Part 6
De manhã, quando o sol desperta rutilo. As brancas pombas vão, cortando o ar, Como um solto collar no azul ethéreo, Longe do ninho um tecto procurar.
Minha alma é como a solitaria arvore Onde enxames de loucas illusões Poisam á noite. Fugitivos hospedes, Vão-se co'a luz as pombas e as visões.
8--2--87.
MULHER E GATA
_(Paul Verlaine.)_
O vel-a até dava gosto Brincando co'a sua gata, Branca mão contra alva pata, Na penumbra do sol posto.
Mitene, que a mão recorta, Por dissimular trabalha Unha d'ágatha, que corta E brilha como navalha.
Mas a gata, disfarçada Tambem, com prazer ronrona E ensaia a unha acerada... Não é melhor do que a dona!
E os dois labios purpurinos Enchiam de riso o ar, Onde se viam, felinos, Quatro phosphoros brilhar.
N'UMA SALA
A um canto, os politicos fallavam Com um certo mysterio Do modo como as coisas caminhavam, Se estava forte ou fraco o ministerio.
Alguem que se mostrava resentido, Abanava a cabeça--era um symptoma De que a seu vêr o mundo está perdido E tudo cae,--como caíra Roma! Elle só, por sciencia e por estudo, Era talvez capaz de salvar tudo...
N'outro canto da sala gorgeiava A musica do riso e d'alegria Um grupo que sorria e que fallava De quanto ouvia e via. Era o grupo formoso das solteiras, O grupo dos vinte annos, Que é capaz de passar noites inteiras, Rindo de tudo,--até dos desenganos!
D'este grupo gentil como é que eu posso Desenhar o esboço? Precisaria ter as tintas finas, O magico pincel De que dispunha o grande Raphael! Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.
Quereriam talvez as bellas damas Vêr no papel traçado o seu perfil?! N'essa não caio eu... Quem é capaz de retratar abril? De transportar á tela o que é do ceu? De copiar as flôres? De imitar as estrellas? De dizer á manhã: Roubei-te as côres? Tende paciencia, ó minhas damas bellas, Incumba cada uma o seu Romeu D'esse arrojo inaudito. Eu cá por mim, repito, N'essa não caio eu...
E de mais eu bem sei, minhas senhoras, Que me attendestes n'um serão inteiro Por não haver na sala algum solteiro... Sois boas, não sejaes enganadoras.
Eu já tenho trez filhos, eu sou velho, Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha, E o maldito do espelho Tem-me mostrado até... _pés de gallinha_!...
Vão muito longe as minhas primaveras. De mais a mais, senhoras, a aza branca Da musa ideal que eu tive n'outras eras Desplumou-se a pensar em Salamanca, No imposto sobre o sal, A estudar as questões do parlamento, O orçamento geral, --Diabo de orçamento! Que é o livro maior que ha em _S. Bento_! Assim se foi rasgando, creio eu, Essa aza branca que me erguia ao ceu!..
Vede, senhoras, se ha tormento igual! O que me resta só, Para de todo errar da sorte o alvo, E vêr-me, um dia, calvo, E descer á miseria... de um chinó.
N'estas alturas, minhas damas bellas, Não posso ser pintor. Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas Formosas como sois, e delicadas? Mirae-vos n'uma flôr...
N'essa não caio eu... Fazer-vos o retrato?! Mas, em compensação, Com a vossa adhesão Estou prompto a fazer um syndicato.
XV
Os amaveis
Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre previdentes, tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que, quando não encantam, incommodam com certesa os outros...
Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de o ser por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.
Com a differença de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se mostra amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se um amavel, tambem por descuido, commette uma grosseria, fica a gente quasi vexada de vêr que elle estragou com um involuntario borrão todo o seu passado de homem fino.
A cortezia é como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se torna saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer incorrecção de côr, qualquer sombra, por maior que pareça, tem sempre esta desculpa: «É mesmo da fazenda...»
Um brutalhão de marca maior costumava espancar a mulher por dá cá aquella palha. As visinhas tinham dó da pobre creatura sempre que ella acabava de apanhar a sova do estylo. «Coitada! diziam-lhe, vocemecê sempre foi muito infeliz com o marido que escolheu!» E ella respondia, cheia de philosophica resignação: «É genio d'elle, não façam caso.»
Equivalia certamente a dizer: «É feitio da fazenda, não ha que extranhar.»
Um amavel que uma vez escorrega, fica tão maltratado em sua boa fama, como ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande das Aguas Livres sobre as hortas da Rabicha.
Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em requintes de cortezia, andando adoentado de irritação intestinal, teve a infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle proprio dolorosamente surprehendido por alguma coisa que o vexou.
O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro infeliz pegou no chapéo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr pela escada abaixo.
As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras, receiosas de que alguem as ouvisse.
Os que estavam jogando o voltarete e o _whist_ perguntavam admirados:
--Então acabaram tão cedo o seu divertimento!
--Aconteceu alguma coisa?
--Por que se foi Fulano embora tão depressa?
E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio, que só quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga.
No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade.
--Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano?
--Não sei.
--Pois ainda não sabe!
--Eu lhe digo...
E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente o pasmo com que a noticia era recebida.
--Ora essa!
--Um homem tão correcto!
--Um tão perfeito cavalheiro!
--Que pena!
--Que desastre!
--Que fiasco!
E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que não podesse acontecer a qualquer outra pessoa?
Tinha deixado cair um borrão no claro estofo da sua boa fama.
Se se tratasse de um grosseirão, toda a gente haveria dito apenas que era proprio da fazenda.
Viajando em caminho de ferro, quem é que não tem encontrado um companheiro tão amavel, que chega a aborrecer?
Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de cortezia, e pergunta:
--Quer a janella aberta, não é verdade?
Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da cortezia:
--Pois não é verdade, pergunta, que desejava a janella fechada:
Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste, persegue quasi, que é talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter que acceitar por força, ir mal disposta, e comer pouco.
--Você--dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser esperado--você janta hoje comigo sem appellação nem aggravo.
--Não posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho que seguir hoje viagem.
--Que pena! que pena! Mas veja lá se póde de algum modo fazer o sacrificio de jantar hoje comigo...
--Absolutamente, não posso, meu caro.
E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo e procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro.
Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que aliás não tinha dotes de muito esperto.
E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo:
--Seu pae como está?
--Menos mal, obrigado.
--E seu tio?
--Esse passa peior.
--Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito.
--E aquelle seu primo de Torres Novas?
--Esse! Morreu ha um anno!
--Não sabia! Que pena! um homem ainda tão novo!
De repente, voltando ao offerecimento do jantar:
--Mas, decididamente, você janta hoje comigo...
--Não posso, meu caro, porque o comboio não dá licença.
--Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se depressa. Ó José Maria, anda cá.
José Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando foi accender o charuto:
--Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa lá alguma coisa grande e pomposa.
Vem o José Maria e, de barrete branco na mão, espera que o amo o interrogue.
--O que temos nós hoje para jantar, José Maria?
E o cosinheiro, que estivera matutando na invenção de alguma coisa grande e pomposa, responde:
--Saiba v. ex.ª que temos uma balea.
Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa.
O cosinheiro fica atarantado, suppõe que tinha dito ainda pouco...
--O que dizes tu, José Maria! Uma balea!
E o cosinheiro querendo emendar a mão:
--Duas... duas, meu senhor.
Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas baleas, porque não se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador da sua amabilidade hospitaleira.
E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso ás gargalhadas, fazendo alastrar a nódoa com que uma tão distincta pessoa maculára a sua reputação de homem amavel.
Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho um brutamontes rebelde a todas as correcções.
Pae e filho foram convidados a jantar fóra de casa. O filho quiz ir por força: o pae consentiu, com a condição de que elle fallaria o menos possivel.
