedos, alisava-as.

Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada, sem sombra de pó.

Por ultimo, segurando o espelhinho com a mão esquerda, escovava a sua velha sobrecasaca com a mão direita.

E feito todo este serviço, depois que o chefe lhe dizia o «adeus, Seabra», guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e seguia para sua casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do Oiro até Santa Martha.

Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias. Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que fazia. Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a tanto por pagina, o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 réis, não queria nunca receber mais de dez tostões.

Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver, visto que o seu logar lhe rendia apenas 600 réis diarios.

Todas as noites saía para vir ao Rocio conversar n'uma loja até ás nove horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. Ás nove em ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar até á meia noite, tirar copias a 120 réis a pagina.

Não vi nunca pobresa mais resignada, nem mais elegante. Parecia um principe arruinado, a passos mesurados, pela rua do Oiro. Era só então que elle via o mundo, uma vez por dia. Mas via-o bem, depois de se ter preparado tambem para ser visto. Não saía da repartição sem o espelhinho lhe ter dito: «Estás correcto, Seabra.»

Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.

--Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro.

Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais propriamente ainda, em vêr os pés das mulheres.

Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama.

Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando e observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os olhos, calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e a qualidade da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe adivinhava a intenção, disfarçava a olhar para uma _vitrine_ ou a lêr um cartaz.

Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres.

--O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito!

--Gósto!... gósto!

E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou vêr, sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra.

--Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.

--Não! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado.

Jámais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, tão contrariado como naquelle momento.

--Aquelle pé--pensei eu--é talvez uma recordação para elle.

Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do Seabra.

--Será talvez filha?

E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra uma filha natural.

Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu romance.

Tentei o assumpto.

--Mas então, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasião propicia?

--Não! nunca! tornou elle a responder.

Devorado pela curiosidade, insisti:

--Era talvez sua parenta?

--Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe!