Part 7
O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente para a carruagem d'onde a voz partira. Havia ficado visivelmente aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De instante a instante, ao passo que a voz repetia--E a cabrinha?--elle resmungava.
Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento em que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E a cabrinha?
O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei occasião de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo queria dizer.
O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.
Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava magnifico leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com a dona, mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo qualquer, a mulher do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido ficou, desempenhando as funcções do seu cargo.
Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a tomar o seu café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para que ella se mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro dia a mesma comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores maneiras, e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.
O pobre homem deu tratos á imaginação para resolver o problema, em que elle e a cabra entravam como factores.
O que havia de fazer? Demais a mais o café sem leite estava-lhe fazendo mal ao estomago, e a cabra não promettia tornar-se mais amavel do que até ahi se havia mostrado.
Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estação, e dois pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra.
O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar.
Até que uma noite teve uma idéa luminosa, salvadora. Adormeceu mais tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoçar café com leite.
Pela manhã, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabeça um lenço d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente, fazendo-lhe festa.
Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem endoidecia de contentamento.
N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo, mas em que occasião, santo Deus!
O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e lenço. Um dilemma implacavel se lhe apresentava: apparecer tal como estava ou faltar.
Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demissão. N'isto o comboyo chegava... E o chefe da estação apparecia na plataforma, mascarado de mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo.
Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao longe, e agora é raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem pergunte ao chefe da estação noticias da cabrinha...
* * * * *
--Já não ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu precisava escapar... para o contar depois!
E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos, do José da Costa e do _Chapeu de ferro_, dois faccinoras, dois monstros, que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato.
O José da Costa fôra ha doze ou quinze annos o terror das terras interpostas a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a monte, zombando das auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um homem sanguinario, uma lenda viva. Uma noite, encontrára o caseiro da quinta de Algeruz, e mandára-o apeiar do cavallo que montava. O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe, passando-lhe a mão pela cara:
--Anda lá, anda, segue teu caminho.
O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando José da Costa lhe tornou a dizer:
--Apeia-te outra vez.
E passando-lhe a mão pela cara:
--Ajoelha-te.
O caseiro ajoelhou.
--Por esta vez, vae-te embora.
O caseiro montou, e José da Costa, deitando a mão ás redeas do cavallo, exclamou:
--Apeia-te, e ajoelha.
E pondo-lhe a mão na cabeça e nas faces:
--Vae com Deus ou com o diabo!
O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos dois, quando o José da Costa lhe apostrophou:
--Torna a descer, que to mando eu.
E o caseiro desceu do cavallo.
--Ajoelha.
E o caseiro ajoelhou.
--Monta agora.
E o caseiro montou.
E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro.
--Coitado! disse, tornando a passar-lhe a mão pela cabeça inanimada, já devias estar cançado de montar e desmontar!
De uma vez, José da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol pimpão. Travou-se a lucta braço a braço, e o faccinora parecia não levar a melhor.
De repente, José da Costa grita para o hespanhol:
--Olha quem ahi vem! Foge!
Não vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas costas.
Foi na venda de Algeruz que José da Costa poude ser preso.
Fecharam-lhe a porta á traição, cercaram a casa, e foram buscar a Setubal uma força militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha annos fallecido.
Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que não poderam sahir a tempo, e o José da Costa, vendo-se apanhado no laço, ia-os esfaquendo para saciar a sede de sangue.
Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fóra, a força havia chegado, estava de armas mettidas á cara, e de repente, por uma das janellas da casa, uma coisa saltára para a charneca. Mas os soldados, percebendo o que era, não descarregaram.
José da Cosa havia atirado para fóra um cortiço, fingindo que era elle proprio que saltava, na esperança de que os soldados disparassem, e elle podesse fugir entretanto, são e salvo.
Então, baldados todos os recursos, entregou-se á prisão.
O _Chapéu de ferro_ infestava ahi por 1860 e tantos as circumvisinhanças de Beja.
Uma vez matara um homem n'um _monte_, como quem diz um casal, e obrigára a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar.
Dois rapazitos, e um d'elles é hoje um cavalheiro altamente collocado, sahiam, em férias, de Beja para a sua terra natal.
Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca.
--Quem são vocês? perguntou-lhes.
--Somos estudantes.
--E eu, sabem quem eu sou?
--Não sabemos.
--Pois eu sou o _Chapéu de ferro_.
--O _Chapéu de ferro_! exclamaram horrorisados.