Á mesa, o visinho da direita disse ao rapaz:
--O tempo está magnifico!
Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabeça.
O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez:
--Que magnifico tempo!
Elle tornou a meneiar a cabeça.
D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos:
--Este rapaz é um grosseirão!
E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte:
--Olhe que elles já me conheceram! Posso fallar á vontade.
O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os outros convivas.
--Desculpem, isto é mesmo da fazenda.
Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os grosseiros. E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel, devendo ter sido grosseira!...
XVI
A sepultura d'um traidor
Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a contar historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio.
O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.
O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do mesmo nome.
Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.
Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se fazer estimar e adorar.
Era, realmente, uma creança insinuante, meiga e intelligente, quasi nada voluntariosa apezar dos extremos, por vezes ridiculos, com que era tratada.
A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás vezes adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico para ambos, porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira da sociedade que tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para a mulher e para o filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos.
No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte integrante da familia: era o padre João, capellão da casa.
Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy durante a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. Umas vezes por outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, segundo elle, era o _Desejado_ dos tempos modernos.
Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que se devia fazer d'aquelle menino.
O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua riqueza e a sua fidalguia?
A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser analphabeto.
Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa para os pobres.
O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o filho o fosse.
Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se graduasse em leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um cavallo para passeiar, como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, exhibindo-se, n'uma palavra, em toda a plenitude das regalias que uzufruiam os morgados em Coimbra.
Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não ficava mal a ninguem.
A morgada zangava-se, e dizia:
--O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa.
O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois com os dedos sobre os joelhos:
--Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem...
--Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que não. O padre João já viu alguem nascer doutor?
--Eu, não, sr.
--Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição social, menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos mudaram, e um fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que meu filho vá a Coimbra.
A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste.
--Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver sem o teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda natureza. Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o Porto,--e olha que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa arrancar-me á vida da provincia. Para que elle tambem se habitue a viver sem nós, mettemol-o n'um collegio, no da _Guia_, por exemplo, porque tenho boas informações a respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o sempre que queiras. Pelas ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim de que elle possa saborear, de tempos a tempos, o bem estar da casa paterna, conservar as tradições de familia, que eu tanto prezo, e tu tambem.
De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João não gostava; mas, chamado a conselho pelo morgado, não tinha remedio senão concordar.
Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da _Guia_ estudar preparatorios.
Os fidalgos da Gésteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma bella casa de trez andares, na rua de Santa Catharina.
A fidalga queria ficar perto do collegio,--o mais perto possivel.
Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O director, o Daniel Navarro, tinha ordem de se não poupar a despezas para amenizar a iniciação do joven collegial. Esse dia, era uma segunda feira. Mas no domingo á noite a fidalga chorou tanto, que o morgado achou prudente deixar passar mais alguns dias.
Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades da mãe e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o lá. Era á hora em que os alumnos estavam no _recreio_: todos elles pareciam alegres, riam, vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as escondidas, baloiçavam-se no trapesio. Aquillo não lhe desagradou; demais a mais o Navarro fizera-lhe muita festa, foi mostrar-lhe as aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e disse-lhe:
--Olhe que isto não é mau.
E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar bem ali, com os outros, brincando como elles.
Mas ao chegar a casa, chorára vendo a mãe, e ella chorára tambem, abraçada n'elle.
--Bem! dissera do lado o pae, tu não desgostaste, pois não é verdade:
O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, meneára affirmativamente a cabeça.
--Então entrarás segunda feira... está dito!
E passára a mão pela face da fidalga, afagando-a.
--É que se o rapaz ainda não vae d'esta vez, disséra, fica sendo o D. Sebastião do collegio da _Guia_. Eu não quero que os outros lhe ponham alcunhas, que ficam depois para toda a vida.
--Nem eu, replicára a fidalga com vivacidade.
A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o _D. Sebastião_ do collegio, sobresaltára-a. E desde logo protestou a si mesma que o deixaria ir na primeira segunda feira.
