Part 8
Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o chapeu quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr.
Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu é um facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no theatro, visto que se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso mais nas vistas, e se um espectador conserva o chapeu na cabeça, depois do panno subir, todos os outros começam a gritar: Peu! peu! Se o tira, mas parece reconsiderar tornando a pol-o, como que tem isso o proposito de querer irritar os outros espectadores, e então sobe de ponto a gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.
Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um camarote de segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas, bem comidos e bem bebidos,--bem bebidos, sobretudo.
Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico indignou-se, começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se descobrissem.
Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos, então jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição no ministerio das obras publicas,--o pobre Moita que tão desgraçado morreu!
Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á porta do camarote dos patuscos.
--Quem é? perguntaram de dentro.
--A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.
Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um representante da lei, exclamou:
--Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não pagaram os senhores o seu camarote?
--Pagamos, sim, senhor.
--Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos de cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.
Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça e despiram os casacos.
Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira auctoridade teve de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não podendo dizer ao certo se a embriaguez lhes haveria feito vêr a auctoridade em duplicado ou se neste paiz tudo andava tão fóra dos eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar pôr o chapeu, outra para o mandar tirar...
N'alguns espectaculos tem acontecido que o publico se arroga o direito de mandar pôr ou tirar o chapeu, sem se importar com a intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as auctoridades se atrevam a intervir.
N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro:
--Que quite el sombrero!
O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto começou o publico a gritar, sempre em côro:
--Que ponga el sombrero!
E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o chapeu, para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e para ter que tiral-o de novo...
Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu escapa ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade de acção, ha maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem é dirigido.
Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou na cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas.
Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos, póde ter consequencias analogas, como se tome esse acto por troça, por baixesa de caracter ou por desconsideração.
Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso para a pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no que deve fazer.
Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta aqui e não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de peior sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo, que me diverte proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima trova:
Quando eu quiz, não quizeste, Tiveste opinião; Agora queres, não quero, Tenho minha presumpção.
O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem exagero para mais ou para menos.
Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar. Um estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de chapeu na mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de desespero:--«Muito me incommoda a gratidão!»
Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes:
... e de Lisboa se sêa Que todos lá são honrados, Que de pessoa a pessoa Se fallam desbarretados.
Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos limites quando disse:
Um fallar com tanto geito, Um ditinho de repente. Que affeiçôa: _Um ter em tudo respeito_, Ai! mate-me Deus com a gente De Lisboa.
Ter em tudo respeito,--eis a questão. É como se dissesse: ter conta em tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar!
Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar a aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um só dedo podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia natureza não nos haveria dado cinco dedos em cada mão.
Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo, dá-lhe vontade de responder ao dedo com o braço todo,--para se mostrar generosa!
O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.
Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou que elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse:
--Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que eu!
Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não é cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua inferioridade.
Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de cumprimento:--é exigir que lhe dispensem dóse dobrada.
Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem repugnou vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava cobrir. Chegou ao pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto, e disse-lhe:
--Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença.
Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo, porque estava fazendo peior figura...
Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.
Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a torto e a direito para dentro de todos os trens que passam--ha n'isto verdadeiros especialistas--e que se agarra a um cabello para ter o pretexto de se tornar _snob_ dos machuchos.
Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a continuação do firmamento.
Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem!
De tudo quanto completa a _toilette_ do homem é com certeza o chapeu o que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta mais dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua individualidade moral, o que o póde tornar mais estimavel e o que tambem o póde comprometter mais.
E tudo isto por que?
Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pôr e para tirar.
E em saber pôl-o a tempo e tiral-o a proposito é que está o buzilis.
Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabeça grande, que o chapeu seja grande e a cabeça pequena. Não está n'isso a harmonia entre o homem e o chapeu, mas sim no uso conveniente ou inconveniente que d'elle se faz.
Quando a gente, ao sair de casa, põe o chapeu na cabeça, é como se pozesse ao sol o forro de si mesmo,--as suas ideias, os seus sentimentos, a sua educação, o seu caracter.
Ha chapeus que vão dizendo de cima da cabeça: «Cá vae este tolo, que não conhece os conhecidos».
Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem gritar a cada momento: «Cá vae este tolo, que até conhece os desconhecidos!»
Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que são tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lêr esta divisa: «Nem de mais, nem de menos».
Já repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio, parece variar de peso em certas occasiões e, especialmente, de pessoa para pessoa?
O mesmo chapeu, se a gente está de animo opprimido, parece pesar mais que de costume.
Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, começou por dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba do chapeu:
--Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na mão!
E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado como poucos, respondeu de prompto obrigando-o a cobrir-se:
--Pois ponha-o na cabeça, e diga o que quer.
Dois sujeitos compram chapeu da mesma fórma e no mesmo chapeleiro.
