Part 3
O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,--delicadamente.
Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que fosse tão pesada aquella estranha particula.
Mas quando quiz engulil-a, é que foram ellas!
E o prior, de pé, grave e solemne, esperava.
Bem voltas dava á lingua o gallego, mas não havia meio de engulir o pataco.
Até que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer:
--Não passa, sr. prior!
E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe:
--Não passa, não. Já mandei comprar rapé, e não o quizeram acceitar.
* * * * *
--Por que é, perguntava um professor de agricultura, que as sementes precisam ser enterradas na terra?
--Por isto... dizia um estudante.
--Por aquillo... respondia outro.
O professor zangou-se:
--Não, sr.! É preciso enterrar as sementes para os passaros as não comerem.
VI
Á volta dos pés da imperatriz
Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na côrte de Berlim uma grave questão de etiqueta,--grave como todas as questões d'este genero, incluindo a do _Hyssope_.
A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos e maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes solemnidades do palacio, os vestidos roçagantes, as longas _traines_ cadentes.
A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questões de etiqueta, reforçou com a sua opinião o pedido da imperatriz.
Mas Guilherme II não annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo continuarão a arrastar-se, sobre os tapetes da côrte allemã, longamente, apparatosamente...
Á bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o que quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns pés pequenissimos, não desejava que lh'os empanasse o vestido.
O imperador, conhecendo a intenção reservada da imperatriz, entrincheirára-se na recusa, porque, não obstante as suas aventuras d'amor, Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve ser elle o unico a ter o direito de admirar as perfeições plasticas de sua mulher.
Pelo que respeita aos pés femininos, dividem-se as opiniões. Os leitores sabem-n'o tão bem como eu.
Entendem uns que os pés da mulher são tão pouco para admirar como a haste de uma rosa. Todas as attenções se fixam na belleza da corolla, no colorido das petalas. É a rosa fresca e bella? É isso o que se quer. Tenha a mulher as graças do semblante, que os pés, que ficam lá muito para baixo, escapam á vista, sejam grandes ou pequenos.
Outros porém, e estes são decerto em maior numero, adoram os pés caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador que houvesse cegado depois de os ter feito...
Os que são d'este parecer defendem-se com a tradição da estatuaria classica, com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a mulher, não raras vezes, apparece divinisada pela pequenez do pé.
Recordam a historia da _Cendrillon_, a nossa _Gata borralheira_, que perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandára procurar até que, encontrando-a, só descansou quando poude desposal-a.
Citam a tradição da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terraço do palacio real de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde essa hora, o pequenino pé de que pela sandalia ficára enamorado.
É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em anecdota historica, como julga Husson.
Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos:
Tendes o pé pequenino, Do tamanho d'um vintem: Podia calçar de prata Quem tão pequeno pé tem.
A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está copiosamente abastecido de citações e referencias, a que esses taes poderão recorrer para seu triumpho.
Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,--de que os seus biographos tanto se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta--é tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se deixa fascinar amorosamente.
Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que, vestida de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se espreitando-a. Colhidas as flôres,
Joanna, as abas erguidas, Entrar pela agua ordenou; E assentando-se, então As çapatas descalçou, E, pondo-as sobre o chão. Por dentro d'agua entrou, E a Jano pelo coração.
Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo, pela infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao mesmo passo tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao soar-lhe nos ouvidos este plebeu vocabulo _çapatas_, tão grosseiro e saloio, como elle nos sôa hoje!
Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura, essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar deliciosamente as suas trovas com as boninas do coração namorado, parecer-nos-ha, se o não avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a gabar as çapatas amarellas da moça do prior!
Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao encontro da bella zagalla. Ella, como Galatéa, esquivou-se fugindo:
Muito perto estava o casal Onde vivia o pai d'ella, Que fez ir mais longe o mal. Que Jano teve de vêl-a: Mas o medo que causou, Joanna partir-se assi, Tanto as mãos lhe embaraçou, Que a çapata esquerda, alli, Com a pressa lhe ficou.
Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o pastor Jano--o proprio Bernardim talvez--corre a abraçar-se com a çapata, a chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual.
Çapata, deixada aqui, Para mal de outro mor mal, Quem te deixou, leva a mi: Que troca tão desegual! Mas pois assim é, seja assi.
Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado para o abysmo do amor,--com a çapata na mão.
Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada, era um homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.
A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em admitil-o socio correspondente:
--Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim.
Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta, responderia sorrindo:
--Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o governo pelo ridiculo!
Todavia a Academia Real curva-se--e n'este ponto curva-se bem--perante Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.
As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo que ouzasse mandar para o _Diario de Noticias_ o seguinte annuncio:
«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª perdeu em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no banho. A çapata entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.»
Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o pinta á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse que era o auctor do livro das saudades, os srs. redactores levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para offerecer uma cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar cansado, por vir de longes terras.
Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova do bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé feminino.
Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra aos nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o tapete de um salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na concha ardente das nossas mãos aduncas...
Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D. Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do marquez de Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que andava pejada D. Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse menos pena na subida.»
Gentil, não é?
Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher, suppõem que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os talhou no marmore.
Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.
Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas insignificantissimas amostras.
De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:
As flôres, por onde passa, Se os pés lhe acerta de pôr, Ficam de inveja sem côr E de vergonha com graça. Qualquer pégada que faça Faz florescer a verdura, Vai formosa e não segura.
Citarei apenas dois poetas modernos.
É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus:
O que te falta pois? os teus desejos Quaes são? de que precisas? Ah! não ser eu o marmore que pisas... Calçava-te de beijos!
O soneto _A Borralheira_, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes da sua lyra ardente:
Meigos pés pequeninos, delicados Como um duplo lilaz,--se os beija-flôres Vos descobrissem entre as outras flôres, Que seria de vós, pés adorados!
Como dois gemeos sylphos animados, Vi-vos hontem pairar entre os fulgores Do baile, ariscos, brancos, tentadores... Mas, ai de mim!--como os mais pés calçados
«Calçados como os mais! que desacato! Disse eu.--Vou já talhar-lhes um sapato Leve, ideial, fantastico, secreto...»
Eil-o. Resta saber, anjo faceiro, Se acertou na medida o sapateiro: Mimosos pés, calçai este soneto.
A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade de assumptos que podem impressional-o.
Ora os antigos diziam: _Ne quid nimis._ Nada que seja de mais. Eu fui educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio posso calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é ainda melhor. Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos educadores me estão segredando em espirito com a auctoridade dos seus cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e proverbio de menos.»
_Ne quid nimis_ ou, como dizem os francezes, _Rien de trop_... até nos pés!
VII
Loucura alegre
Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, não sei quando, uma chuva verdadeiramente original, tão original, que perderam o juizo todos os que a apanharam.
E o caso é que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepção de um sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras profundas, a estudos d'alta sciencia.
No dia da chuva, o sabio não sahiu; não sahia nunca. Ficou, portanto, em seu perfeito juizo.
A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em pleno campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabeça, foi como se lhe alagasse os miolos...
Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom senso que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura.
Aconselhava os outros.
Procurava chamal-os á razão.
Dava-lhes conselhos acertados.
Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.
Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros haviam apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar restabelecel-os de um momento para o outro era o mesmo que remar contra a maré.
Começou o sabio a inquietar-se com a sua propria situação, que em verdade nada tinha de agradavel.
Receiava elle proprio perder o juizo, que tão preciso lhe era, como se estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.
A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o biffe do almoço ou as torradas para o chá.
De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogão, azoinando o amo.
O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava tirar da gaveta uma camisa engommada.
Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a queria comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao longe, de maneira que a terra cahira em descredito, sabia-se que todos lá estavam doidos.
Os proprios trabalhos scientificos do sabio, até ahi tão considerados, principiaram a ser suspeitos de loucura. Já não havia quem os quizesse lêr. A opinião publica é assim. Até então, como corresse fama de que era aquelle um grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de repente, com a mesma unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de que elle podesse conservar inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.
--O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.
Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pôças de agua da chuva, começou a analysar chimicamente a agua para vêr se descobria o segredo daquella extranha epidemia de loucura.
Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como qualquer outra.
--Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto é tão extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razão!
E a criada continuava a bailar e a dançar quando elle lhe mandava fazer o biffe ou as torradas.
E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as botas.
Os seus caseiros não se entendiam com elle, nem elle com os seus caseiros.
O padeiro, pela manhã, trazia-lhe pedras duras em vez de pão fresco.
O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe arroz quando elle lhe pedia assucar.
De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia perder o juizo que até então havia conservado.
Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pôças de agua da chuva, que ainda havia. Poz-se de cócoras, olhou em roda, e reconhecendo mais uma vez que todos estavam doidos, metteu as mãos na pôça, encheu-as de agua, e começou a encharcar a cabeça.
D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupação anterior havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razão, já não se affligia com a loucura dos outros.
Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado á noite pelo Colyseu dos Recreios, vi uma enorme multidão de povo invadir as portas, disputar a entrada, ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da Geraldine.
--Então, dizia eu com os meus botões, tudo isso de reducções imminentes é uma fabula! O paiz está rico e contente. Diz-se que ha miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O que se vê é que as industrias estão prosperas, o commercio florescente. Os operarios, voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de comprar bilhete para a _geral_. Vender uma colonia! para que? O que o povo quer é que lhe vendam um bilhete do Colyseu! Os jornaes portuguezes e extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes! Toda essa gente, que ahi se agglomera ás portas, estende para o camaroteiro uma _nota_, offerece-lhe dinheiro, tão rica está toda a gente!
E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botões:
--... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a cabeça na pôça d'agua!
Mas no domingo fui passeiar á Avenida como para procurar a contra-prova do espectaculo da vespera.
Oh! que alluvião de gente! que bulicio! que vida! que animação!
Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande esplendor de equipagens brilhantes.
O dinheiro trotava em bellos cavallos _pur sang_; rodavam titulos e brazões, _fortunas_ colossaes deslisavam a quatro soltas, pomposamente.
E eu continuava perguntando aos meus botões:
--Santo Deus! onde é que está o ultimo sabio d'esta terra?!