--Sim, eu sou o _Chapéu de ferro_, e deixo-os ir em paz. Talvez _quizessem_ que eu os matasse, dois creançolas!
XVIII
A mulher
Desde o paraiso terreal até hoje, não tem havido acontecimentos de polpa em que não figure a mulher. Os francezes dizem «_Cherchez la femme_». O que significa que a mulher anda sempre mettida em todas as endrominas d'este mundo.
Ora, desde que principiou a desenvolver-se na imprensa o panorama escandaloso do Panamá, admirado estava eu de que não tivesse apparecido ainda como actriz ou como comparsa, como figurante de qualquer genero, uma mulher pelo menos.
Já tinha tido tentações de lembrar á França que o seu proverbio falhára... pela primeira vez. Eis senão quando o proverbio triumpha, agora como sempre. No caso do Panamá apparece uma mulher, madame Cottu, e a sabedoria da França salva os seus creditos, emfim.
Decididamente, a mulher, quer a emancipem quer não, tenha voto ou não tenha voto, ha de ser, na successão dos seculos, a eterna collaboradora do homem em todos os casos da vida.
E visto que isto tem de acontecer por força, convém a cada homem escolher o typo de collaboradora que mais lhe agrade, especialmente para as emprezas em que o agrado é tudo.
Deverá escolher-se a mulher pequena. Será essa, como typo do sexo, a que mais póde encantar os olhos de quem a vê?
É certo que os antigos diziam: «A mulher e a sardinha quer-se pequenina.» A pequenina, a _mignone_, d'estas em que se póde pegar ao collo, e passeial-as sem cançar os braços, é, em verdade, um ser gracioso, que conserva, até mesmo na velhice, o que quer que seja de infantil, de ar alegre de boneca
E de mais a mais dizia um philosopho, não sei qual, um philosopho apologista de mulheres pequenas: «Do mal o menos».
Mas a verdade é que as nulheres altas, elegantes, fortes, se não são tão commodas para trazer ao collo, dão margem a que os olhos de quem as contempla possam saturar-se de bello sexo, demorando-se a miral-as da cabeça até aos pés.
É como se a gente estivesse a olhar ao longo de terras vastas, de uma paizagem dilatada, com um horisonte amplo, infinito, em que sempre, por mais que se olhe, ha alguma coisa para vêr de novo.
Outro philosopho--porque sobejam, graças a Deus! philosophos para tudo--costumava dizer que a mulher alta era a mais apreciavel de todas, visto que não tinha o coração ao pé da boca.
Feia? Deverá ser feia a mulher? Não falta quem seja d'esta opinião. Não ha mulher feia que não possua pelo menos uma qualidade estimavel. A natureza mostrou-se principalmente sabia e justa nas compensações.
Vê a gente ás vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a nós nos parece feia.
Sempre que isto acontece, é para desconfiar que exista uma compensação, uma qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que nós, conseguiu descobrir.
De mais a mais, nada ha tão vehemente, tão vulcanico como o amor das feias. Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do coração, de modo que o seu primeiro amor é como que uma explosão do Vesuvio.
No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que póde stenographar-se do modo seguinte.
--Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes denodadamente contra o preconceito da belleza, e que reunes á coragem o talento, porque só tu foste capaz de descobrir a belleza na fealdade, a compensação que a natureza me concedeu. Saber que uma mulher é bella, quando ella realmente o seja, não engrandece o espirito de ninguem. Basta, para isso, não ser cego. Mas vêr uma obra de arte, a que todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua, chega a ser brilhante, a ser glorioso, ó nobre, ó bravo, ó excepcional cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicação!
Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto é, pelos olhos de uma mulher, faz impressão no espirito de um homem, envaidece-o, lisonjeia-o, acaba por subjugal-o.
E assim se póde explicar de certo a rasão por que as feias vão tendo despacho e consumo.
Estão no caso das feias, as velhas.
Não me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho sustentar que um homem deva casar-se com a sé de Braga.
Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu, na minha obscuridade, acho que é essa uma boa conta para ponto de partida.
Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um predio capaz de resistir a um terremoto! Magnifico! Já passou a epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de creança. Nada de esboços, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou já de dar os ultimos retoques! Excellente!
Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situação das feias, ainda que tenha sido formosissima.