--Ó mamã, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio?
--Qual?
--Sou o 416.
Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante á monotonia do seu tratamento habitual. Toda a gente lhe chamava D. Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam chamar-lhe o 416. Que bom!
No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando entravam, os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa á Lapa, e depois dariam um passeio até Paranhos. O morgado disse ao prefeito que tambem os acompanharia, para habituar o filho á sua nova vida de collegial.
Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez relações de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa Pouca, em Guimarães. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de se vêr tratado familiarmente--por 416, apenas.
Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do filho. Pela manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, sorrindo outras, soffrendo e amando.
Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia tanto. Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O sr. D. Ruy ia bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem chorar, mas á esquina da rua, quando a janella ia desapparecer, o valoroso 416 voltou-se ainda uma vez para traz, e limpou duas lagrimas ao canhão da jaqueta.
É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem consciencia de que uma mãe faz muita falta.
O 416 deu boa conta de si no collegio da _Guia_. De dia, as aulas e o recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos, arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de adormecer, pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se inclinava sobre o leito a compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a roupa. A cabeça de Christina tomava então o aspecto de uma aza protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no lençol, soluçando, e adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre João lhe ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide.
Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor.
Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, faziam ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a Gésteira o seu condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas licenças. Não havia duvida nenhuma. Fariam um Judas logo que lá chegassem. Houve apenas uma pequena divergencia, entre os dois amigos, sobre o modo como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol--com as respectivas castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as castanhetas seriam substituidas por um pandeiro.
Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não era proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois collegiaes não quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de lhe comprar um fato de hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de Santo Antonio, n'um guarda-roupa de carnaval.
Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os projectos dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser espaventosa.
Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo... castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe uma bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, outra bomba: o chapeu devia ir parar a casa do diabo.
Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era de palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares; ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um sombrero com debrum de velludo preto. As mãos eram duas luvas de algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um pandeiro, e na direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, bater no pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada envolvida em folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro.
O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao muro da quinta.
O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, invenção do 86, levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que só foi possivel acabal-o, á luz de lanternas, na sexta feira á noite. O Judas, finalmente prompto, estava de papo ao ar, no chão, hirto, inchado, apopletico. Pela manhã, os meninos levantar-se-hiam muito cedo para assistir á empalação.
Depois... só restava pegar-lhe fogo.
De madrugada, uma criada da casa fôra ao moinho buscar uns sacos de farinha, que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a jumenta para o meio do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na cosinha.
Não se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as jumentas comem palha... ainda mesmo quando lh'a não sabem dar.
A jumenta, de focinho baixo, foi procurando o que havia pelo telheiro. Vendo o Judas deitado no meio do chão, começou, desconfiada, a ladeal-o, mas, por fim, investiu com elle. Cheirou-lhe a palha, e com uma dentada esgarçou-lhe o peitilho da camisa. Achou dentro a palha, e começou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho de madrugada, e lá, emquanto esperava pela moedura, apenas poderá traçar com os dentes umas hervitas, de modo que aquelle almoço inesperado soube-lhe bem.
Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas... restava apenas a parte castelhana, isto é, o fato:, mas os intestinos tinham desapparecido.
Proromperam n'um choro atroador as duas creanças. Os morgados, os criados, acudiram todos. As lamentações dos dois collegiaes eram sentidissimas, clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se passava, continuava a procurar com o focinho alguma cousa, na esperança de encontrar outro Judas.
N'um momento de cólera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e começaram a desancar a jumenta. Levou muita lambada; até o padre João, para lisonjear os meninos, lhe dera um pontapé na trazeira, dizendo: Que grande burra esta!
Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de que um traidor não merecia sepultura melhor.
XVII
A caminho do Alemtejo
Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu estava carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do Barreiro, uma grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos para as carruagens;--foi um verdadeiro _sauve qui peut_.
O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada. Eu sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos) sentindo correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz, n'um tom agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a cabrinha?