E olhava para o chão esperando vêr que o ultimo sabio, posto de cócoras, estivesse olhando para os outros e molhando a cabeça com frenesi.
Qual! não era para o chão que eu devia olhar.
Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira acocorar-se á vista dos seus patricios.
Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia olhar; não para o chão. O chão! esse, coitado, estava pisado, moido do continuo attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.
O sol, bellamente festivo, cahia em palpitações de luz sobre a Avenida. O monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul luminoso parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol. Chalets elegantes alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade. Predios magnificos, alguns sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros novos á ilharga da Avenida nas terras outr'ora desertas e solitarias. As antigas hortas desappareceram para dar logar a palacios novos. Guardas-portões imponentes encostavam-se ás portas vendo de longe o formigueiro dos trens que passavam rodando ao trote largo de cavallos finos.
E por mais que eu olhasse para o chão nenhum sabio, de cócoras, tratava de molhar a cabeça para não ter que chorar sobre tanta alegria!
Então, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para não ser atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada mais e nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia delineado quando a morte o surprehendêra.
_A Valsa_: era o titulo do poema.
A acção leva pouco tempo a contar.
Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas, resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de mocidade, dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente, embora fossem morrendo de cansaço no meio da sala.
Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salão, correctamente barbeados, tão gentis, quanto a idade lhes permittia, dentro das suas casacas muito justas e luzidias.
Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece palpitar ao som da musica,--os velhos principalmente.
E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar com a intrepidez dos vinte annos.
A valsa não affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados, principiam a cahir de cansaço, pallidos, mortos, um após outro, até que, estendidos sobre o verniz do salão, teem por funeral o baile, por _De profundis_ a valsa de Strauss, que parece não acabar nunca!
Era phantastico o poema, excentrico o poeta.
Mas, o caso é que me lembrei do poema da _Valsa_, que, ai do poeta! ficou apenas em projecto.
Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a valsa dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos n'uma atmosphera de alegria e n'uma allucinação de prazer, que os matou sem os ter remoçado, que os esgotou sem os ter divertido!
VIII
A mascotte
Ter ou não ter _mascotte_, eis a questão, para tudo e para todos.
Não sei se o leitor é dado a superstições e crendices, que, de resto, constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.
Eu, por mais que oiça dissertar os philosophos, creio profundamente em superstições. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as superstições, que me inspiram maior fé, acredito cegamente na influencia benefica de um genio bom e tutellar, a que modernamente chamamos _mascotte_.
Até--seja dito em confidencia--já tive uma _mascotte_.
Por que não hei de contar francamente essa historia?
Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha custado doze vintens e que ninguem seria capaz de me comprar por seis.
Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala, cheia de nós e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na minha vida.
Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o mau tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.
Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia seguinte a bengala substituia o chapeu de chuva.
Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle reles pausinho da ilha da Madeira tinha condão de felicidade. Era o meu talisman. Tomei-lhe amor, ganhei confiança na sua virtude, e comecei a acreditar na existencia de uma _mascotte_ que, se me abandonava um momento, me deixava exposto ás maiores contrariedades.
Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu não ousava sahir sem a _mascotte_, importando-me pouco que as outras pessoas podessem fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de chover a potes, deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala debaixo do braço.
Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido á minha _mascotte_, a tomar um trem.
Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva, comtanto que não tivesse de largar a _mascotte_.
Os meus amigos conheciam esta superstição, e riam-se. Fingiam querer roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala na mão, não a abandonava um momento.
Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor póde imaginar o desgosto que n'esse dia me feriu.
Era então ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava na rua de S. João da Matta.
Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu então me estava occupando.
Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o livro _A jornada dos seculos_, que eu trazia entre mãos. Julio de Vilhena offerecêra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia seguinte a sua casa, á uma hora da tarde, buscar o livro.
Chovia: tomei um trem.
Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a bengala a um canto da carruagem.
Quando cheguei á rua de S. João da Matta, disse-me o correio que o ministro estava ainda almoçando, e que eu teria de esperar pelo menos meia hora.
Despedi o trem, sem tomar sentido no numero.
Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando.
Quando o ministro acabou de almoçar, e me recebeu no seu escriptorio, lembrei-me subitamente de que a _mascotte_ tinha ficado no trem.
Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietação, porque elle conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala.
Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do braço, e dirigi-me immediatamente ao commissariado geral de policia.
A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro de uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas seis vintens, mas que eu estimava muito.
O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordação de familia. Socegou-me. Como a bengala não tinha valor material, appareceria facilmente, ia dar as suas ordens, e eu prometti gratificar o policia que encontrasse a bengala.
Sahi do commissariado de policia para ir dar umas voltas, tratar de negocios particulares. Mas tinha a convicção de que tudo me correria mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de mim! havia perdido a _mascotte_. Era, moralmente, um homem morto.
Ás cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso de reconhecer o cocheiro que me tinha levado á rua de S. João da Matta.
De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim, e pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da caixa da almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da algibeira dez tostões que lhe dei como alviçaras.
O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis vintens, ficou a olhar para mim, espantado.
Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da rua do Alecrim.