Part 4
Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da _mascotte_, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite, contando a historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.
Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar a minha crença no condão maravilhoso da bengala. Era decididamente uma _mascotte_.
Mas um dia--que terrivel dia esse!--por acaso, n'uma esgrima simulada, a bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção d'este mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade tinha-se partido com ella, ai de mim! A _mascotte_ havia fugido, como uma alma abandona um corpo.
O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um acaso levou.
Não ha philosophia que resista aos factos.
De varias pessoas sei eu que tiveram _mascotte_, e que criam n'ella como em Deus.
Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que morreu conde de Torres Novas.
A sua _mascotte_ era uma escova de fato, que o não abandonava jamais.
Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não querer separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da barretina.
Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O golpe tel-o-ia prostrado, se entre a barretina e a cabeça não estivesse a escova,--a que ficou devendo a vida.
Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar.
Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas superstições.
IX
Era em abril...
C'était en avril, un dimanche, Oui, le dimanche! J'etais heureux... Vous aviez une robe blanche Et deux gentils brins de pervenche, Oui, de pervenche, Dans les cheveux.
Nous étions assis sur la mousse, Oui, sur la mousse, Et sans parler, Nous regardions l'herbe qui pousse, La feuille verte et l'ombre douce, Oui, l'ombre douce, Et l'eau couler.
Un oiseau chantait sur la branche, Oui, sur la branche. Puis il s'est tu. J'ai pris dans ma main ta main blanche. C'etait en avril, un dimanche, Oui, le dimanche... T'en souviens--tu?
Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra em si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril, quando o laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um _bouquet_ de noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que fragrancias de _boudoir_, que estonteamentos de volupia, cheia de mysterios, de segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno grandes manchas encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram convidando ao remanso d'um idyllio, oui, d'un idylle...
No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de Pan, dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha no céu o bello sol ocioso d'um domingo... _oui, le dimanche_!
Perto, um veio d'agua crystallina e múrmura dá uma enorme sensação de frescura e de preguiça, porque não ha nada que enerve mais deliciosamente do que vêr correr a agua sobre um campo... _et l'eau couler_.
Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa vitalidade vernal...
Nous regardions l'herbe qui pousse, La feuille verte et l'ombre douce.
Delicioso abril! Primavera encantadora! por mais que a gente queira adorar-te sem rhetorica, é completamente impossivel, porque tu mesma és a rhetorica da creação, o Padre Cardoso da naturesa...
* * * * *
_C'était en avril..._
Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o ar, os laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e o meu amigo Rosendo, tão feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao Campo Grande passar um domingo, uma esplendida manhã de domingo... _oui, le dimanche_.
Tinham ido por ahi fóra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada de phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres pilecas rebeldes ao amor e ao chicote.
Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um grande desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de mocidade e elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas, uma rosa natural, um chapeu com _blonde_ verde, luvas de _peau de Suéde_... Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera tão fascinante, nunca um Rosendo sentira no coração um bando de rouxinoes tão palreiros e tão musicos como naquella hora deliciosa. Imagine-se a pressa do Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes dentro do coração, estava em risco de morrer de hypertrophia, se não chegasse de pressa,--mesmo muito de pressa.
Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de idyllio, que nem que fosse mandado pôr ali de encommenda pela camara municipal, para uso dos namorados ao domingo... _oui, le dimanche_. Por de traz, um bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso como um mudo.
Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na _Revista dos dois mundos_, e por os haver achado deliciosos.
Tratou de pôl-os em acção, ou antes, de pôr a sua mão de enamorado Rosendo sobre a mão branca de Ambrosia.
J'ai pris dans ma main ta main blanche...
Não faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da _Revista dos dois mundos_: a erva vecejante, a folha verde, a agua corrente, o domingo e a felicidade.
Passaros folgasãos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de _virtuoses_, e á distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se.
Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem ambos n'uma grande consubstanciação amorosa.
Elle só tinha um desgosto:--que ella, em vez de uma rosa no vestido, não trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... _oui, de pervenche_.
De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de Tantalo:
--Ó Rosendo, vamos nós almoçar ao José dos Caracoes?...
.........................................................................
_T'en souriens tu..._ Rosendo?
X
A felicidade e a camisa
Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos, vastos parques, ricas baixellas e equipagens.
Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico.
Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a saude, nem a grandesa conseguiam distrail-o.
A rainha confrangia-se de vêr sempre meditando o seu real esposo.
O principe real improvisava ruidosas caçadas para alegrar seu augusto progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual, sentava-se á sombra de uma arvore, scismava...
Um dia, n'uma kermesse, que as damas da côrte promoveram para divertir seu real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a _buena-dicha_ de barraca em barraca.
Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e tão vivos, que bem podiam lêr o futuro a grande distancia...
Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força de remendada, já não tinha côr propria.
Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a vista as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava tragedias, desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que promettia riquezas, venturas, delicias.
O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a chamar.
--Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.
A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada, respondeu laconicamente:
--Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade.
Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:
--O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?
A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e respondeu:
--Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.
--Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz?
--Isso agora não é comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei indifferentemente.
Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e conselheiros.
Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes:
--Agora é que eu vou conhecer qual de vós me é mais dedicado. Trata-se de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro, eu hei de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar, receberá recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu.
Fazendo mil protestos de dedicação, logo cada um d'elles se deu pressa em partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fóra, á procura de um homem feliz...
Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos os dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro.
Foi procural-o, na supposição venturosa de que tinha encontrado a pessoa que procurava.
--Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe.
--Não sou, ai de mim! É verdade que possuo uma riqueza enorme, mas falta-me a saude, que é cada vez mais precaria. Daria toda a minha riqueza para poder viver sem dôres, para comer com apetite.
Outro conselheiro do rei encontrou um homem muito robusto, cuja saude todos na sua terra invejavam.
--É o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe.
Foi visital-o.
--Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de tão florescente saude, sois completamente feliz...
O homem forte suspirou, e respondeu:
--É verdade que sou muito robusto, mas quizera não o ser tanto, porque não tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos.
--Por que?
--Porque sou pae de doze filhos e não ganho o bastante para lhes dar de comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, já agora, não tem remedio.
Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem que, vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher.
Assombrou-se com esta revelação o valido, e foi a correr por montes e valles procurar o ditoso casado.
Sem mais preambulos, interrogou-o.
--É certo que sois casado ha vinte annos?
--Ha vinte annos e vinte dias.
--E que tendes vivido n'uma continua lua de mel:
--Certissimo, meu senhor.
--Sois pois inteiramente feliz?
--Sel-o-ia se...
--O que?! Pois não vos reputaes um homem feliz?!
--Sel-o-ia, se não fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir visitar-me.
Já iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei houvessem voltado ao paço para noticiar a sua magestade o achado de um homem feliz.
Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em quando, gritava enfurecido:
--Pois não haverá sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?!
Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria.
Só de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as raizes das urzes.
--Que serra tão triste! disse o fidalgo ao arreeiro.
--Por aqui só se encontra algum pastor; ninguem mais. Lá está um acolá, no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta.
--É verdade! Quero fallar-lhe. Vamos lá.
Era grande a distancia. Mas á medida que se aproximavam iam ouvindo os sons rusticos da avêna e vendo o pastor a bailar, muito contente, sósinho, no topo do rochedo.
--Parece impossivel, dizia o fidalgo, que não tenha medo de cair!
Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe:
--Olá, pastor!
O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se muito quieto.
--Anda cá, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro.
O pastor desceu de um salto.
--Julgas-te feliz, meu rapaz?
--Sim, meu senhor, julgo-me feliz.
O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria.
--Pois então, pega lá todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa.
--Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu não tenho camisa...
Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar da sua, o que é certo é que, ainda quando os outros lhe parecem felizes, sempre lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo.
XI
Morte de um gentleman
_(Barão da Torre de Pêro Palha)_
Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão acabando os homens...
Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes, destros, gentis, bem educados.
Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a disciplina social, para a harmonia das classes, para a ordem que não póde deixar de ser a base do respeito que as diversas categorias se devem umas ás outras.
Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e que tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança que educamos a nosso geito...
O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que outr'ora marcava a estatura moral. Como na Grecia antiga, foram-se os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará o tempo em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio, quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor!
Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso tem desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo que parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de trovador: fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da idade-media. Era o _gentleman_, que sabia montar a cavallo, bater-se em duello, fallar ás damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o _gentleman_, que punha o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que o tirava quando á portinhola de uma carruagem cumprimentava uma senhora. Era o _gentleman_, que não parecia ridiculo quando vestia uma calça de ganga e calçava umas luvas côr de açafrão. Era o _gentleman_... Morreu outro dia um; desconfio que foi o ultimo...
Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha.
Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas, mas conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus contemporaneos.
Por que? Porque foi um _gentleman_. Eis tudo...
Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no tempo em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a liberdade.
Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo, esvelto e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente a cavallo no séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria, em seu ajudante de campo.
Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de perto o estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da polvora.
Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os vencidos presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas em Portugal. Quanto se enganaram tambem!...
Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era rico, forte, alegre, feliz.
Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de Hugo Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo fez-se um vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas desgraças, quaes poucos homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se azedar a ponto de parecer malcreado e sem se mostrar desgostoso ao extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade.
Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso...
As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para embaraçar a parte contraria.
Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera surprehender prematuramente.
O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a vaga contra os rochedos.
Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo longinquo do luar de além-tumulo.
Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o leito, disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma grande ternura dolorida, sobre a cabeça do moribundo.
N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma valsa de Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir loiças e cristaes.
Está-se em plena _soirée_, e a festa parece prolongar-se pela noite dentro, attingir a madrugada.
É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a dois passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar arraiaes.
Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a o destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha.
Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um drama conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello Branco, _No Bom Jesus do Monte_.
Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o affirmaram sob juramento.
Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo Owen, estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.
--Quem está ali doente? perguntou.
--É o sr....
Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára, que vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro Palha!
E, como estas, outras mil contrariedades e coincidencias, que o destino baralhava para o atormentar, expressamente...
Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais intimo e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a, porque elle me confiou um dia as suas memorias, que se conservam inéditas; paginas que elle escrevia com a verdade e o respeito de um homem que se julga já diante de Deus contando o que soffreu entre os homens.
Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez romances sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de lagrimas. Li o manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança que o barão depositava em mim, fechei-o profundamente commovido e sepultei no fundo do meu coração o segredo das suas revelações, tão pungentes e dilacerantes.
Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo da Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação, espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas palavras e das suas maneiras.
E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto...
Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz.
Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calças largas, um pouco á _hussard_ (essas calças tradicionaes dos _gentlemen_ do seu tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calças que não fossem á _hussard_), as suas polainas brancas, a sua bengala de castão de prata, as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o aspecto de um homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de ter passado a noite n'um baile onde perpetrára a sua ultima valsa, onde queimára o ultimo cartucho do seu paiol amoroso.
E todavia talvez tivesse almoçado, de pé, dois ovos _à la coque_, apenas...
Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido e aprendido, a boa fé, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as esperanças que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de candura com que tantas vezes procurou o seu nome no _Diario do Governo_.
Seria um defeito de intelligencia? Não era, com certeza. Era apenas um aspecto da sua individualidade de _gentleman_. Conhecendo que a vida estava por pouco, não queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto tão plebeu como expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco!
E, de resto, elle tinha razão.
Quando já não podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se tivesse rompido com os homens?
Era esta decerto a sua ideia.
Não queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito, sentindo-se a dois passos da solidão eterna do tumulo.
Fôra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as á legua. Mas assim como nos salões tinha fingido acredital-as, reduzido á pobreza fingia tambem dar-lhes credito.
O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a não ter dinheiro na bolsa, mas não era um motivo para que recusasse um _shake-hand_ á pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do bom tom.
--Para a semana será... dizia elle.
Passava uma semana, um mez, um anno.
--Então?...
--Tem havido difficuldades... Mas estão aplanadas... Agora vae.
E não ia!
Elle é que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os ultimos dias da vida, foi para o Porto, já muito doente, cheio de dôres e de desillusões, e de casa de uma filha querida, que lhe recolheu piedosamente o derradeiro suspiro, foi para a cemiterio de Agramonte, onde finalmente descansa...
O _Diario do Governo_ perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu um dos seus _gentlemen_, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae extremosissimo, e eu perdi um amigo tão dedicado, que me confiava os segredos dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lêr o manuscripto das suas memorias inéditas.
Pobre barão! Outros, que começaram mais tarde a frequentar a sociedade, chegaram depressa ao galarim, tão depressa que, na allucinação do triumpho, nem já o conheciam. Mas elle é que conhecia toda a gente: um _shake-hand_ para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar fazendo as suas visitas de despedida antes de partir para a eternidade. E para que ninguem podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha soffrido, perdoava a todos...
Morreu como viveu: um _gentleman_.
XII
A «season» lisbonense em 1833
Este inverno promette uma _season_ verdadeiramente notavel: salas que raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e povoam-se; o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro vezes durante os dois mezes proximos.
Fallemos principalmente das _soirées_ da presidencia, notaveis mais que todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.
Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço, nos actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio, com a sua figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente este homem de estado que tem, como nenhum outro, a consciencia das funcções de que se acha investido e das situações em que se acha collocado. É preciso, porém, avalial-o _chez lui_, tendo uma phrase amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo fallar ás senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser attencioso com todos, conversando litteratura com os escriptores, politica com os homens de estado, accommodando-se com distincção a todos os assumptos e a todas as idades, sem constrangimento e sem esforço.
Um estrangeiro, um viajante, um _touriste_ não encontraria decerto melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do que aquella que as _soirées_ do presidente do conselho lhe podem fornecer.