A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabeça, inclinando-se requebrado n'um bolero permanente. É que a cabeça anda alegre e communica ao chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar.
A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente até ás orelhas, dando mostras de querer enterrar-se por desgostoso. É que a cabeça pegou-lhe as scismas em que anda martellando no silencio do espirito.
Tão certo é, meus senhores, que o chapeu revela o homem:--o chapeu é o estylo de toda a gente, incluindo a que não tem estylo.
XXI
Os antipodas
Ha pessoas tão infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade não terá fim.
Ha melancolicos para quem a esperança não accende um unico raio de sol, tão entranhadamente elles se entregam á melancolia.
Ha pobretões que desanimam de ser remediados algum dia, tão pouca fé lhes vivifica o coração.
É para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um ensinamento moral, que póde, por um momento ao menos, arrancal-os aos seus pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do inferno da sua desesperança e entremostrar-lhes o ceu...
O padre-mestre Fanhões tambem se arrepellava, teimosamente incredulo, quando o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que na esphera terrestre havia habitantes que, em relação aos de meridianos e parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se achavam collocados de modo que os pés de uns estavam voltados contra os pés de outros.
Padre-mestre Fanhões não o podia crêr e desgostava-se d'isso, visto que toda a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle.
--Não me fio! dizia de si para comsigo. Como é possivel que, estando nós n'um hemispherio de cabeça para cima, possa haver gente que se equilibre de cabeça para baixo no outro hemispherio?!
Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razão a si proprio, e negal-a ao collega Liborio.
--Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem approximadamente, segundo se diz, a fórma de uma laranja. Ponho a laranja sobre um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade superior um ou dois grãos de milho; mas se quizer collocal-os na metade inferior, claro está que não terei meio de segural-os. Cairão por força! Pois com os habitantes da terra ha de dar-se a mesma cousa. Que nos aguentemos de cabeça para cima, percebe-se; mas que haja outros que se aguentem de cabeça para baixo, não me entra no miolo. O Liborio é um asno, que acredita em todos os carapetões!
E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se muitas vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma:
--Nos antipodas é que eu não acredito! Não póde ser!
Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o padre-mestre os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles proprios não tinham grande convicção na tal historia dos antipodas, gente que devia viver pendurada pelos pés, em permanente gymnastica.
Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente pessoa, um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e dos preceitos da Bulla da Santa Cruzada.
Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.
Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas quintas-feiras de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do capote. Dava-o a vêr á criada.
--Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!
--Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no poço.
Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço até ao meio dia seguinte.
Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o eterno thema, a eterna teima dos antipodas.
--Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o padre-mestre.
Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo:
--Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho ámanhã bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas não tem pés nem cabeça.
Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar o bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade; estava ratado, comido.
O que seria, o que não seria?!
--É gato que desce pela corda, alvitrava o padre.
--Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.
E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de casa, porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros do quintal eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa.
--Será elle rato de agua, ó Gertrudes?!
--Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato.
--Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja!
A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre, sempre repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau do poço, encontrava-o roido em metade.
Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau e, graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.
Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé ao quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.
Se lhes dessem uma ceia de _foie-gras_ talvez não gostassem tanto. O bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que servia de aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto de ratoneiros que temem ser presentidos.
Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a historia dos antipodas.
Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim, e contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.
--O que será? perguntou candidamente o padre-mestre.
--Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez...
--Talvez?
--Pode muito bem ser que o comam os antipodas.
--Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz!
--Ó sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que rasão havemos nós de pôr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais vossa senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manhã debruce-se no poço, ponha-se á espreita, que talvez os apanhe com a boca na botija.
--No bacalhau é que tu queres dizer...
--Sim, senhor, no bacalhau.
--Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio irei tirar o bacalhau do poço para desenganar-me.
Póde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros á espera da sexta-feira, que n'aquella semana parecia não chegar nunca, tão anciosamente elles a esperavam.
Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em pessoa buscar o bacalhau.
Ao debruçar-se no poço, deu um grande grito.
A Gertrudes correu á janella:
--O que é, sr. padre-mestre? perguntou
--Eu vi um homem no fundo do poço, respondeu elle assaralhopado. E assim que me endireitei para gritar, fugiu.
--Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes, que tambem tinham acudido.
O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poço. A agua turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruçasse espreitando, não tornou a vêr homem nenhum,--isto é, não podia vêr-se a si proprio.
--E o bacalhau está inteiro? perguntou outro rapaz
--Vamos vêr isso.
O padre-mestre deu-se pressa em içar a corda.
Faltava metade ao bacalhau.
--Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o havia aconselhado, já vossa senhoria não póde duvidar da existencia dos antipodas, porque os viu.
--E é verdade que vi um!
--Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu á beira do poço?
--Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na botija?
--No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante.
--No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o patife?!
--Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco?
--Trazia, sim, lá isso ainda eu pude vêr.
--Está provado então que os antipodas vestem como nós. E vossa senhoria que não queria acreditar n'elles!
--É verdade! Ninguem póde dizer: d'esta agua não beberei. Vou confessar o meu erro ao collega Liborio.
E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes.
O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu á porta vêr que afflicção era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou:
--Não ha duvida, não senhor; Você tem razão n'aquillo dos antipodas!
--Porque, ó padre-mestre?
--Porque eu vi um.
--Viu um!
--Vi-o com estes que a terra hade comer.
--E onde é que o viu?
--No fundo do meu poço!
Assim é em tudo o mais.
Por muito escura que seja a vida, e basta que seja tão negra como o fundo de um poço, por mais teimosa na sua descrença que seja uma alma, e basta que o seja tanto como a do padre-mestre Fanhões, chega sempre um dia em que se vê ou se cuida vêr aquillo que jámais se reputava visivel: realidade ou illusão.
Melhor é que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o padre-mestre. Mas se fôr illusão, isso basta ás vezes, n'um mundo em que a maior parte das cousas são illusorias, para sentir a alma menos propensa á duvida e ao desalento.
O padre-mestre julgou vêr um antipoda, e morreu na fé de que elles existiam,--por isso. O collega Liborio, em vez de vêr os antipodas no fundo do poço, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por se ter convencido mais depressa logrou ter maior convicção de que o padre-mestre desde aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por caminhos diversos. Mas, com quanto um se atrazasse na jornada, ambos chegaram, e o essencial na vida é chegar... alguma vez!
XXII
As uvas
Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas.
Quantas pipas de vinho tiveram? A como as venderão? Eis as questões que principalmente os preoccupam.
São, pois, as uvas que estão ainda em scena no grande palco da vida rural, tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera começou a roer os bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e opulentos de seiva.
As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, são o vinho em pilulas. Deliciosas e saborosas pilulas, que não precisam ser doiradas com assucar como as da botica!...
Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distincção, aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas que, para não repugnarem, precisavam ser envolvidas n'uma substancia doce.
--Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico.
Ora em pharmacia a palavra vehiculo é synonimo de excipiente, isto é, a substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para lhes dar uma fórma conveniente.
No dia seguinte vem o medico, e não encontra o doente em casa. Mostra-se profundamente surprehendido e contrariado.
--Onde está elle?!
--Saiu.
--Saiu?! Que imprudencia, santo Deus!
--Mas foi V. ex.ª que mandou...
--Eu?!
N'isto ouve-se parar á porta uma carruagem. Era o doente, pallido e tremulo, que regressava a casa.
--O que fez o senhor?! perguntou o medico.
--Saí de carruagem.
--Mas que loucura foi essa?!
--Pois V. ex.ª não me disse que tomasse as pilulas n'um _vehiculo_ qualquer! Tomei-as de carruagem...
Com as pilulas de vinho, tão doces são! não pódem dar-se d'estes equivocos, pois que não precisam vehiculo--assucar ou carruagem--para engulir-se com agrado.
Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso.
Segundo a Biblia, Noé foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal signal, que aprendeu á sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo a mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que é certo é que nós ainda hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes--o deus Baccho--em vez de vinho.
Mas quem sabe lá qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha e bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha não foi arvore que Deus prohibisse, como a do _bem e do mal_. Não, senhores, a cultura da vinha foi livre desde o principio do mundo, e então, que me conste, não se vendia o vinho por decilitros. O systema metrico decimal é, acho eu, muito posterior á origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse. Que delicia, o principio do mundo!
Pois não serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para não incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o inventor do jogo do _voltarete_, ficou capacitado de que tinha sido... Voltaire.
Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard ás Indias Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade de Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execuções tão crueis, que ha quem derive d'ahi o proverbio _fazer arlem_, de onde veiu, por corrupção, fazer _arlia_ ou _arrelia_.
Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinião, eram dois insignificantes.
Pareceu-me forçada a derivação e contando-a a um homem de espirito, disse-me elle:
--Eu estou convencido do contrario. Sabe vossê que Jacob só muito contrariado casou com Lia. Por isso, é natural que a não tratasse bem. Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos os homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: _Arre, Lia_. D'aqui é que veiu certamente a locução...
Tem graça, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens.
Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos que, n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas duas lettras gravadas: C. M.
Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse:
--Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora _camara municipal_.
Ficaram de cara á banda, os sabios.
A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o meu chapeu á antiguidade da cepa, e passo adeante. Mas como as uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos encontramos hoje, é o melhor que temos a fazer.
Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o desespero dos pintores.