--Muito obrigada pela distincção que o cavalheiro me concede! parece dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes, tantas rosinhas em botão, tantas flôres frescas e mimosas, e o cavalheiro por todas passou sem as cobiçar! Realmente, sinto-me captivada... Mas deixe estar que não hade arrepender-se. Saberei amal-o como duas meninas, pelo menos: uma, que já fui, outra, que torno a ser, remoçada pelo seu amor.
E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella é coração, toda ella se dispende em lembranças mimosas, enviando ao cavalheiro flôres para a lapella e rebuçados para o peito.
Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de amar, tomára um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e effluvios, ir dar um passeio ao Campo Grande.
Pelo caminho, o coração trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas, infelizmente, não havia um homem que quizesse ter a heroicidade de amal-a.
Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, já com o pé no estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos.
E deixando-se cair para fóra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia de amparal-a carinhosamente, exclamou:
--Amo-te, José Traquitana!
Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas é de presumir que a dama, acceitando as consequencias da sua allucinação, viesse a tranformar esse cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a vida, visto que havia principiado por ter boa mão de rédea.
Deverá preferir-se a mulher formosa?
É decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida é uma serie de illusões, e a formosura a mais grata das illusões.
Lá disse o padre Vieira: «O que é a formosura senão uma caveira bem vestida?» Mas, emquanto está bem vestida, agrada, attrae, fascina.
Todavia, se se pensa um momento, receia-se...
A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse perigo, que constitue um sobresalto permanente.
E depois o que a possue não póde de certo esquivar-se a pensar com os seus botões, á medida que a belleza se vae apagando: «Quem te viu e quem te vê!»
Se a mulher vale só pela formosura, faltando-lhe a graça, a bondade, uma qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graças á theoria das compensações, essa mulher é, já o disse alguem, um livro que uma vez lido, não tem mais que lêr.
Deve procurar-se uma mulher de bom genio?
Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de açorda, é uma espécie de _menu_ sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito não passa de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um doente.
Não irrita, mas não vivifica. Não esfria, mas não aquece. Quando um homem chega a festejar as suas bodas de prata, não tem que dizer aos outros senão isto: «Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da minha vida n'uma paz podre, que me sabe a gallinha cozida.»
Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel para o marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o espirito de um homem como vêr uma mulher, que tem a vocação da guerra, offerecer-lhe um beijo... de paz! Oh! é glorioso para um vencido acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor!
Deverá ser rica? Para passar a vida, é bom que seja rica a mulher. Mas não deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu d'ella. Quando um marido em taes condições manda pôr o trem, sente-se engasgado como se tivesse de dizer: «O José, manda pôr o coupé da senhora.» Se vae ao theatro, ao entregar o bilhete ao porteiro, a consciencia grita-lhe que deveria dizer, a querer ser sincero: «Abra o camarote da senhora!»
Oh! deve ser horrivel!
Pobre? E se a mulher é pobre? Dá isso pena a um marido que sinceramente a estime. «Aqui está, dirá elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu quizera proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma princeza, e comtudo só poderei offerecer-lhe este mez um vestido de percale.» De modo que a independencia de que um tal marido gosa junto de sua mulher, e aguada pelo desgosto de a não poder felicitar tanto quanto desejava.
É difficil a escolha! concluirá o leitor. Com effeito assim é. Difficilima, acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a dificuldade da escolha: é amal-as a todas indistinctamente, para, com o auxilio da experiencia, escolher depois a melhor... se houver tempo para isso.
XIX
O carnaval...
Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de Estarreja.
Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a mais interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa tem produzido, desde que a caraça é caraça.
Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de um fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos meninos da casa.
De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmão e sobrinhos do fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o distraía da monotonia das arvores e da vida da aldeia.
Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo:
--Meu senhor, se v. ex.ª se não oppozer, vou a Lisboa pregar uma partida real a seu mano e sobrinhos.
--Então que intenta você fazer, ó Felix?
--Uma partida de carnaval, que passo a expôr a V. ex.ª Ámanhã de manhã tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas da noite. O mano de v. ex.ª é certo, com toda a sua familia, n'um camarote da Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou hospedar-me no _Hotel Alliance_ para me lavar e descançar. Á meia noite pouco mais ou menos, mando um criado do hotel alugar um dominó preto ao Cruz da rua Larga de S. Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da Trindade, vou direito ao camarote onde estiver a familia de v. ex.ª e proponho-me intrigal-a, com casos certos, durante uma boa hora. Quando eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia arderá em curiosidade, dará tratos á imaginação para descobrir quem eu seja. Mas não poderão lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja. Á saida do theatro tomarei as minhas precauções para não ser seguido nem conhecido. De manhã metto-me outra vez no comboio, e á noite estarei aqui a ceiar e a rir do caso com v. ex.ª É ou não é, ex.^mo senhor, uma partida real?
--Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. Vá deitar-se, visto que tem de fazer madrugada. Mas que boa partida! Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mãos de contente.
Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo, redigiu o seguinte telegramma:
«Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade. Dominó preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque. Segredo.»
Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manhã fosse ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais completa reserva.
No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua aventura.
Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:
--Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr. Felix Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja. Se tomar um trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel Alliance. Ahi, logo que chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado para que lhe vá buscar ao guarda-roupa do Cruz, na rua Larga de S. Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente do hotel. Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem de dominó preto. Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia, tomar-lhe-has dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á casa do bengaleiro estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles entrar, dir-lhes-has: É este. Entendeste:
--Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar conta do recado.
--Muito bem.
No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de papel branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «_Sou o Felix Telles de Estarreja._» E riam estrepitosamente, com aquelle grande bom humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos passam...
O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil maravilhas.
Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do visconde, postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe nas costas a grande tira de papel branco.
Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza.
As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa gargalhada, que Felix Telles não percebeu. E logo muitas vozes, umas accentuadamente masculinas, outras feminilmente esganiçadas, começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto o dominó preto passava:
--Olha o _Felix Telles de Estarreja_!
O homem estremeceu dentro do seu dominó, debaixo da sua mascara.
E sujeitos de chapeu de côco, creanças de bisnaga em punho, _pastorinhas_ vestidas de gaze côr de rosa, _vivandeiras_ de cantil a tiracollo, caíam sobre elle com o peso d'uma troça implacavel.
--Olha o _Felix Telles de Estarreja_!
Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de bisbilhotice, não conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si proprio se teria enlouquecido, e então os esguichos, as gargalhadas, os gritos recrudesciam n'um _crescendo_ atroador.
De repente, no salão, o visconde, de braços abertos, um riso epigrammatico nos labios, postado deante do dominó, saudava-o com a terrivel apostrophe, que se repercutia nos eccos da sala:
--Ó Felix Telles, que diabo de lembrança foi a sua!
E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico, respondeu-lhe na sua voz natural, cheio de raiva, de colera:
--Ora deixe-me, que não sou eu!
E saiu, saiu acompanhado até á porta do theatro por este grito terrivel, insistente, perseguidor:
--Tu és o _Felix Telles de Estarreja_!
E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde que gritavam:
--Ó Felix Telles, venha cá!...
Entrando no _Hotel Alliance_, Felix Telles despiu de repellão o dominó, deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado que se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair no comboio da manhã, e que se não esquecesse de mandar entregar depois o dominó ao Cruz, com mais dez tostões que elle deixaria sobre a banquinha.
Pela manhã, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os dez tostões para o Cruz, e saiu.
Quando á noite chegou a Estarreja, já um telegramma do visconde para o irmão o havia precedido.
--Então? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude.
--Então! respondeu Felix Telles. Aquillo é ainda uma aldeia peior do que Estarreja! toda a gente me conheceu logo que lá cheguei!
--Não é possivel!
--Tão possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as pessoas, que aquelle dominó preto era o Felix Telles de Estarreja!
--Conhecel-o-íam pelo andar?
--Eu sei lá, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, não se ouvia senão o meu nome n'uma berrata que me ensurdecia!
Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e perguntava-lhe:
--Onde foi que você despiu o dominó preto?
--No _Hotel Alliance_.
--E não viu no dominó preto alguma cousa branca?
--Só se fosse o forro... Mas não reparei.
--Pois eu lhe posso dar algumas explicações, que façam luz sobre o caso.
Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso.
--Não viu um papel branco pregado nas costas do dominó preto?
--Não vi!
--Aqui o tem, pois--dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma tira de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandára pedir ao _Hotel Alliance_ e lhe tinha remettido pelo correio.
E elevando-o á altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o.
--_Sou o Felix Telles de Estarreja_! dizia o papel.
O pobre homem estava passado, assombrado.
--Mas então!... exclamou elle caindo em si.
E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo que todas as pessoas da casa acudiam á porta do escriptorio a rir, a rir...
XX
O chapeu
Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do tamanho de uma avellã, que coroava os seus fartos cabellos negros.
--Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pôr e tirar...
Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo masculino, que de responsabilidades andam ligadas ao simples facto de pôr e tirar o chapeu!...